CAPÍTULOS PRÁTICOS
Nicetas Stethatos — Centúrias — Capítulos Práticos
Tradução em grande parte feita a partir da versão inglesa da Philokalia, mas eventualmente utilizada a versão francesa: Philocalie des Pères Neptiques, Nicétas Stéthatos, Abbaye de Bellefontaine, 1982, 183 p., ISBN 2.85589.954.0, tradução francesa da 4a. edição grega de Atenas, 1976, sob a responsabilidade de P. Boris BOBRINSKOY e do Grupo de Tradução da PHILOCALIE, este fascículo 4 foi revisto por R.P.Lucien REGNAULT, OSB, monge de Solesmes, introdução e tradução de Jacques Touraille. Tradução desta versão francesa feita por Antonio Carneiro.
PRIMEIRA CENTÚRIA — CAPÍTULOS PRÁTICOS: DA PRÁTICA DAS VIRTUDES: CEM TEXTOS
1. Há, penso, na tríade perfeita das virtudes (fé, esperança e caridade), quatro causas portando aquele que superou agora o meio do noviciado e que alcançou à tríade da teologia mística, para escrever o que é bom. A primeira é a liberdade, quero dizer a impassibilidade (apatheia) da alma, que, pelas penas da ação (praktike) leva à contemplação (theoria) natural da criação, e daí penetra nas treva da teologia (theologia). A segunda, que vem das lágrimas e da oração, é a pura da inteligência (nous), donde nasce a palavra da graça e brotam os fluxos dos pensamentos. A terceira é a habitação da Santa Trindade em nós. Dela, as efusões luminosas do Espírito se espalham para seu bem em cada um dos purificados, manifestando os mistérios do Reino dos Céus e revelando os tesouros de Deus ocultos na alma. A quarta, em todo homem que recebeu o talento da palavra do conhecimento, é a urgente necessidade da ameaça de Deus que diz: “Servidor mau e preguiçoso, deverias pôr o meu dinheiro nos cambistas, e em meu retorno teria retirado o que é meu com juros” (Mt 25, 27) (Parabola dos Talentos). É bem esta necessidade que fazia Davi também dizer cheio de temor: “Eis, fecharei meus lábios, Senhor, tu o sabes. Não ocultei tua justiça no meu coração. Não disse tua verdade e tua salvação. Não ocultei teu amor e tua verdade à grande assembleia” (Sal 40, 10-11).
2 O começo da vida segundo Deus é fugir completamente do mundo. Uma tal fuga é a renúncia da alma às vontades e a transposição da preocupação terrestre, pela qual, nos pressionam de retornar à preocupação de Deus, de carnais nos tornamos espirituais (pneumatikos). Estamos mortos para a carne (sarx) e para o mundo (kosmos). Mas nossa alma é levada à vida, em Cristo e no Espírito.
3 A verdadeira crença da alma tocando Deus, a fé interior aliada ao desprezo das coisas visíveis, a prática da virtude desapegada de todo egoísmo, são os três filhos da corda de que fala Salomão. Para rompê-la, é necessário tempo aos espíritos de malícia.
4 Em fé esperamos receber recompensa por nossos trabalhos, e por conta disto prontamente suportamos as durezas da prática das virtudes. Mas quando experimentamos a garantia do Espírito Santo, alçamos voo com amor para Deus.
5 Estar perturbado por pensamentos impuros não significa que já somos da parte do diabo. Mas quando a alma se torna desleixada, quando o intelecto, por causa de nossa vida dissoluta e desregrada, fica cheio de imagens turvas e obscuras, e quando nossa prática das virtudes negligencia, por causa de nosso desleixo na meditação e na oração, então, mesmo não engajados no mal, somos nivelados entre aqueles que deliberadamente rastejam em prazeres sensuais.
6 Tão logo o bridão dos sentidos superiores é removido, nossas paixões imediatamente revoltam-se e os sentidos mais baixos, mais escravos são agitados para ação; pois quando estes últimos em sua desrazão são soltos das amarras do auto-controle, seus hábitos devem acender as fontes das paixões e alimentar-se delas como sementes venenosas. E enquanto prossiga o desleixo, mais fazem isto. Pois tal sendo seu apetite natural não podem refrear-se da indulgência nisto uma vez livres para assim fazer.
7 Entre os sentidos, visão e audição possuem uma certa qualidade noética e são mais inteligentes e mestres que os outros três sentidos, paladar, olfato e tato, que são irracionais e grosseiros, e dependem dos sentidos superiores. Pois primeiro vemos e ouvimos, e então, através do agenciamento da mente , apreendemos o que está diante de nós, e o cheirando, finalmente o saboreamos. Assim o paladar, o olfato e o tato são mais animalescos ou, simplesmente, mais baixos e mais dependentes que a visão e a audição. Os animais mais gulosos e lascivos, ambos domésticos e selvagens, são especialmente afligidos por eles, e dia e noite ou se enchem de comida ou se viciam em copulação.
8 Se referes as atividades dos sentidos exteriores às suas contrapartes interiores — expondo tua visão ao intelecto, o recipiente da luz da vida, tua audição ao juízo da alma, teu paladar à discriminação da inteligência, teu olfato à compreensão do intelecto, e relacionando teu tato à vigilância do coração — levarás uma vida angélica na terra; enquanto sendo e aparecendo como um homem entre homens, serás também um anjo coexistindo com anjos e espiritualmente consciente da mesma maneira que eles são.
9. Através do intelecto, sustentador da luz da vida divina, recebemos o conhecimento dos mistérios ocultos de Deus. Através da faculdade de julgamento da alma peneiramos na luz deste conhecimento os pensamentos que levantam-se dentro do coração, distinguindo o bom do mau. Através da discriminação da inteligência saboreamos nossas imagens conceituais. Aqueles que brotam de uma raiz amarga transformamos em doce alimento para a alma, ou então as rejeitamos inteiramente; aquelas que brotam de um estoque vigoroso e virtuoso aceitamos. Desta maneira tomamos cada pensamento cativo e o fazemos obedecer Cristo (cf. 2Cor. 10,5). Através da compreensão do intelecto cheiramos o unguento espiritual da graça do Espírito Santo, nossos corações cheios de alegria e júbilo. Através da vigilância do coração conscientemente percebemos o Espírito, que refresca a chama de nosso desejo para bençãos supernais e aquece nossos poderes espirituais, embotados como foram pela frieza das paixões.
10. Assim como no corpo existem cinco sentidos — visão, audição, paladar, olfato e tato — assim na alma existem cinco sentidos: intelecto, razão, percepção noética, conhecimento intuitivo e insight cognitivo. Esses estão unidos em três atividades psíquicas: intelecção, raciocínio e percepção noética. Por meio da intelecção apreendemos as intenções espirituais, por meio do raciocínio as interpretamos, e através da percepção noética apreendemos as imagens do insight Divino e conhecimento espiritual.
11. Assim como não podes saber exatamente as causas e curas das aflições corporais sem grande experiência e habilidade médicas, assim não podes saber daquelas aflições psíquicas sem um grande treinamento e prática espirituais. O diagnóstico das doenças corporais é um negócio complicado e somente uns poucos são realmente versados nisto; mas o disgnóstico das doenças psíquicas é muito mais complicado. a alma é superior ao corpo, e correspondentemente suas aflições são maiores e mais duras que aquelas do corpo, que é visível para todos.
12. As virtudes principais e primárias foram co-criadas com o homem como parte de sua natureza. Delas os rios de todas as outras virtudes são alimentados como das quatro fontes, e eles banham a cidade de Deus, que é o coração purificado e resfrescado pelas lágrimas. Se mantiveres estas quatro virtudes principais impregnáveis pelos espíritos de malícia, ou se elas caem mas as levantais de novo através dos labores de arrependimento, construirás para ti mesmo um palácio real no qual o Rei de Tudo pode fazer Sua morada (cf. Jo 14:2), prodigamente concedendo Seus sutis dons àqueles que assim prepararam o solo.
13. A vida é curta, o tempo a vir é longo, e pouca a extensão da presente existência. O homem, este grande mas insignificante ser, a quem o escasso presente foi destinado, é fraco. O tempo é escasso, o homem fraco, mas a peleja estabelecida diante dele, com seu prêmio, é grande, mesmo se está cheio de espinhos e põe nos vida trivial em risco.
14. Deus não deseja os trabalhos daqueles bem avançados no caminho espiritual passando sem teste, mas os quer muito bem provados. Consequentemente Ele lança-os ao fogo da tentação e retira por certo tempo a graça que os dá, permitindo a tranquilidade de seus pensamentos a ser perturbado por enquanto pelos espíritos de malícia. A sua maneira Ele vê que caminho a alma se voltará, e se favorizará seu próprio Criador e Benfeito ou os sentidos deste mundo e a atração do prazer. Dependendo de sua proclividade Ele irá ou aumentar Sua graça neles a Medida que avançam no amor a Ele, ou incitá-los com tentação e tribulação se cedem em pensamentos e ações mundanos, continuando isto até que venham a odiar o torvelinho instável das coisas visíveis e com lágrimas lavem a amargura de seus prazeres.
15. Quando a paz de teus pensamentos é perturbada pelos espíritos de malícia, então aqueles caçadores — os demônios amantes da carne — de pronto assaltarão com as flechas do desejo teu intelecto que corre rapidamente para as alturas (cf. Ef 6,16). Como resultado seu movimento ascendente é reduzido e ele sucumbe a impulsos corruptos e inapropriados; a carne licenciosamente começa a revoltar-se contra o espírito, através de incentivo e incitação buscando levar o intelecto para o poço do prazer. E se o Senhor das hostes não encurtar Aqueles Dias e conceder a Seus servos a força de perseverar, «nenhuma carne seria salva» (Cf. Mt 24,22).
16. O altamente experiente e astuto demônio da incastidade é para alguns uma fossa, para outros flagelo e verga da justiça, para outros um teste ou provação da alma. Ele é uma fossa para aqueles recém engajados na luta espiritual, que ainda suportam o jugo ascético folgada e negligentemente; um flagelo para aqueles que avançaram até o meio do caminho da virtude mas então relaxaram seus esforços; um teste ou provação para aqueles que nas asas do intelecto já entraram a esfera da contemplação e que agora aspiram a mais perfeita forma de impassibilidade. Cada categoria é assim divinamente guiada no caminho que lhe adequa melhor.
17. O demônio da incastidade é uma fossa para aqueles que vivem a vida ascética levianamente. Acende seus membros com desejo sensual e sugere maneiras de fazer a vontade da carne mesmo sem intercurso com outra carne, algo que é vergonhoso mesmo falar ou pensar (cf. Ef 5,12). Tais pessoas enganam a carne (cf. Judas 8) e devoram os frutos do prazer amargo, se cegando e merecidamente tombando dos mais altos reinos. Se desejam cura, a encontram no fervor do arrependimento e na compunção lacrimosa que dela flui. Isto os fará fugir do mal e limpará suas almas de sua impureza, os fazendo herdeiros da misericórdia de Deus. Em sua sabedoria Salomão refere-se a isto de modo críptico quando disse, «A cura põe um fim às grandes ofensas» (cf. Ecle. 10,4, LXX).
18. Este demônio é de direito um bom flagelador para aqueles que através da prática das virtudes alcançaram o primeiro grau da apatheia e estão agora progredindo para o que encontra-se além disto e é mais perfeito. Pois quando por conta da negligência relaxam a tensão de sua prática ascética e desviam, embora pouco, em direção a desguardada preocupação com o mundo sensível, ansiando por envolver-se nos negócios humanos, então, como um resultado da grande bondade de Deus para com eles, este demônio age como flagelador: começa a assaltar aqueles que desviam desta maneira com pensamentos coloridos de desejo carnal. Incapazes disto suportar, rapidamente revertem para sua fortaleza de prática ascética intensa e atenção, desempenhando com ainda maior vontade e mesmo mais esforçadamente as tarefas que os salvarão. Em Sua magnanimidade, Deus não deseja que a alma que alcançou este estágio volte-se completamente para o mundo dos sentidos; pelo contrário, quer que ela progrida continuamente e abrace zelosamente ainda mais obras perfeitas, de modo que nenhuma praga se aproximará de sua morada (cf. Sal 91,10, LXX).
19. Através da economia de Deus, este mesmo demônio é um teste, um espinho e uma provação que, tendo alcançado o primeiro, aspira ao segundo grau da apatheia. Enquanto o demônio os perturba, lembram a fraqueza de sua natureza e não se tornam presunçosos por causa da «abundância das revelações» (2Co 12,7) que receberam através da contemplação. Ao invés, atentamente conscientes da lei que combate a lei do intelecto (cf. Rom 7,23), repudiam mesmo a desapaixonada relembrança do pecado, pois o relembrando re-experimentam o engodo que engendra e assim deixa o olho do intelecto relaxar das alturas da contemplação.
20. Só aqueles que através do Espírito foram privilegiados para receber a morte vivificante do Senhor (Cf. 2Co 4,10) em seus membros e pensamentos podem manter seu intelecto imperturbado, mesmo pela desapaixonada memória do pecado. Sua carne está morta para o pecado, enquanto através da retidão que está em Cristo Jesus enriqueceram seu espírito com vida (cf. Rom 8,10). Aqueles que através de sua consciência de sabedoria receberam o intelecto do Cristo experimentarão a imperturbada morte vivificante que vem do conhecimento de Deus.
21. O espírito do desejo e raiva é passível de invadir as almas recentemente purificadas. Para fazer o que? Para balançar os frutos do Espírito Santo brotando dentro deles. Pois a alegria da liberdade produz uma certa confusão em tais almas; elas tendem a se exaltar sobre outras por causa de sua grande liberdade e a Riqueza de seus dons, e também pensar que alcançaram este grande palácio de paz através de sua própria força e compreensão. Por conseguinte a Sabedoria que ordena todas as coisas para o bem, e busca sempre atrair estas almas para si mesma por meio de seus dons e mantê-las inabaladas em sua humildade, retira-se delas levemente e assim permite que este espírito de desejo e raiva as ataque. Mergulhadas como resultado no medo da queda, elas uma vez mais mantêm a guarda sobre a bendita humildade; e, reconhecendo que são limitadas por carne e sangue, buscam de acordo com sua verdadeira natureza pela fortaleza interior onde pelo poder do Espírito Santo pode sustentar a si mesmas intocadas.
22. A veemência de nossas provações e tentações depende do grau em que somos debilitados pelas paixões e infectados pelo pecado; e o cálice amargo do juízo de Deus varia de acordo. Se a natureza do pecado dentro de nós é tal que é facilmente tratado e curado — se, quero dizer, consiste de pensamentos que são auto-indulgentes ou mundanos — então o Curador de nossas almas em Sua compaixão adiciona senão uma dose de compaixão ao cálice de provação e tentação que Ele administra, posto que estes são meramente agruras humanas pelas quais somos afligidos. Mas se o pecado é mais profundo e difícil de Curar — uma infecção letal de pretensiosos pensamentos arrogantes — então na agudeza de Sua ira Ele nos dá o cálice não diluído, de modo que, dissolvidos e refinados no fogo de provações sucessivas e da humildade que induzem, a doença possa ser removida de nossa alma e possamos lavar nossos pensamentos negros com lágrimas, assim nos apresentando puros na luz da humildade para nosso Curador.
23. Aqueles engajados no Combate Espiritual podem escapar do ciclo de provação e tentação só por reconhecer suas fraquezas, e a respeito deles mesmos como estranhos à retidão e não merecedores de qualquer consolo, honra ou repouso. Deus, o doutor das almas, nos deseja ser sempre humildes e modestos, destacados de nossos companheiros e imitadores de Seus sofrimentos. Pois Ele era «gentil e humilde no coração» (Mt 11,29), e quer que persigamos o caminho de Seus mandamentos com semelhante gentileza e humildade de coração.
24. Humildade não é alcançada por meio de um pescoço magricela, cabelo esquálido, ou vestes amassadas, esfarrapadas e sujas, pelas quais geralmente os homens asseveram a soma total desta virtude. Ela vem de um coração contrito e um espírito de auto-rebaixamento. Como Davi disse, «Deus não menospreza um espírito contrito, e um coração humilde e contrito» (cf. Sal 51,19, LXX).
25. Falar humildemente é uma coisa, agir humildemente é outra, e estar interiormente humilde é ainda outra coisa. Através de todas as formas de dureza e através de trabalhos exteriores de virtude aqueles engajados em combate espiritual podem obter as qualidades de falar e agir humildemente, pois estas qualidades requerem nada mais que esforço corporal e disciplina. Mas porque a alma de tais pessoas frequentemente sentem falta de estabilidade interior, quando a tentação as confronta são facilmente balançadas. A humildade interior, por outro lado, é algo exaltado e Divino, concedida através da morada do Paracleto somente àqueles que passaram a metade do caminho espiritual — que atravessaram, quer dizer, através da ação em toda humildade, o caminho rigoroso da virtude.
26. A alma é tão perdida e oprimida quando a humildade interior como uma pedra pesada penetrou em suas profundezas, que perde toda sua força por causa das lágrimas que derrama incontrolavelmente; enquanto o intelecto, limpo de todo pensamento enganador, alcança como Isaías à visão de Deus. Sob aquela divina influência ela também confessa, «Quão abjeta sou — perfurada até o coração; porque sou um homem de lábios imundos, e habito entre pessoas de lábios imundos; e meus olhos viram o Rei, o Senhor das hostes» (Is 6,5).
27. Quando a habilidade para falar humildemente está firmemente estabelecida dentro de ti, então não mais indulgenciarás em fanfarronices; quando ages espontaneamente em humildade de coração, então cessarás as falas humildes, sejam superficiais ou profundas; e quando estiveres enriquecido por Deus com a humildade interior então tanto humildade da ação externa e humildade da língua não mais terão qualquer lugar em ti. É como São Paulo disse: «Mas quando isso que é perfeito vem, que o que é parcial é com ele exterminado» (1Co 13,10).
28. A genuína humildade da fala é tão remota da genuína humildade da ação como o Oriente é do Ocidente. E como o céu ultrapassa a terra, ou como a alma o corpo, de modo que a humildade interior dada aos santos através do Espírito Santo excede a genuína humildade da ação.
29. Não prontamente assuma que alguém que em aparência exterior e vestes, e na maneira de falar, parece ser humilde seja realmente humilde no coração; e não assuma — a não ser que tenhas posto em teste — que alguém que fala exaltadamente de coisas altas esteja cheio de fanfarronice e vaidade. Pois «deverias conhecê-los por seus frutos» (Mt 7,16).
30. Os frutos do Espírito Santo são amor, alegria, paz, bondade, perseverança, gentileza, fé, doçura, autocontrole (cf. Gal 5,22-23). Os frutos do espírito do mal são ódio, desânimo mundano, agitação da alma, coração perturbado, dolo, curiosidade, negligência, raiva, falta de fé, inveja, glutonia, embriaguez, abusividade, censura, a luxúria dos olhos (cf. 1Jo 2,16), vanidade e pretensão da alma. Por estes frutos podes conhecer a árvore (cf. Mt 12,33), e desta maneira certamente reconhecerás que espécie de espírito tens de lidar. Uma indicação ainda mais clara destas coisas é dada pelo Senhor Ele mesmo quando diz, «Um bom homem do bom tesouro de seu coração retira boas coisas; e um homem mau do mau tesouro de seu coração retira coisas más» (Mt 12,35). Pois como a árvore, assim é o fruto.
31. Deus habita naqueles em quem os frutos do Espírito Santo são evidentes e, se falam de coisas exaltadas ou baixas, deles flui, plena sabedoria e conhecimento, a fonte incontaminada do logos. Aqueles que demonstram os frutos e dons não do Espírito Santo mas do espírito do mal são por outro lado ignorantes com a ignorância de Deus e infestados com as paixões e os espíritos hostis; e isto assim é se falam e se vestem humildemente, ou se falam exaltadamente, vestem roupas finas, e apresentam-se a si mesmos com uma externa demonstração de pompa.
32. A verdade não é disfarçada por aparências, gestos ou palavras, e Deus não repousa nestas coisas mas em um coração contrito, um espírito humilde e uma alma iluminada pelo conhecimento de Deus. Algumas vezes vemos alguém falando aos passantes em uma maneira humilde e obsequiosa, enquanto interiormente persegue o louvor dos homens e está cheio com auto-pretensão, desfaçatez, malícia e rancor. E há vezes quando vemos alguém se batendo por retidão exterior com palavras sublimes de sabedoria, tomando posição contra a falsidade ou a transgressão das leis de Deus, e olhando só para a verdade, enquanto dentro é todo modéstia, humildade, e amor por seus companheiros. Algumas vezes também vemos uma pessoa glorificando no Senhor segundo a maneira de São Paulo, que quando glorificava no Senhor dizia, «Eu glorificarei em minhas enfermidades» (2Co 12,9).
33. Deus olha não para a forma externa do que dizemos ou fazemos, mas para a disposição de nossa alma e o propósito pelo qual desempenhamos uma ação visível ou expressamos um pensamento. Da mesma maneira aqueles de maior compreensão que outros olham ao invés para o sentido interior das palavras e a intenção das ações, e sem vacilo as avaliam de acordo. O homem olha à forma exterior, mas Deus olha no coração (cf. 1Sam 16,7).
34. Deus julgou justo que de geração a geração Seus profetas e amigos deveria estar equipados pelo Espírito para a construção de Sua Igreja (cf. Ef 4,11-13). Pois desde que a velha serpente ainda devasta as almas dos homens pelo vômito o veneno do pecado em seus ouvidos, como Ele que moldou nossos corações um por um (cf. Sal 33,15) não elevou o necessitado da terra da humildade e os ascendeu do esterco das paixões (cf. Sal 113,7), assistindo Sua herança com «a espada do Espírito que é a palavra de Deus» (Ef 6:17)? Justamente, então, elevam-se aqueles que começam com humildade, e negam a si mesmos, às alturas do conhecimento espiritual, recebendo do alto os ensinamentos de sabedoria através do poder de Deus, de modo que possam proclamar o Evangelho da Salvação para Sua Igreja.
35. «Conhece-te a ti mesmo»: isto é a verdadeira humildade, a humildade que nos ensina a ser interiormente humilde e fazer nosso coração contrito. Tal humildade deves cultivar e guardar. Pois se ainda não conhece-te a ti mesmo não podes conhecer o que a humildade é, e ainda não embarcastes verdadeiramente na tarefa de cultivo e guarda. Conhecer-se a si mesmo é a meta da prática das virtudes.
36. Se tendo alcançado um estado de pureza avanças para o conhecimento das essências dos seres criados, terá preenchido a injunção, «Conhece-te a ti mesmo». Se por outro lado ainda não tiveres alcançado um conhecimento das essências interiores de criação e das coisas tanto divinas quanto humanas, podes saber o que está fora e ao seu redor, mas ainda és totalmente ignorante de teu próprio ti mesmo.
37. O que sou não é em absoluto o mesmo o que me caracteriza; nem é o que me caracteriza o mesmo que aquilo que se relaciona a minha situação; nem é o que relaciona-se a minha situação o mesmo que o que é externo a mim. Em cada caso uma é distinta da outra. O que sou é uma imagem de Deus manifesta em uma alma espiritual, imortal e inteligente, tendo um intelecto que é o Pai de minha consciência e que é consubstancial com a alma e inseparável dela. Isto que me caracteriza, e é régio e soberano, é o poder da inteligência e do livre arbítrio. Isto que relaciona-se a minha situação é o que posso escolher em exercendo meu livre arbítrio, tal como ser um fazendeiro, um mercador, um matemático ou um filósofo. Isto que é externo a mim é o que quer que relacione-se a minhas ambições nesta vida presente, ao status da minha classe e Riqueza mundana, à glória, honra, prosperidade e nível de exaltação, ou a seus opostos, pobreza, ignomínia, desonra e infortúnio.
38. Quando conheces-te a ti mesmo cessas de todas as tarefas exteriores assumidas com vistas a servir Deus e entrar no próprio santuário de Deus, na liturgia noética do Espírito, o paraíso Divino da apatheia e da humildade. Mas até que venhas a conhecer-te a ti mesmo através da humildade e do conhecimento espiritual tua vida é um tormento e suor. Foi disto que Davi de modo críptico falo quando disse, «Tormento jaz diante de mim até que eu entre no santuário de Deus» (Sal 73,16-17, LXX).
39. Conhecer-te a ti mesmo significa que deves guardar a ti mesmo diligentemente de tudo externos a ti; significa dar uma pausa às preocupações mundanas e interrogatório da consciência. Uma vez que venhas a conhecer-te a ti mesmo uma espécie de humildade divina super-racional subitamente desce sobre a alma, trazendo contrição e lágrimas de compunção fervorosa para o coração. Trabalhado desta maneira tu vês a ti mesmo como terra e cinzas (cf. Gen 18,27), e como um verme e nenhum homem (cf. Sal 22,6). De fato, devido a este sobrepujante dom de Deus, pensas que és sem valor até mesmo desta vida vermiforme. Se és privilegiado em permanecer neste estado por algum tempo estarás repleto com uma intoxicação inefável, estranha — a intoxicação da compunção — e entrarás nas profundezas da humildade. Arrebatado de to mesmo, não ligas para alimento, bebida ou vestes além do mínimo necessário; pois és como aquele que experimentou a transformação abençoada que vem da «mão direita do Altíssimo» (Sal 77,10, LXX).
40. A humildade é a suprema das virtudes. Se como um resultado de sincero arrependimento é implantada em ti, será dado também o dom da oração e do autocontrole, e serás liberado da servidão das paixões. A paz inundará teus poderes, as lágrimas limparão teu coração, e através da permanente presença do Espírito Sano estarás repleto de tranquilidade. Quando tiveres atingido este estado, tua consciência do conhecimento de Deus crescerá lúcida e começarás a contemplar os mistérios do Reino do Céu e as essências interiores das coisas criadas. Quanto mais desças nas profundezas do Espírito, mais mergulharás no abismo da humildade. Correspondentemente ganhas maior conhecimento de tuas próprias limitações e reconheces as fraquezas da natureza humana; ao mesmo tempo teu amor por Deus e teus companheiros humanos cresce até que penses que a santificação flui simplesmente de uma saudação ou da proximidade daqueles com quem vives.
41. Nada dá asas às alma em seu amor inclinado em direção à Deus e sua caridade pelos homens, como a humildade do coração, a “compunção” e a oração pura. A primeira quebra o espírito, faz desafogar-se as lágrimas, deixa ver a brevidade da vida humana, e ensina à conhecer a fraqueza de nossas próprias medidas. A segunda purifica de toda matéria a “inteligência”, ilumina o olho do coração e torna a alma toda luminosa. A terceira enfim une todo homem à Deus, lhe permite compartilhar o alimento dos anjos, lhe permite provar a doçura dos bens eternos de Deus, lhe dá os tesouros dos grandes mistérios e, ardente de amor, o persuade de ousar dar sua própria vida por àqueles a quem ama (Jo 15, 13), uma vez que superou os limites da humildade exterior do corpo.
42. Guarda-me o bom depósito (1Tim 6,20) de enriquecedora humildade. Nela se acham os tesouros do amor (cf. Col. 2,3). Nela se conservam as pérolas da “compunção”. Nela o Rei, o Cristo Deus repousa como sobre um trono coberto de ouro, compartilhando os dons de seu Espírito Santo àqueles que ele alimenta, e lhes concedendo suas grandes honras: a palavra de seu conhecimento, a sabedoria inefável (vide: cap.33 in: Stethatos Capítulos Gnósticos 31-40 ), a visão das coisas divinas, a visão profética das coisas humanas, a morte vivificante (vide: A morte do Cristo é uma morte vivificante e o prelúdio da ressurreição: “Mistério da Salvação”) por meio da “impassibilidade”, enfim a união à ele e lhe reina com ele em seu Reino de Deus, o Pai, como ele mesmo lhe ensinou isso dizendo: “Pai, aqueles que me deste, quero que estejam comigo lá onde estou (Jo 17,24).”
43. Quando um homem se dá a pena de colocar em obra os mandamentos e que é levado, de repente, por uma alegria inexprimível, inefável, a ponto de ser transformado pela graça de uma mudança estranha que ultrapassa a razão, de ser desobrigado do peso do corpo, e de esquecer o alimento, o Sono e as outras necessidades da natureza, que saiba que está aí nele o advento de Deus, o qual dá a morte vivificante àqueles que combatem e lhes concede aqui em baixo o estado de Anjos. Desta vida bem-aventurada, a humildade é a introdutora; a santa “compunção” é mãe nutridora; a contemplação da luz a amiga e a irmã; a “impassibilidade” o trono; e o fim, a Santíssima Trindade, Deus.
44. Aquele que conquistou esta acrópole não pode mais ser entravado pelos laços de todas as coisas sensíveis. Não considera mais nada as delícias desta vida, não distingue mais o sagrado do profano. Mas, mesmo que Deus faça igualmente chover e levantar o sol sobre os justos e injustos, os maus e os bons (Mt 5,45), também ele mesmo fará levantar e espalhar os raios de amor sobre todos, seu coração não é estreito, carrega em seu seio o amor de todos. Mas, estará incomodado e atormentado de não fazer o bem tanto quanto quererá. Dele sai, como do Éden (Gen 2,10), uma outra fonte de “compunção”, que se divide em quatro correntes: a humildade, a pureza, a “impassibilidade”, a altura da oração sem interrupção. E ela banha a face de toda a criação espiritual de Deus.
45. Aqueles que não provaram a doçura das lágrimas da “compunção”, que não sabem qual é sua graça e qual é sua “energia”, pensam que ela não difere em nada das lágrimas que se verte sobre os mortos. Eles se forjam de todas espécies de outras razões vãs, e pensamento de dúvidas: o que nos chega naturalmente. Ora, quando o orgulho da “inteligência” inclina-se em direção à humildade, quando a alma ela própria fechou o olhar à ilusão do visível e o estendeu em direção a única “contemplação” da primeira luz imaterial, quando derrubou toda a sensação do mundo e recebeu do alto a consolação do Espírito, tão logo as lágrimas escorrem dela como de uma fonte d’água, cobrem de doçura seus sentidos e preenchem seus pensamentos de toda alegria e de luz divina. Enfim, quebram o coração e levam à visão do melhor a humilde “inteligência”. O que é impossível àqueles que se lamentam e se atormentam de outra maneira.
46. É impossível de abrir a fonte de lágrimas sem uma muito profunda humildade do coração, nem de ser humilde sem a “compunção” que nos vem do Espírito, quando este habita em nós. Pois a humildade engendra a “compunção”, e a “compunção” engendra a humildade pelo Espírito Santo. Unidas, uma à outra, em uma mesma graça única, elas tem entre elas, como uma corrente, o laço do Espírito que nada pode romper.
47. A luz que o Espírito ilumina na alma se retira de comum diante da indolência, a negligência, o excesso de palavras e do alimento. O excesso de alimento, a languidez da vida, a intemperança da língua, a imprudência dos olhos, com efeito, são [ por natureza para expulsar a luz da alma e a nos tornarmos tenebrosos. Logo que estamos repletos de trevas, todos os animais do campo (Sal 104,11) de nosso coração, e os leõezinhos, os pensamentos apaixonados, virão rugir dentro de nós, desejando os alimentos das paixões, e procurando nos arrebatar (Sal 104,21) o tesouro que o Espírito depositou em nós. Mas, a temperança verdadeiramente bem amada e a oração que nos torna parecido aos anjos, não somente nos permitem que nenhum deles venha rodear a alma, mas, guardam em torno da “inteligência” a luz (vide: Candeia do Corpo ) inextinguível do Espírito, tornam sereno o coração, são a fonte pura da “compunção” divina, abrem a alma ao amor de Deus, e pela alegria e a virgindade lhe unem por inteira ao Cristo todo inteiro.
48. Nada é próximo ao Verbo como a pureza e a castidade da alma. A mãe destas é a temperança bem amada que abraça tudo. E o pai da temperança é o temor. O temor voltado para o desejo e unido ao apelo das coisas divinas, libera a alma de todo medo, a preenche de amor de Deus, e lhe faz nascer o Verbo Divino.
49. Em primeiro lugar o temor unido à alma concebe nela pelo arrependimento a razão do julgamento. Logo as dores dos tormentos do inferno o envolvem (Sal 18,6), o coração se fecha, os gemidos e as penas esgotam a retribuição dos vícios esperado no futuro. Depois, após muitas lágrimas e penas, a alma leva a seu termo no seio da “inteligência” o espírito da salvação que ela concebeu, e o faz nascer sobre a terra de seu coração. Está liberta das dores do inferno e liberada das lamentações do julgamento. Em seu lugar recebe o desejo e a alegria dos bens à vir, a pureza bem amada vem ao seu encontro com a castidade, e pelo desejo do amor a une a Deus. Unida à ele, a alma sente nela um prazer inefável. Verte a partir daí as lágrimas da “compunção” com prazer e doçura. Está fora da sensação do mundo inteiro. Como saída dela mesma, segue o esposo e chama inefavelmente: “Vou atrás de ti pelo odor de teu perfume. Diga-me, tu que meu coração ama, onde conduz o rebanho para apascentar? Onde repousas? (Cant. dos Cant. 1,7) Ao meio-dia da pura “contemplação”? Que eu não seja nunca como aquela que foi rejeitada do rebanho dos justos. Que eu descubra perto de ti a luz dos grandes mistérios.” O Esposo faz entrar esta alma no segredo dos mistérios escondidos, e lhe faz contemplar na sabedoria as razões da criação.
50. Não digas em teu coração: caí de tantas formas na corrupção e na demência do corpo, que me é impossível adquirir a partir d'agora a pureza virginal. Pois onde as penas do arrependimento são levadas na vida rude e no fervor da alma, onde a compunção jorra nos rios de lágrimas, lá estão devastadas todas as fortalezas do mal, lá se extinguiram todos os incêndios das paixões, lá se cumpriu todo novo nascimento que vem do alto pelo chegada do Consolador, lá retorna a alma à um palácio de de pureza e virgindade. Nela numa luz e numa glória inefável, Deus que está além da natureza desceu. Ele foi levado no mais alto de sua inteligência como em um trono de glória, e deu a paz às potências que lhe circundam, dizendo: “ Eu vos dou a paz que sobrepõe às paixões adversas. Eu vos dou a minha paz, para que vós procedais segundo a natureza. Eu vos deixo a minha paz (Jo 14,27), para que alcanceis a perfeição, mais alta que a natureza.” Quando por este triplo dom da paz tratou das três partes da alma, quando a elevou até à perfeição trinaria e a uniu à ele, ele a fundiu de novo e a tornou completamente virgem a partir daí, bela e amadurecida em um bom olor de perfumes da pureza. E lhe disse: “ Levanta-te, minha bela pomba, vem para perto de mim pela filosofia ativa. Eis que o inverno das paixões terminou. A chuva de pensamentos que se agradam com o prazer cessou. Ela mesma foi-se embora. As flores de virtudes apareceram sobre o terreno (Ct 2, 12) de teu coração com o perfume dos pensamentos. Levanta-te, vem para perto de mim no meu conhecimento da contemplação natural.Por ela, minha pomba, venha encoberta e na treva da teologia mística, sobre o firme rochedo da fé em mim, Deus.”
51. Feliz aos meus olhos, na beleza da mudança e da elevação, aquele que pela filosofia ativa transpassou a parede do estado apaixonado, e de lá, sobre as asas da impassibilidade cobertas pela prata (Sal 67, 14) do conhecimento, se elevou no ar espiritual da contemplação dos seres, depois entrou na treva da teologia e repousou de todas as obras, com Deus, pela beatitude. Pois alcançando o estado de anjo terrestre e de homem celeste, glorificou à Deus em si-mesmo, e Deus o glorificará (Jo 13, 31-32).
52. Uma imensa paz satisfaz plenamente aqueles que amam a lei de Deus. Não é escândalo para eles (Sal 119,165). Pois, o que agrada aos homens não é o que agrada à Deus (VIDE Agradar Homem e Deus). O que não lhes parece bom é naturalmente muito bom àquele que conheceu as razões dos seres e dos acontecimentos.
53. É bom morrer para o mundo e de viver em Cristo. Não há outro caminho para nascer lá nas alturas, como lhe pede o senhor. Se não é nascido nas alturas, não se pode entrar no reino dos céus (Jo 3,3). este nascimento vem naturalmente da submissão aos pais espirituais. Se não levamos logo de início a semente da palavra que nos dá o ensinamento dos Padres, se por eles não nos tornarmos filhos de Deus, não poderemos nascer nas alturas. Assim os Doze nasceram dos Doze. Tornaram-se filhos de Deus o Pai, como o Senhor tinha dito: “ Vós sois os filhos de meu Pai que está nos céus (Mt 5,45).” E Paulo nos disse igualmente: “ Quando tão logo vós tiverdes milhares de mestres, vós não terais vários pais. Sou eu quem vos engendrou (1Cor 4,15). Sejam meus imitadores (1Cor 11,1).”
54. Não se submeter à um pai espiritual à imitação do Filho submisso ao Pai até a morte e à cruz (Fl 2,8), é não nascer nas alturas. Aquele que não se tornou filho amado de um pai bom, que não nasceu nas alturas da palavra e do espírito, como será o pai de bons filhos, como será ele mesmo bom pai, como engendrará filhos bons de acordo com a bondade de seu pai ? Se não for assim, o fruto será de tal modo à imagem da árvore Mt 7, 16-18; Mt 12,33; Lc 6,43-44)
55. A descrença é um mal, a pior semente má da avareza e da inveja. Mas, se é um mal, quão mais é o que faz nascer ? E quanto mais incitar os filhos dos homens à preferir o amor ao ouro ao amor do Cristo, coloca o Criador da matéria mais baixo que a própria matéria, e persuade a adorar muito mais que Deus aqueles que servem à criação no lugar do Criador (Rm1,25) e mudam em mentira a verdade de Deus (Rm1,25). Mas se esta doença é um tal mal que recebeu o nome de segunda idolatria (1Tm 6,10), de qual vício não transbordará a própria alma que se tornou doente desta forma ?
56. Se amas ser amigo do Cristo, desprezarás então o ouro e sua cobiça. Pois volta para o pensamento daquele que ama, e eleva ao dulcíssimo amor de Jesus, amor que acredito não está nas palavras, mas na realização de seus mandamentos (Jo14,15). Se desejas o ouro, oh infeliz, ganharás enterrando o que tens agora, se entretanto este amor que preferes ao do Cristo é um ganho (Fl 3,8) e não o último, é uma pena! Saibas que então serás privado dele, e que por esta infelicidade perderás Deus, que é teu fundamento. Sem ele o caminho da salvação é impossível para os homens.
57. Se tu amas o ouro, não amas o Cristo. Mas, se não amas o Cristo, se amas o ouro, vê à quem o tirano quer te fazer parecer. Àquele que foi o discípulo mais infiel, que foi amigo mais hostil, que ultrajou o mestre comum, perdeu miseravelmente a fé e o amor por ele, e caiu na grota do desespero. Teme seu exemplo, fuja do ouro e de seu amor por ele, crê-me, a fim de poder ganhar o Cristo, amando-te à ti mesmo. Mas, se se vai de outra maneira, sabes à qual lugar está predestinado àquele que caiu.
58. Mesmo se vês que podes ajudar as almas, nunca te apresses, pelo ouro ou pela concorrência com os homens, e às suas demanda, de ocupar o primeiro lugar sem o apelo de lá do alto. Pois não terás diante ti essas três coisas, e uma delas chegará. Ou, através de todas as espécies de agressões e de infelicidades, terás sobre ti a indignação e a cólera de Deus: não somente os homens te combaterão, mas, quase toda a criação, e a vida não te será senão uma longa queixa. Ou então, aqueles que terão sido mais fortes que ti te destronarão, e a vergonha será grande. Ou ainda levado à vida presente, morrerás antes de seu tempo.
59. Ninguém pode desprezar a glória e a desonra, nem superar a dor e o prazer, se não lhe foi dado [ de ver as coisas. Quando se viu, com efeito, reduzido à nada na morte que lhe sucede e a destrói, o fim de toda glória, de todo prazer, de todas delícias, de toda Riqueza ( vide: Evangelho de Tomé - Logion 29 ) e de todo conforto, conhece-se então a evidente vanidade de todas as coisas humanas, e volta-se seus sentidos em direção a finalidade das coisas divinas. Atém-se a o que é e o que nada pode corromper. E se leva consigo, supera-se a dor e o prazer. A dor, combatendo o amor da alma ao prazer, à glória e ao dinheiro. O prazer, rejeitando a sensação ( aisthesis ) do mundo. Assim na honra e na desonra permanece o mesmo. Na dor como no conforto do corpo, em tudo dá-se graças à Deus e não se rompe o pensamento.
60. O homem que se dedica à virtude deve também descobrir ao sonhar os movimentos e as disposições da alma e velar à seu estado. Pois, os movimentos do corpo e as imaginações da “inteligência” correspondem à disposição do homem interior e às suas preocupações. Se mantém-se a alma no amor da matéria e do prazer, procura-se com a imaginação a posse das coisas, o conforto do dinheiro, as formas da mulher, os abraços/beijos apaixonados, macula-se a túnica (S.Judas 23) e macula-se a carne (S.Judas 8). Se se mantém a alma ávida e avara, vê-se o ouro em toda parte, se exige-o, abusa-se dos juros, se recolhe-o nos tesouros, mas, falta compaixão e se é condenado. Se mantém-se a alma colérica e invejosa, é perseguido pelos felinos e pelas serpentes (vide: Naas ) venenosas, e se torna presa dos sustos e do medo. Se tem-se a alma inflada pela vanglória, vê-se aclamado envolvido pelo povo, imagina-se os tronos do poder e da Autoridade. Considera-se que tem-se o que ainda não tem, ou pelo menos que ter-se-á, e se está sempre em alerta. Se tem-se a alma orgulhosa e cheia de vaidade, vê-se levado nos mais belos veículos. Pode-se até ter asas e voar no ar. E todos tremem diante da altura deste poder. Assim o homem justo que ama a Deus, que se aplica à obra da virtude nos combates da piedade, que guarda sua alma pura de toda a matéria, vê em seu Sono o cumprimento das coisas futuras, e as revelações de visões terríveis. E quando se desperta, se surpreende a sempre rezar na “compunção” e no estado sossegado da alma e do corpo, as lágrimas sobre as faces, e nos lábios as palavras que disse à Deus.
61. As imagens que nos visitam durante o Sono são ou sonhos, ou visões, ou revelações. À categoria de sonhos pertence tudo na faculdade do intelecto, de formação de imagens, que é mutável — tudo que o confunde e sujeita constantemente a estados alterados. Nada temos a ganhar de tais imagens e se somos sensíveis deveríamos ignorá-las — com efeito, elas desaparecem por si só assim que acordamos. As visões por outro lado são constantes; uma não troca na outra, mas permanecem impressas no intelecto inesquecíveis por muitos anos. Aquelas que desvendam o resultado de coisas a vir, e assistem a alma por inspirá-la com compunção e a vista de maravilhas assustadoras, fazem aquele que as tem reflexivos e os choca com perplexidade por conta de sua constância e sua natureza assustadora. Logo são tratadas com grande seriedade por aqueles especializados em matérias espirituais. As revelações ocorrem quando a alma purificada e iluminada é capaz de contemplar em uma maneira que transcende à normal percepção dos sentidos. Têm a força das coisas e dos pensamentos miraculosos e divinos, nos iniciando nos ocultos mistérios de Deus, nos mostrando o resultado de nossos problemas mas importantes e a transformação universal das coisas mundanas e humanas.
62. A primeira categoria — aquela dos sonhos — pertence a pessoas materialistas de mentes sensuais que veneram sua barriga (cf. Fil 3,19) e são arrogantes em sua ultra-indulgência. Seu modo de vida dissoluto, poluído de paixões escurece seu intelecto, e são ridicularizadas e encantadas pelos demônios. A segunda categoria — aquela das visões — pertence àqueles bem avançados no caminho espiritual, que limparam os órgãos de percepção da alma. Beneficamente assistidos por coisas visíveis ascendem à apreensão sempre maior de coisas divinas. A terceira categoria — aquela das revelações — pertence àqueles que são perfeitos, que são energizados pelo Espírito Santo, e cuja alma através da oração mística está unido a Deus.
63. Coisas vistas no sono são verdades e impressas no intelecto espiritual no caso, não de todos, mas somente daqueles cujo intelecto está purificado, que limpou os órgão de percepção da alma e que está avançado em direção à contemplação das essências interiores das coisas criadas. Tais pessoas não se preocupam sobre questões do dia-a-dia, nem são perturbadas sobre esta vida presente. Através de longos jejuns adquiriram um autocontrole abrangente e através da exerção e dureza alcançaram o santuário de Deus, o conhecimento espiritual das coisas criadas e a sabedoria do mundo superior. Sua vida é a vida dos anjos e está oculta em Deus (cf. Col 5,3), seu progresso é baseado na quietude santa e nos profetas da Igreja de Deus. É deles que Deus falou através de Moisés, quando disse, «Se há um profeta entre vós, aparecerei para ele em seu sono e falarei para ele em uma visão» (cf. Num 12,6); e através de Joel, quando disse, «E virá a acontecer após estas coisas que derramarei Meu espírito sobre toda carne; e vossos filhos e vossas filhas deverão profetizar, vossos anciãos deverão sonhar sonhos e vossos jovens deverão ver visões» (Joel 2,28).
65. Se a alma, seus poderes desordenados, ainda está em luta consigo mesma e ainda não se tornou receptiva aos raios divinos, se ainda é escrava da vontade da carne e sem paz; e se sua batalha com as paixões rebeldes recentemente ainda não veio a terminar, ela precisa preservar estrito silêncio, de modo que com Davi também possa dizer: «Mas eu, como um surdo, não ouço; e eu era um imbecil que não abre sua boca» (Sal 38,13). Deveria estar cheio de pena e deveria andar tristemente ao longo do caminho dos mandamentos de Cristo; pois ainda é afligido pelo inimigo e espera a vinda do Paracleto, através de quem receberá o prêmio da verdadeira liberdade por sua compunção e lágrimas purificadoras.
66. Se geras o mel das virtudes em quietude, irás através do esforço e autodisciplina transcender o estado de baixeza da condição decadente do homem e pela superação de tua presunção restaurarás os poderes da alma a seu estado natural. Te coração purificado pelas lágrimas, agora se tornará receptivo aos raios do Espírito, te vestirá na incorrupção da morte vivificadora do Cristo (cf. 1Co 15,53; 1Co 4,10), e receberás o Paracleto em línguas de fogo na câmara superior de tua quietude (Cf. Atos 2,3). Estará então sob uma obrigação de falar sem reservas das obras maravilhosas de Deus (Cf. Atos 2,11) e «declarar Sua retidão na grande congregação» (Cf. Sal 40,10), pois terás recebido interiormente a lei do Espírito (cf. Jo 7,38; Rom 8,2); de outro modo, como o mau servidor que escondeu o talento de seus próprio mestre, será lançado no fogo eterno (cf. Mt 25,30). Assim foi com Davi, quando lavou seu pecado através do arrependimento e recebeu uma vez mais o dom da profecia; incapaz de esconder as bençãos que tinha recebido, disse a Deus, «Veja, não selarei meus lábios, como Tu, ó Senhor, sabe. Não escondi Tua retidão dentro de meu coração; declarei Tua verdade e Tua salvação; não escondi Teu perdão e Tua verdade da grande congregação» (Sal 40,9-10).
67. Um intelecto totalmente purgado das impurezas é como um céu cheio de estrelas que ilumina a alma com lúcidas intelecções; e o Sol da retidão (cf. Mal 4,2) brilha dentro dele, iluminando o mundo com conhecimento Divino. Purificada desta maneira, a consciência traz à tona das profundezas da sabedoria os princípios criativos e as revelações transparentes do que está oculto, e em seu estado puro e imaculado os coloca diante do intelecto, de modo que ele saiba a profundeza, altura e largura do conhecimento de Deus (cf. Ef 3,18). Quando o intelecto interiorizou estes princípios e revelações e os fez parte de sua própria natureza, então elucidará as profundidades do Espírito para todos aqueles que possuem o Espírito de Deus dentro de si mesmos, expondo a perfídia dos demônios e expondo os mistérios do Reino dos Céus.
68. Os desejos corporais e os impulsos da carne são checados pelo autocontrole, jejum e luta espiritual. Os fermentos psíquicos e as ambições do coração são atenuadas pela leitura das Escrituras Divinas e humilhadas pela oração constante, enquanto a compunção como óleo consola-os juntamente.
69. Nada assim te põe em comunhão com Deus e te une com o logos divino como a pura oração noética, quando oras sem distração no Espírito, tua alma purificada pelas lágrimas, derretida pela compunção e iluminada pela luz do Espírito.
70. A quantidade é muito importante na recitação oracional dos Salmos, desde que seja acompanhada de perseverança e atenção; mas a qualidade da nossa recitação é o que dá vida à alma e a faz frutífera. A qualidade na salmodia e oração consiste em orar com o Espírito e com o intelecto (cf. 1Co 14,15). Oramos com o intelecto quando, a Medida que dizemos as orações e recitamos os salmos, percebemos o significado oculto nas Escrituras Santas e assim colhemos no coração uma safra de mais e mais exaltados pensamentos divinos. Arrebatada espiritualmente por estes pensamentos às regiões de luz, a alma com uma clara radiância, é ainda mais purificada, eleva-se inteiramente aos céus, e contempla as beleza das bençãos armazenada para os santos. Por conta do anseio ardente por estas bençãos, lágrimas — o fruto da oração — de pronto correm de nossos olhos, induzidos pela energia criadora de luz do Espírito, seu sabor tão doce que em os experimentando pode-se mesmo esquecer de comer. Isto é o fruto da oração, concedido através da qualidade de sua salmodia na alma daqueles que oram.
71. Onde o fruto do Espírito está presente em uma pessoa, a oração é de tal qualidade; e onde há tal qualidade, a quantidade na recitação dos Salmos é excelente. Onde não há fruto espiritual, a qualidade é sem seiva. Se a qualidade é árida, a quantidade é inútil: mesmos se disciplina o corpo, para a maioria das pessoas não há ganho a ser disto obtido.
72. A Medida que oras e cantas os salmos ao Senhor, atentes para a perfídia dos demônios. Ou nos enganam a dizer uma coisa ao invés de outra, raptando a atenção da alma e virando os versos dos salmos em blasfêmias, de modo que dizemos coisas que não deveríamos dizer; ou, quando começamos com um salmo, nos causam saltar para o final dele, distraindo o intelecto daquilo que se encontra entre; ou também nos fazem voltar toda vez ao mesmo verso, através do lapso mental nos impedindo de ira ao que vem a seguir; ou, quando estamos no meio de um salmo, subitamente se dá um branco na memória do intelecto da sequência dos versos, de modo que não podemos nem mesmo lembrar que verso do salmo estávamos dizendo, e assim o repetimos de novo. Assim fazem para nos fazer negligentes e agitados, e privar-nos dos frutos de nossa oração por nos persuadir que não podemos ir adiante por causa do tardar da hora. Devemos perseverar fortemente, entretanto, e continuar o salmo mais lentamente, de modo que através da contemplação podemos colher o benefício da oração dos versos e ficarmos ricos com a luz do Espírito Santo que enche as almas daqueles que oram.
73. Se algo como tal acontece para ti quando estás «louvando com compreensão» (cf. Sal 47,7), não te tornes apressado ou agitado. Não opte pelo descanso corporal ao invés do benefício do espírito, assim justificando com base no tardar da hora. Mas quando realizas que teu intelecto se tornou distraído, pare a recitação; e embora possas estar próximo ao fim do salmo, bravamente volte ao início, diligentemente o reinicie, e o recite de novo, mesmo se, por causa da distração, tenhas que repetir este processo várias vezes em um única hora. Se assim fazes os demônios, incapazes de suportar tua paciente perseverança e teu ardor, ficarão envergonhados e te deixarão.
74. A oração incessante é a oração que não deixa a alma dia ou noite. Não consiste no que é exteriormente percebido — mãos elevadas, postura corporal, ou expressão verbal — mas em nossa concentração interior na atividade do intelecto e na concentração em Deus nascida da compunção inabalável; e pode ser percebida noeticamente por aqueles capazes de tal percepção.
75. Podes te devotar constantemente à oração somente quando teus pensamentos são conjugados sob o comando do intelecto, prescrutando em profunda paz e reverência dentro das profundezas de Deus e buscando lá o sabor das águas doces da contemplação. Quando esta paz não está presente, tal oração é impossível. Somente quando os poderes da alma são pacificados através do conhecimento espiritual podes alcançar a oração constante.
76. Se enquanto estias louvando uma oração de louvor a Deus, um de teus irmãos bate na porta de tua cela, não optes pelo trabalho da oração ao invés daquele do amor e ignore teu irmão, pois assim agir seria estranho a Deus. Deus deseja a misericórdia do amor, não o sacrifício da oração (cf. Hos 6,6). Ao invés, ponha de lado o dom da oração e fale com amor que cura ao teu irmão. Então com lágrimas e um coração contrito uma vez mais ofereça teu dom de oração ao Pai dos poderes espirituais, e um espírito reto será renovado dentro de ti (cf. Mt 5,23-24; Sal 51,10,17).
77. O mistério da oração não é consumado em um certo tempo específico ou lugar. Pois se restringes a oração a tempos ou lugares particulares, desperdiçarás o resto do tempo em buscas vãs. A oração pode ser definida como a interação incessante do intelecto com Deus. Sua tarefa é engajar a alma totalmente em coisas divinas, seu preenchimento — adaptar as palavras de São Paulo (cf. 1Co 6,17) — jaz em assim casar a mente a Deus de modo que ela se torne um espírito com Ele.
78. Embora tenhas morrido para teu eu mundano, e embora a vida tenha sido gerada em tua alma pelo Espírito Santo e Deus tenha te agraciado dons supernais, deverias ainda não deixar tua mente desocupada. Acostumes ela a pensar continuamente em teus pecados passados e as tormentas do inferno, e olhes a ti mesmo como um condenado. Se te preocupas a ti mesmo com estas coisas e olhas para ti deste modo, preservarás um espírito contrito e dentro de ti uma fonte de compunção fluirá com graça divina. Deus terá consideração por teu coração e o suportará com Seu Espírito.
79. Jejum controlado, acompanhado por vigílias, meditação e oração, rapidamente te traz para as fronteiras da apatheia. Neste ponto tua grande humildade libera a fonte de lágrimas dentro de ti e vagabundearás com amor por Deus. Quando tiveres alcançado este estado, entras na paz do Espírito que transcende todo intelecto destemido Fil 4,7) e através do amor estas unido a Deus.
80. Nenhum rei delicia-se tanto sobre sua glória e reino, ou exulta tanto em seu poder, como faz o monge sobre a apatheia de sua alma e sobre suas lágrimas de compunção. Pois o júbilo do rei se desvanecerá com seu reino, enquanto o monge será acompanhado por ilimitadas eras pela bendita apatheia e a alegria que alcançou. Ele move como uma roda entre homens durante a vida presente, tocando só levemente a terra e as coisas nela — e então simplesmente porque suas necessidades corporais o demandam; seu intelecto ascendendo através deste movimento circular inteiramente dentro da esfera celestial, em seu princípio é seu fim; e, coroado com a humildade, carrega em si mesmo os frutos da graça. Sua mesa está repleta com a contemplação das essências das coisas criadas, sua bebida é do cálice da Sabedoria e seu repouso está em Deus.
81. Se voluntariamente engajas nas obras de virtude e zelosamente persegues o caminho ascético, serás gratificado grandes dons por Deus. Enquanto aproximas da marca do meio, receberás revelações divinas e visões, e quanto maior teus esforços mais pleno de luz e sabedoria te tornarás. Ao mesmo tempo, maior as alturas da contemplação que alcanças, mais provocarás a inveja destrutiva dos demônios, pois eles não podem suportar ver um ser humano alcançar uma natureza angélica. Assim eles irão enganosamente te atacar com pensamentos de presunção. Mas se percebes sua intenção, e te prevines, tomas refúgio na fortaleza da humildade, escaparás a destruição do orgulho e entrarás no paraíso da salvação. Falhando isto, e abandonado por Deus, será entregue aos espíritos punitivos; e porque não te puseste voluntariamente à provação, eles te castigarão contra tua vontade. Carnais e amantes do prazer, cheios de malícia e raiva, estes espíritos cruelmente te humilharão com seus ataques até que reconheças tua própria fraqueza e, tomado de dor, te liberes da arapuca, dizendo com Davi: «É bom para mim que Tu tenhas me humilhado, de modo que eu possa aprender Teus mandamentos» (Sal 119,71, LXX).
82. Deus não nos quer sempre sendo humilhados pelas paixões e caçados por elas como caças, fazendo dEle somente nossa rocha e refúgio (cf. Sal 104,18); caso contrário Ele não teria afirmado, «Eu disse, vós sois deuses; e todos vós sois filhos do Altíssimo» (Sal 82,6). Mas Ele nos quer correndo como veados nas altas montanhas de Seus Mandamentos (cf. Sal 104,18, LXX), sedentos pelas águas criadoras de vida do Espírito (cf. Sal 42,1). Pois, dizem, é da natureza do veado comer serpentes; mas pela virtude do calor que eles geram através de estar sempre em movimento, eles estranhamente transformam o veneno das serpentes em almíscar e não lhes faz nenhum mal. De modo similar, quando pensamentos imbuídos de paixão invadem nossa mente deveríamos trazê-los a submissão através de nossa ardente perseguição dos mandamentos de Deus e do poder do Espírito, e assim transformá-los na prática fragrante e salutar da virtude. Desta maneira podemos tomar todo pensamento cativo e fazê-lo obedecer Cristo (cf. 2Co 10,5). Pois o mundo celestial deve ser preenchido, não com pessoas que são materialistas e imperfeitas, mas com aqueles que são espirituais e perfeitos — aqueles que avançaram à estatura da humanidade perfeita na plenitude de Cristo (cf. Ef 4,13).
83. Uma pessoa que continua girando e girando no mesmo lugar e não quer fazer qualquer progresso espiritual é como uma mula que gira e gira operando um moinho de água. Estar sempre batalhando com as proclividades carnais e estar ocupado somente com disciplinar o corpo através de várias formas de trabalho ascético é confundir o propósito de Deus e não intencionalmente infligir grande dano a ti mesmo. «O ganho a ser obtido da disciplina corporal é apenas limitado», diz São Paulo (1Tim 4,8) — de qualquer modo enquanto a vontade terrena da carne não tiver sido engolida em lágrimas de arrependimentos, enquanto a vivificadora mortalidade do Espírito não tiver prevalecido em nosso corpo, e a lei do Espírito não reine em nossa carne mortal. Mas a verdadeira devoção da alma alcançada pelo conhecimento espiritual das coisas criadas e de suas essências imortais é como uma árvore da vida dentro da atividade espiritual do intelecto: é «benéfico em todas as coisas» (cf. 1Tim 4,8) e em toda parte, concedendo pureza de coração, pacificando os poderes da alma, dando luz ao intelecto e castidade ao corpo, e conferindo restringimento, autocontrole todo abarcante, humildade, compunção, amor, santidade, conhecimento celestial, sabdeoria divina, e a contemplação de Deus. Se, então, como um resultado de grande disciplina espiritual tiveres alcançado tal perfeição de verdadeira devoção terás cruzado o Mar Vermelho das paixões e terás entrado a terra prometida, da qual flui o leite e o mel do conhecimento Divino (cf. Ex 3,8), e o inexaurível deleite dos santos.
84. Se persistes em agir de uma maneira que é unilateral e de benefício limitado e não escolhes fazer o que é benéfico a todo modo, ainda — em conformidade com o grau elevado de Deus — comerás pão grosseiro com o suor de tua testa (cf. Gen 3,19). Tua alma não sente apetite pelo maná espiritual e o mel que flui para Israel da fenda na rocha (cf. Deut. 32,13; Sal 81,16). Se, entretanto, ouvistes as palavras, «Eleva-te, vamos assim» (Jo 14,31); se, em resposta à Chamada do Mestre, pões de lado trabalho assíduo e paras de comer o pão, repudiando a percepção meramente material e saboreando a tigela da sabedoria de Deus, então saberás que o Cristo é o Senhor; pois, tendo preenchido a lei dos mandamentos através do ministério ao divino logos, terás ascendido na câmara superior e estará esperando a vinda do Paracleto (cf. Atos 2,1-4).
85. Devemos sempre progredir de acordo com os níveis e degraus de uma vida dedicada à sabedoria e ascender assiduamente em direção ao mundo superior avançando em direção a Deus e nunca estático em nossa aspiração em direção a beleza supernal. Devemos avançar da prática ascética à contemplação das essências dos seres criados, e assim para o conhecimento místico do divino Logos. Lá podemos desapegar de todas as formas externas de disciplina corporal, posto que teremos nos elevado acima do estado inferior do corpo e teremos sido agraciados a lucidez da verdadeira discriminação. Se ainda não tivermos sido agraciados essa lucidez não saberemos como tomar o próximo passo e perseguir o que é mais perfeito. Estaremos em uma ainda pior condição do que aqueles «no mundo»; pois muitos deles não estabelecem qualquer limite a suas ambições, e não param em sua ascensão, até que tenham alcançado o nível mais alto de todos; e só então ficam satisfeitos.
86. Purificados através do trabalho ascético fervoroso, a alma é iluminada pela luz divina e começa pouco a pouco a perceber a beleza natural que Deus originalmente a concedeu e expandir em amor por seu Criador. E como através de sua purificação os raios do Sol da retidão crescem mais lúcidos nela, e sua beleza natural é crescentemente a ela revelada e reconhecida, a fim de que se torne ainda mais pura estende sua prática ascética. Desta maneira adquire uma visão clara da glória do dom que recebeu, e retoma sua nobreza anterior e restaura para seu Criador Sua própria imagem pura e imaculada. E continua a adicionar a seus trabalhos até que tenha se limpado a si mesma de toda mácula e impureza e é privilegiada a contemplar e comungar com Deus.
87. «Abra meus olhos e perceberei as maravilhas de Tua lei» (Sal 119,18). Assim aquele que ainda é coberto pela bruma de sua vontade terrestre clama a Deus. Pois a ignorância de seu mente mundana, toda nebulosa e obscura, recobre a visão da alma de modo que não pode apreender coisas sejam divinas ou humanas; não pode perceber os raios da luz divina e desfrutar as bençãos que «o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e o coração do homem não apreendeu» (1Co 2,9). Mas quando através do arrependimento sua visão foi restaurada, ela vê estas coisas claramente, as ouve com compreensão e as intui intelectualmente. Não apenas isto, mas também assimila coisas mais exaltadas que, aprontadas por estas intelecções, elevam-se em seu coração; e, tendo saboreado sua doçura, seu conhecimento cresce mais lúcido. Pode então, na luz da sabedoria de Deus, explicar a todos a natureza das benção divinas «que Deus preparou para aqueles que O amam» (1Co 2,9); e exorta todos a seguir o caminho de luta e lágrimas a fim de compartilhar com eles.
88. A Escritura enumera sete dons do Espírito, começando com a sabedoria e terminando com o temor divino do Espírito; pois fala do «espírito de sabedoria, do espírito de compreensão, do espírito de aconselhamento, do espírito de força, do espírito de conhecimento divino, do espírito de reverência, do espírito do temor de Deus» (cf. Isa 11,2). Mas nós de nossa parte deveríamos começar com o temor que purifica — quer dizer, com o temor de punição; desta maneira, primeiro repudiando o mal e através do arrependimento das máculas do pecado, possamos alcançar o puro temor do Espírito. Tendo uma vez alcançado isto, podemos pôr de lado nossas lutas pela virtude.
89. Se começas com o temor do julgamento e através das lágrimas de arrependimento avança para a pureza do coração, serás primeiro preenchido com sabedoria, posto que, como está escrito, temor é «co princípio da sabedoria» (Prov 1,7). Será então preenchido simultaneamente com o espírito da compreensão e do aconselhamento, e isto te capacitará a resolver questões no caminho que é melhor para ti. Tendo alcançado este estágio através da prática dos mandamentos, então avanças para a apercepção espiritual do ser criado e recebes a mais exata compreensão de coisas divinas e humanas. Doravante, inteiramente transformado em um tabernáculo de santidade, ascendes à citadela de amor e és feito perfeito. De pronto o puro temor do Espírito te apreende, de modo que podes guardar o tesouro do reino do céu do qual te tornastes um repositório. Tal lágrima possui grande poder salvador; pois quando tiveres sido exaltado ao pináculo do amor de Deus ela te faz temeroso e pleno de inquietude enquanto escapas deste amor e és jogado uma vez mais no temor terrível da punição.
90. A leitura das Escrituras significa uma coisa para aqueles que recentemente abraçaram a vida de santidade, outra para aqueles que alcançaram o estado do meio, e outra para aqueles que estão movendo rapidamente em direção à perfeição. Para o primeiro, as Escrituras são pão para a mesa de Deus, fortalecendo seus corações (cf. Sal 104,15) no santo combate pela virtude e os preenchendo com força, poder e coragem em sua batalha contra os espíritos que ativam as paixões, de modo que podem dizer, «Para mim Tu preparastes uma mesa com alimento contra meus inimigos» Sal 23,5). Para o segundo, as Escrituras são vinho do cálice de Deus, alegrando seus corações (Cf. Sal 104,15) e os transformando através do poder do significado interior, de modo que seu intelecto é elevado acima da letra que mata e conduzido em busca nas profundezas do Espírito (cf. 2Co 3,6; 1Co 2,10. Desta maneira eles são capacitados a descobrir e dar a luz ao significado interior, de modo que adequadamente podem exclamar, «Teu cálice me deixa embriagado com o vinho mais forte» (Sal 23,5), LXX). LXX). Finalmente, para aqueles se aproximando da perfeição as Escrituras são o óleo do Espírito Santo (cf. Sal 104,15), ungindo a alma, a fazendo gentil e humilde através do excesso da iluminação divina que confere, e elevando-a integralmente acima da baixesa do corpo, de modo que em sua glória ela pode clamar, «Tu ungistes minha cabeça com óleo» (Sal 23,5) e «Tua misericórdia deve me seguir todos os dias de minha vida» (Sal 23,6).
91. Enquanto nos dedicamos a Deus através de manter os mandamentos ao suor de nossa testa, e desta maneira diminuir as paixões da carne, o Senhor ceia conosco à mesa de Seus dons o pão fortalecedor do coração, de cada dia, que é cultivado através da prática das virtudes. Mas quando por alcançar a apatheia santificamos Seu nome (cf. Mt 6,9), e Ele Ele mesmo reina em todas as faculdades de nossa alma, tendo trazido sob controle e pacificado o que estava em um estado de cisma — tendo, assim dizendo, submetido nossa consciência inferior a nossa consciência superior — e quando desta maneira Sua vontade é feita em nós como é no céu (cf. Mt 6,10), então Ele bebe conosco em Seu reino — que agora é ativamente presente dentro de nós — uma inconcebível nova bebida (cf. Mc 14,25), a bebida da sabedoria do Logo misturada com compunção e o conhecimento dos grandes mistérios. De pronto nos tornamos parceiros do Espírito Santo, transformados através da renovação de nosso intelecto (cf. Rom 12,2), então como Deus Ele irá cear conosco como deuses: pois Ele torna imortal o que Ele tenha feito Ele próprio.
92. Quando a água indomada dos pensamentos carregados de paixão do intelecto tiver sido domada através da presença inabalável do Espírito Santo, e o abismo amargo das indecentes imagens e desejos tiver sido posto submisso através de autocontrole e meditação sobre a morte, então o espírito Divino de arrependimento começa a sopra e as águas de compunção derramam; e nosso Deus e Mestre, as canalizando dentro da bacia de arrependimento, lava nossos pés espirituais, fazendo-os merecedores de caminhar nas cortes de Seu reino.
93. O logos de Deus, tendo assumido carne e dado nossa natureza subsistência nEle mesmo, tornando-se homem perfeito, inteiramente livre do pecado, tem, como perfeito Deus, remodelado nossa natureza e a feito divina. Como Logos do intelecto primal e Deus, Ele uniu Ele mesmo a nossa inteligência, a dando asas de modo que possa conceber pensamentos divinos, exaltados. Porque Ele é fogo. Ele tem com o verdadeiro fogo divino encouraçado o poder irascível da alma contra as paixões hostis e demônios. A aspiração de todo ser inteligente e o repouso do desejo. Ele tem em Seu amor profundamente assentado dilatado o aspecto apetitivo da alma de modo que pode partilhar as bençãos da Vida Eterna. Tendo assim renovado a integralidade do homem nEle mesmo, Ele o restaura em um ato de re-criação que não deixa bases para qualquer reprovação contra o Logos-Criador.
94. Desempenhando nEle mesmo o mistério sagrado de nossa re-criação, o Logos oferece Ele mesmo em nosso nome através de Sua morte na cruz, e Ele continuamente oferece Ele mesmo, dando Seu corpo imaculado para nós diariamente como um banquete nutridor da alma, de modo que o comento e bebendo Seu precioso sangue podemos através desta participação conscientemente crescer em estatura espiritual. Comunicando em Seu corpo e sangue e remodelado em uma forma mais pura, somos unidos ao Logo duplamente divino-humano de duas maneiras, em nosso corpo e em nossa alma deiforme; pois Ele é Deus encarnado cuja carne é a mesma em essência que nossa própria. Assim não pertencemos a nós mesmos, mas a Ele que nos uniu a Ele mesmo através desta ceia imortal e nos fez por adoção o que Ele El mesmo é por natureza.
95. Se, então, testado nos trabalhos da virtude e purificados pelas lágrimas, avançamos e comemos deste pão e bebemos deste cálice, o Logos divino-humano em Sua gentileza é comisturado com nossas duas faculdades naturais, com nossa alma e corpo; e como Deus encarnado, uno conosco em essência com relação a nossa natureza humana, Ele nos remodela totalmente nEle mesmo, integralmente nos deificando através do conhecimento divino e nos unindo com Ele mesmo como Seus irmãos, conformados a Ele que é Deus coessencial com o Pai. Se, entretanto, somos negados com a materialidades das paixões e assolados com o pecado, Ele nos visita com Seu fogo natural devorador de almas, nos acendendo e nos consumindo inteiramente, e nos separando da vida, não porque em Sua bondade Ele quer assim fazer, mas porque Ele é constrangido a fazê-lo por nossa indiferença e falta de percepção espiritual.
96. Invisivelmente o Senhor aproxima-se de todos aqueles que praticando as virtudes começaram a trilhar o caminho de Seus mandamentos, e Ele os mantém companhia apesar de eles serem ainda imperfeitos em compreensão e ainda inseguros quanto à verdadeira natureza da virtude. Os olhos de sua alma não podem justamente neste momento reconhecer seu próprio progresso, enquanto o Senhor marcha com eles, coopera com eles em seus esforços para ser liberados das paixões, e os assiste no atingimento de toda forma de virtude. Pois embora eles avancem na luta pela santidade, e através da humildade aproximem-se do estado de apatheia, o Logos não os quer vindo a parar, exauridos por seus trabalhos; ao invés Ele os deseja avançando ainda mais e elevando-se ao estado de contemplação. Assim, os tendo alimentado em moderação no pão das lágrimas, Ele os abençoa com a luz da compunção e os abre seu intelecto de modo que podem compreender as profundezas da Escritura Santa e assim perceber a natureza e a essência interior de tudo que existe. Neste ponto Ele abruptamente retira-se deles de modo que se elevem eles mesmos e busquem mais zelosamente aprender o que é significado pelo conhecimento espiritual das coisas e o que é a exaltação que isto traz. Assim aprontados a perseguir este conhecimento mais diligentemente, eles se tornam ministros do Logos em uma maneira ainda mais elevada e proclamam a todos a ressurreição consumada através da prática das virtudes e da contemplação do Logos (cf. Lc 24,13-35).
97. O Logos justificavelmente rechaça a lentidão daqueles que gastam seu tempo na prática das virtudes e não desejam avançar além disto e elevar-se ao mais alto estado de contemplação. «Tolos e lentos de coração», Ele os chama (Lc 24,25) — lentos a pôr sua confiança nEle que pode revelar o sentido da contemplação dos princípios interiores do mundo criado a todos que espiritualmente exploram as profundezas do Espírito. Pois não desejar progredir das lutas iniciais àquelas que são mais avançadas, e passar do sentido «exterior» ou literal da Escritura Santa a seu sentido interior ou espiritual, é um sinal da alma negligente, uma alma com nenhum gosto pelo benefício espiritual e extremamente ressentida sobre seu próprio avanço. Tal alma, posto que sua lâmpada está apagada, será não somente mandada ir e comprar daqueles que a vendem; mas, encontrando a câmara nupcial fechada para ela, ouvirá também as palavras, «Vão embora, não as conheço ou de onde vêm» (cf. Mt 25,9-12).
98. Quando o Logos de Deus entra uma alma caída — como Ele entrou a cidade de Betânia (Cf. Jo 11,17) — a fim de ressuscitar seu intelecto, morto de pecado e enterrado sob a corrupção das paixões, então robusta compreensão e justiça, mergulhou em dor pela morte do intelecto, veio como pranteadores para encontrá-lO, e disseram, «Se tivesses aqui estado conosco, guardando e mantendo vigília, nosso irmão intelecto não teria morrido por causa de pecado» (cf. Jo 11,32). Então a justiça ansiosamente tenderá ao Logos através da prática das virtudes e desejará preparar um meni de várias espécies de durezas; mas robusta compreensão, deixando de lado todas as outras preocupações e empreendimentos ascéticos, devotará a si mesma somente ao trabalho espiritual, agarrando-se ao discurso espiritual do Logos e atenta às intelecções levantando-se de sua contemplação dEle. Assim embora o Logos reconheça a justiça e seu esforço para alimentá-lO generosamente através de várias formas de atividade prática. Ele ainda a rechaça pois sempre estando ansioso sobre tantos trabalhos exteriores e por engajamento no que é apenas de benefício limitado (cf. 1Tim1Tim 4,8). Uma coisa somente é necessária a fim de servir o Logos, e isso é a sujeição, através de trabalhos de virtude, da consciência inferior à consciência superior, e a transformação da propensão da alma para o terrestre em aspiração espiritual. Robusta compreensão, entretanto, o Logos louva, e une com Ele mesmo de uma maneira que está de acordo com Sua natureza, pois foi escolheu «a melhor parte» — o conhecimento do Espírito pelo qual, transcendendo coisas humanas, penetra nas profundezas do Divino. Aqui para seu grande benefício ela busca a pérola do Logos (cf. Mt 13,45-46), vê os tesouros ocultos do Espírito (cf. Mt 13,44), e é preenchida com uma alegria inexpressível que não será tomada dela (cf. Lc 10,38-42).
99. O intelecto que foi morto pelas paixões e de novo trouxe à vida pela presença residente do Logos divino afastou a pedra do túmulo da insensibilidade tórpida e foi liberada do manto de pecado e dos pensamentos corruptos pelos servos do Logos, medo da punição e trabalho ascético. Tendo testado a luz da vida eterna, é liberada em apatheia (cf. Jo 11,38-43). Doravante ela se entrona a si mesmo sobre os sentidos e, tendo em pureza celebrado o mistério da iniciação, consorcia com Cristo o Logos, levantando com Ele da terra ao céu, e reinando com Ele no reino de Deus o Pai, todos seus desejos extinguidos.
100. A restituição que será consumada nos tempos que vêm depois que a dissolução do corpo se tornou claramente evidente mesmo agora, através da inspiração e atividade interior do Espírito, naqueles que verdadeiramente se esforçaram, atravessaram o ponto médio do caminho espiritual, e se fizeram perfeito de acordo com a «Medida da estatura da plenitude de Cristo» (Ef 4,13). Sua alegria é eterna, em luz eterna, e sua benção é desse estado final. Pois alegria incessante possui os corações daqueles que nesta vida presente estão justamente lutando o Combate Espiritual, e a satisfação do Espírito Santo os abraça — uma satisfação que, de acordo com as palavras do Senhor, não será tomada deles (cf. Lc 10,42). Assim aquele que nesta vida presente é privilegiado a experimentar a presença permanente do Paracleto, e através do cultivo das virtudes delicia-se em Seus frutos e é enriquecido por Seus divinos dons, é preenchido com alegria e com todo amor, pois o medo o deixou inteiramente. Alegremente é liberado das amarras do corpo e alegremente transcende o mundo das coisas visíveis, já sendo liberado de seu apego sensorial a elas. Repousa na alegria inexprimível da luz na qual habita todo o que se deleita (Cf. Sal 87,7, LXX), mesmo de seu corpo frequentemente experimenta dor em sua dissolução e no rompimento de sua união com a alma, e sofre de várias maneiras, como uma mulher durante um parto difícil.
