User Tools

Site Tools


primal:fassis:cantico:leclerc:vento-agua

7 Vento e Água

LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970

  1. A associação entre o Vento e a Água no Cântico não é acidental, pois ambos os elementos formam um casal fraterno que, na poesia e na religião, frequentemente simboliza forças complementares e profundas da existência humana.
  2. A união do Vento e da Água, presente na Bíblia e na poesia universal, revela um sentido que transcende a meteorologia, indicando que a celebração poética desses elementos convida a uma meditação sobre a condição humana e seus destinos.
  3. A imagem de “Irmão Vento”, ao ser personificada e tratada como um ente fraterno, deixa de ser um mero fenômeno físico para se tornar o símbolo de uma força cósmica que ressoa com forças íntimas e misteriosas da alma humana, como a abertura e o desprendimento.
    • Fraternizar com o Vento implica reconhecer-se interiormente aparentado a uma ambiência de exposição e mudança, que exige pobreza interior e abertura às renovações profundas, tal como experimentado por Francisco de Assis.
    • A celebração do Vento em todas as suas manifestações, sem distinguir o bom do mau tempo, revela uma alma que aspira a abrir-se à totalidade do Ser, acolhendo todas as inspirações divinas como benfazejas.
  4. A louvação ao Vento, reconhecido como colaborador do Criador que sustenta as criaturas, amplia a imagem para dimensões cósmicas, transformando-a em um símbolo do próprio Sopro criador que mantém todas as coisas no ser.
    • Essa valorização do Vento como força vital e benfazeja é uma seleção onírica que expressa a relação da alma com o sagrado, buscando no fenômeno físico uma linguagem para a presença ativa e cuidadosa de Deus na criação.
  5. A imagem de “Irmã Água”, por sua vez, é valorizada por seu ser e suas qualidades intrínsecas, como a humildade e a preciosidade, contrastando com a ação dinâmica atribuída ao Vento e estabelecendo um padrão de valorização ligado à intimidade e à profundidade do ser.
  6. A combinação do Vento e da Água na mesma louvação configura um símbolo universal de fecundação, onde o Vento, como princípio ativo, domina e fecunda a Água, que por sua vez representa o grande receptáculo, o princípio passivo e materno, simbolizando a renovação e o nascimento.
    • A união desses elementos em imagens poéticas frequentemente expressa o desejo profundo de renascimento, de retorno a um estado de infância e de comunhão com as forças primordiais da vida, indo além de uma mera contemplação narcísica e estéril da água.
  7. A louvação de Francisco à Água, com seus atributos de utilidade, humildade, preciosidade e castidade, revela uma imagem onírica profundamente selecionada que a afasta das águas tumultuosas e ameaçadoras para associá-la a uma presença feminina serviçal, reservada e pura.
    • O adjetivo “precioso”, aplicado tanto às estrelas quanto à água, aponta para uma realidade sagrada e de grande valor, funcionando como uma linguagem simbólica que, no imaginário de Francisco, expressa o que há de mais sacro, como os objetos e lugares destinados à Eucaristia.
    • A combinação dos atributos “preciosa” e “casta” sugere a imagem de uma água viva e seminal, que jorra de uma fonte profunda e inviolada, ligando-se à ideia de uma fonte sagrada e intacta, símbolo de pureza e de vida espiritual.
  8. A imagem de “Irmã Água”, assim como a do Vento, é um símbolo que revela o “Sacro”, sendo que a celebração do elemento cósmico ecoa uma revelação profunda na alma, onde a água, em sua dimensão feminina, representa o princípio da anima, a parte feminina e não racional do ser masculino.
    • A anima, simbolizada pela Água, é o arquétipo da vida que conecta o homem à sua totalidade psíquica, e ao ser acolhida na louvação como “preciosa e casta”, ela se torna uma abertura íntima para o Sagrado, permitindo o acolhimento do próprio Deus.
  9. A experiência espiritual expressa na louvação à Água e ao Vento corresponde àquela descrita na Carta a todos os fiéis, onde a simplicidade, a humildade e a pureza permitem que o Espírito do Senhor habite no homem, gerando uma nova vida divina, uma filiação ao Pai.
  10. A celebração cósmica do Vento e da Água, portanto, é a expressão simbólica da mesma experiência de nascimento espiritual e celestial, mas revestida de uma dimensão cósmica que reconcilia o homem com suas raízes profundas e suas forças vitais, na luz do mistério total do Ser.
  11. O Cântico das Criaturas, em sua totalidade, revela todo o seu sentido à luz da grande experiência espiritual de Francisco, onde a certeza da salvação e da entrada no Reino do Pai é celebrada por um homem em quem todas as coisas foram assumidas e transfiguradas no Espírito do Senhor, abertas ao mais alto destino humano.
Search
primal/fassis/cantico/leclerc/vento-agua.txt · Last modified: by 127.0.0.1