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Isaac o sírio — TRATADOS MÍSTICOS
Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck; obra publicada em 1923
Isaac of Nineveh : Mystic Treatises (XVII)
XVII DOS CURTOS CAMINHOS PARA Deus QUE SÃO REVELADOS DAS DOCES OBRAS EM VIGÍLIAS E QUE AQUELES DEDICADOS A VIGÍLIAS SÃO SUPORTADOS PELO MEL POR TODA SUA VIDA
Não penses, ó homem, que, entre todas as obras dos ascetas, haja alguma maior e mais proveitosa do que a das vigílias. Na verdade, meus irmãos, se durante o dia o asceta não se distrair com coisas corporais e preocupações temporais, mas se afastar um pouco do mundo e permanecer vigilante, mesmo que em grau modesto, durante as vigílias, então não hesito em declarar-lhes com toda a sinceridade que, em breve, seu espírito voará como que com asas e ascenderá a Deus para se deleitar. E ele contemplará facilmente essa glória e, nesse conhecimento que é superior ao espírito humano, nadará rapidamente. O solitário que, durante suas vigílias, permanece atento ao discernimento da mente, não parecerá mais revestido de carne. Em verdade, essa obra pertence à classe dos anjos. E é impossível que aqueles que se dedicam a esse comportamento fiquem sem grandes dons divinos, em virtude da vigilância e da serenidade de seu coração, e porque suas reflexões se voltam exclusivamente para Ele.
A alma, portanto, que se dedica em seus esforços ao dever das vigílias, torna-se treinada e adquire os olhos dos querubins na rapidez e na perspicácia de seu olhar, de modo que, em todos os momentos, contempla as visões celestiais.
Sou da opinião de que aquele que, em virtude de vasto conhecimento e com discernimento, escolheu para si esta grande e divina obra, e se dedica inteiramente a arcar com o fardo da parte gloriosa que escolheu, necessariamente se empenhará em proteger-se também durante o dia contra o incômodo das ocupações e do cuidado com as coisas (mundanas), e que, consequentemente, não ficará privado dos frutos maravilhosos e do grande deleite que deles colherá. E posso afirmar deliberadamente, sem mentir, que aquele que despreza isso nem mesmo sabe com que propósito realiza todo esse trabalho árduo: a perda de sono, as muitas repetições, a fadiga da língua, o ficar em pé durante toda a noite, enquanto sua mente não está presente onde recita seus Salmos e orações; mas realiza essas obras por costume, como algo desprovido de discernimento. E se não fosse como digo, como ele poderia suportar ser privado e permanecer sem colher frutos proveitosos da dedicação constante ao seu trabalho? Mas ele se empenha por alcançar esses (resultados) por meio da ocupação sagrada da recitação das Escrituras, que é uma fortificação da mente e, principalmente, uma causa de oração, um auxílio e um companheiro das vigílias, uma luz da mente, um guia no caminho e a semente (NT: literalmente: o semeador) de múltiplas contemplações durante a oração. É um freio contra a distração do espírito e contra sua ocupação com coisas fúteis. Semeia na alma a constante lembrança de Deus e dos caminhos dos santos que Lhe agradaram. E faz com que a mente adquira sabedoria e sutileza.
Por que, então, ó homem zeloso, organizas tu as tuas ocupações dessa maneira, sem discernimento? Pois demonstras cuidado contigo mesmo ao permanecer de pé durante toda a noite, cansando-te com glorificações, salmos e orações. Seria fácil para ti, com um pouco de vigilância durante o dia, tornares-te digno da graça divina por teus esforços árduos em outros deveres. Por que, então, te cansas e semeias à noite, enquanto durante o dia tornas inúteis as tuas obras, de modo a perder os frutos, dissipando essa vigilância e esse fervor que desejarias adquirir com as vigílias, por meio da distração do convívio com os homens e de diversas ocupações, e destruindo o teu proveito com a ociosidade errante?
Se tu associasse à tua meditação noturna, ó homem, o serviço durante o dia, sem dividir em dois o fervor das ocupações do coração, tu abraçarias rapidamente o seio de Jesus.
E, a partir disso, tu vês que sofres por falta de discernimento. Pois tu não percebes por que as vigílias são necessárias para o asceta. Tu pensas que é apenas por causa do esforço, e não em relação a outra coisa que se espera que nasça disso.
Mas aquele que, pela graça, quase se tornou digno de compreender aquilo que os sábios esperam ao combater o sono e subjugar a natureza a tal ponto que, durante toda a noite, desperto corporal e mentalmente, ele oferece orações — também conhece a força que a vigília confere durante o dia e o benefício que ela traz ao espírito em sua solidão noturna, enquanto cumpre suas vigílias com discernimento; conhece, ainda, o poder que ela exerce sobre as deliberações, bem como a pureza e a concentração com que dota a mente, de modo que, sem compulsão nem conflito, o espírito contempla a grandeza das palavras (recitadas).
Digo também isto: embora o corpo possa falhar na prática do jejum devido à sua grande fraqueza, as vigílias, por seu caráter solitário, proporcionam à mente firmeza na oração e permitem que o coração reconheça os poderes espirituais por meio da introspecção. Isso só pode ocorrer se ele não for assaltado por qualquer perturbação causada pelo relaxamento decorrente das coisas encontradas durante o dia.
Portanto, exorto-te, ó homem de discernimento que desejas adquirir vigilância da mente em Deus e conhecimento da nova vida, para que, durante tua vida, não desprezes este dever das vigílias, pelo qual teus olhos serão abertos para ver toda a glória do trabalho ascético e o poder do caminho da retidão.
E se acontecer — infelizmente — que um pensamento de relaxamento se aninhe em ti, e tu pensares, com base em experiências anteriores, que teu ajudante habitual está te treinando e te tornando prudente por meio de estados variados, tais como frio e calor, ou pela variedade de acasos e ocasiões, ou por causa de teu corpo estar doente ou fraco; e se isso te levar a abrir mão do sono à noite, embora tu não queiras cansar teu corpo — então te imploro com amor que desistas de todo esse trabalho zeloso: a recitação dos Salmos, a celebração do culto, os frequentes ajoelhamentos durante as orações regulares. Aconselho-te a sentar-te em solidão, acordado, se fores capaz de fazê-lo, sem recitar Salmos e sem prostrações. E, se fores capaz de fazê-lo, reza apenas com o coração. Mas não durmas. E, por todos os meios, passa a noite sentado, na bela meditação de sempre. Apenas — não tornes teu coração pesado (NT: literalmente, denso) e sombrio pelo sono. Então, a antiga rapidez, força e fervor te serão concedidos pela graça, e tu te alegrarás, exaltarás e darás graças a Deus. Pois tal peso e frieza são permitidos ao homem a fim de prová-lo.
Se um homem se levantar com fervor e sacudir e afastar (o desânimo), obrigando-se um pouco, de repente a graça se aproximará como antes. E outra força se lhe concederá, na qual estão ocultos dez mil (dons da) graça e estados proveitosos. E o homem ficará surpreso ao pensar no peso anterior e na rapidez e força que se seguiram, e em como tal estado, de repente, o dominou.
Portanto, ele será prudente daqui em diante, de modo que, quando esse peso voltar em outras ocasiões, ele o reconheça. Mas se ele não tivesse sido ousado em ocasiões anteriores, não teria adquirido esse conhecimento.
Vês como um homem se torna prudente se se animar um pouco e se for valente no momento da luta. Mas quando sua natureza realmente se resume apenas a isso e não há mais luta, mas sim doença ou fraqueza natural, é inútil resistir. Se um homem se esforçar em outros aspectos, receberá força em todas as coisas.
A solidão constante, acompanhada de recitação e alimentação moderada, desperta facilmente no espírito um estado de êxtase (NT: atitude maravilhosa em relação às coisas), desde que a solidão perpétua não seja interrompida por nenhuma causa. A percepção provocada pelas obras realizadas na solidão, por si só, de forma automática e repentina, conferirá a esses dois olhos uma espécie de batismo, por meio de lágrimas que jorram e umedecem as bochechas com sua profusão.
Se perceberes em teu corpo, humilhado pelo ascetismo da solidão vigilante, a paixão veemente da fornicação — não o habitual impulso sombrio da natureza —, saiba então que estás sendo tentado em teu espírito pela altivez. Mistura tua comida com cinzas, pressiona teu ventre contra o pó e examina minuciosamente o que pensaste. E reconhece os diversos estados de tua natureza e teu serviço, que está acima de tua natureza. Talvez Deus tenha misericórdia de ti e te envie luz para que saibas como ser humilde, para que o teu mal não se torne maior.
Portanto, não desistiremos da cautela até que o arrependimento surja em nosso coração e encontremos a humildade, e nosso coração encontre descanso em Deus.
