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CAPÍTULOS GNÓSTICOS

Nicetas Stethatos — CENTÚRIAS

Tradução feita das versões inglesa e francesa da Philokalia. Contribuição e tradução de Antonio Carneiro. Philocalie des Pères Neptiques, Nicétas Stéthatos, Abbaye de Bellefontaine, 1982, 183 p., ISBN 2.85589.954.0, tradução francesa da 4a. edição grega de Atenas, 1976, sob a responsabilidade de P. Boris BOBRINSKOY e do Grupo de Tradução da PHILOCALIE, este fascículo 4 foi revisto por R.P.Lucien REGNAULT, OSB, monge de Solesmes, introdução e tradução de Jacques Touraille.

Do Conhecimento Espiritual, Amor e a Perfeição de viver: Cem Textos

1. Deus é Intelecto desapaixonado (apatheia), além de todo intelecto e além de toda forma de apatia (apatheia); Ele é Luz e a fonte da luz abençoada. Ele é Sabedoria, Inteligência e Conhecimento espiritual, e o dador de sabedoria, inteligência e conhecimento espiritual. Se por conta de tua pureza estas qualidades foram concedidas para ti e estão ricamente presentes em ti, então este Dentro de ti que se conforma com a imagem de deus foi seguramente preservada e és agora um Filho de Deus pelo Espírito Santo; pois “todos que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rom. 8:14).

2. Aqueles que através da prática ascética limpam-se eles mesmos “de toda poluição da carne e espírito” (2 Cor. 7:1) recebem os dons do Espírito Santo e assim se tornam vasos da realidade imortal. Tendo atingido este nível eles são preenchidos com a luz da glória. Seus corações agora serenos e em paz, eles exprimem palavras abençoadas, e a sabedoria-conhecimento de Deus das coisas divinas e humanas flui de seus conselhos, enquanto sua inteligência não perturbada interpreta as profundezas dos Santos Espíritos. Uma vez que tenham sido unidos com Deus e ter experienciado uma transformação abençoada, a lei não é mais comprometida com tais pessoas ( Gal. 5:23).

3. Aquele que de todo coração e assiduamente dirige-se para Deus alcança tal virtude da alma e corpo que se torna um espelho da imagem divina. Ele é tão comisturado com Deus, e Deus com ele, que cada um repousa no outro. Por causa das riquezas dos dons do Espírito que ele recebeu, doravante ele é e aparece ser uma imagem da benção divina e deus por adoção, deus sendo o aperfeiçoador de sua perfeição.

4. Somente em ignorância se afirmaria que o homem é criado à imagem de Deus com respeito a estrutura orgânica de seu corpo. Ele é à imagem pela virtude da natureza espiritual de seu intelecto, que não é circunscrito pleo peso morto do corpo. Posto que a natureza divina está fora de todo ser criado e de toda vulgaridade material, não está circunscrita, mas é ilimitada e incorpórea, além da substância e de toda condição, sem qualidades, impalpável, não quantificável, invisível, imortal, incompreensível e totalmente além de nossa apreensão. Similarmente, a natureza espiritual nos dada por Deus é incircunscrita e fora da vulgaridade material deste mundo, e assim é incorpórea, invisível, impalpável, incompreensível, e uma imagem de Sua glória eterna e imortal.

5. Posto que Deus, como Rei soberano de tudo, é Intelecto primordial, Ele possui dentro dEle mesmo Seu logos e Seu Espírito, coessencial e coeterno com Ele. Ele nunca está sem o Logos e o Espírito porque a natureza divina é una e indivisível; nem é Ele a ser confundido com Eles, pois as três hipóstases em Deus são distintas e inconfundíveis. Assim em gerando naturalmente o Logos de Sua essência, o Pai não é Separado dEle posto que Ele é Ele mesmo indivisível. O Logos coeterno, não separado de seu Gerador, possui o Espírito, que procede eternamente do Pai (cf. Jo 15,26) e partilha com o Logos a mesma natureza não originada. Pois a natureza de ambos, Logos e Espírito, é una e não dividida, mesmo embora pela virtude da distinção das hipóstases o Deus uno seja dividido em pessoas e seja glorificado como a Trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. No entanto as pessoas, posto que Elas constituem uma natureza e um Deus, nunca são separadas da co-eterna essência e natureza. Observe, então, uma imagem desta tri-hipostática e única natureza divina no homem, que é criado por sua natureza e é à imagem dela, não de acordo com seus si visível mas de acordo com seu si espiritual, não de acordo com o que é mortal e perecível nele mas de acordo com o que é imortal e sempre o mesmo.

6. Deus é Intelecto e transcende as criaturas que em Sua Sabedoria Ele criou; todavia Ele também imutavelmente gera o Logos como seu lugar de morada, e, como a Escritura diz (cf. Jo 14,26), envia o Espírito Santo para dotá-los com poder. Ele é assim tanto fora de todas as coisas e dentro de todas as coisas. Similarmente, o homem participa da natureza divina, e de acordo com seu si mesmo espiritual — quer dizer, como uma alma espiritual, incorpórea e imortal — é uma imagem de Deus, e possui um intelecto o qual naturalmente doa consciência de sua essência; e em virtude de tudo isto mantém o poder do corpo. Ele é assim tanto fora da matéria e das coisas visíveis, como dentro delas. E assim como o Pai criou o homem inseparável das outras duas hipóstases — ou seja, so Logos e do Espírito — assim a alma do homem é indivisível de seu intelecto e sua consciência, pois são de uma natureza e essência — uma essência incircunscrita pelo corpo.

7. Posto que a Deidade é adorada nas três hipóstases do Pai, Filho e Espírito Santo, a imagem formada por Ele — qual seja o homem — também subsiste em uma divisão tripartita, adorando Deus, o Criador de todas as coisas de coisas que não são, com alma, intelecto e consciência. Assim, as coisas pela natureza coeterna e coessencial dentro de Deus são também intrínsecas a e coessenciais com Sua imagem. Elas constituem a imagem divina em nós e através delas eu sou uma imagem de Deus, embora eu seja um composto de barro e imagem divina.

8. A imagem de Deus é uma coisa, e aquilo que é contemplado na imagem é outra. Pois a imagem de Deus é a alma noética, o intelecto e a consciência, que forma uma natureza invisível. O que é contemplado na imagem é o que é soberano, real e auto-determinativo. Assim a glória do intelecto é uma coisa, sua dignidade é outra, seu ser na imagem de Deus é outra, e seu ser em Sua semelhança é outra (cf. Gen. 1,26). A glória do intelecto é seu poder de ascensão, seu constante movimento para cima, sua acuidade, pureza, compreensão, sabedoria e imortalidade. A dignidade do intelecto jaz em sua inteligência, sua natureza real e soberana, e seu poder de auto-determinação. Seu ser na imagem de Deus reside na auto-subsistência da alma, intelecto e consciência e em sua coessencialidade, indivisibilidade e inseparabilidade. Pois intelecto e consciência pertencem à alma noética, divina, imortal e incorpórea; estes três são coessenciais e coeternos, e nunca podem ser divididos ou separados um do outro. O ser do intelecto à semelhança de Deus reside em sua justiça, verdade, amor, simpatia e compaixão. Quando estas qualidade são energizadas e guardadas em uma pessoa, aquilo que está na imagem e semelhança de Deus é manifestado claramente nela; ela age, quer dizer, de acordo com a natureza e desfruta uma dignidade mais alta que outras.

9. A alma deiforme tripartita possui dois aspectos, um noético e o outro passível. O aspecto noético, sendo à imagem da alma do Criador, não é condicionado pelos sentidos, é invisível a eles e não é limitado por eles, posto que é tanto exterior a eles e interior a eles. É pela virtude deste aspecto que a alma comunica com os poderes divinos e espirituais e, através do conhecimento sagrado dos seres criados, ascende naturalmente para Deus como seu arquétipo, assim entrando no desfrute de Sua natureza divina. O aspecto passível é partilhado entre os sentidos e está sujeito às paixões e dirigido à auto-indulgência. É pela virtude deste aspecto que a alma comunga com o mundo que é perceptível aos sentidos e obtém nutrição e crescimento; e desta maneira respira o ar, experimenta frio e calor, e recebe sustentação e crescimento para auto-preservação, vida, crescimento e saúde. Assim o aspecto passível é modificado pelo que toma contato, é algumas vezes incitado por impulsos contrários à natureza e desenvolve desejos desordenados; outras vezes é provocado e levado por ódio demente, ou é sujeito à fome e sede, a tristeza e dor, e finalmente à dissolução física; deleita-se em auto-indulgência, mas deprime-se na aflição. Assim é justamente chamado o aspecto passível da alma, posto que é encontrado na companhia das paixões. Quando o aspecto noético da alma domina e seu aspecto mortal é devorado pelo Logos da vida (cf. 2 Cor. 5,4), então a vida de Jesus é também manifestada em nossa carne mortal (cf. 2 Cor. 4,11) produzindo em nós a apatia da morte vivificante, e conferindo a incorrupção da imortalidade em resposta a nossa aspiração espiritual.

10. Anteriormente a Sua criação de todas as coisas do nada, o Criador possuía nEle mesmo o conhecimento e os princípios intrínsecos e essências de tudo que Ele trouxe à existência, pois Ele é soberano sobre as eras e têm conhecimento prévio de todas elas. Correspondentemente, quando em Sua imagem Ele modelou o homem como o soberano da criação. Ele o dotou com o conhecimento e os princípios intrínsecos e essências de todas as coisas criadas. Assim através de sua criação o homem possui as qualidade secas e frias do fluido gástrico do corpo, da terra, as qualidades mornas e úmidas do sangue, do ar e do fogo, as qualidades úmidas e frias do fleugma, da água, o poder de crescimento das plantas, o poder de nutrição dos zoófitos, seus aspecto passível dos animais, seus aspecto noético e espiritual dos anjos, e finalmente, a fim de existir e viver, sua respiração imaterial — sua alma imortal e incorpórea, compreendida como intelecto, consciência e poder do Espírito Santo — de Deus.

11. Deus nos criou em Sua imagem e semelhança (cf. Gen 1,26). Somos em Sua semelhança se possuímos virtude e compreensão; pois «Sua virtude cobriu os céus, e a terra estava plena de sua compreensão» (cf. Hab. 3,3). A virtude de Deus é Sua justiça, santidade e verdade: como Davi diz, «Tu és justo, Ó Senhor, e Tua verdade é Te cerca» (cf. Sal. 89,8, LXX); e de novo. «O Senhor é justo e santo» (cf. Sal. 145,17). Somo também à semelhança de Deus se possuímos retidão e bondade, pois «bom e reto é o Senhor» (Sal. 25,8); ou se estamos consciente da sabedoria e conhecimento espiritual, pois estes estão com Ele e Ele é chamado Sabedoria e logos; ou se possuímos santidade e perfeição, posto que Ele Ele mesmo disse, «Deves ser perfeito, como teu Pai celestial é perfeito» (Mt. 5,48), e, «Deves ser santo, pois sou santo» (Lev. 11,44; 1 Pe 1,16); ou se somos humildes e gentis, pois está escrito «Aprendam de Mim, pois sou gentil e humilde no coração, e encontrarás repouso para tuas almas» (Mt. 11,29).

12. Posto que nosso intelecto é uma imagem de Deus, é verdadeiro para si mesmo quando permanece entre as coisas que são propriamente suas próprias e não divagam de sua própria dignidade e natureza. Assim ama habitar entre coisas próximas a Deus, e busca unir a si mesmo com Ele, de quem teve sua origem, por que, é ativado, e em direção a quem ascende por meio de suas capacidades naturais; e deseja imitá-lO em sua compaixão e simplicidade. Tal intelecto até gera o Logos, e recria como novos céus as almas afim dele, fortalecendo-os na paciente prática das virtudes; e concede vida a eles através do poder espiritual de seu conselho, provendo-os com a força para resistir as paixões destrutivas. Se, então, verdadeiramente imita Deus, se torna ele mesmo também um criador tanto do mundo noético e do macrocosmo, e claramente ouve as palavras de Deus, «Aquele que extrai o que é precisos do que é vil será como minha boca» (cf. Jer. 15,19).

13. Aquele que adere restritamente a essas atividades do intelecto que acordam com sua natureza e afirma a dignidade da inteligência, é mantido imaculado pelas preocupações materiais, é investido com gentileza, humildade, amor e compaixão, e é iluminado pelo Espírito Santo. Sua atenção focada nas esferas superiores da atividade contemplativa, ele é iniciado nos mistérios ocultos de Deus, e através da sabedoria ele amavelmente ministra àqueles que são capazes de aprender sobre estas coisas. Desta maneira ele não usa seu talento somente para seu próprio benefício, mas também compartilha sua bendição com seu companheiros.

14. Exalte o Uno sobre a díade — o único sobre o dual — e libere sua nobilidade de todo comércio com dualismo, e consorciarás imaterialmente com os espíritos imateriais; pois terás te tornado um espírito noético, embora pareças habitar corporalmente entre outros homens.

15. Uma vez que tenhas trazido apego à díade, à sujeição à dignidade e natureza do Uno, terás submetido a totalidade da criação à Deus; pois terás trazido à unidade o que era dividido e terás reconciliado todas as coisas.

16. Enquanto a natureza dos poderes dentro de nós está em um estado de discordância interior e está dispersada entre muitas coisas contrárias, não participamos nos dons sobrenaturais de Deus. E se não participamos nestes dons, estamos também longe da Eucaristia mística do santuário celestial, celebrada pelo intelecto através da atividade espiritual. Quando através de trabalhos assíduos tenhamos purgado nós mesmos da crudez do mal e tenhamos reconciliado nossa discórdia interior através do poder do Espírito, então participamos das benção inefáveis de Deus, e valorosamente celebramos os mistérios divinos da eucaristia mística do intelecto com Deus o Logos em seu santuário espiritual e supracelestial; pois nos tornamos iniciados e sacerdotes de Seus mistérios imortais.

17. Nosso si mesmo decadente deseja de uma maneira que opõe nosso si mesmo espiritual, nosso si mesmo espiritual de uma maneira que opõe nosso si mesmo decadente (cf. Gal 5,17); e nas incessante luta entre os dois cada um esforça-se pela vitória e controle sobre o outro. Esta contrariedade dentro de nós é também Chamada «discórdia», «virada», «equilíbrio» e «dupla luta»; e se o intelecto toca o equilíbrio em direção a um ato de paixão humana a alma é fragmentada.

18. Enquanto somos roubados pelo tumulto de nossos pensamentos, e enquanto somos regidos e constrangidos por nosso si mesmo decadente, somos auto-fragmentados e cortados da Mônada divina, posto que não fizemos nossas próprias as riquezas de sua unidade. Mas quando nossa mortalidade é tragada pelo poder unificador da Mônada e adquire um desapego supernatural, quando o intelecto se torna mestre de si mesmo, iluminado por suas intelecções engendradoras de sabedoria, então a alma, em um abraço sagrado com o Uno, é liberada da discórdia e se torna uma unidade; involucrada na Mônada divina, é unificada em uma simplicidade divina. Tal é a natureza da restauração da alma a seu estado original e tal nossa renovação em um estado ainda mais exaltado.

19. A ignorância é terrível e mais do que terrível, uma escuridão verdadeiramente palpável (cf. Ex 10,21). As almas sugadas pela ignorância são tenebrosas, seu pensamento é fragmentado, e são apartadas da união com Deus. Sua finalidade é inanidade, posto que torna a totalidade da pessoa insana e insensata. Cobrindo-se de vulgaridade, mergulha a alma nas profundezas do inferno, onde há todo tipo de punição e dor, perigo e angústia. Inversamente, o conhecimento Divino é luminoso e interminavelmente iluminante: as almas nas quais foi engendrado porque por casa de sua pureza possui uma radiância divina, pois as preenche com paz, serenidade, alegria, sabedoria inefável e amor perfeito.

20. Simples e unificada, a presença da luz divina reúne dentro de si as almas que nela participam e as converte em si, as unindo com sua própria unidade e as aperfeiçoando com sua própria perfeição. As conduz a declarar as profundezas de Deus, de modo que contemplam os grandes mistérios e se tornam iniciados e mistagógicos. Aspiras, então, a ser trabalhado principalmente através do trabalho ascético, e verás estes mistérios queridos a Deus — da qual falei — atualmente em obra dentro de ti.

21. Os raios da Luz primordial que ilumina as almas purificadas com o conhecimento espiritual não só as preenchem com benção e luminosidade; também, por meio da contemplação das essências interiores das coisas criadas, as conduzem aos céus noéticos. Os efeitos da energia divina, entretanto, não param aqui; continuam até através da sabedoria e através do conhecimento das coisas indescritíveis unem as almas purificadas com o Uno, as trazendo fora de um estado de multiplicidade a um estado de unicidade nEle.

22. Devemos primeiro nos purgar da materialidade viciosa disparada em nós pelos demônios — isto é um estágio de purificação; então, através do estágio de iluminação, devemos fazer nossos olhos espirituais lúcidos e sempre cheios de luz, e isto é realizado por meio da sabedoria mística oculta em Deus. Desta maneira ascendemos à cognição do conhecimento sagrado, que através da inteligência confere coisas novas e velhas àqueles que têm ouvidos para ouvir. Então nós por sua vez devemos passar para outras imagens e intimações deste conhecimento, concedendo seu significado oculto ao purificado enquanto o sustentando do profano, não deixando coisas serem dadas para cães, ou a pérola do logos ser lançada para almas semelhantes a porcos que a pisariam (cf. Mt 7,6).

23. Quando te tornas consciente da crescente ardência em tua fé interior e amor por Deus, então deveria saber que estás trazendo Cristo para nascer dentro de ti, e que é Ele quem exalta tua alma acima das coisas visíveis e terrestres e prepara uma morada para ela no céu. Quando percebes que teu coração está repleto com alegria, e anseia muito pelas inexpressáveis bençãos de Deus, então deverias realizar que estás ativado pelo Espírito Divino. E quando sentes que teu intelecto está pleno de luz inefável e as intelecções da Sabedoria supernal, então deveria reconhecer que o Paracleto está presente em tua alma, abrindo os tesouros do reino do céu oculto dentro de ti; e deveria te guardar como um palácio de Deus e como uma morada do Espírito.

24. Guarda do Tesouro Oculto do Espírito consiste nesse estado de desprendimento dos negócios humanos que é propriamente denominado quietude. Quando através da pureza do coração e a compunção alegre esta quietude acende um anseio ainda mais forte pelo amor de Deus, libera a alma das amarras dos sentidos e a impele para abarcar a vida da liberdade. Reconduzida a seu estado natural, a alma reorienta seus poderes, os restaurando a sua condição original. Assim é evidente que nenhum mal que nos aflige como um resultado de nosso desvio e esquecimento da imagem divina pode ser imputado a Deus, que só cria o que é bom.

25. É a quietude, cheia de sabedoria e benção, que nos conduz a este estado de perfeição divino e santo — quando, isto, é praticado e perseguido genuinamente. Se um hesicasta aparente não tiver alcançado esta eminência e perfeição, sua quietude ainda não é esta quietude perfeita e noética. De fato, até que tenha alcançado esta eminência, não teria nem mesmo aquietado a turbulência interior das paixões anárquicas. Tudo que terá é um corpo consistindo de tegumentos, ventas e cavidades, e perdido por uma mente iludida e desordenada.

26. As almas que alcançaram a total pureza, e alcançaram as alturas da sabedoria e conhecimento espiritual, se assemelham ao Querubim. Pela virtude de sua cognição não mediada aproximam-se da fonte de toda beleza e bondade, e desta maneira são diretamente e loucamente iniciados na visão das coisas secretas. Entres os poderes espirituais é dito que somente os Querubins são iluminados desta maneira direta pela fonte da Divindade ele mesma e assim possuem esta visão no mais alto grau.

27. Entre os mais altos poderes angelicais, alguns são mais ardentes e clarividentes em sua devoção às realidades divinas ao redor das quais incessantemente circulam; outros são mais contemplativos, gnósticos e imbuídos com sabedoria, este sendo o estado divino que os impele incessantemente a circular ao redor destas realidades. Semelhantemente, as almas angelicais são ardentes e clarividentes em sua devoção às realidades divinas, assim como sábias, gnósticas e exaltadas na contemplação mística. Potencialmente e atualmente elas também incessantemente circulam ao redor das coisas divinas, firmemente enraizadas só nelas. Imutavelmente receptivas de iluminações divinas, e assim participando nEle que verdadeiramente é, elas também comunicam incessantemente Sua irradiância e graça a outras através de seu ensinamento.

28. Deus é Intelecto e o agente ativador de tudo. Todos os intelectos têm tanto sua abóboda permanente e sua mobilidade eterna neste Intelecto primário. Tal é a experiência de todos cuja atividade não é adulterada pela materialidade mas é pura e imaculada como um resultado do trabalho ascético sagrado. Experimentam isto quando, ardentes com amor divino, comunicam entre si e para si mesmos a iluminação concedida a eles pela Divindade, generosamente transmitindo a outros a sabedoria dos mistérios de Deus ocultos dentro de si; e desta maneira incessantemente elevam o amor divino que as inspiram.

29. As almas cuja inteligência foi liberada da preocupação material, e nas quais os auto-contenciosos aspectos ardente e apetitivo tiverem sido restaurados à harmonia e atrelados às rédeas de seu carro celestial, ambas revolvem ao redor de Deus e no entanto permanecem fixamente. Elas revolvem incessantemente ao redor de Deus como o centro e a causa do movimento circular. Permanecem firmes e resolutas como pontos fixados na circunferência do círculo, e não podem ser desviadas desta posição fixa pelo mundo dos sentidos e a distração dos affairs humanos. Isto é por conseguinte a consumação perfeita da quietude, e é para isto; essa quietude leva aqueles que verdadeiramente a alcançam, de modo que enquanto movem são estacionários, e enquanto firmes e imóveis movem ao redor das realidades divinas. Enquanto não experimentamos isto só se pode dizer que praticamos a quietude aparente, e nosso intelecto não está livre da materialidade e distração.

30. Quando através da grande diligência e esforço recuperamos a beleza original da inteligência, e através da presença inabalável do Espírito Santo participamos da sabedoria e conhecimento supernais, podemos então perceber coisas como são por natureza e assim podemos reconhecer que a fonte e a causa de todas as coisas é ela mesma sábia e bela. Podemos ver que não podemos acusá-la de qualquer maneira responsável pelo mal que destrói as coisa criadas quando desviam para o que vil. Quando somos assim desviados e puxados para baixo, somos apartados da beleza pristina do Logos e impedimos nossa deificação, enquanto o mal que nos invadiu nos desfigura em sua forma obtusa e insensata.

31. Quando através da prática das virtudes alcançamos um conhecimento espiritual das coisas criadas teremos alcançado o primeiro estágio no caminho da deificação. Alcançamos o segundo estágio quando — iniciados através da contemplação das essências espirituais das coisas criadas — percebemos os mistérios ocultos de Deus. Alcançamos o terceiro estágio quando somos unidos e inter-fusionados com a luz primordial. É então que alcançamos a meta de toda atividade contemplativa e ascética.

32. Por meio destes três estágios todos os intelectos são levados, de uma maneira que está de acordo com sua própria natureza, à unidade com eles mesmo e com Ele que verdadeiramente é. Eles podem então iluminar seus intelectos-companheiros, os iniciando nas realidades divinas, através da sabedoria celestial os aperfeiçoando como espíritos já purificados, e os unindo com eles mesmos e com o Uno.

33. A deificação nesta vida presente é o rito verdadeiramente sagrado e espiritual no qual o logos de sabedoria inefável faz dEle mesmo uma oferta sagrada e dá a Si mesmo, tanto quanto possível, àqueles que se prepararam a si mesmos. Deus, como compete Sua bondade, concedeu esta deificação sobre os seres dotados com inteligência de modo que possam alcançar a união de fé. Aqueles que como um resultado de sua pureza e seu conhecimento das coisas divinas participam nesta dignidade são assimilados a Deus, «conformados à imagem de seu Filho» (Rom 8,29) através de sua concentração espiritual e exaltada sobre o Divino. Assim se tornam como deuses para outros homens na terra. Estes outros por sua vez, aperfeiçoados em virtude pela purificação através de sua inteligência divina e através de sua interação com Deus, participam de acordo com sua proficiência e o grau de sua puruficação na mesma deificação como seus irmãos e comungam com eles no Deus da unidade. Neste caminho todos eles, reunidos na união do amor, estão incessantemente unidos com o Deus uno; e Deus, a fonte de todos os trabalhos santos e totalmente livres de qualquer acusação por causa de Seu trabalho da criação, e permanece no meio de deuses (cf. Sal. 82,1, LXX), Deus por natureza entre deuses por adoção.

34. Não podes ser assimilado a Deus e participar em Suas bençãos inefáveis — na Medida que isto é possível — a menos que te desprendas da loucura que se interpõe e a desfiguração do pecado, através de lágrimas fervorosas e através da prática dos mandamentos sagrados de Cristo. Se queres espiritualmente saborear a doçura e o deleite das coisas espirituais deves renunciar de toda a mundana experiência dos sentidos, e em tua aspiração pelas bençãos armazenada para os santos deve devotar a ti mesmo à contemplação da realidade interior dos seres criados.

35. Assimilação a Deus, conferida sobre nós através da intensa purificação e o profundo amor a Deus, pode ser mantida somente através de uma aspiração incessante para Ele da parte do intelecto contemplativo, Tal aspiração nasce dentro da alma através da persistente quietude produzida pela aquisição das virtudes, pela oração espiritual sem distração e incessante, pelo total autocontrole, e pela leitura intensiva das Escrituras.

36. Devemos nos esforçar não somente para levar os poderes da alma a um estado de paz, mas também para adquirir um anseio pela serenidade espiritual. Pois através da pacificação de nossos pensamentos toda aspiração pelo que é bom é fortalecida, enquanto o orvalho divino enviado pelo céu cura e revivifica o coração ferido pelo fogo celestial aceso pelo Espírito.

37. Uma vez que uma alma profundamente ferida pelo divino anseio experimentou o bálsamo dos dons noéticos de Deus, não pode permanecer estática ou fixada em si mesma, mas aspirará elevar-se cada vez mais alto em direção ao céu. O mais alto que eleva-se através do Espírito e o mais longe que penetra nas profundezas de Deus, mais é consumida pelo fogo do desejo; e explora em toda sua imensidade os mistérios ainda mais profundos de Deus, ansiosa em alcançar a luz bendita onde todo intelecto é arrebatado de si mesmo e onde — sua meta alcançada — repousa em alegrias do coração.

38. Quando vens a participar no Espírito Santo e reconheces Sua presença através de uma certa energia inefável e uma fragrância dentro de ti mesmo — esta fragrância mesmo espalhando-se sobre a superfície de teu corpo — não pode mais estar contente em permanecer dentro dos limites do mundo criado. Ao contrário, tendo experimentado a nobre conversão trabalhada pela «mão direita do Altíssimo» (Sal 77,10, LXX), esqueces alimento e Sono, transcendes as necessidades corporais, ignoras o repouso físico e, depois de gastar o dia todo em tormenta ascética, ainda estás inconsciente do estresse ou dureza, da fome, sede, sono, ou de qualquer outra necessidade física. Pois com alegria inexpressável o amor de Deus é derramado invisivelmente em seu coração (cf. Rom 5,5). Envolta a totalidade da noite em uma iluminação de fogo, completas o trabalho espiritual através do corpo e festejas sobre os frutos imortais do paraíso noético. Foi neste paraíso que São Paulo, também, foi pego quando ouviu as palavras inexpressáveis que a ninguém é permitido ouvir (cf. 2Co 12,4) se ainda apegado ao mundo dos sentidos das coisas visíveis.

39. Uma vez o corpo tenha sido queimado na fornalha da prática ascética e temperado pelas águas das lágrimas, não mais é atormentado por durezas, pois está agora isento dos trabalhos exteriores e aparta-se da grande tortura que demandam. Imerso no silêncio e serenidade da paz interior, se torna cheio de uma novo poder, um novo vigor, uma nova força espiritual. Quando a alma trabalha de mãos dadas com tal corpo — este, quer dizer, cujo estado transcende a necessidade de disciplina corporal — ele muda seus trabalhos físicos em luta espiritual. Prontamente começa a desempenhar trabalho espiritual, e guarda em si mesmo os frutos imortais do paraíso noético, onde os rios da intelecção semelhante a Deus tem sua fonte, e onde eleva-se a árvore do conhecimento divino (cf. Gen 2,9), suportando os frutos do conhecimento, alegria, paz, generosidade, bondade e amor inefável (cf. Gal 5,22). Trabalhando assiduamente desta maneira e guardando o que é colhido, a alma sai do corpo e entra na escuridão da teologia mística. Deixa tudo para trás, não se mantendo por nada pertencente ao mundo visível; e unida com Deus, cessa tormenta e dor.

40. Aqueles engajados na luta espiritual confrontam a questão do que em nós é o mais nobre: o visível ou o inteligível? Se é o visível, nada mais há em nós a ser preferido ou desejado do que o que é corruptível, nem é a alma mais nobre do que o corpo. Se é o inteligível então devemos reconhecer que «Deus é espírito, e aqueles que O adoram devem adorá-lO em espírito e em verdade» (Jo 4,24). Assim uma vez a alma esteja firmemente estabelecida no trabalho espiritual, liberada do pesadume do corpo e tornada inteiramente espiritual através da união com o que é superior a ela, então a disciplina corporal é supérflua.

41. Há três estágios no caminho espiritual: o purgativo, o iluminativo e finalmente o místico, através do qual nos aperfeiçoamos. O primeiro pertence aos iniciantes, o segundo àqueles no estágio intermediário, e o terceiro ao perfeito. É através destes três consecutivos estágios que ascendemos, crescendo em estatura de acordo com Cristo e alcançando «humanidade madura, a Medida da estatura da plenitude de Cristo» (Ef. 4,13).

42. O estágio purgativo pertence àqueles recentemente engajados na luta espiritual. É caracterizado pela rejeição do si mesmo materialístico, liberação do mal material, e investidura com o si mesmo regenerado, renovado pelo Espírito Santo (cf. Col 3,10). Envolve ódio da materialidade, a atenuação da carne, o evitar qualquer coisa que incita a mente à paixão, arrependimento pelo pecados cometidos, a dissolução com almas do sedimento amargo deixados pelo pecado, a regulação de nossa vida de acordo com a generosidade do Espírito, e a limpeza através da compunção do interior do cálice (cf. Mt 23,26) — o intelecto — de toda ilusão da carne e espírito (cf. 2Co 7,1), de modo que possa então ser preenchido com o vinho do logos que alegra o coração do purificado (cf. Sal. 104,15), e possa ser trazido ao Rei dos poderes celestiais para Ele saborear. Sua meta final é que deveríamos ser forjados no fogo da luta ascética, polindo a ferrugem do pecado, e fortalecidos e temperados na água da compunção, assim como espadas possamos efetivamente cortar as paixões e os demônios. Alcançando este ponto através de uma luta ascética prolongada, apagamos o fogo dentro de nós, contemos as paixões brutais, nos tornamos fortes no Espírito ao invés de fracos (cf. Heb 11,33-34), e como outro Jó conquistamos o tentador através de nossa persistência paciente.

43. O estágio iluminativo pertence àqueles que como um resultado de suas lutas alcançaram o primeiro nível de impassibilidade. É caracterizado pelo conhecimento espiritual dos seres criados, a contemplação das essências interiores e da comunhão no Espírito Santo. Envolve a purificação do intelecto pelo fogo Divino, a abertura noética dos olhos do coração, e o nascimento do Logos acompanhada pelas intelecções sublimes do conhecimento espiritual. Sua meta final é a elucidação da natureza das coisas criadas pelo Logos da Sabedoria, o insight dos affairs humanos e divinos, e a revelação dos mistérios do Reino dos Céus (cf. Lc 8,10). Aquele que alcançou este ponto através da atividade interior do intelecto, anda, como outro Elias (cf. 2Reis 2,11), em um carro de fogo puxado pela quaternidade das virtudes; e enquanto ainda vivendo é elevado ao reino noético e atravessa os céus, posto que elevou-se acima da baixeza do corpo.

44. O estágio místico e aperfeiçoador pertence àqueles que já passaram através de todas as coisas e chegaram à «medida da estatura da plenitude do Cristo» (Ef. 4,13). É caracterizado pela transcendência da esfera dos poderes demoníacos e de todas as coisas sublunares, por nosso atingimento dos niveis celestiais mais altos, aproximando a luz primordial e mergulhando nas profundezas de Deus através do Espírito. Implica imergir nosso intelecto contemplativo nos princípios interiores da providência, justiça e verdade, e também na interpretação do simbolismo arcano, Parábolas e passagens obscuras na Santa Escritura. Sua meta final é nossa iniciação nos mistérios ocultos de Deus e nosso ser preenchido com sabedoria inefável através da união com o Espírito Santo, de modo que cada um se torne um sábio teólogo na grande Igreja de Deus, iluminando outros com o sentido interior da teologia. Aquele que alcançou este ponto através da humildade mais profunda e da compunção foi, como outro Paulo, elevado ao terceiro céu da teologia, e ouviu coisas indescritíveis as quais aquele que ainda é dominado pelo mundo dos sentidos não é permitido ouvir. (cf. 2Co 12,4); e experimenta bençãos inexprimíveis, como nenhum olho viu ou ouvido ouviu (cf. 1Co 2,9). Ele se torna um mordomo dos mistérios de Deus (cf. 1Co 4,1), pois é a boca de Deus, e através das palavras comunica estes mistérios a outras pessoas; e nisto descobre bendito repouso. Pois é agora perfeito na perfeição de Deus, unido na companhia de outros teólogos com os poderes angélicos supremos dos Querubins e Serafins, em quem habita o princípio da sabedoria e do conhecimento espiritual.

45. A vida humana é dividida em duas formas, enquanto suas metas estão subsumidas sob três categorias. Uma forma é social e dentro do mundo, a outra é solitária e transcende o mundo. A vida social é caracteriza seja pela auto-contenção ou pela insaciabilidade; a vida solitária é subdividida em três modos: a prática das virtudes, a cognição espiritual das coisas criadas, e a habitação da energia supernatural. A vida social pode ser caracteriza pela justiça, neste caso de acordo com sua natureza, ou pela injustiça, neste caso contrária à natureza. A vida solitária ou aspira em direção a sua meta de acordo com o preceito e regra monásticos, e — aperfeiçoada de uma maneira que transcende a natureza — alcança o Infinito; ou então é ativada pela presunção e assim é alijada de seu propósito, deprecia a mente, e falha em alcançar a perfeição.

46. O Espírito é luz, vida e paz. Se consequentemente és iluminado pelo Espírito tua própria vida é imbuída com paz e serenidade. Por causa disto és preenchido com o conhecimento espiritual dos seres criados e a sabedoria do Logos; és agraciado com o intelecto de Cristo (cf. 1Co 2,16); e vens a conhecer os mistérios do reino de Deus (cf. Lc 8,10). Assim penetras nas profundezas do Divino e diariamente de um coração iluminado e imperturbado expressas palavras de vida para o benefício dos outros; pois tu mesmo estás pleno da benção, posto que tens dentro de ti Bondade ela mesma que exprime coisas novas e velhas (Cf. Mt 13,52).

47. Deus é Sabedoria, e pela deificação através do conhecimento espiritual das coisas criadas aqueles que vivem no Logos e na Sabedoria Ele os une com Ele mesmo através da luz e os faz deuses por adoção. Posto que Deus criou todas as coisas do nada através da Sabedoria, Ele dirige e administra tudo que está no mundo através da Sabedoria, e da mesma forma na Sabedoria traz a salvação de todo que se voltam para Ele e aproximam-se dEle. Igualmente, quem quer que como resultado de sua pureza tenha sido capacitado a participar na mais alta Sabedoria sempre como uma imagem de Deus age em Sabedoria, e na Sabedoria pratica a vontade divina. Retirando-se do que é externo e múltiplo, cada dia eleva sua inteligência anagogicamente através do conhecimento das coisas inexprimíveis a uma vida que é verdadeiramente angélica. Tendo unificado sua própria vida tanto quanto possível, une ele mesmo com os poderes angélicos que movem-se de uma maneira unificada ao redor de Deus, e sob sua boa direção é elevado ao primeiro Princípio e Causa.

48. Uma vez tenhas unido a ti mesmo através da mais alta Sabedoria com os poderes angélicos e tenhas sido unificado com Deus, através do amor da Sabedoria entras em comunhão com todos os homens, posto que alcançastes à semelhança de Deus. Através do poder divino rompes com aqueles tão disposto por seu apego ao que é externo e múltiplo, e como um imitador de Deus os concentras em espírito, os elevando como tu és elevado a uma vida unificada através da sabedoria, conhecimento espiritual e a iluminação dos mistérios divinos, até que venham a contemplar a glória da luz primordial única. Quando tenhas os unificado com as essências e ordens que cercam Deus, tu os induz — integralmente irradiados pelo Espírito — à unidade de Deus Ele mesmo.

49. Ligado às quatro virtudes cardeais há um grupo de oito Virtudes Gerais e naturais. Cada virtude cardeal é acompanhada pelas duas virtudes da segunda categoria, assim compondo uma tríada. A compreensão robusta é acompanhada pelo conhecimento espiritual e a contemplação sábia; a justiça pela discriminação e a compreensão simpatizante; a coragem pela paciência e a firme resolução; a auto-contenção pela pureza e a virgindade. Do trono do intelecto, em Sua sabedoria Deus preside como um arquiteto e mistagogo sobre estas doze virtudes divididas em tríades, e lança o Logos para criá-las dentro de nós. De seus princípios subjacentes o Logos toma a substância de cada uma das virtudes e cria na alma um mundo noético numinoso. Coloca compreensão robusta na alma como um céu cheio de estrelas do qual duas grandes luminárias — conhecimento divino e contemplação das essências espirituais — a irradiam com sua luz. Faz da justiça sua firme fundação, rica como a terra com toda espécie de sustento. Impõe auto-contenção dentro dela como o ar, a esfriando e refrescando com uma vida livre de toda impureza. Estabelece a coragem como um mar ao redor da fraqueza de nossa natureza, nos capacitando a minar as fortalezas e citadelas do inimigo. Em assim estabelecendo este mundo do Logos preenche a alma com o poder do Espírito Santo, de modo a mantê-la em uma atividade noética incessante e em uma unidade perseverante e indissolúvel. Como o expressa o Salmista, «Pelo Logos do Senhor são os céus estabelecidos, e todo seu poder no Espírito que dEle vem» (Sal 33,6, LXX).

50. Nosso crescimento espiritual corresponde aos diferentes estágios na vida de nosso Senhor Jesus Cristo. Enquanto somos crianças necessitamos de leite (cf. Heb 5,12) somos amamentados pelo leite das virtudes introdutórias adquiridas através da disciplina corporal; no entanto isto é apenas de benefício limitado (cf. 1Tim 4,8) para nós uma vez começamos a crescer em virtude e gradualmente deixar nossa infância para trás. Quando alcançamos a adolescência e somos alimentados pelo alimento sólido da contemplação das essências espirituais das coisas — pois nossos órgãos de percepção da alma estão agora afinados (Cf. Heb 5,14) — pode-se dizer que aumentamos em estatura e em graça (Cf. Lc 2,52), e sentamos entre os anciãos (Cf. Lc 2,46), desvendando para eles coisas ocultas nas profundezas da escuridão (Cf. Jó 12,22). Quando alcançamos «a humanidade madura, a medida da estatura da plenitude de Cristo» (Ef. 4,13), proclamamos a todos o significado do arrependimento, ensinamos outros sobre o Reino dos Céus (cf. Mt 4,17) e apressamo-nos em direção à Paixão (cf. Lc 12,50). Pois esta é a suprema meta de cada um que alcança à perfeição na prática das virtudes: depois de passar através de todas as diferentes idades de Cristo finalmente passa pelos provações que Cristo sofreu na cruz.

51. Enquanto estamos submetidos aos elementos da ascese, nos guardando de tomar alimentos, ou de tocar as coisas, ou de contemplar a beleza, ou de escutar os cantos, ou de sentir os perfumes, estamos sob o regime dos tutores e dos ecúmenos (Gl 4,2), somos ainda crianças, mesmo se somos os herdeiros e os mestres de todas as coisas do Pai. Mas quando o tempo da ascese é chegado à seu termo e se cumpriu na “impassibilidade” , então da pureza da reflexão o Verbo nasce em nós e vem sob a lei do Espírito, a fim de nos resgatar, nós que estávamos sob a lei da preocupação da carne, e de nos dar a adoção. Isto feito, então o Espírito exclama em nossos corações: “Abba, Pai” (Gl 4,6), nos mostrando e nos revelando a filiação e a liberdade segundo Deus o Pai. Pelo Cristo ele mora em nós e nos fala como aos filhos e herdeiros de Deus. Ficamos libertados da escravidão dos sentidos.

52. Para aqueles que com Pedro progrediram na fé, com Tiago foram educados na esperança, com João tornaram-se perfeitos no amor, o Senhor se transfigura após ter escalado a alta montanha da teologia (Mt XVII,1) (vide transfiguração ). Pela manifestação e a impressão da palavra pura, brilha diante deles como o sol. Pelos pensamentos da sabedoria misteriosa, se manifestam vivos como a luz. O Verbo se revela neles, no meio da Lei e da Profecia, legislando e ensinando as coisas da Lei, e descobrindo nos tesouros profundos e escondidos da sabedoria as coisas da Profecia. Então prevê e prediz. O Espírito os cobre com sua sombra como uma nuvem luminosa, e desta nuvem a voz da teologia mística vem em direção a eles, os iniciando no mistério da Divindade em três Hipóstases, e lhes dizendo: “Eis meu Bem-Amado, o termo da palavra da perfeição, onde me compraz (Mt XVII,5) (vide transfiguração ): Tornai para mim filhos perfeitos no Espírito perfeito.”

53. A alma que despreza todas as coisas terrestres e que é inteiramente ferida pelo amor de Deus, vive em um êxtase estranho e Divino. Pois, após ter visto claramente as naturezas e razões dos seres, após ter compreendido o fim das coisas humanas, não suporta mais ficar encerrada no universo e limitada pelo que a circunda. Mas, saindo de seus limites, quebrando os elos dos sentidos, ultrapassando as naturezas de todas as coisas, entra na treva da teologia (vide 51), no silêncio inefável, compreende a beleza do Ser na luz de inexprimível sabedoria das meditações, tanto quanto recebeu em graça. Aprofundando-se divinamente na sua “contemplação” pela qual medita, faz suas delícias dos frutos, das plantas imortais, do temor do amor, quero dizer, das meditações dos pensamentos divinos. Jamais crispada sobre si-mesma, pode perfeitamente exprimir a grandeza e a glória. Mas, estranhamente levada pelo Espírito, conhece o sofrimento louvável em uma alegria e um silêncio indescritíveis. Mas, como agiu, ou o que a empurra, ou o que lhe faz ver e lhe diz misticamente os segredos, lhe é impossível de explicá-lo.

54. O que semeia em si-mesmo na justiça as lágrimas da “compunção”, coleta o fruto da vida: uma jóia inexprimível. O que procura e espera o Senhor, até o que vem o que engendra sua justiça, aquele ceifará em abundância a espiga de trigo do conhecimento de Deus. A luz da sabedoria o iluminará a si-próprio, e tornar-se-á um candelabro de luz (vide: Orígenes — Homilías sobre Lucas fragmento 78, Mt V, 14-16; Lc XI, 33-36) eterna para iluminar todos os homens. Não recusará a si-mesmo e àqueles que estão perto dele, a cobrindo o alqueire (vide: Mario Satz — A Candeia Acesa, Mt V, 14-16; Mc IV, 21-23; Lc VIII, 16) do ciúme esta luz da sabedoria que lhe foi dada (Mt 5,15) (vide Evangelho de Tomé - Logion 32). Mas dirá boas palavras na Igreja dos fiéis para uso de muitos. Dirá coisas escondidas desde a origem (Sal 78,2), tudo o que escutou do alto, deixando ressoar em si o Espírito divino, e se aplicando à tudo o que sabe pela “contemplação” dos seres, e o que seus pais lhe contaram (Sal 78,3).

55. As montanhas da obra dos mandamentos de Deus se abrirão a todo homem consagrado, o dia onde alcançará a perfeição na virtude. Destilarão sobre ele a doçura da alegria, quando reinará em Sião pela reflexão pura. E as colinas, as palavras das virtudes, serão banhadas de leite. Elas lhe entregarão o alimento, quando ele depositará sobre a camada da “impassibilidade”. Todas as fontes de Judá, quero dizer, sua fé e seu conhecimento, farão escoar as águas: os dogmas, as Parábolas e os enigmas das coisas de Deus. E a fonte da sabedorias escondida brotará de seu coração, como da casa do Senhor, e regará a ravina dos juncos (Joel 4,18), isto é, os homens consumidos pela sêca e o calor das paixões. Então, ele conhecerá em si o verdadeiro cumprimento das palavras do Senhor. Com efeito diz: “Aquele que crê em mim, rios de água viva correrão de seu seio (Jo 7,38).”( vide: Bem-aventurados os famintos ).

56. O sol da justiça, diz Deus, se levanta sobre aqueles que me reverenciam, e a cura está em seus atos. Eles sairão da prisão das paixões e saltarão livremente como bezerros fora dos laços do pecado. Eles pisotearão sob seus pés os homens iníquos e os demônios, como cinzas, no dia onde eu os restabelecerei, diz o Senhor que domina o universo (Mal 4,2-3), quando eles se elevarão através de todas as virtudes e se tornarão “perfeitos” pela sabedoria e pelo conhecimento na comunhão com o Espírito.

57. Se sobre a montanha dominando a planície (Lc VI,71) desse mundo e a Igreja do Cristo, tu erguerás o estandarte do novo conhecimento lá do alto, se tu elevas em ti, como disse a voz da sabedoria de Deus que te foi dada, exortando pela palavra e ensinando teus irmãos, lhes abrindo a inteligência da divina Escritura (Lc XXIV,32) para que eles compreendam os dons maravilhosos de Deus, e se tu os precedes na obra de seus mandamentos, não tenhas temor daqueles que invejam o poder de tuas palavras (vide: Poder da Palavra ) e alteram toda a divina Escritura, homens vazios que varreram com a vassoura a si-mesmos, mas que estão prestes a tornarem-se moradas do diabo (Mt XII, 44) (vide: Mt XII, 43-45; Lc XI, 24-26 ). Pois Deus escreveu no Livro dos viventes (Ap III,5) as palavras de teus lábios, e de tais homens não poderão te prejudicar, assim como Simão (vide: Simão Samaritano ou o Mago ): tampouco prejudicou a Pedro. Mas, em vez disso tu dirás tu-mesmo com o profeta nesse dia onde tu o verás estender as armadilhas para te fazer cair durante o caminho: “Eis aqui, o Senhor é meu Deus e meu Salvador. Eu me confiarei a ele. Ele me salvará e eu não temerei. Pois o Senhor é minha glória e meu louvor, e ele me salvou (Is XII,2). Não cessarei de anunciar suas obras de glória sobre toda a terra (Is XII,4).”

58. Se vês inerte em ti a impulsão da “energia” das paixões, e brotar de teus olhos a “compunção” que vem da humildade, saiba que o Reino de Deus chegou em ti e que concebeste do Espírito Santo. E se sentes o Espírito agir, mover e falar no interior de ti e de levar a dizer na grande Igreja a salvação e a verdade de Deus, não feche teus lábios (Sal 40,10), por causa da inveja dos judaizantes. Mas senta-te, e como diz Isaías (Is 30,8-11), escreve sobre o tablete o que te diz o Espírito. “Essas coisas virão nos dias dos tempos e até a eternidade, como ele te disse: Aqueles que experimentaram a invejam, e formam um povo indócil, filhos mentirosos que não tem fé.” Aqueles que não querem entender que o Evangelho atua ainda e criou Filho de Deus e profetas, mas dizem aos profetas e aos doutores da Igreja: “Não nos anuncie a sabedoria de Deus”, e àqueles que veem as visões da “contemplação” natural: “Não nos falai disso, mas dizei, anunciai-nos uma outra ilusão (Is 30,10) que ame o mundo, tirai-nos a palavra de Israel.” Não prestai atenção a sua inveja e às suas palavras. Pois os surdos, ao final, escutarão o que lá do alto ressoa em ti para o bem de muitos outros. E aqueles que estão nas trevas desta vida, e os olhos cegos nas brumas do pecado verão (Is 29,18) a luz de tuas palavras. E os Pobres em Espírito (Mt 5,3) se regozijarão neles. E os homens desesperados serão repletos de alegria (Is 29,19). E os afastados do espírito conhecerão a sabedoria em tuas palavras. Os que murmuram contra ti aprenderão a obedecer às palavras do Espírito. E as línguas que balbuciam aprenderão a pronunciar a paz (Is 29,24).

59. Bem-aventurados aqueles que tem em Sião, na Igreja de Deus, a semente do ensino de suas palavras, diz Isaías (Is 31,9), e que tem seus próprios filhos, os filhos do Espírito, na cidade dos primogênitos, na Jerusalém do alto. Pois esse homem, disse, esconderá suas palavras por um tempo, e ele-mesmo será escondido pelas águas que o levaram. Ao final ele aparecerá em Sião, na Igreja dos fiéis, levado como um rio glorioso sobre a terra sedenta das ondas de sua sabedoria. Aqueles que serão confiados nelas não serão mais derrubados pelos invejosos. Mas seus ouvidos escutarão as palavras de um tal homem. O coração daqueles que sofrem nas suas almas escutará com atenção. Mas, que os servos da inveja não digam mais: “Silêncio”, porque um homem piedoso lhes aconselhou com inteligência e não lhes disse loucuras como esses loucos que são os sábios do mundo. Seu coração nada pensou de vão, nada fez de iníquo, nada disse de falso diante de Deus, para dispersar as almas que tinham fome e tornar vazias as almas que tinham sede (Is 32, 6.8.). É porque suas palavras continuam a ser uma ajuda para muitos, mesmo que isso não pareça àqueles que o denigrem.

60. Aquele que mora sobre a rocha dura no alto da caverna, o pão do conhecimento é dado à saciedade, e o cálice da sabedoria até a embriaguez. Assim sua água será fiel. Ele verá o Rei na glória, e os olhos verão de longe a terra (Deut 34,4). Sua alma meditará a sabedoria e anunciará a todos o lugar eterno, onde fora do qual nada tem.

61. Se então a instrução do Senhor abre os ouvidos de todo homem que o reverencia, e lhe acrescenta até mesmo um ouvido para entender e lhe dá uma língua de discípulo para conhecer quando é preciso dizer uma palavra (Is. 50,4-5), quem outro faz recuar os prudentes e os sábios deste mundo e torna louca suas sabedorias (Is. 44,25)? Quem outro confirma as palavras de seus servidores? Quem outro, senão ele mesmo que faz coisas novas e maravilhosas por sua glória, que traça no coração deserto e seco o caminho da humildade e da doçura, que faz jorrar, na reflexão árida e sem água, rios de sabedoria inefável, para regar sua raça eleita, o povo que ele guarda a fim de contar suas virtudes (1 Pedro 2,9). Pois ele caminha diante daqueles que o amam e o reverenciam, aplaina as montanhas das paixões, quebra as portas de bronze da ignorância, abre as portas do conhecimento, e lhes revela na treva seus tesouros escondidos e invisíveis, para que saibam que é ele mesmo o Senhor Deus que os chama por seu nome: Israel (Is 45, 1-3).

62. Quem é aquele que agita o mar das paixões (vide Mt XIV, 22-33 ) e pára as ondas?. É o Senhor das Potestades (vide: capítulo VIII § 4 e capítulo XI § 1 em Hierarquia Celeste. Libera aqueles que amam o perigo do pecado. Transforma em calma a tempestade dos pensamentos, coloca suas palavras nas bocas deles (Jer 1,9) e os cobre da sombra de suas mãos sob a qual estendeu o céu e fundou o mar. Ele mesmo dá àqueles que o reverenciaram uma língua de discípulo (Is 50,4), e um ouvido inteligente, para escutar sua voz do alto e para anunciar os mandamentos à casa de Jacó, à Igreja dos fiéis. Mas, naqueles que não tem olhos para ver os raios do Sol da justiça, nem ouvido para escutar as maravilhas da glória de Deus, o destino da ignorância é a obscuridade, e a esperança é vã como as palavras. Nenhum desses aí diz o que é justo. Não existe neles julgamento de verdade. Eles se confiam em vanglórias. E o que dizem é vazio. Concebem a inveja, e fazem nascer a difamação. Seus ouvidos são incircuncisos, e não podem escutar. É porque a palavra do conhecimento de Deus lhes torna uma reprimenda, e eles não querem escutá-la.

63. Que sabedoria tem nesses que são invejosos dos seus próximos? “Como diz Jeremias (8,8-9), os malevolentes podem dizer: Somos sábios, e : A lei do Senhor está conosco, se então se consomem de inveja diante daqueles que recebem a graça do Espírito pela sabedoria e o conhecimento de Deus? Mas, o falso conhecimento dos escribas e dos sábios deste mundo foi vão. Perderam o caminho da verdadeira ciência.” É porque os sábios decaídos da sabedoria do Consolador (vide parakletos ) ficaram confundidos ao ver isso crescer nos filhos dos pecadores, e tiveram medo do poder de suas palavras. Ficaram presos nas redes de seus pensamentos, e a partir deste momento rejeitaram a verdadeira sabedoria e o conhecimento do Senhor.

64. Porque esses homens foram consumidos pela inveja em direção àqueles que se enriqueceram pela graça do Espírito, aqueles que receberam a língua de fogo ( Pentecostes ) como pluma de um escriba alerta (Sal 45,2), enquanto que eles mesmos abandonaram a fonte da sabedoria de Deus ? Pois se tinham seguido o caminho de Deus, permaneceriam para sempre na paz da impassibilidade. Teriam aprendido onde está a razão, onde está a força, onde está a “inteligência”, onde está o conhecimento dos seres, onde está a longevidade, onde está a vida, onde está a luz dos olhos, onde estão a sabedoria e a paz (Baruc 3,14). Teriam aprendidos quem achou o lugar da sabedoria e quem penetra em seus tesouros. Teriam aprendido como Deus por seu profeta dá suas ordens aos iniciados de sua palavra quando diz: “Que o profeta que recebeu em um sonho uma revelação conta o que viu no sonho. E que aquele que escutou minha palavra proclama minha palavra com toda a verdade (Jer 23,28).” E ainda: “Escreve para ti em um livro todas as palavras que te disse (Jer 36,2)”. Desde então, nunca teriam sido consumidos pela inveja em direção à tais homens.

65. Se um Etíope pode mudar sua pele e um leopardo suas pintas (Jer 13,23), os malevolentes, também, poderão dizer e projetar o bem sempre pensando no mal. Enganam sob a mentira seus próximos, pois avançam com astúcia (Jer 9,4) e representam para seus amigos. Não dizem a verdade. Pois suas línguas não sabem mais falar senão uma linguagem vã e falsa (Jer 9,5). Compreendes então, que pelo conhecimento e pela palavra de Deus que estão em ti és invejado e desprezado por eles. Reza assiduamente e diz como Jeremias: “Senhor, lembra-te de mim, visita-me, guarda-me desses homens perversos que me perseguem. Em tua paciência, querendo muito tempo me provar, não me rejeite. Saiba que sou o opróbrio (vide: Heb: 11,26; 13,13) daqueles que rejeitam teu conhecimento. Os consume em sua inveja. E a palavra de teu conhecimento fará o regozijo e a alegria de meu coração. Pois nunca me sentei na assembleia daqueles que se escarnecem de teu conhecimento. Porém, estou confiado à tua mão. Estou sentado na solidão, pois suas invejas me encheram de amargor. Entenderás, o sei bem, uma vez que fazes voltar de sua via o desviado.” “Eu te restabelecerei entre meus amigos. Estarás diante minha face. Se daquele que é indigno fazes sair o que é nobre, serás como minha boca. Livrar-te-ei da mão dos malvados que te ultrajaram, disse o Senhor Deus de Israel (Jer 15,15-21).”

68. A continência, o jejum e os combates espirituais detêm as solicitações e os impulsos da carne; a leitura das santas Escrituras arrefece o ardor da alma (psyche) e os temores do coração (kardia); a oração (euche) inesgotável humilha-os, e a compunção (katanyxis), como um óleo, alegra-os.

69. A oração (euche) pura e imaterial, mais do qualquer outra coisa, torna o homem familiar a Deus e une a Ele quem ora sem distração no Espírito, e cuja alma (psyche) é lavada pelas lágrimas, suavizada pela alegria da compunção (katanyxis) e iluminada pela luz do Espírito.

70. A quantidade é excelente na salmodia, quando acompanha a perseverança e a atenção (epimeleia). Mas é a qualidade que vivifica a alma (psyche) e traz fruto. A qualidade da salmodia e da oração (euche) é orar com o Espírito, no intelecto (nous). Ora no intelecto (nous) aquele que, orando e salmodiando, considera o sentido encerrado na santa Escritura. Esses pensamentos divinos constituem, em seu coração (kardia), tantos degraus espirituais: a alma (psyche) fica extasiada no ar luminoso, toda iluminada e também purificada; eleva-se inteira até o céu e vê a beleza dos bens preparados para os santos. Consumida pelo desejo, ela exprime com os olhos o fruto da luz, derramando uma torrente de lágrimas, sob a moção ( energia ) iluminadora do Espírito. O sabor desses bens é tão doce, que acontece, em tais momentos, esquecer-se da alimentação do corpo (soma). Tal é o fruto da oração (euche), aquele que procede da qualidade da salmodia, na alma (psyche) que ora.

71. Onde vedes o fruto do Espírito, encontra-se também a qualidade da oração (euche). E onde há qualidade, também a quantidade da salmodia é excelente. Se não vedes fruto, é que a qualidade é árida; e se é árida, a quantidade não serve para nada. Por mais que ela exercite o corpo (soma), para a maioria não traz nenhum proveito.

72. Tomai cuidado com a astúcia, quando orais ou cantais os Salmos ao Senhor. Os demônios (diabolos) surpreendem o sentido da alma (psyche) e fazem-na, à traição, dizer uma coisa por outra; transformam em blasfêmias os versículos dos salmos e nos fazem proferir impiedades. Ou começamos o salmo e eles nos fazem passar para o fim, apagando de nosso espírito a parte do meio. Ou nos fazem ficar rodando no mesmo versículo, sem nos deixar encontrar a continuação do salmo. Ou então, ainda que tenhamos chegado bem no meio, tiram-nos bruscamente a lembrança de todos os versículos que se seguem, de maneira que esquecemos o versículo que tínhamos nos lábios e não conseguimos encontrá-lo nem retomá-lo. Agem assim para nos afrouxar e nos entediar, e também para desperdiçar os frutos da oração (euche), fazendo-nos perceber como é longa. Mas resisti corajosamente, e aplicai-vos mais do que antes a vosso salmo, para colher nos versículos os frutos da oração (euche), através da contemplação (theoria), e para vos enriquecerdes com a iluminação do Espírito Santo, reservada às almas que oram.

73. Acontece alguma coisa parecida enquanto salmodiais com inteligência? Não permitais que a negligência vos afrouxe. Não deis preferência à comodidade do corpo (soma) às custas da alma (psyche), abandonando-vos a pensar no comprimento da hora ( canônica ). Mas, no mesmo lugar em que vosso espírito se deixou cativar, parai; e, se estais no fim do salmo, retomai galhardamente do começo. Retomai o caminho do salmo, desde o princípio; vosso espírito deve ter muitas vezes tropeçado na distração, durante a mesma hora. Se vos comportais assim, os demônios (diabolos) não suportarão a paciência de vossa perseverança, nem o vigor de vossa resolução; eles vão retirar-se, cobertos de vergonha.

74. A oração (euche) inexaurível é — acreditai-o sem nenhuma dúvida — a que não permanece improdutiva na alma (psyche), nem de dia, nem de noite. Nem os braços estendidos, nem a atitude do corpo (soma), nem os sons da língua a mostram a quem olha. Os que compreendem sabem que ela está no exercício mental da obra do intelecto (nous) e da lembrança de Deus, numa disposição de perseverante compunção (katanyxis).

75. É possível aplicar-se continuamente à oração (euche), mantendo os pensamentos reunidos sob o comando do intelecto (nous), em grande paz e modéstia, ocupando-se em esquadrinhar as profundezas de Deus e procurando ali saborear a onda, suave entre todas, da contemplação (theoria). Aquele cujas faculdades todas da alma (psyche) são consagradas pelo conhecimento, esse realizou a oração (euche) constante.

77. Não há lugar nem tempo fixo para celebrar o mistério da oração (euche). Se estabeleceis horas, momentos, lugares para a oração (euche), o tempo que resta ficará perdido com as ocupações da vaidade. A definição da oração (euche) é: a inabalável fixação do espírito em Deus; sua obra é dirigir a alma (psyche) ( inteligência discursiva ) para as coisas divinas; seu fim é que a inteligência adira a Deus e forme com Ele um só espírito, conforme a definição do Apóstolo. ( P.G. t. 120, cc. 933s ).

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