VIGILÂNCIA
Doroteo de Gaza — Conferências
Excertos do site “CONOCEREIS DE VERDAD”
X CONFERÊNCIA — SOBRE O OBJETIVO PRECISO E A VIGILÂNCIA COM QUE DEVEMOS PERCORRER O CAMINHO DE DEUS
104. Irmãos, cuidemos de nós mesmos, sejamos vigilantes. Quem nos devolverá o tempo se o perdermos? Poderemos procurar os dias perdidos, mas não os encontraremos. Abba Arsenio repetia incessantemente: “Arsenio, por que você saiu do mundo?”. Nós, por outro lado, somos tão negligentes que nem sabemos por que saímos, nem sabemos o que estamos buscando. E é por isso que não progredimos e sempre caímos na aflição. Isso se deve ao fato de nosso coração não estar atento. Pois se lutássemos um pouco, não sofreríamos nem nos afligiríamos por muito tempo; já que, embora no início seja preciso se esforçar lutando pouco a pouco, vamos avançando e acabamos trabalhando em paz, pois Deus vê que nos impomos disciplina e nos dá seu socorro.
Vamos nos esforçar, vamos colocar a mão na massa e ter, pelo menos, a vontade de fazer o bem. Embora ainda não tenhamos alcançado a perfeição, o simples fato de desejá-la já é o início de nossa salvação. Pois, do desejo, passaremos, com a ajuda de Deus, à luta; e, na luta, encontraremos o auxílio de Deus para adquirir as virtudes. É o que levava um dos Padres a dizer: “Dá o teu sangue e recebe o espírito”, ou seja, luta e toma posse da virtude.
105. Quando estudava as ciências profanas, sofria muito, pois, quando me dispunha a pegar um livro, era como se fosse enfiar a mão em um animal selvagem. Mas, como me esforcei com perseverança, Deus me ajudou, e adquiri o hábito de trabalhar a tal ponto que o entusiasmo pelos estudos me fazia esquecer o descanso, a comida e a bebida. Nunca ia comer com meus amigos; tampouco ia conversar com eles durante o horário de estudo, apesar de gostar da companhia e de amar meus colegas. Quando o professor nos mandava, eu ia tomar banho, já que precisava fazer isso todos os dias por causa da secura causada pelo excesso de trabalho. Depois, retirava-me sozinho, sem saber o que iria comer. Era incapaz de me distrair nem mesmo com a escolha das minhas refeições. Além disso, sempre havia alguém que me preparava o que queria. Eu comia o que ele me preparava, mas na minha cama, onde tinha meu livro, à leitura do qual me dedicava de vez em quando. Enquanto descansava, mantinha-o perto de mim, sobre minha escrivaninha, e depois de dormir um pouco, voltava à leitura. Também à tarde, após a liturgia das Vésperas, acendia a lâmpada e lia até meia-noite. Não tinha outro prazer além dos estudos. Quando cheguei ao mosteiro, disse a mim mesmo: “Se, pela ciência profana, experimentei tanta sede e ardor em me dedicar ao estudo e adquirir o hábito, quanto mais pela virtude?”. E desse pensamento tirava grande proveito.
Se alguém deseja adquirir a virtude, não deve se distrair nem se dispersar. Assim como aquele que deseja aprender carpintaria não se dedica a outra coisa, o mesmo ocorre com aqueles que querem adquirir a Arte espiritual: não devem se ocupar com outra coisa, mas devem se dedicar dia e noite à forma de se tornarem mestres. Aqueles que não fazem isso não só não progridem, mas, por não terem um objetivo, se cansam e se perdem, pois, sem vigilância e luta, cai-se facilmente fora da virtude.
106. As virtudes são um meio-termo; é o caminho real de que fala um santo Ancião: “Segui o caminho real e contai as milhas”. As virtudes são o meio entre o excesso e a falta. Está escrito: “Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda” (Provérbios 4:27), mas segue o caminho real (cf. Números 20:17). São Basílio diz: “É reto de coração aquele cujo pensamento não se inclina nem para o excesso nem para a falta, mas se dirige para esse meio que é a virtude”. O que quero dizer é o seguinte: o mal em si mesmo não é nada, porque não tem ser nem substância. Deus não o permita. É a alma que o produz ao se afastar da virtude e se encher de paixões. E, precisamente por causa desse mal, ela é atormentada, não encontrando seu repouso natural. É, por exemplo, como a madeira: não tem nenhum verme, mas, se apodrecer um pouco, dessa podridão nasce o verme que a roe. O ferro também produz ferrugem e é ele mesmo corroído pela ferrugem; ou ainda a roupa que dá origem às traças, pelas quais depois é devorada. Da mesma forma, a própria alma produz o mal que antes não tinha nem ser nem substância, e é devorada, por sua vez, por esse mesmo mal. É o que também disse São Gregório: “O fogo produzido pela madeira consome a madeira, assim como o mal consome os perversos”. E isso também é visível nos doentes. Se levarmos uma vida desordenada, sem cuidar da saúde, ocorre um excesso ou uma carência de humores, e daí decorre um desequilíbrio. Dessa forma, a doença antes não estava em lugar algum, nem mesmo existia. E, quando o corpo recupera novamente a saúde, a doença não se encontra em lugar algum. Da mesma forma, o mal é a doença da alma privada de sua saúde natural, ou seja, da virtude. Por isso dizemos que a virtude é um meio-termo. Por exemplo, a coragem é o meio-termo entre a covardia e a audácia; a humildade, entre o orgulho e o servilismo; o respeito, entre a vergonha e a insolência; e assim por diante com todas as outras virtudes. O homem que se reveste de todas essas virtudes é precioso aos olhos de Deus; e embora pareça que come, bebe e dorme como o resto dos homens, suas virtudes o tornam precioso. Ao contrário, se carece de vigilância e não cuida de si mesmo, facilmente se desvia do caminho, seja para a direita, seja para a esquerda, ou seja, para o excesso ou para a falta, e provoca essa doença que é o mal.
107. Esse é o caminho real que todos os santos seguiram. As “milhas” são as diferentes etapas que devemos medir para perceber onde estamos, a que distância chegamos, em que estado nos encontramos. Vou explicar: todos nós somos como viajantes que têm como meta a cidade santa. Partindo da mesma cidade, alguns percorreram cinco milhas e depois pararam; outros percorreram dez; alguns chegaram até a metade do caminho; outros não deram um passo sequer: ao saírem da cidade, ficaram nos portões, em sua atmosfera nauseante. Pode acontecer que outros percorram duas milhas, mas depois se percam e voltem sobre seus passos, ou, tendo percorrido duas milhas, voltem cinco para trás. Outros chegaram até a própria cidade, mas ficaram do lado de fora e não entraram nela.
É isso que nós somos. Certamente há entre nós aqueles que, tendo deixado o mundo para entrar no mosteiro, tinham como meta a aquisição das virtudes. Dentre eles, alguns progrediram um pouco, mas depois pararam; outros avançaram um pouco mais; outros chegaram até a metade do caminho, mas ficaram por lá. Há também aqueles que não fizeram nada: deram a impressão de abandonar o mundo, mas, na verdade, permaneceram nas coisas do mundo, em suas paixões e em sua podridão. Alguns chegaram a realizar algo de bom, mas depois destruíram isso, ou até destruíram muito mais do que haviam feito. Outros chegaram a adquirir virtudes, mas se enorgulharam e desprezaram o próximo: são aqueles que permaneceram fora da cidade, sem entrar. Esses também não chegaram à meta, pois, embora tenham chegado aos portões da cidade, permaneceram do lado de fora; por isso, também não cumpriram sua missão. Que cada um de nós tome consciência de onde se encontra. Ao sair da cidade, você ficou do lado de fora, perto do portão, à vista da cidade? Avançou pouco ou muito? Percorreu metade do caminho? Será que não avançou e depois recuou duas milhas? Ou será que recuou cinco milhas depois de ter avançado duas? Chegou até a cidade? Entrou em Jerusalém? Ou chegou à cidade sem conseguir entrar? Que cada um descubra em que estado e onde se encontra.
108. Existem três estados para o homem: aquele que dá vazão às suas paixões, aquele que as controla e aquele que as arranca pela raiz. Praticar uma paixão é realizar seus atos e entregar-se a ela. Controlá-la não é nem praticá-la nem arrancá-la, mas, por meio do raciocínio, superá-la, mesmo que a conserve no coração. Arrancá-la pela raiz é lutar e realizar atos contrários a ela.
Esses três estados envolvem um longo processo. Vamos dar um exemplo. Digam-me qual paixão desejam que examinemos. Querem que falemos do orgulho, da fornicação? Ou preferem que tratemos da vaidade, pois é ela que, com mais frequência, nos derrota? É por vaidade que alguém não consegue suportar uma palavra do irmão. Basta ouvir uma única palavra para ficar perturbado e responder com cinco ou dez. Discute, semeia a discórdia e, quando a briga termina, continua pensando mal do irmão por ele ter dito aquela palavra. Guarda rancor e se aflige por não ter dito mais coisas do que as que disse. Prepara palavras ainda piores para dizer a ele. Não para de pensar: “Por que não terei dito isso? Ainda posso dizer aquilo”. E não consegue sair de sua fúria. Esse é o primeiro estado, é o mal transformado em hábito. Que Deus nos livre dele! Tal disposição está, com toda certeza, condenada ao castigo. Todo pecado cometido merece o inferno. Mesmo que queira se converter, quem se encontra nesse estado não terá forças para, por si só, acabar com essa paixão, a menos que os santos o ajudem, como dizem os Padres. Por isso, não deixo de repetir a vocês: apressem-se a arrancar as paixões antes que se transformem em hábitos.
Pode acontecer que alguém, perturbado por uma palavra que ouviu, responda com cinco ou dez palavras por cada uma, depois se aflija por não ter dito outras, três vezes piores, sinta tristeza e guarde rancor. Mas, depois de alguns dias, se arrepende. Outro deixa passar uma semana antes de se arrepender; outro, apenas um dia. Outro se irrita, briga, se perturba e perturba o outro, mas se arrepende imediatamente. Observem como esses estados são variados, mas todos merecem o inferno, pois colocam a paixão em prática.
109. Falemos agora daqueles que controlam a paixão. Observem um irmão que ouve uma palavra e se aflige interiormente, mas fica triste não pela ofensa recebida, mas por não ter conseguido suportá-la. Esse é o estado daqueles que lutam, daqueles que controlam a paixão. Outro irmão luta com esforço, mas acaba sucumbindo sob o peso da paixão. Outro não quer responder mal, mas se deixa levar pelo hábito. Outro ainda luta para evitar qualquer palavra desagradável, mas se entristece por ter sido maltratado, embora condene sua própria tristeza e faça penitência. Outro, enfim, não se aflige por ter sido maltratado, mas também não se alegra com isso. Todos esses, observem bem, contêm a paixão. Mas há dois que se distinguem dos demais, a saber: aquele que é vencido na luta e aquele que é levado pelo hábito, pois ambos correm o perigo de quem dá vazão à paixão. Eu os coloquei entre aqueles que a contêm porque essa é a intenção deles. Não querem pôr em prática a paixão, mas sentem tristeza e lutam. Os Padres disseram que tudo o que a alma rejeita é de curta duração. Esses irmãos devem examinar-se para saber se o que retêm não é a própria paixão, mas uma das causas da paixão, e se não é por isso que são vencidos e arrastados.
Alguns lutam, por assim dizer, para conter a paixão, mas é sob a instigação de outra. Tal irmão, por exemplo, guarda silêncio por vaidade; tal outro, por respeito humano, ou por alguma outra paixão. É curar o mal com o mal. Abba Poimén diz que de maneira alguma a iniquidade destrói a iniquidade. Por isso, esses irmãos estão entre aqueles que exercitam a paixão, mesmo que não acreditem nisso.
110. Agora devemos falar daqueles que arrancam a paixão. Observem um irmão que se alegra por ter sido maltratado, mas por causa da recompensa que receberá. Ele é daqueles que arrancam a paixão, mas não com sabedoria. Outro também se alegra por ter sido ultrajado e está convencido de que o ultraje era merecido, pois ele mesmo havia dado motivo para isso. Este extrai a paixão com sabedoria, pois ser maltratado e atribuir a culpa a si mesmo, assumir por conta própria as afronta recebidas, é obra da sabedoria. Pois aquele que diz a Deus em sua oração: “Senhor, concede-me a humildade”, deve saber que está pedindo a Deus que lhe envie alguém para maltratá-lo. E, quando é maltratado, deve maltratar a si mesmo e desprezar-se em seu coração, a fim de se humilhar por dentro enquanto é humilhado por fora.
Por fim, há também aqueles que não apenas se regozijam com a afronta e se consideram responsáveis, mas também se afligem com a perturbação daquele que os afronta. Que Deus nos conduza a tal estado!
111. Observem a natureza desses três estados. Que cada um de nós, repito, veja qual é o seu estado. É com total conformidade que exerce a paixão e a alimenta? Ou, sem agir voluntariamente, a põe em prática, vencido ou arrastado pelo hábito? E depois, se aflige por isso? Faz penitência? Luta para conter a paixão com sabedoria, ou sob a instigação de outra paixão? Pois já dissemos que se pode guardar silêncio talvez por vaidade, por respeito humano, em resumo, por uma consideração humana. Começou a arrancar suas paixões? Faz isso com conhecimento, realizando atos contrários à paixão? Que cada um observe onde se encontra, a que distância está.
Além de nosso exame diário, devemos nos examinar a cada ano, a cada mês e a cada semana, perguntando-nos: “Onde me encontro agora em relação àquela paixão que me oprimia na semana passada?”. Da mesma forma, a cada ano: “No ano passado fui vencido por tal paixão; como me encontro agora?”. Dessa forma, devemos nos questionar sempre para ver se fizemos algum progresso, se permanecemos estagnados ou se pioramos.
112. Que Deus nos dê força, se não para erradicar a paixão, pelo menos para não colocá-la em prática, para contê-la! Pois é algo realmente grave dar vazão à paixão e não contê-la. Vou lhes dizer a quem se assemelha aquele que cede à paixão e a alimenta: assemelha-se a um homem que recebe com as próprias mãos os golpes que o inimigo lhe desferiu e os aplica a si mesmo no coração. Quanto àquele que contém a paixão, é como um homem atacado pelo inimigo, mas que, revestido de uma couraça, não é atingido por nenhum golpe. Por fim, aquele que arranca a paixão é como alguém que rejeita os golpes que recebe ou os devolve ao coração de seu inimigo, tal como diz o salmo: que sua espada penetre em seu coração e que seus arcos se quebrem (Salmos 36:15). Tentemos também nós, irmãos, se não pudermos devolver a espada ao coração dele, a não receber seus golpes para aplicá-los a nós mesmos no coração, e revistamo-nos também com uma couraça, para não sermos feridos por eles. Que Deus, em sua bondade, nos proteja, nos torne vigilantes e nos guie em seu caminho!
