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DEUS É LUZ

Muitas vezes, da primeira epístola de São João, retém-se apenas que «Deus caritas est»; trata-se, evidentemente, se assim se quiser, do ápice da Revelação; daí que o resto se desdobre segundo a dialética do Amor: criação, queda, redenção, graça, etc., e o Amor se manifesta com seu complemento inseparável, a Cruz e o desapego absoluto e total. São João da Cruz encarna esse duplo aspecto; ele é essencialmente o Doutor do Amor e da Cruz.

Esta epístola traz igualmente outro aspecto, que completa o anterior, e que o apóstolo São João, que disse tudo porque viu tudo, não esqueceu. É inclusive por isso que começa sua primeira epístola e todo o seu Evangelho está impregnado disso: «A mensagem que ele nos fez ouvir, e que agora vos anunciamos, é que Deus é Luz e que n’Ele não há trevas» (1Jo 1,5)

Após a queda, o homem caminha nas trevas, na mentira, no erro, na desorientação, na dispersão; o mundo está sob o domínio de Satanás, Príncipe das Trevas e da Mentira. O homem vive na ilusão de sua própria realidade e esquece que sua verdadeira realidade reside em Deus, naquele Verbo “em quem tudo foi feito”. Pois Deus é o Ser Total fora do qual nada existe: o Todo é imanente em cada uma das partes, sem o qual o Todo não seria o Todo, já que estaria limitado por uma das partes. Assim, a parte só se distingue do Todo a que pertence de modo ilusório. A partir disso, conferir-lhe uma realidade própria, vê-la independentemente do Todo que a contém, considerá-la como uma “coisa em si” é a ilusão das ilusões, o erro, a perda, a mentira, as trevas. Após a queda, a inteligência do homem, privada da Luz, vive nessa ilusão, detém-se nas aparências das coisas, deixa-se prender na rede de seus próprios limites e dos limites das coisas, e não vê mais nas coisas e em si mesmo a Única Realidade do Todo, fora da qual a realidade das coisas não passa de ilusória.

A Revelação veio para ensinar novamente ao homem a ler nas coisas e em si mesmo a linguagem divina do Verbo Criador, a reencontrar nelas e em si sua verdadeira essência, que é divina. Assim, Deus é Luz; o Verbo é «a Luz que brilha nas trevas» e que «ilumina todo homem» (Jo 1,5-9); em linguagem teológica, essa Luz que ilumina a inteligência do homem é a fé, e são também os dons da Ciência, da Inteligência e da Sabedoria, sendo esta ao mesmo tempo Luz e Amor. Sob a influência desses dons, a alma aprende a reencontrar em si mesma e em todas as coisas a verdadeira Realidade que é Deus; assim, ela alcança a contemplação e todas as coisas lhe falam de Deus, desse Verbo que, a cada instante da eternidade, lhe confere a existência. Chega assim ao conhecimento do mistério, do qual o apóstolo afirma que possui a inteligência (Ef 3,3): é o mistério do Verbo e da Criação de todas as coisas nele, o mistério do Verbo Encarnado e da Restauração de todas as coisas nele: «Reunir todas as coisas em Jesus Cristo, as que estão nos céus e as que estão na terra» (Ef 1,10)

Mas tal contemplação, tal visão de Deus pressupõe que a alma tenha começado por se desapegar de todas as coisas, a fim de reencontrá-las e contemplá-las em Deus, onde elas têm sua verdadeira realidade. Assim se reencontram o desapego e o amor, que, unidos à contemplação, constituem a Sabedoria Suprema. [Abade Stephane — Metafísica Cristã]

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