primal:conselho:6
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- A alma verdadeiramente humilhada e fundada na fé, que aniquila a si mesma em amor total ao Senhor, merece que Deus — com seu poder, sabedoria e bondade — a proteja de todas as adversidades sem que ela precise de qualquer esforço, ansiedade ou mérito próprio.
- As almas apenas parcialmente humilhadas não devem julgar nem estranhar as almas contemplativas que ousam abandonar-se totalmente a Deus, pois a vida ativa é suficiente para a salvação daquelas, mas não autoriza que censurem o caminho mais elevado das que vivem na contemplação.
- A recusa em dar crédito ao ensinamento unânime dos Padres da Igreja sobre a aniquilação do eu revela ou cegueira espiritual ou uma forma secreta de inveja, e tal resistência favorece o inimigo, que induz a confiar mais no próprio entendimento do que na sabedoria antiga e na graça divina.
- Quando a alma é tocada pela verdadeira contemplação — entendida como o “fazer nada de si” e o “fazer tudo de Deus” —, a razão humana morre completamente, assim como Raquel morreu ao dar à luz Benjamim, e quem tenta esquadrinhar com a razão as obras desse estado contemplativo age como quem mata o próprio filho recém-nascido.
- Da mesma forma que nos primeiros tempos da Igreja artesãos e estudantes abandonavam tudo subitamente ao serem tocados pela graça do martírio, é necessário crer que Deus ainda hoje toca almas escolhidas com a graça igualmente súbita da contemplação, preservando-as de todo inimigo pela bondade divina, sem esforço algum da parte delas.
- Quem se opõe a esse abandono total ou é movido pelo demônio, que rouba a confiança amorosa em Deus, ou ainda não atingiu a humildade necessária para a vida contemplativa, e não há razão para temer adormecer nessa percepção cega de Deus, pois o Senhor sustenta os passos de quem nele se lança.
- O trabalho da contemplação é justamente comparado ao sono, pois assim como no sono corporal os sentidos físicos se suspendem para que o corpo se restaure inteiramente, no sono espiritual as especulações inquietas da mente se calam para que a alma repouse em percepção amorosa de Deus e fortaleça suas potências espirituais.
- Ao oferecer a consciência nua e cega do próprio ser, é preciso mantê-la despida de qualquer atributo — nobreza, qualidade ou particularidade da existência humana —, pois qualquer revestimento alimenta o pensamento e lhe dá pretexto para dispersar a alma em inúmeras direções sem que ela perceba.
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