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1 Controvérias origenistas

ANTOINE E CLAIRE GUILLAUMONT

  1. Evágrio foi contemporâneo da primeira controvérsia origenista e, embora não apareça entre seus protagonistas célebres, esteve diretamente implicado nela por suas relações, por seu meio monástico e pela doutrina que professou.
  2. A vida de Evágrio é conhecida sobretudo pela História Lausíaca de Paládio e pela História Eclesiástica de Sócrates, fontes marcadas por proximidade com Evágrio e por pouca simpatia em relação a Teófilo de Alexandria.
  3. Os primeiros dados biográficos de Evágrio o vinculam aos grandes capadócios, pois nasceu por volta de 345 em Íbora, recebeu o leitorado de Basílio de Cesareia e foi ordenado diácono por Gregório de Nazianzo.
  4. Gregório de Nazianzo permaneceu para Evágrio como mestre espiritual e intelectual, e a amizade entre ambos é confirmada pelo lugar afetuoso concedido ao diácono Evágrio no testamento de Gregório.
  5. A iniciação de Evágrio à obra de Orígenes provavelmente ocorreu na escola de Basílio e Gregório de Nazianzo, embora Evágrio tenha levado a fidelidade ao teólogo alexandrino muito além da prudência de seus mestres capadócios.
  6. A passagem de Evágrio por Constantinopla terminou após um episódio passional que o levou a partir para Jerusalém, onde Melânia, a Antiga, o reconduziu ao ascetismo e o encaminhou definitivamente para a vida monástica no Egito.
  7. O encontro com Melânia e Rufino inseriu Evágrio em um meio palestino de leitura fervorosa de Orígenes e criou uma comunhão intelectual na qual Evágrio pôde expor com clareza suas teses mais ousadas sobre a fusão dos intelectos na Unidade.
  8. Evágrio fixou-se no Egito por volta de 383, vivendo primeiro em Nítria e depois nas Celas, onde a tradição dos Apotegmas conservou lembranças que o apresentam como estrangeiro, intelectual e monge chamado à humildade.
  9. A figura de Evágrio no deserto contrastava com a rusticidade dos monges egípcios, pois sua formação, sua atividade de copista e sua produção literária podiam despertar reservas em um ambiente desconfiado da ciência livresca.
  10. A tradição apotegmática sugere que Evágrio foi advertido por Macário do Egito contra perigos espirituais de sua ciência, mas também indica que ele não permaneceu isolado, pois se integrou a um grupo de monges cultivados e afins ao origenismo.
  11. A existência de monges origenistas no Egito precedeu a chegada de Evágrio, como mostram testemunhos ligados a Epifânio e às tradições pacomianas contra a leitura de Orígenes.
  12. As tradições atribuídas a Pacômio mostram que a oposição a Orígenes já era projetada retrospectivamente sobre o monaquismo egípcio, enquanto os relatos sobre anacoretas de grande estatura parecem apontar para os futuros “Longos Irmãos”.
  13. Os “Longos Irmãos”, especialmente Amônio e seus irmãos, formavam um grupo de monges notórios por cultura, ascetismo e simpatia origenista, profundamente ligado ao ambiente em que Evágrio viveu.
  14. Amônio, discípulo de Pambo e leitor de Orígenes, tornou-se figura central do grupo origenista egípcio, tendo recusado o episcopado e mantido relações próximas com Isidoro e com os monges cultos de Nítria.
  15. O círculo de Evágrio incluía monges como Amônio, Dióscoro, Eusébio e Eutímio, formando uma fraternidade espiritual reconhecida por Paládio como comunidade ligada à memória e ao ensinamento de Evágrio.
  16. A controvérsia antropomorfita opôs o pequeno grupo de monges origenistas à massa dos monges simples, que interpretavam literalmente a criação do homem à imagem de Deus e concebiam a divindade sob forma humana.
  17. A posição origenista contra o antropomorfismo afirmava a incorporeidade divina e exigia uma oração pura, sem representação sensível, figura, forma ou imagem da divindade.
  18. A doutrina evagriana da oração combate a imaginação antropomórfica de Deus e sustenta que a contemplação verdadeira deve libertar o intelecto de toda figura corporal.
  19. A insistência de Evágrio na oração sem imagens aproxima sua espiritualidade da tradição origenista e a coloca em tensão direta com a sensibilidade religiosa dos monges antropomorfitas.
  20. Teófilo de Alexandria inicialmente se mostrou hostil aos antropomorfitas, mas sua carta pascal contra a representação corporal de Deus provocou forte reação entre os monges egípcios.
  21. A mudança brusca de Teófilo levou-o a abandonar sua posição anterior e a voltar-se violentamente contra os origenistas, explorando a hostilidade dos antropomorfitas contra os monges cultos de Nítria.
  22. O conflito entre Teófilo e Isidoro contribuiu para desencadear a perseguição aos origenistas, pois Isidoro, antigo colaborador do patriarca, aproximou-se dos “Longos Irmãos” após romper com ele.
  23. A perseguição de Teófilo atingiu Nítria e os monges ligados ao origenismo, mas Evágrio morreu antes dos episódios mais violentos, permanecendo ligado ao grupo pelo ensinamento e pelas relações espirituais.
  24. O estudo dos testemunhos posteriores permite esclarecer a posição de Evágrio no origenismo, especialmente por meio de Jerônimo, Rufino, Paládio e Cassiano.
  25. Jerônimo acolheu inicialmente Evágrio no mesmo ambiente palestino frequentado por Melânia e Rufino, mas depois se tornou adversário do origenismo e atacou doutrinas associadas a Evágrio.
  26. A crítica de Jerônimo à impassibilidade e à impecabilidade mira o ideal evagriano de apatheia, interpretado por ele como erro herdado de Orígenes, dos filósofos e dos monges origenistas.
  27. Jerônimo parece ter conhecido Evágrio sobretudo por seu círculo e por sua doutrina, e seus ataques aos “víboras” origenistas refletem a hostilidade contra o grupo de monges ligado a Evágrio.
  28. Rufino manteve relações próximas com Melânia e com o ambiente de Evágrio, e sua tradução da História dos Monges no Egito preserva uma imagem elogiosa de Evágrio, ainda que moderada por cautelas doutrinais.
  29. A versão latina de Rufino sobre Evágrio valoriza o discernimento espiritual, a ciência ascética e a capacidade de purificar pensamentos, evitando destacar os aspectos mais suspeitos do sistema origenista.
  30. A História dos Monges no Egito, tanto em sua forma grega quanto em sua recepção latina, revela afinidades com o meio evagriano e testemunha a admiração pelo mestre das Celas.
  31. Paládio foi amigo, discípulo e admirador de Evágrio, e a História Lausíaca deve ser compreendida como obra profundamente marcada pelo espírito evagriano.
  32. A presença de Evágrio na História Lausíaca é central não apenas pelo capítulo a ele dedicado, mas também pela ampla atenção dada a seus companheiros, especialmente Amônio e os monges de seu círculo.
  33. Cassiano transmite grande parte da herança espiritual de Evágrio, sobretudo na doutrina dos vícios, da oração pura, da contemplação e da vida prática, ainda que nem sempre mencione o nome do mestre.
  34. As relações pessoais entre Cassiano e Evágrio permanecem difíceis de determinar, mas as afinidades doutrinais e os contatos de Cassiano com monges próximos ao círculo evagriano tornam provável uma dependência profunda.
  35. O silêncio de Cassiano sobre o nome de Evágrio corresponde a uma atitude que se tornaria comum no mundo greco-latino, em que a herança evagriana seria recebida, selecionada e transmitida sem referência explícita ao mestre condenado.
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