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Visão dogmática

Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979

O presente tratado é importante por ser um dos raros escritos “anteguénonianos” do abade Stéphane, sendo que os sete primeiros parágrafos foram escritos antes de 1942, ano em que o abade descobriu as obras de René Guénon e as doutrinas orientais, e o restante do tratado foi escrito cerca de dez anos depois.

  • Trata-se de uma exposição mais teológica do que metafísica, confirmando o que Jean Borella diz no prefácio: o abade Stéphane descobria o esoterismo cristão nas formulações mais clássicas da teologia católica.
  • Todo o resto da obra aparece como um vasto comentário esotérico do tratado colocado no início do primeiro capítulo.
  • Apesar de se poder ter omitido o tratado nesta edição, optou-se por reproduzi-lo integralmente para servir ao leitor, já que as exposições elementares de teologia católica não são abundantes nos dias de hoje.

§ 1. O MISTÉRIO DE DEUS: A TRINDADE, SUA GLÓRIA ESSENCIAL, SUA VIDA ÍNTIMA

Em um ato eterno, o Pai gera o Verbo, o qual é a Palavra que o Pai pronuncia ao pensar a si mesmo “em um silêncio eterno”, sendo ele o Pensamento eterno do Pai.

  • Para receber a Essência divina, é necessário que o Verbo a dê por sua vez, e assim o Pai recebe o que deu e se “reencontra”.
  • Produz-se uma troca mútua da Essência divina entre o Pai e o Filho, e esse Dom mútuo, total e perfeito constitui o Amor recíproco do Pai e do Filho.
  • Esse amor mútuo supõe, de parte a parte, uma vontade livre de se comunicar reciprocamente esse dom, um aniquilamento, um despojamento, uma renúncia, um espírito de pobreza comuns ao Pai e ao Filho, que faz de cada um deles o Grande Pobre por excelência.
  • A vontade comum de despojamento tende a se aniquilar ao se expressar em uma terceira Pessoa divina, o Espírito Santo, que aparece como um fruto do Amor comum do Pai e do Filho, e diz-se que o Espírito Santo procede da vontade comum de Amor mútuo das outras duas Pessoas.
  • Diz-se também que o Pai e o Filho, conjuntamente, “spiram” o Espírito Santo e que o Espírito é “spirado” pelo Pai e pelo Filho, de modo que o Amor mútuo do Pai e do Filho só existe ao se aniquilar em uma terceira Pessoa.
  • O dom total que o Pai e o Filho fazem do seu amor, ou da Natureza divina, a essa terceira Pessoa faz com que ela se torne o vínculo substancial que une o Pai e o Filho na unidade de um mesmo Amor, uma espécie de testemunha, fruto do amor deles, razão pela qual a Essência divina consiste no Amor: “Deus é amor” (1 João IV, 16).
  • O Espírito Santo, por sua vez, só existe como Pessoa se ele render ao Pai e ao Filho conjuntamente esse Amor comum do qual ele procede, havendo, portanto, uma dupla corrente de amor: o amor recíproco que parte do Pai e do Filho e que chega ao Espírito e, inversamente, o amor que sobe do Espírito para chegar ao Pai e ao Filho — o que se chama de Circumincessão das três Pessoas.
  • É nisso que consiste a Vida íntima de Deus e a sua Glória essencial, que se basta infinitamente a si mesma, pois Deus vive e reina eternamente nessa Glória perfeita, em um silêncio eterno, uma felicidade infinita, uma paz soberana.

§ 2. O MISTÉRIO DA DIVINA POBREZA E DA DIVINA CARIDADE: O ANIQUILAMENTO DO VERBO E A EFUSÃO DO ESPÍRITO, O SACERDÓCIO ETERNO DO VERBO

Se a vida divina é considerada em relação ao Pai, ela consiste em uma dupla atividade: a geração do Verbo, que é uma procissão de inteligência, e a efusão ou “spiração” do Espírito, que é uma procissão de amor ou de vontade.

  • A primeira operação constitui o mistério da Divina Pobreza, e a segunda, o mistério da Divina Caridade, de modo que a Divina Pobreza supõe o Amor e a Divina Caridade supõe o Aniquilamento, pois é no ato da suprema Pobreza, que engendra o Verbo, que o Pai encontra a Infinita Riqueza da Divina Caridade, que é a “spiração” ou efusão do Espírito de Amor.
  • Considerando a vida divina do lado do Verbo, ela consiste igualmente na reciprocidade de um altruísmo perfeito, total, feito de Infinita Pobreza e de Infinita Caridade, e é em relação ao Verbo que se situa a Encarnação.
  • Eternamente, o Verbo se aniquila, se despoja em um ato de suprema e total Pobreza, e se oferece em Vítima Santa, Hóstia sem mancha, em uma renúncia, um desapego, uma “desapossessão” integral de seu ser, a esse Pai que lhe comunica em retorno o mesmo Dom.
  • Esse ato de Suprema Pobreza e de Infinita Caridade torna-se a Infinita Riqueza no despojamento, a Infinita Posse na desapossessão de si, a Riqueza de uma Pessoa divina que encontra seu ser ao se aniquilar no Outro, e é nisso que consiste o que se pode chamar de Sacerdócio eterno do Verbo, cujo Sacrifício do Calvário será “a Encarnação no tempo”.
  • No seio da Trindade, o Verbo é Sacerdote e Vítima eternos, conforme as passagens: “Tu és meu Filho, eu te gerei hoje… Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque” (Hebr. V, 5-6).
  • O Espírito, que é a Caridade ou o Amor do Verbo para com o Pai (como também do Pai para com o Verbo), situa-se ao mesmo tempo na origem e no termo dessa eterna Imolação, pois não há verdadeiro Amor sem esse espírito de Pobreza e de Desapossessão de si que constitui o Sacerdócio eterno do Verbo.
  • A razão dessa desapossessão reside na Infinita Caridade que leva o Verbo a se despojar inteiramente de seu Ser para esse Pai que, também ele, gera eternamente esse Verbo em uma mesma efusão de Amor, que não é outra senão o Espírito.
  • Nada se compreende da Vida divina, da Encarnação, da Redenção, do Pecado, da Criação, da Graça, do Corpo Místico, da Eucaristia e, sobretudo, do espírito de pobreza e de caridade que constitui a base e o cume do Evangelho, se não se penetrou, tanto quanto possível, o Mistério da Divina Pobreza e da Divina Caridade, do aniquilamento do Verbo e da efusão do Espírito no Sacerdócio eterno do Verbo.

§ 3. A SUPREMA REALIZAÇÃO DO ANIQUILAMENTO DO VERBO E DA EFUSÃO DO ESPÍRITO NO MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO REDENTORA SUPÕE A CRIAÇÃO E A QUEDA

A Glória essencial de Deus consiste na vida íntima das três Pessoas, em um espírito de mútua e infinita Pobreza e em um ímpeto infinito de Amor, onde cada Pessoa se encontra ao se perder nas outras duas, e essa Glória essencial basta infinitamente e proporciona a Deus uma Felicidade Infinita à qual nada se pode acrescentar de exterior.

  • Todo intercâmbio de amor e todo ato de amor supõe, da parte da pessoa, uma Soberana Independência e uma Perfeita Liberdade, pois não se concebe o amor sem a liberdade do dom.
  • Embora, em certo sentido, o Pai engendre necessariamente o Verbo e o Pai e o Filho “spirem” necessariamente o Espírito, sob pena de não serem Pai, Filho ou Espírito, não é menos verdade que esse intercâmbio de amor procede, da parte de cada Pessoa, de uma Soberana e Infinita Liberdade.
  • Considerando a questão do lado do Verbo, pode-se dizer que a Glória essencial do Pai consiste no dom total, soberanamente livre e, no entanto, necessário, que o Verbo lhe faz em seu Sacerdócio eterno, havendo um perfeito acordo entre a vontade do Pai, que deseja o aniquilamento de seu Verbo, e a livre aceitação do Verbo, que também tira toda a sua Glória daquela do Pai glorificado por esse aniquilamento.
  • O Verbo, em perfeito acordo com o Pai, tendo uma só vontade comum com ele, que é a “spiração” de amor do Espírito, é infinitamente livre para provar ao Pai o seu amor e para lhe proporcionar assim a sua Glória essencial por um ato que não é essencial à Glória divina, sendo que o essencial para a Glória do Pai é o Amor do Filho, e o que não é essencial é a maneira como o Filho “se arranjará” para dar Glória ao Pai.
  • Para manifestar ao Pai o seu amor e lhe proporcionar assim a Glória essencial da Divindade, o Verbo, Sacerdote e Vítima eternos, escolheu a Encarnação redentora, e essa “maneira” de dar Glória e Amor ao Pai, sendo soberanamente livre, não é essencial à Glória divina.
  • Segue-se que a Encarnação — e a Criação que ela supõe — não são absolutamente necessárias à Glória essencial da Trindade ou do Pai, sendo devidas à soberana liberdade do Amor.
  • Examinando as condições que permitiriam ao Verbo realizar o máximo de aniquilamento, o máximo de Pobreza e de Caridade suscetível de proporcionar o máximo de Glória ao Pai, pergunta-se qual foi, nas profundezas da Trindade, o “sonho” de aniquilamento do Verbo e de efusão do Espírito que se propuseram realizar de comum acordo o Pai, o Filho e o Santo Espírito.
  • Um trecho de são Paulo indica a realização desse sonho: “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não julgou o ser igual a Deus como coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e, reconhecido em figura como homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse, para glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Filip. II, 5-11).
  • Para realizar o máximo de aniquilamento, o Verbo quis — suprema pobreza — renunciar à sua condição de Deus, tomando a condição de servo, e para que o Verbo pudesse aceitar essa condição, era necessário que existissem outros seres na mesma situação, ou seja, era necessário que Deus criasse outros seres sujeitos ao máximo de escravidão, isto é, ao pecado, ao mal.
  • O máximo de escravidão para uma criatura é realizar nela o contrário da Soberana Liberdade que está em Deus, consistindo a Soberana Liberdade de Deus nessa “libertação”, desapego, desapropriação, desapossessão de si, aniquilamento, pobreza que cada Pessoa divina realiza, não havendo pior escravidão do que o fechamento em si mesmo, o egoísmo, o amor-próprio, a busca de si, o espírito de posse, a vontade própria — e é nisso que consiste o mal, o pecado sob qualquer forma que seja.
  • Para que seres pudessem atingir essa escravidão, era necessário que Deus os criasse livres, capazes de se fechar em si mesmos em vez de se dar ao “outro”, capazes de se perder em um mortal egoísmo em vez de se encontrar em um “altruísmo” salutary e libertador, razão pela qual Deus decidiu criar o homem à sua imagem e semelhança, isto é, fazer dele uma pessoa livre de se determinar.

§ 4. O MISTÉRIO DO PECADO ORIGINAL, DA ENCARNAÇÃO E DA REDENÇÃO

Segundo a doutrina cristã, o homem caiu no pecado e tornou-se escravo do demônio, e a Encarnação redentora do Verbo teve como objetivo a destruição do pecado e do demônio, bem como a glorificação da natureza humana.

  • Para resgatar os homens, escravos do pecado, e satisfazer a justiça divina, o Verbo fez-se carne: habitou entre nós, nasceu da Virgem Maria, foi crucificado, padeceu e morreu, e ressuscitou ao terceiro dia.
  • Ele tomou sobre si o pecado do mundo e, embora fosse o Santo, o Justo, o Inocente, foi tratado como pecador e suportou a cólera e o abandono do Pai.
  • O Pai o ressuscitou, glorificou a sua humanidade e o constituiu Senhor, dando-lhe o poder de julgar e de remir os pecados.
  • O pecado, que nada mais é do que a revolta do homem contra Deus, a recusa de reconhecer sua dependência em relação a Deus, o “amor de si” levado até a exclusão de Deus, foi vencido pela obediência do Verbo à vontade do Pai, que o entregou por amor aos homens e por amor ao Pai.
  • Por esse pecado, a humanidade, que era escrava do pecado e do demônio, merecia a morte eterna, pois o salário do pecado é a morte.
  • Ao triunfar da morte pela sua Ressurreição, o Cristo triunfa do pecado, e a natureza humana, revestida por ele e que era o “corpo do pecado”, triunfa com ele: ela é alforriada da servidão do pecado, o corpo do pecado torna-se o Corpo Glorioso, a natureza humana é divinizada.
  • O Verbo se aniquilou tomando a condição de servo, e a humanidade é alforriada dessa condição de escravidão pela glorificação do Filho do Homem e pela efusão do Espírito que resulta da Imolação do Verbo, de modo que o Verbo feito carne livra a carne do mal.

§ 5. O MISTÉRIO DO CORPO DO CRISTO E SUA TRIPLA FORMA: O CORPUS NATUM, O CORPO MÍSTICO, O CORPO EUCARÍSTICO. O CRISTO TOTAL

O Verbo se aniquilou ao desposar a natureza humana e, ao revestir o “corpo do pecado”, ele destruiu, por sua Imolação, o pecado na carne e mereceu a glorificação de seu Corpo.

  • A humanidade do Salvador é apenas o “corpo do pecado”, pois ele, o Santo, o Justo, o Inocente, não conheceu o pecado, embora sua Pessoa seja a do Verbo e o pecado não lhe possa ser atribuído, ele quis, no entanto, carregar-se do “pecado do mundo” e ser considerado “como pecador”.
  • O Cristo é isento de todo pecado, inclusive do pecado original, sua concepção é virginal, pois nasceu da Virgem, e sua natureza humana, haurida no seio de Maria, é pura de toda mácula em razão da santidade de Maria, ela mesma imaculada desde a sua concepção, cheia de graças e isenta de toda falta.
  • A humanidade do Cristo é santa em razão de sua união com o Verbo de Deus, e o ser constituído por essa união é ao mesmo tempo Deus e Homem, sendo plenamente Homem (possuindo corpo humano, alma humana, inteligência e vontade humanas), mas a personalidade desse ser não é humana: é a Pessoa do Verbo.
  • Quando o Cristo diz “Eu”, é o Verbo que fala, e quando o Cristo pensa, age, quer, ama, sofre e morre, é o Verbo de Deus que pensa, age, quer, ama, etc., havendo perfeita conformidade entre a vontade humana do Cristo e sua vontade divina.
  • Essa União perfeita do Verbo de Deus com a natureza humana (chamada união hipostática) realiza o homem perfeito: o Filho do Homem e o Filho de Deus, e a natureza humana do Cristo, despojada de personalidade humana, é dotada de uma Personalidade divina, que faz dela a Humanidade Santa, enriquecida da superabundância de todas as graças: é a Graça de União.
  • Essa Humanidade Santa é então “agradável ao Pai”: “Este é meu Filho Amado, em quem me comprazo”, e através dela o Pai vê o Verbo, sua própria Imagem, sua Glória, nela o Pai gera eternamente seu Verbo, nela o Pai e o Filho “spiram” o Espírito, e essa Humanidade entrou, pela Graça de União, na Circumincessão das Três Pessoas, no duplo corrente de amor que une as Três em um perfeito espírito de Pobreza e de Caridade.
  • A Humanidade é glorificada e participa da Vida divina, a Graça de União realizou a “participação na Vida divina” da Santa Humanidade do Cristo, e quando o Cristo se imola, a Humanidade participa do Sacerdócio eterno do Verbo; quando ele é glorificado, ela é glorificada com ele.
  • Essa Humanidade Santa nascida da Virgem, que “habitou entre nós”, que sofreu a Paixão, a Morte, a Ressurreição, a Ascensão, e que é agora a Humanidade Gloriosa, chama-se o “Corpo nascido da Virgem”, o Corpus Natum.
  • Ao desposar uma natureza humana privada de personalidade própria, o Verbo não desposava a humanidade de Pedro ou de Tiago; ele desposava a humanidade toda inteira, desposava a natureza humana, o que significa que todo ser possuidor da natureza humana adquiria assim a possibilidade de se unir, por sua vez, ao Verbo, de participar da Graça de União que existe no Cristo e de entrar assim na vida trinitária.
  • O Corpo do Cristo não se limita ao Corpus Natum, mas deve aumentar-se da humanidade toda inteira e adjungir-se os outros homens como novos membros, donde a ideia de um Corpo Místico do qual o Cristo é a Cabeça e do qual os fiéis são os membros.
  • São João fala da Videira e dos ramos, são Paulo da Cabeça e dos membros, de um Templo Santo no Senhor, e é a mesma Graça de União que parte da Cabeça e que circula nos membros; é a mesma Vida, é a Vida divina.
  • Assim, “por ele e nele”, os fiéis participam da Vida divina e entram no ciclo trinitário, e o Pai, através dele, os vê, e através deles, vê seu Verbo, sua própria Imagem, sua Glória.
  • Dessa maneira, “predestinados para sermos conformes à imagem de seu Filho” (Rom. VIII, 29), os fiéis “servem para louvor da sua glória” (Ef. I, 12), e neles o Pai gera o Verbo ao meio-dia da eternidade, o Pai e o Verbo “spiram” o Espírito.
  • Para que o Pai possa gerar neles o Verbo e “spirar” com ele o Espírito, é preciso que o Verbo se aniquile neles; assim, a Encarnação Redentora deve continuar-se e completar-se nos membros do Corpo Místico do Cristo.
  • Maria, Mãe do Cristo, Mediadora de todas as graças, deverá gerar neles o Cristo pela operação do Espírito Santo que, no batismo, os faz “filhos (adotivos) de Deus”, como ele modelou no seio da Virgem “o Filho de Deus (por natureza) feito homem”.
  • O Cristo continuará assim sua Paixão e sua Morte nos membros de seu Corpo Místico, que poderão então participar de sua Ressurreição e de sua Vida gloriosa, pois pelo batismo os fiéis “fomos sepultados com ele na sua morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Rom. VI, 4).
  • O Corpo Místico participa assim do Sacerdócio eterno do Verbo e se imola com ele em espírito de Divina Pobreza e de Divina Caridade.
  • Existe enfim uma terceira forma do Corpo do Cristo: é o Corpo Eucarístico, que é o símbolo real e eficaz, quer dizer, sacramental do Corpo do Cristo, e pode-se dizer que a Eucaristia é o prolongamento da Encarnação: “Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu” (João VI, 51); o Verbo se encarna no Pão do Altar como numa carne viva.
  • A Eucaristia constitui o prolongamento da Redenção: é sob as aparências da morte que o Verbo reside sob as espécies separadas do Pão que é seu Corpo e do Vinho que é seu Sangue, estando, portanto, sobre o altar em estado de Vítima como na Ceia e no Calvário.
  • Há apenas um Sacrifício Único, o do Calvário, prefigurado pela Ceia e continuado pela Missa; há apenas um Sacerdote, o Cristo, e uma só Vítima, o Cristo.
  • O Cristo não se limita à pessoa de Jesus: o Corpo Místico todo inteiro, associado à Cabeça, participa desse Sacrifício, oferece com ele a Vítima santa, pura e sem mancha, agradável ao Pai, e essa Vítima santa, uma vez agradada pelo Pai, é devolvida aos fiéis para que eles comunguem e recebam o fruto do Sacrifício, que é a santificação das almas pela Divina Caridade.
  • A Eucaristia tem uma dupla significação e uma dupla eficácia: a) ela é um “memorial”, pois não somente recorda o Sacrifício do Calvário, mas o continua nos membros do Corpo Místico que participam assim do aniquilamento do Verbo, de seu Sacerdócio eterno, em espírito de Perfeita e Divina Pobreza, e é também uma “esperança”, pois a morte do Senhor é o penhor de sua Ressurreição e de sua Glorificação, de seu retorno glorioso no fim dos tempos, onde os membros do Corpo Místico, ainda não glorificados, receberão a plenitude de “a adoção, a redenção do nosso corpo” (Rom. VIII, 23): “Porque todas as vezes que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Cor. XI, 26); b) ela é uma “comunhão”, realizando na Paz e na Caridade a união dos membros do Corpo Místico à Cabeça e entre eles.
  • A Eucaristia simboliza e realiza magnificamente a unidade do Corpo do Cristo: unidade do Sacrifício, do Soberano Sacerdote, da Vítima Santa, unindo em um mesmo espírito de Divina Pobreza os membros do Cristo Místico imolado sobre o altar; unidade do Corpo Místico, formando o que se chama de Cristo total: “Um só Pão, um só Corpo, um só Senhor”, diz santo Agostinho.
  • A Divina Caridade, isto é, o Amor, o Espírito Santo, a Graça, realiza essa perfeita Unidade, esse Ser Único que é o Cristo Total, de modo que o mesmo Espírito, que realiza em Deus a perfeita Unidade das Três Pessoas em um mesmo vínculo de Amor, realiza a mesma Unidade entre Deus e a humanidade pela constituição desse Ser Único que se chama o Cristo Total.
  • O Verbo, Pessoa divina, unido por sua Santa Humanidade à humanidade toda inteira, tornada seu Corpo Místico, permite ao Pai ver essa humanidade em seu Verbo, aí reconhecer sua própria Imagem, seu Filho Amado, seu Único, aí gerar seu Verbo e aí “spirar” com ele o Espírito Santo, aí reconhecer no sacrifício dessa humanidade o aniquilamento eterno de seu Verbo, aí ver enfim a homenagem de Glória, “o louvor de Glória” que lhe rende o Verbo em seu Sacerdócio eterno, em perfeito espírito de Divina Pobreza e de Divina Caridade: “E dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitos em um, e para que o mundo conheça que tu me enviaste e que os tens amado a eles como me tens amado a mim” (João XVII, 22-23); “per ipsum, et cum ipso et in ipso est tibi Deo Patri omnipotenti, in unitate Spiritus Sancti, omnis honor et gloria” (conclusão do cânon romano).

§ 6. A EXTENSÃO DO CORPO DO CRISTO AO COSMOS: A SACRAMENTALIDADE DO UNIVERSO, SUA PARTICIPAÇÃO NA GLORIFICAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS

É interessante perguntar qual o papel que os outros seres materiais desempenham no plano divino da Encarnação redentora.

  • “Os Céus contam a glória de Deus”, diz o Salmo 19; “Tudo foi criado no Verbo”, diz são João; “A criação toda inteira aguarda a libertação gloriosa dos filhos de Deus”, diz são Paulo (Rom. VIII, 19).
  • Toda criatura manifesta a Onipotência criadora de Deus e sua Bondade Infinita, sendo um reflexo e um “vestígio” de sua Beleza, ela “evoca”, para quem sabe ver, a Presença do Deus Vivo, é um signo, um símbolo que faz pensar em Deus.
  • É nesse sentido que se diz que todo ser é um “sacramento” no sentido amplo, e que se fala da “sacramentalidade do Universo”.
  • Nada é espantoso em que Deus se sirva desses signos materiais não somente para evocar sua Presença a toda alma capaz de penetrar os seres pela transparência de seu olhar espiritual, mas ainda para produzir eficazmente sua graça: chega-se assim aos Sacramentos propriamente ditos, canais por onde passa normalmente a graça redentora, como o Batismo e a Eucaristia.
  • Como a Eucaristia é o Sacramento do Corpo do Cristo, e que o Universo todo inteiro é, à sua maneira, um Sacramento, é levado a dizer que o Corpo do Cristo se estende ao Universo, ao Cosmos, e que o pão sobre o qual o Sacerdote eterno vem pronunciar as palavras da Consagração — Hoc est enim corpus meum — não simboliza apenas o Corpo Místico, mas o Cosmos, a criação toda inteira, que participa assim do Sacrifício Redentor e aguarda, ela também, “a redenção do seu corpo” (Rom. VIII, 23), “o livramento da servidão da corrupção, para ter parte na liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Ibid., 21).
  • O dogma da ressurreição da carne vem confirmar esse ponto de vista: o corpo do homem, estreitamente unido à sua alma e mergulhando por suas raízes mais profundas no mundo físico, mineral, vegetal e animal, não deve participar com a alma da glória futura, assim como participou com ela aqui embaixo das provas purificadoras da dor e da morte, arrastando consigo o universo material que participa também da dor e da morte, consequência do pecado e da maldição divina: “A terra é amaldiçoada por tua causa”, diz Deus a Adão (Gên. III, 17).
  • Todo ser que sofre e morre participa, ao menos simbolicamente, da Paixão e da Morte do Verbo Encarnado; não terá ele parte em sua Glorificação? Embora essa participação do Cosmos na glória futura permaneça misteriosa, as perspectivas apocalípticas de são João não permitem entrever um “céu novo e uma terra nova, uma Cidade Santa, uma Jerusalém Nova” (Apoc. XXI, 1-2), a “Cidade de Deus” de santo Agostinho?
  • Enfim, a vontade do Pai, “segundo o livre desígnio que propusera a sua bondade”, não é de “restaurar todas as coisas em Jesus Cristo, as que estão nos Céus e as que estão sobre a Terra” (Ef. I, 10)?
  • Tal é a extensão e a significação completa do Corpo do Cristo: ele reúne todas as coisas em si para apresentá-las ao Pai “como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rom. XII, 1).
  • Fora dele, a Imagem Perfeita do Deus Vivo, “o resplendor da sua Glória e a expressão da sua Substância” (Hebr. I, 3), o Verbo Criador em quem tudo foi feito, o Verbo Redentor em quem tudo foi restaurado, aquele que o Pai gera in principio (isto é, “no começo”, “no Princípio”, primeiras palavras do Gênesis e do Evangelho de são João) e que rende ao Pai por seu Sacerdócio eterno “toda honra e toda glória” na Unidade de um mesmo Espírito de Amor e de Pobreza — fora dele, nada é agradável aos olhos do Pai; nele e por ele, todo ser torna-se um “louvor de Glória” para a eternidade, em um gesto único de Pobreza e de Amor: Laus tibi Christe!

§ 7. A REALIZAÇÃO EFETIVA DO CORPO MÍSTICO PELA ADJUNÇÃO DE NOVOS MEMBROS: A VOCAÇÃO DO HOMEM A UM ESTADO SOBRENATURAL É UM TRIPLO MISTÉRIO DE PREDESTINAÇÃO, DE GRAÇA E DE LIBERDADE

O que deve ser realizado no fim dos tempos, a constituição do Corpo Místico no estado de Glória, deve ser também o que foi querido em primeiro lugar por Deus, de toda a eternidade, pois por um decreto de sua Vontade livre, Deus decidiu “acrescentar” à Glória essencial da Trindade a glória “não essencial” que lhe renderia o Corpo Místico do Verbo Encarnado.

  • É, portanto, por pura Bondade, por Amor, que Deus decide a participação em sua Vida íntima de criaturas que não podem pretender de modo algum a tal privilégio, mas, uma vez tomado esse decreto, Deus, que é “sem arrependimento”, não poderia voltar atrás em sua decisão.
  • Os piores extravios podem sobrevir: o homem nem por isso deixa de ser chamado a um estado sobrenatural, sendo predestinado a ser conforme à imagem de seu Filho, a ser filho adotivo em Jesus Cristo, segundo sua livre vontade (cf. Rom. VIII, 29).
  • O homem é, pois, chamado, por um livre decreto de Deus, por uma predestinação divina, mediante um dom gratuito de Deus, a um estado sobrenatural, que é uma participação na própria vida de Deus.
  • A predestinação divina é habitualmente considerada como um decreto divino, e evitam-se muitas dificuldades se se contenta em dizer: a predestinação divina consiste em que, no domínio da graça, é Deus quem toma a iniciativa, pois Deus nos amou primeiro (1 João IV, 10); “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer” (João VI, 44); “Sem mim, nada podeis fazer” (João XV, 5).
  • Limitando assim a predestinação à livre iniciativa divina em matéria de graça e de salvação, mantém-se o essencial, a saber, a liberdade divina e a impotência do homem para merecer a graça, e respeita-se o caráter essencialmente gratuito do dom, sem atingir a liberdade humana, que pode aceitar ou recusar esse dom.
  • O estado sobrenatural, ao qual o homem é chamado, supõe a existência de um estado natural ou de uma ordem natural? Tal afirmação nunca poderá ser no máximo uma hipótese absolutamente incontrolável, sendo uma visão do espírito que, separando as duas ordens, tem o inconveniente de conceder à ordem natural uma “consistência” própria que é provavelmente ilusória.
  • A ordem natural tem sua razão de ser e sua significação profunda apenas em função da ordem sobrenatural, e a graça não se “acrescenta” à natureza como uma superestrutura de outro estilo a um edifício; ela a “impregna”, completa, “desposa” de certo modo e lhe dá toda a sua razão de ser e sua significação: a natureza é querida em vista da Encarnação do Verbo e da constituição do Corpo Místico, e “a criação toda inteira aguarda a glorificação dos filhos de Deus” (Rom. VIII, 19).
  • A distinção das duas ordens só se impõe para resolver certos problemas provavelmente mal colocados, e tem o inconveniente de separar o que deve permanecer intimamente unido: a natureza e a graça são feitas uma para a outra, mas o que se deve manter absolutamente — e o que é significado pela palavra “sobrenatural” — é a gratuidade do dom, que acarreta a livre iniciativa divina.
  • A vocação sobrenatural do homem é também um mistério de liberdade: liberdade da parte de Deus que resulta da gratuidade do dom, liberdade da parte do homem, que pode aceitar ou recusar a graça, e longe de ver uma oposição entre a graça e a liberdade humana, deve-se afirmar que a graça supõe essencialmente a liberdade.
  • A vocação sobrenatural do homem, e a graça que ela implica, é antes de tudo um mistério de amor, e o amor supõe a liberdade, sem o que não se pode conceber um amor obrigatório, pois é contraditório.
  • A incorporação ao Cristo, indispensável à divinização de uma alma que deve participar da Vida Trinitária, será essencialmente uma démarche livre, pois toda coerção nesse domínio é inadmissível; o próprio Deus respeita a liberdade humana até permitir a danação.
  • Resta saber em que condições se exercerá a liberdade humana, que sacrifícios, que renúncias serão necessários para realizar livremente, sob a influência discreta e misteriosa da graça, a adesão ao Cristo que “justificará” a alma — o que se poderia chamar de “as condições de admissão” ao Reino dos Céus; é então o “mistério do homem”, da condição humana, que é preciso agora estudar, para se estabelecer os grandes princípios da moral cristã, isto é, da moral evangélica, com as exigências que ela comporta, bem como os princípios de uma vida espiritual digna desse nome, isto é, de uma vida interior que dá à vida cristã sua verdadeira significação, seu sentido profundo, seu relevo exato, incomparável ao farisaísmo e ao formalismo habituais de que se contentam a maioria dos “batizados”.

§ 8. O MISTÉRIO DO HOMEM E DA CONDIÇÃO HUMANA. AS CONDIÇÕES DE ADMISSÃO AO REINO DOS CÉUS. OS PRINCÍPIOS DE UMA MORAL EVANGÉLICA E DE UMA VIDA INTERIOR

Segundo tudo o que precede, o homem é um ser livre destinado a tornar-se conforme à imagem do Filho de Deus, o que o faz entrar em participação da Vida Íntima de Deus, ou seja, ele deve — a exemplo do divino modelo — usar de sua liberdade sob a influência da graça para realizar nele uma pessoa humana análoga a uma Pessoa divina, isto é, realizar um dom total de seu ser, em perfeito espírito de pobreza e de caridade, em um “altruísmo” onde ele se reencontra ao se perder no outro.

  • Tal “programa” parece um tanto utópico, especialmente nas condições atuais da vida moderna, onde a ambiência materialista, cientista, moralista, etc. é um obstáculo considerável à “vida espiritual” tal como foi definida, mas não se buscará responder à questão de saber se essa vida espiritual é reservada ao pequeno número dos “eleitos”, sendo os outros apenas “chamados” que só realizarão no além o ideal de perfeição evangélica, pois o destino individual de cada homem permanece um segredo conhecido somente de Deus.
  • Permanece-se, portanto, no domínio dos princípios, guardando o “leit-motiv” que serve de “fio de Ariadne” a todo este estudo: Pobreza espiritual e Caridade constituem a base de toda vida espiritual, com a condição de as considerar em função de seus Protótipos divinos, ao nível do Mistério trinitário e da Encarnação redentora.
  • Trata-se essencialmente de virtudes espirituais (e não de virtudes simplesmente morais ou humanas), cujo conteúdo e alcance só aparecem mediante um certo conhecimento — ainda imperfeito aqui embaixo — do Mistério divino e do Mistério crístico, e é por essa razão que o estudo começava necessariamente por um “aperçu dogmático”, o que equivale a dizer que a “moral cristã”, ou a “vida espiritual”, é inconcebível sem o dogma ou sem a teologia, cujo conhecimento aprofundado recebeu o nome de Gnose, e é nesse sentido que se pôde dizer que “a Caridade é a porta da Gnose” e inversamente.
  • Nessa perspectiva, dir-se-á que o mistério do homem é o de um ser criado livre e predestinado a participar por graça da Vida íntima do Ser incriado, e que a condição humana é a de um ser decaído e pecador, resgatado pelo Sangue do Cristo, ou de um escravo de Satanás libertado pela Cruz, e não a do homo oeconomicus.
  • Pode-se dizer também que o homem foi criado à imagem de Deus, que essa imagem foi quebrada pelo pecado e restaurada pelo Cristo, e que o homem deve tornar-se conforme a essa imagem restaurada para ser “agradável” a Deus.
  • A realização dessa conformidade, sempre nessa perspectiva, supõe ex parte hominis a “pobreza espiritual” e a “caridade” consideradas como dom total do ser, não obstante a Graça divina, é claro: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” e “Quem perde a sua vida a encontrará”, etc.
  • Esse conjunto de “preceitos” constitui o que se chamará de “condições de admissão” ao Reino dos Céus, e é isso, sem reserva, o essencial da Mensagem evangélica; é também o essencial da “moral evangélica” por oposição a uma simples moral humana.
  • A “vida interior” é algo bem diferente de uma simples atitude psicológica: é a realização, de certo modo ontológica ou existencial, das virtudes espirituais reduzidas às duas principais: Pobreza e Caridade, indo-se bem além da simples moral, pois não se trata apenas de atos, mas de ser: a realização exterior de ações caritáveis, por exemplo, não é e não deve ser senão o jorro de uma caridade interior, essencial, ontológica.
  • Tal “programa” está longe das considerações que se ouve habitualmente sobre a “condição humana”, e se admira, hoje sobretudo, em epilogar indefinidamente sobre questões sociais, econômicas, políticas, culturais, etc., que, em todo rigor, nada têm a ver com a espiritualidade.
  • Uma das atitudes possíveis do homem diante de sua condição é a atitude do “progressismo” (ou do “evolucionismo”) que se recusa a ver o absurdo da condição humana e projeta no futuro a solução de todos os problemas, fazendo do progresso indefinido uma verdadeira religião que descansa sobre o dogma da bondade natural do homem, o “Avenir de l’Humanité”, onde o indivíduo e o presente são sacrificados em uma perspectiva puramente hipotética e centrada no Futuro.
  • Outra atitude é a “existencialista”, para a qual a “condição humana” aparece então em todo o seu absurdo, e para aquele que não tem a fé, essa é a única filosofia válida, sendo as devaneios e quimeras “progressistas” de uma tolice e uma insipidez que não fazem honra a seus partidários.
  • Fora da perspectiva religiosa, a “condição humana” deve ou deveria aparecer como absurda, vendo-se aí uma espécie de “demonstração pelo absurdo” da existência do sobrenatural.
  • O homem comum, mesmo tendo um certo sentimento do absurdo da existência, não tem por isso a evidência do sobrenatural, sobretudo se sua ignorância do verdadeiro conteúdo da religião, o que é o caso mais frequente, o impede de fazer do sobrenatural uma ideia algo consistente; ele flutua então no vago, na dúvida, consolando-se com as medíocres fruições da vida ou fabricando toda sorte de pseudorreligiões, das quais o “progressismo” é apenas um caso particular.
  • O cristão se encontra em uma situação algo paradoxal: também ele é, em geral, um homem comum, submetido à “condição humana” com o que ela comporta de absurdo ou ao menos de lastimável, e ele põe toda a sua esperança em um além, do qual não tem nenhuma experiência, mas ao qual adere graças à Tradição, que lhe ensina a Doutrina e lhe fornece os “meios de graça” para fazer sua salvação, mas que não lhe garante de modo algum a melhora de sua sorte aqui embaixo.
  • Segundo a expressão corrente, o cristão está “no mundo” sem ser “do mundo”; ele é como despedaçado entre o aqui embaixo e o além, e é esse paradoxo aparentemente insuperável que acarreta a defecção, ou ao menos a mediocridade, de tantos cristãos.
  • É para resolver esse paradoxo que é preciso penetrar mais profundamente no dogma, pois as “questões sociais” só encontrariam uma falsa solução pela abdicação dos princípios ou pelo esquecimento do sobrenatural, e o cristão não pode esquecer que o Cristo recusou fazer do Evangelho um programa sócio-político.
  • A fé no dogma permite ao cristão encontrar no próprio coração do Mistério cristão a solução para o aparente paradoxo entre o “aqui embaixo” e o “além”, e é pela Pobreza e pela Caridade, na sequência do Cristo pobre e crucificado e na obediência à Vontade do Pai, que ele realizará em si, já aqui embaixo, no silêncio e no recolhimento, essa Pobreza e essa Caridade que lhe abrirão as portas da Vida eterna.
  • Quanto àqueles que não acreditam, ou creem mal, o Absurdo permanece, e eles são dignos de dó, buscando desesperadamente uma razão para viver, um ideal, e a resposta do cristão lhes será dada mais pela exemplaridade de sua vida do que por longos discursos inúteis.

§ 9. O PAPEL DA VIRGEM MARIA NA ECONOMIA DA ENCARNAÇÃO

Tudo o que foi dito sobre a vida espiritual decorre do que se pode chamar de “estado marial”, cujo fundamento e arquétipo se encontram na própria Virgem Maria.

  • A crítica protestante, seguida pelos exegetas da “demitização”, tem toda a facilidade em tratar com o desprezo que se sabe o início do Evangelho segundo são Lucas, e pode-se dizer que nesse ponto Satanás obteve uma vitória esplendorosa.
  • Não se falará da metafísica da Virgem, pois ela será tratada alhures, contentando-se em situar a Virgem no quadro das “virtudes” de Pobreza e Caridade que, de uma ponta a outra do estudo, foram em certo modo a “chave”, o fio de Ariadne, o tema da exposição.
  • Pobreza e Caridade devem ser “realizadas”, não somente ao nível moral ou psicológico, mas de uma maneira em certo sentido ontológica ou existencial, e essas virtudes — podendo-se dizer o mesmo da castidade — embora se situando necessariamente ao nível psicológico ou humano para os “iniciantes”, devem ser constantemente referidas ao seu Protótipo celeste ou ao seu Arquétipo principal in divinis, isto é, à Theotokos, sem esquecer que a condição atual exige uma “mediação”, à semelhança daquela do Verbo Encarnado, e que essa mediação é preenchida pela Virgem Maria.
  • Sem dúvida, a “síntese” entre dogmas como a Imaculada Conceição, a Maternidade divina, a Virgindade perfeita e perpétua e a Assunção de Maria supõe uma exposição metafísica preliminar, mas o dogma deve bastar à inteligência esclarecida pela Fé e purificada pela Graça: santa Bernadette e santa Teresa de Lisieux nunca fizeram metafísica.
  • A vida espiritual consiste essencialmente em fazer a Vontade do Pai, e o Pai não tem outra Vontade senão a de gerar o Filho Único, no seio da Trindade, por um lado, e no seio de Maria pela operação do Espírito Santo, por outro lado (Trindade e Encarnação), portanto, a alma cristã não tem nada mais a fazer senão realizar existencialmente o estado marial para que o Pai gere nela seu próprio Filho.
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