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Manuscritos
HUDRY, Françoise (ORG.). Le Livre des XXIV philosophes. Grenoble: J. Millon, 1989.
Primeira Parte — A versão antiga do Livro dos XXIV Filósofos
Capítulo I
Descoberta da versão antiga
- A tradição manuscrita do texto não é simples e exige exame cuidadoso.
- Seis manuscritos apresentam o bloco central constituído pelo prólogo, pelas vinte e quatro definições de Deus seguidas de um comentário, segundo a forma da edição Baeumker; seis outros acompanham esse bloco com um segundo comentário, mais recente; nove manuscritos contêm apenas as definições ou sentenças, completadas em três casos pelo prólogo; enfim, um manuscrito propõe as definições com o segundo comentário somente.
- M.-Th. d'Alverny — autora da lista dos manuscritos, publicada em Hermetica philosophica. Catalogus translationum et commentariorum, vol. I, Washington, 1960, pp. 151-154, e vol. III, 1976, pp. 425-426.
- O segundo comentário foi revelado por M.-Th. d'Alverny em Um testemunho mudo das lutas doutrinárias do século XIII, publicado em AHDLMA, 1949, pp. 223-248 (p. 234).
- As três formas — prólogo mais sentenças mais comentário I; prólogo mais sentenças mais comentários I e II; e sentenças com o segundo comentário — coexistem sem anterioridade marcada de uma sobre a outra, e os manuscritos concentram-se sobretudo nos séculos XIII e XIV, sendo um único deles anterior, da primeira metade do século XIII, e apresentando o bloco central do texto.
- As constatações permitem duas observações: o Livro dos XXIV Filósofos foi percebido como composto de duas partes — as sentenças com ou sem prólogo de um lado, e o comentário I de outro; o comentário II, mais recente, constitui uma utilização do texto inteiro; o comentário I foi pouco apreciado, transmitido apenas por doze manuscritos, sendo ainda mal compreendido, como revela o aparato crítico com suas divergências e incompreensões de uma cópia a outra.
- O Livro dos XXIV Filósofos teve difusão restrita, com voga intensa mas breve, concentrada no fim do século XIII e no século XIV, após o que o interesse declinou, enquanto a definição da esfera infinita prosseguiu seu caminho, provavelmente por tradição indireta, de autor em autor.
- Para avançar na investigação, é necessário deter-se no manuscrito mais antigo que transmite o texto, a saber, uma coletânea da biblioteca municipal de Laon, cotada 412, designada pelo sigla L, composta de oito partes, todas do século XIII, de tamanho médio (277×190 mm), cujo texto copiado nos fólios 92v-93v não tem título nem autor e compreende o prólogo, as sentenças — a vigésima terceira repetida substitui a vigésima quarta — e o comentário I para vinte e quatro sentenças.
- A coletânea foi objeto de descrição detalhada por M.-Th. d'Alverny em Avicenna latinus I, publicado em AHDLMA 28, 1961, pp. 295-301.
- A escrita dessa parte do manuscrito é do tipo do norte da França, trabalho relativamente negligente, com hastes e caudas ornamentadas nas margens superior e inferior, s finais de módulo muito exagerado, ascritos em bico de águia, traços reencontrados sob forma mais aplicada em um manuscrito de Tournai expressamente datado de 1236.
- O manuscrito L, sendo nitidamente anterior aos demais, pode ser situado aproximadamente entre os anos 1220 e 1230.
- O manuscrito L apresenta-se como um dossiê de trabalho que reúne novidades científicas e filosóficas: numerosas notas de ciências naturais, extratos de Aristóteles, traduções latinas dos filósofos árabes Alkindi, Algazel, Avicena e Averróis, obras de Dominique Gondissalvi, de Alfred de Sareshel, alguns textos de Boécio, um de Santo Agostinho e outro de Hugues de Saint-Victor.
- Entre esses textos, após a Ars catholicae fidei de Nicolas d'Amiens, as Tabelas de Toledo ou Cânones de Al-Zarquel são bruscamente interrompidas para copiar o pequeno Livro dos XXIV Filósofos, retomando-se em seguida as Tabelas de Toledo.
- A presença dessas Tabelas, instrumento de cômputo, junto às numerosas traduções do árabe — obras de tradutores como Gondissalvi e Alfred de Sareshel, e textos traduzidos ou atribuídos a Michel Scot, que residiu por volta de 1210-1220 no colégio dos tradutores de Toledo — leva a concluir que o manuscrito foi copiado a partir de Toledo, hipótese reforçada pela forma inabitual de certos algarismos árabes nos fólios 92vb e 93b.
- Michel Scot — tradutor que frequentou o colégio de tradutores de Toledo por volta de 1210-1220.
- Toledo era na época um centro muito ativo de traduções, pelas quais o pensamento ocidental buscava renovar-se, notadamente reencontrando as ideias antigas, seja nos textos gregos, seja por meio de seus intérpretes árabes.
- R. Lemay — autor do artigo sobre a origem hispânica das formas numerais atuais, publicado em Viator 8, 1977, pp. 454 e 456.
- O estabelecimento do texto do Livro dos XXIV Filósofos reserva algumas surpresas, pois, seguindo a edição Baeumker e apesar das dificuldades de compreensão do comentário I e de disposição do comentário II, tem-se a impressão de uma tradição uniforme cujos desvios se explicariam por erros, inabilidades ou incompreensões dos copistas, e, no entanto, o texto guarda bem suas obscuridades.
- Ao considerar o texto do manuscrito L por si mesmo, impulsionado pela originalidade de suas variantes, descobre-se um pensamento mais claro, porém de outro caráter, o que revelou ser impossível estabelecer uma única edição crítica do Livro dos XXIV Filósofos, dado que o texto existiu em duas versões — a primeira, a de L, sem nenhum sucesso e conservada por esse único manuscrito por acaso; a segunda, aquela que circulou, editada por Baeumker e doravante chamada versão comum em contraposição à versão antiga, sendo esta última o objeto da presente publicação.
- O traço mais marcante da versão antiga é a frequência de palavras gregas — monos (I), centrum (II, X, XIV), sphera (II, XIV, XVI, XVIII), sperma (VIII), opposita (XIV) para o grego antikeiomena — o que revela que muitos estranhamentos do texto latino se explicam por tratar-se de tradução de construções gregas, como o genitivo absoluto em XVII, a expressão ad ostium em X que traduz por decalque o grego thyraize, e o hapax clangatio em XII, além de palavras eruditas como interpretatio, ostensio, consignificatio, primatus, generator, unitor, traduzidas do grego (hermeneia, epiphaneia…), todas desaparecidas na versão comum, cujas construções gregas foram modificadas.
- Temas desapareceram de uma versão para a outra: em II, o círculo da manifestação divina, que faz referência à abóbada celeste, não se reencontra na versão comum; em XXI, a ideia de que Deus é de algum modo a alma não tem correspondente na versão comum; mas o desaparecimento mais notável é o do tema do Infinito em si, presente em toutes letras em XXIV.
- As próprias ideias são modificadas de uma versão para a outra: em I, o Deus único dá nascimento à Unidade da criação, e não mais a uma outra mônada que lhe seria idêntica; em IX, L diz que Deus é o único presente de tudo o que pertence ao tempo, mergulhando assim Deus no coração do tempo, ao passo que a versão comum o mantém fora, dizendo que Deus é aquele ao qual somente é presente tudo o que pertence ao tempo — e gramaticalmente apenas a primeira forma é correta, sendo a variante de L mais interessante tanto pelo fundo quanto pela forma.
- Em XIV, L afirma que Deus é os opostos enquanto mediação do ente, ou seja, que Deus transcende a oposição dos contrários, ao passo que a versão comum diz simplesmente que Deus é o contrário do nada pela mediação do ente.
- No comentário de XIV, a imagem poderosa e raríssima de Deus como aprisionado no interior do centro de sua esfera é transformada pela versão comum, que coloca o nada no centro e a matéria bruta ao redor.
- A versão comum, em contrapartida, tenta introduzir no texto alusões à terceira pessoa da Trindade: em IV, o vocábulo spirando evoca a imagem do sopro que une o Pai e o Filho, assim como verbificat alude ao Verbo; em XXII, o vocábulo vivificator tenta duas vezes personalizar o Espírito Santo, tão pouco presente em L.
- O Livro dos XXIV Filósofos fala de Deus apenas sob duas formas — o Pai e o Filho —, sendo eles o Único que engendra o Um (I), o centro e a circunferência (II), o Espírito e o Logos (IV), o início e o fim (VII); o terceiro elemento existe apenas em relação aos dois primeiros, sem individuação: é o brilho (I), a continuidade (IV), o processo (VII), a bondade que une a potência e o ser de Deus (X, XV), a sabedoria que anima potência e vontade (XII).
- As demais sentenças concernem a natureza de Deus em si mesmo: Deus é inteiramente em cada uma de suas partes (III), o Bem absoluto (V), nem substância nem acidente (VI), o Amor (VIII), o Presente (IX), necessário e autárquico (XI), a eternidade em ato (XIII), a coincidência dos opostos (XIV), o Vivente em si (XIX), o Intelecto absoluto (XX), o Ser absoluto (XXII), a Luz (?) (XXIV); ou seu caráter incognoscível (VIII, XVI, XVII, XXI, XXIII); e jamais se trata da Trindade, da Revelação, da encarnação, morte ou ressurreição do Filho, nem de qualquer reminiscência bíblica que pudesse conferir caráter cristão ao texto.
- A versão antiga de L revela, portanto, tratar-se muito provavelmente de um texto antigo, pagão, traduzido do grego.
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