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SCIVIAS

Colaboração e tradução de Antonio Carneiro

O “Scivias” é a primeira seção de uma trilogia que compreende também 0 “Liber vitae meritorum et le Liber divinorum operum”. A composição deste conjunto levou mais de vinte anos. O título “Scivias” é algo intrigante para o leitor. Agrupa duas palavras (sci-vias) cujas significações a santa explicou: “In visione etiam vidi quod primus liber visionum mearum Scivias diceretur, quoniam per viam luminis prolatus est, non de alia doctrina”.

O livro foi destinado para dar a conhecer as vias pelas quais Deus quer conduzir os homens para a salvação. E essas vias descritas são essencialmente as que Deus revelou no Antigo e no Novo Testamento.

Hildegarda teve uma educação muito cuidada e possuía vasta cultura; suas visões não a impediam de conhecer melhor a ciência humana, além da Bíblia, da liturgia, dos Padres da Igreja e dos escritores medievais. Seus escritos estão impregnados de tudo isto. O que a caracteriza, é o dom de propor parecido com um profeta ou vidente, sob uma forma poética e com ênfase de uma mística, o que outros não conseguiram exprimir senão de maneira escolástica e austera.


Aqui será encontrada a primeira tradução integral de “Scivias”. Esta obra com um título um pouco misterioso (“Sache les voies”) apresenta, em treze visões, a história das relações entre Deus e os homens, da criação ao julgamento final, insistindo no papel da Igreja na história da salvação. Apresentada de início como uma mulher que sem cessar dá luz a novos crentes, a Igreja torna-se, nas visões da terceira parte, um edifício que se construiu sob nossos olhos, fundado sobre o Verbo Divino e ornado de virtudes cristãs. Numa profusão de imagens, Hildegarda propõe de fato um tratado de teologia dogmática sobre a Trindade e a economia da salvação, uma moral, feita de múltiplas proibições e de vigorosas denúncias, mas também de uma generosa exaltação das virtudes, e enfim uma minuciosa pastoral dos sacramentos. Tudo isso em uma linguagem às vezes generosas e difícil, grandiosa e sombria, se apresentando em longos períodos que levam o leitor a se sufocar em um verdadeiro turbilhão.


BUTCHER, Carmen Acevedo; HILDEGARD. Hildegard of Bingen: a spiritual reader. Brewster, Mass: Paraclete Press, 2007.

COMO UM LEITOR MODERNO deve interpretar as visões de uma mulher medieval? A resposta curta é: com o intuito de colocar em prática suas verdades espirituais. Hildegarda anuncia o propósito de seu livro logo no início, abrindo Scivias com uma ordem enfática: “Olhem comigo!” Logo em seguida, ela nos conta por que registrou suas visões e o que elas se destinavam a realizar — a Voz divina lhe disse para expressar o que via e ouvia em suas visões, e por estas razões:

Portanto, agora você deve dar aos outros um relato compreensível do que vê com seu olho interior e do que ouve com seu ouvido interior. Seu testemunho os ajudará. Como resultado, os outros aprenderão a conhecer seu Criador. Eles não se recusarão mais a adorar a Deus.

Em outras palavras, suas visões têm o objetivo de nos ensinar como louvar a Deus e, a partir desse louvor, amar mais o Filho de Deus, a nós mesmos e aos outros, além de confiar no Espírito Santo para a cura, o perdão e a vida nova. Abreviação da expressão latina Scito vias Domini, ou “Conheça os Caminhos do Senhor”, o manuscrito Scivias está organizado em três livros, representando a noção medieval de perfeição refletida na Trindade. O primeiro livro contém seis visões, o segundo, sete, e o terceiro, treze.

As vinte e seis visões do primeiro grande livro de Hildegarda mostram que seu caminho é sempre o caminho da aceitação, e não a via negativa. Sua premissa básica é agostiniana. Ela vê Deus como misericordioso e compreende que a criação é boa, embora caída. Mas ela vai além de Santo Agostinho em sua articulação persistente e muito diversificada de uma teologia do “copo meio cheio”, em que Deus é bom.

Aqui, em Scivias, Hildegarda coloca suas visões surpreendentes e originais em prática para criar um manual ortodoxo para uma boa vida cristã. O objetivo é ensinar aos seguidores como levar um estilo de vida cristão e amoroso. Embora suas visões possam ser impressionantes, a teologia de Hildegarda está sempre bem fundamentada. Na verdade, ela está literalmente fundamentada, a ponto de fazer o leitor sensível pensar que talvez Hildegarda também fosse uma jardineira ávida, pois suas imagens frequentemente tratam de plantar e cultivar. Um dos principais temas de Scivias é a virgindade fértil de Cristo em contraposição aos vícios sexuais estéreis e desenfreados do Anticristo. Como veremos, Hildegarda mostra que todas as coisas crescem em Cristo e são fecundas, mas Satanás é a dessecação.

O primeiro livro de Scivias aborda a Criação e a Queda. O segundo livro trata da redenção, descrevendo a salvação por meio da encarnação de Cristo e sua presença no mundo contemporâneo por meio dos sacramentos da Igreja. O terceiro livro utiliza a imagem de um edifício para explorar a história da salvação, revela o amor de Hildegarda pela alegoria em seu foco nas Virtudes inspiradas pelo Espírito Santo e apresenta a santidade como uma jornada rumo ao reino de Deus. Em seu tratamento abrangente da doutrina cristã, o Scivias de Hildegarda se assemelha ao De sacramentis christianae fidei (Sobre os Sacramentos da Fé Cristã), de Hugo de São Vítor, escrito apenas alguns anos antes de Hildegarda iniciar o Scivias.

Na época de Hildegarda, o Scivias era sua obra mais conhecida. Talvez essa fama tenha resultado, em parte, das visões apocalípticas de seu final inesquecível. Primeiro, o Anticristo viola a Ecclesia (a Igreja), representada alegoricamente como uma mulher. Mais tarde, o Anticristo está sentado no topo de uma montanha de excrementos — o que simboliza a natureza repugnante do pecado —, quando um único raio, enviado por Deus, derruba esse impostor presunçoso, matando-o.

Em Scivias, Hildegarda frequentemente se refere ao terror do Anticristo que se aproxima do “Norte”, com o que ela se refere a Satanás e ao Anticristo. Em um mapa medieval, o norte normalmente ficaria no lado “sinistro” à esquerda, onde hoje está o nosso “oeste”, enquanto o “leste”, para Hildegarda, ocupava a posição mais elevada, a “celestial” (o nosso atual “norte”). Esse “leste” medieval representava a renovação espiritual e o surgimento direto do reino de Cristo.

A revelação final de Scivias literalmente canta. Ela inclui sete antífonas (um diálogo musical entre dois coros diferentes) e sete responsórios (cantados em “resposta” a uma leitura das Escrituras na igreja). Muitos deles honram a Virgem Maria. São seguidos por uma versão inicial e mais curta do Ordo virtutum (A Peça das Virtudes) de Hildegarda.

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