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LAUDES

Jacopone da Todi

ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 1. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, quarto edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.

dalle LAUDI

[LX] Ó amor da pobreza,
reino da tranquilidade!
Pobreza, via segura,
não tem litígio nem rancor;
de ladrão não tem medo,
nem de nenhuma tempestade.
Pobreza morre em paz,
nenhum testamento faz:
larga o mundo como está
e as gentes em concórdia.
Não vai a juízo nem a notário,
a tribunal não leva salário;
ri-se do homem avaro,
que vive em tanta ansiedade.
Pobreza, alto saber,
a nada se sujeitar,
em desprezo possuir
todas as coisas criadas.
Quem despreza, sim, possui;
possuindo não se lesa:
nada lhe toma o passo
que não faça seus dias.
Quem deseja é possuído:
ao que ama, vendeu-se;
se pensa ter recebido,
teve mau pagamento.
Muito são de vil coração
os que entram em vassalagem,
a semelhança de Deus que temos
deturpar em vaidade.
Deus não habita em coração estreito:
tanto é grande quanto tens afeto;
a pobreza tem peito tão grande,
que nele habita a Divindade.
A pobreza é céu velado
para quem está em terra escura;
quem no terceiro céu seu entrou,
ouve arcana profundidade.
O primeiro céu é o firmamento,
despojamento de toda honra:
grande impedimento oferece
a encontrar segurança.
Para fazer morrer em ti a honra,
as riquezas faz desaparecer,
a ciência calar
e fugir a fama de santidade.
A riqueza o tempo toma,
a ciência ao vento exalta,
a fama alberga e acolhe
a hipocrisia de todos os lados.
Parece céu estrelado
quem dessas três é despojado;
eis um outro céu velado:
águas claras solidificadas.
Quatro ventos movem o mar,
que a mente fazem turvar:
o temer e o esperar,
o doer e o gozar.
Esses quatro despojamentos
mais que os primeiros são duros;
digo-os, por engano,
a quem não tem capacidade:
do inferno não temer
e do céu esperança não ter,
e de nenhum bem gozar
e não doer da adversidade.
A virtude não é o porquê,
pois o porquê está fora de ti:
sempre incógnito te mantém
a curar tua enfermidade.
Se as virtudes ficam nuas
e os vícios não revestidos,
mortalmente são feridos,
caem em terra vulnerados.
Então os vícios estão mortos,
as virtudes ressurgidas,
confortadas pela corte
de toda impassibilidade.
O terceiro céu é de mais altura,
não tem termo nem medida:
fora da imaginação
fantasias mortificadas.
De todo bem já te despojou
e de virtudes expropriado:
tesouriza o teu mercado
em própria tua vileza.
Este céu é fabricado,
em nada é fundado,
e o amor purificado
vive na veracidade.
O que te parece não é,
tanto é alto o que é:
a soberba no céu está
e se condena a humildade.
Entre a virtude e o ato
muitos nos chamam de loucos:
tal se pensa ter bom trato
quem está em terra alienada.
Este céu tem nome «nenhum»:
língua e intenção cortadas,
e o amor está em pressão
naquelas luzes obscurecidas.
Toda luz é trevas,
e toda trevas tem dia:
a nova filosofia
os velhos odres dissipou.
Lá onde Cristo está enxertado,
todo o velho foi cortado,
um no outro transformado
em mirável unidade.
Vive amor sem afeto
e sabe sem entendimento,
o querer de Deus eleito
a fazer a sua vontade.
Viver ele e não ele,
e o ser meu não ser meu,
este é um tal traçado
que não tem definição.
Pobreza é nada ter
e nada coisa poder querer,
e toda coisa possuir
em espírito de liberdade.

[XCI (XC), 147-200]
Naquele céu empíreo
tão alto é o que encontra,
que não posso dar prova,
nem com língua narrar;
e muito mais me admiro
como assim se renova,
em firmeza tão nova
que não posso figurar;
e já não posso errar,
cair em trevas:
a noite é feita dia,
defeito grande amor.
Como o ar dá luz,
se nesse lume é feito,
como cera desfeita
a grande fogo mostrada:
tanto reluz
atraído por aquela luz,
tudo perde seu ato,
a vontade é passada;
a forma que lhe é dada
tanto a absorveu,
que vive estando morto,
é vencido e é vencedor.
Não vá buscando no mar
vinho, se lá o pusesse,
que encontrá-lo não poderia,
pois o mar o recebeu;
e quem poderia provar,
nem pensar que restasse
e em si permanecesse?
Parece que não foi posto.
O amor o bebeu,
a veracidade mudada,
o seu está trocado,
de si não tem vigor.
Querendo já não quer,
que não tem seu querer:
e já não quer ver
senão esta beleza;
não pede como antes,
não quer possuir:
a tão doce manter
nada, é sua fortaleza.
Esta tão suma alteza
em nada está fundada,
aniquilada, formada,
posta no Senhor.
Alta aniquilação,
teu ato é tão forte,
que abre todas as portas,
entra no infinito;
tu te alimentas de verdade
e nada temes a morte,
endireitas coisas tortas,
o escuro fazes claro;
tanto fazes o coração unido
em divina amizade,
não há dessemelhança
de contradizer o amor.
Tanta é tua sutileza,
que toda coisa passa,
e sob ti assim deixa
defeito permanecer;
com tanta leveza
à verdade passas,
que já não te abaixas
por tua culpa poder;
sempre estás em gozo
tanto concordada,
e em verdade levada,
em si não sentes dor.
Prazer e desprazer
fora de ti lançaste,
em Deus te colocaste,
prazer o que lhe apraz;
querer e não querer
em ti assim se a negou,
desejo amortecido;
porém tens sempre paz.
Esta é tal fornalha,
que purga e não acende,
da qual não se defende
nem frio, nem calor.
Mérito não procures,
mas mérito sempre encontres,
luz com dons novos,
os quais não pediste;
se tomas, tanto abraças,
que não os removes,
e alegrias sempre encontras,
onde tudo despendes;
tu corres, se não andas,
sobes, quanto mais desces,
quanto mais dás, assim tomas,
possuis o Criador.
Possessa possuída
em tanta união,
não há divisão
que te dele afaste;
tu bebes e és bebida
em transformação;
de tal perfeição
não há quem te distraia;
ou que sua mão contraia,
não querendo mais dar,
já não se pode encontrar:
tu és senhora e senhora.

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