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CASSIANO — CONFERÊNCIAS

PRIMEIRA CONFERENCIA DO ABADE MOISÉS — DA META E DO FIM DO MONGE

I. Os habitantes de Scete e o propósito do Abade Moisés

No deserto de Scete moravam os mais ilustres pais de monges e toda perfeição. Entre todas aquelas eximias flores, rescendia de modo mais suave, tanto pela ascese como pela contemplação, o abade Moisés.

Desejoso de ser formado a sua escola, fui a sua procura no deserto, em companhia do santo abade Germano. Com este, desde os primeiros exercícios da milícia espiritual, vivi em tão estreita companhia, tanto no mosteiro como no deserto, que todos diziam, para significar a nossa amizade e comum propósito, que éramos um só espírito e uma só alma em dois corpos.

Juntos, rogamos com muitas lágrimas ao mesmo abade uma conversa de edificação. Bem conhecíamos o seu rigor e sabíamos que não consentia em abrir as portas da perfeição senão àqueles que a desejavam com fé e a procuravam de coração contrito. Pois não devia acontecer que a mostrasse a quem não a queria ou que só mornamente a desejasse, expondo, assim, a indignos, que as acolheriam com fastio, aquelas realidades necessárias que só devem ser reveladas a quem tem sede de perfeição, pois, do contrário, pareceria a ele incorrer no vicio de vanglória ou mesmo no crime de traição.

Cansado de nossos rogos, ele, afinal, começou a falar.

II. Pergunta do abade Moisés sobre o escopo e o fim do monge

Toda Arte, disse ele, e toda disciplina tem um escopo, ou fim particular, e um “telos”, isto é, um fim próprio. É fixando neste os olhos, que o zeloso pretendente de qualquer arte sustenta, sem pertubação e de boa vontade, todos os trabalhos, perigos e prejuízos.

O lavrador, por exemplo, arrostando os raios ardentes do sol ou geadas e neves, infatigavelmente rasga a terra e com o vai-e-vem do arado amanha as glebas bravias. Assim fazendo, ele conserva o seu escopo, que é purgar a terra de todas as sarças e libertá-la de ervas daninhas, ate que a torne, pelo seu trabalho, fina e solta como areia. Ele não espera conseguir de outro modo o seu fim, que consiste em searas copiosas e colheitas abundantes, para que possa, daí em diante, levar uma vida segura ou aumentar seu patrimônio. De bom grado, esvazia os celeiros cheios de grãos e com instante trabalho os semeia nos sulcos amolecidos. Contemplando as futuras searas, ele não sente a diminuição de agora.

Também os que vivem do comércio, não temem os azares do mar nem se apavoram com qualquer perigo, quando, alçados pela esperança do voo ligeiro, são provocados ao lucro, que é o seu fim.

O mesmo acontece com os que se inflamam com a ambição da carreira militar, ao divisar ao longe o seu fim, que são as honras e o poder. São insensíveis aos perigos e mortes das campanhas e não se deixam abater pelos sofrimentos e riscos atuais, nem pelas aflições e guerras do momento, pois ambicionam a dignidade, que e o fim que se propõem.

Assim também, a nossa profissão. Ela tem igualmente o seu escopo e o seu fim próprio. Por este fazemos todos os trabalhos, sem cansaço e até com alegria. Para obtê-lo, não nos fadiga a privação dos jejuns, achamos prazer na lassidão das vigílias, não nos enfastia a contínua leitura e meditação das Escrituras, nem nos deixamos assustar pelo trabalho incessante, pela nudez e privação de tudo, nem pelo horror desta vastíssima solidão.

É, sem duvida, por causa deste mesmo fim, que abandonastes o afeto dos pais e desprezastes a pátria e as delícias do mundo, atravessando tantas regiões para chegar ate nos, homens rústicos e ignorantes, que vivemos na aspereza deste ermo.

III. Nossa resposta

Como insistisse em nossa resposta, dissemos que tudo isso tolerávamos por causa do reino dos céus.

IV. Pergunta do abade Moisés sobre o que acabamos de a firmar

Muito bem, disse ele, falastes corretamente sobre o fim. Mas, antes de mais nada, deveis saber qual é o nosso escopo, isto e, a firme determinação a que devemos aderir sem cessar, para podermos atingir o nosso fim.

Como confessássemos com simplicidade a nossa ignorância, acrescentou: Em toda Arte e disciplina, como ja disse, tem precedência um certo escopo, isto é, um propósito da alma, uma incessante intenção da mente. Se alguém não o guardar com perseverante empenho, não poderá chegar ao fim desejado.

Pois, como eu disse, o lavrador, tendo por fim próprio viver do provento de colheitas abundantes com segurança e largueza, exerce o seu escopo ou determinação ao purgar de sarças e ervas inúteis o seu campo, só confiando em atingir o fim almejado, a opulência, se, antes de obtê-lo, já de algum modo o possua em seu trabalho e sua expectativa.

Igualmente o mercador. Não abandona o desejo de adquirir mercadorias, pois e por seu intermédio que pode mais rendosamente acumular Riqueza. Em vão cobiçaria o lucro, se não tomasse o caminho que a ele conduz.

Os que ambicionam as honras deste mundo, através de determinadas dignidades, escolhem antes os cargos e carreiras a que devem dedicar-se para poder chegar, pelo caminho certo, ao fim que ia desejada dignidade.

Assim, o fim ultimo da nossa via e o reino de Deus. Mas, qual seja o escopo, deve-se cuidadosamente procurar. Se nao o soubermos com clareza, em vão nos cansaremos em nossos esforços, pois os que viajam sem caminho certo, só conseguem o labor da jornada, não o avanço.

Diante do nosso assombro,continuou o ancião: O fim último da nossa profissão, como dissemos, e o reino de Deus ou dos céus. Quanto ao nosso escopo, e a pu reza de coração, sem a qual e impossível alguém alcançar aquele fim.

Portanto, fixando neste escopo o olhar quer nos dirige, orientamos a nossa corrida por uma linha certa, de modo que se o nosso pensamento se desviar um pouquinho, nos o retificamos, voltando logo a contemplá-la , como a uma norma. Revertendo os nossos esforços a esse signo único, ele nos avisara imediatamente, caso o nosso espírito se desvie ainda que pouco da direção proposta.

V. Comparação com aquele que se esforça por atingir o alvo

É como os que são hábeis no manejo de armas de arremesso. Quando querem demonstrar a sua perícia diante de um rei deste mundo, esforçam-se por lançar dardos ou flechas em pequenos escudos onde são pintados os prêmios. Estão certos de não poder alcançar o seu fim, o prêmio cobiçado, senão visando diretamente ao alvo . Ganharão o prêmio se puderem realizar o escopo proposto. Se este lhes for subtraído da vista, seja qual for o desvio que afaste o olhar imperito da direção correta, eles não perceberão que se apartaram daquela linha, porque lhes falta o sinal certo que lhes aprove a correção do tiro ou acuse a sua falha.

E assim, ao lançarem no ar e no vácuo seus inúteis arremessos, estão impedidos de distinguir por que erraram ou se enganaram, pois carecem de qualquer indicação do desvio, e o seu olhar confuso não pode ensinar como, desde então, corrigir ou recuar a linha acertada.

Assim também a nossa profissão. Seu fim, segundo o Apóstolo, é a Vida Eterna, conforme suas próprias palavras: “Tendes por fruto a santidade, e por fim a vida eterna” (Romanos 6:22).

Quanto, porem, ao nosso escopo, é a pureza de coração, que ele merecidamente chama de santidade, sem a qual aquele fim não poderia ser atingido. É como se dissesse em outras palavras: Tendes o vosso escopo na pureza de coração e o vosso fim na vida eterna.

Falando, alias, desse escopo, o mesmo Apóstolo emprega o próprio termo, isto é, escopo, de modo bem significativo: “Esquecendo o que esta para trás e lançando-me para a frente, eu sigo sem parar até o fim, para a recompensa a que fui chamado do alto” (Filipenses 3:13-14). O texto grego e mais claro ainda, trazendo: Kata skopon dioko, isto e, “eu sigo até o fim, segundo o escopo, vale dizer, segunda a determinação que me propus, como se dissesse: “Por este propósito pelo qual esqueço o que ficou pra trás, isto é, os vícios do velho homem, eu me esforço por chegar ao meu fim,que é a recompensa celeste”.

Assim sendo, devemos abraçar com toda energia o que pode nos encaminhar ao escopo da pureza de coração, e evitar tudo que dela nos separa, como pernicioso e nocivo»

É ela a razão de tudo que fazemos e suportamos. É por ela que abandonamos parentes, pátria, honrarias, Riqueza, delícias e qualquer prazer deste mundo, para guardar continuamente a pureza de coração.

Se nos propomos esta intenção, os nossos atos e pensamentos sempre irão direito a sua conquista. Mas se ela não estiver constantemente diante dos nossos olhos, não só os nosso trabalhos se tornarão vazios e instáveis e sem nenhum proveito, mas também se levantarão pensamentos de toda sorte e contrários entre si.

Pois é inevitável que a alma, não tendo a que voltar e a que se fixar de preferência, mude a cada hora e a cada minuto, ao sabor da variedade dos impactos que sofre, e logo se transforme, em virtude das influências de fora, na disposição que primeiro lhe ocorra.

VI. Daqueles que, renunciando ao mundo, lutam sem caridade pela perfeição

Daí vem que já vimos que muitos, depois de ter deixado as maiores riquezas, não só em quantias de ouro e prata, mas igualmente em propriedades magníficas, se deixam perturbar, depois disso, por causa de um canivete, um estilete, uma agulha, uma pena de escrever. Se tivessem mantido o olhar invariavelmente fixo naquela pureza de coração, jamais teriam admitido em coisas tão pequenas o que radicalmente rejeitaram em bens consideráveis e preciosos.

Pois acontece muitas vezes que não poucos guardam com tanto ciúme um volume, que não permitem a ninguém sequer de leve o ler ou tocar. E assim encontram ocasião de impaciência e de morte onde eram estimulados a ganhar a recompensa da paciência e da caridade. Depois de terem distribuídos todos os seus bens por amor de Cristo, eles retém em coisas minímas o antigo afeto do seu coração e se deixam por elas, muitas vezes, encher-se de fortes cóleras, como os que, não tendo a caridade do Apóstolo, se tornam de todo infrutuosos e estéreis. O santo Apóstolo o previa, em espírito, quando disse : “Ainda que eu distribuísse todos os meus bens para o alimento dos pobres, e entregasse meu corpo as chamas, se eu não tiver a caridade, de nada me serve” (1 Cor 13,3).

Prova-se, assim, com clareza, que não se alcança de imediato a perfeição pela simples nudez e pela Renuncia de toda Riqueza e honraria, se não houver aquela caridade cujos membros descreve o Apóstolo, pois é só na pureza de coração que ela consiste.

Pois o que é não invejar, não se encher de orgulho, não se irritar, não agir mal, não ir atrás do próprio interesse, não ter prazer com a injustiça, não levar em conta o mal (cf. Cor 13,4 ss) e o resto, senão oferecer sempre a Deus um coração perfeito e sincero, e guardá-lo imune de quaisquer pertubações?

VII. É preciso desejar a tranquilidade do coração

É, portanto, pela pureza do coração que tudo devemos fazer e apetecer. Por ela, temos de ir atrás da solidão. Por ela, saibamos que nos cumpre assumir jejuns, vigílias, trabalhos, nudez, leitura e outras virtudes, para, graças a isto, tornar e conservar livre de más paixões o nosso coração, galgando por estes degraus a perfeição da caridade.

E se eventualmente não pudermos, em virtude de alguma legítima e necessária ocupação, realizar o ritual dos nossos rigores costumeiros, não vamos por motivo de tais observâncias cair na tristeza ou na ira ou indignação, pois é para vencer tais coisas que teríamos feito o que foi omitido. Não e tão grande o lucro do jejum, quanto os dispêndios da ira; nem tanto o fruto que se colhe com a leitura, quanto o dano que sofremos com o desprezo dum irmão.

Convém, portanto, fazer por causa do nosso escopo principal, isto é, a pureza de coração, que é a caridade, todas aquelas coisas secundárias — jejuns, vigílias, anacorese,meditação das Escrituras — e não desbaratar por causa delas esta virtude principal, pela qual se a guardamos intacta em nos, nada nos poderá fazer mal, ainda que se omita por necessidade algo de secundário.

De resto, não nos servirá de nada fazer todas as coisas, se nos deixarmos privar daquela que chamamos principal e para cuja aquisição tudo deve ser feito.

Se alguém, com efeito, se apressa a arranjar e preparar as ferramentas de qualquer Arte, não é para as possuir ociosas nem para fundar na mera posse dos instrumentos o fruto deles esperado, mas, sim, para adquirir realmente, por seu serviço, a maestria e o produto daquela arte, de que são eles os meios.

Assim, os jejuns, as vigílias, a meditação das Escrituras, a nudez e a privação de todos os recursos não constituem a perfeição, mas são instrumentos da perfeição, pois, se não é deles que está o fim dessa disciplina, é por eles que se chega ao fim.

É, portanto, em pura perda que alguém multiplicará tais exercícios, se neles detiver a intenção do seu coração, como se fossem o sumo bem, deixando de fixar no fim pelo qual se justificam aquelas práticas, todo esforço da sua virtude. Possuiriam os instrumentos daquela disciplina, mas ignorariam o seu fim, no qual consiste todo o fruto.

Tudo, pois, que pode perturbar a pureza e a tranquilidade da mente, ainda que pareça inútil e necessário, deve ser evitado como prejudicial. Com esta norma poderemos escapar a dispersão dos pensamentos extravagantes e atingir, seguindo a justa direção, o fim querido.

VIII. O nosso principal esforço para a contemplação das coisas divinas e o exemplo de Maria e Marta

Este, portanto, deve ser para nós o principal esforço, esta a invariável intenção do coração para que a mente sempre esteja fixa em Deus e nas coisas divinas. Tudo que disto se afasta, mesmo que seja grande, deve ser julgado secundário ou mesmo ínfimo, ou por certo nocivo. De modo muito belo, o Evangelho traça uma figura deste espírito e deste modo de agir, no episodio de Maria e Marta.

Enquanto Marta prestava um serviço absolutamente santo, pois era ao próprio Senhor e a seus discípulos que ela ministrava, e Maria, somente atenta à doutrina espiritual, estava fixa aos pés de Jesus, que ela, beijando, ungia com o perfume duma boa confissão, e ela a preferida pelo Senhor, por ter escolhido a melhor parte, e uma parte que não lhe podia ser tirada.

Marta, com efeito, toda ocupada nos piedosos cuidados do seu serviço doméstico, vendo-se incapaz de cumpri-lo sozinha, pede ao Senhor a ajuda da irmã: “Não te importas que minha irmã me deixe servir sozinha? dize-lhe, pois, que me ajude” Lucas 10:40). Não era a uma obra vil, mas a um louvável ministério, que ela chamava Maria. E, no entanto, que resposta ouviu do Senhor? “Marta, Marta, estás preocupada e te perturbas por muitas coisas; não há necessidade senão de poucas, e até mesmo uma só basta. Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada” Lc id.,41-42).

Vedes, portanto, que o Senhor colocou o bem principal só na ”theoria“, isto é, na contemplação divina. Segue-se que as outras virtudes, ainda que as proclamemos necessárias e úteis e boas, nós a julgamos de segundo grau, porque todas são praticadas para a obtenção desta só. Dizendo o Senhor: “Estás preocupada e te perturbas por muitas coisas: não há necessidade senão de poucas e até mesmo uma só basta”, ele colocou o sumo bem, não na ação, embora louvável e abundante de frutos, mas na contemplação dele mesmo, que é, na verdade, simples e una. Ele afirmou que poucas coisas são necessárias para a perfeita bem-aventurança, isto é, aquela ”theoria“ que começa pela consideração do exemplo de uns poucos santos .

Elevando-se desta contemplação, aquele que ainda se acha em progresso, chegará também a esse único assim chamado, isto é, a visão de Deus só, com a sua graça. Ultrapassando, com efeito, os atos e ministérios maravilhosos dos santos, ele já passa a nutrir-se da beleza e do conhecimento de Deus. “Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada”.

é preciso considerar isto mais cuidadosamente. Quando ele disse: “Maria escolheu a boa parte”, embora se cale a respeito de Marta e não pareça censurá-la, ao louvar aquela, declara esta inferior. E quando diz: “Que não lhe será tirada”, mostra que desta pode-se tirar a sua parte (um serviço corporal não pode perseverar sempre com o homem), ao passo que a ocupação de Maria, esta, como ele ensina, em tempo algum pode findar.

IX. Pergunta-se como é que não permanece com o homem a ação das virtudes

Ficamos muito perturbados com esta palavra: “Pois' que, dissemos nós, então o labor dos jejuns, a solicitude da leitura, as obras de misericórdia, de justiça, de piedade e afeição humana, nos serão tiradas e não permanecerão com os seus autores? Mas, sobretudo, não foi o próprio Senhor que prometeu o reino dos céus em retribuição a tais obras, ao dizer: “Vinde, benditos do meu Pai, entrai na posse do reino que está preparado para vós desde a Origem do Mundo. Pois tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber” (Mateus 25:34-35), e o resto? como enfim, será tirado o que introduz no reino os seus praticantes?

X. Resposta, dizendo que não é a recompensa, mas o ato das virtudes que cessará

Moisés: Eu não disse que o prêmio da boa obra nos deva ser tirado, porque o mesmo Senhor declara: “Aquele que der a um desses pequeninos um cálice de água fresca, porque é um dos meus discípulos, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa” (Mateus 10:42). Mas, sim, que lhe será tirada a ação, atualmente exigida pela necessidade corporal, pelos ataques da carne ou pelas desigualdades deste mundo.

A assiduidade da leitura e as aflições do jejum para purificar o coração e castigar a carne, só têm utilidade na vida presente, enquanto “a carne tem concupiscência contra o espírito” (Gálatas 5:17). Vemos, alias, que não raro esse exercício já nesta vida cessam para aqueles que estão esgotados pelo excessivo trabalho, ou pela doença e a velhice, e não podem ser perpetuamente praticados.

Quanto mais cessarão no futuro, quando “este corpo corruptível se revestir de corruptibilidade” (1 Cor 15,53), e este corpo agora “animal” ressuscita “espiritual” (1 Cor 15,44), e a carne começará a não mais ter concupiscência contra o espírito?

Sobre isto, igualmente, o Apóstolo se pronuncia com clareza: “O exercício corporal tem utilidade limitada: mas a piedade (sem dúvida, e a caridade que se deve entender), é util para tudo, pois ela tem a promessa da vida presente e futura” (1 Tim 4,8).

Dizer que uma tem utilidade limitada, é declarar claramente que ela nem se pratica todo tempo, nem pode por si só conferir a quem se esforça, a suma perfeição. O limite, com efeito, pode referir-se as duas coisas, vale dizer, tanto à brevidade do tempo, já que o exercício corporal não pode ser coeterno ao homem nem na vida presente nem na futura; como, igualmente, a pouca utilidade obtida pelos exercícios corporais, porque a maceração corporal produz um certo começo de progresso, mas não a própria perfeição da caridade, e é esta que tem a promessa da vida atual e futura.

Julgamos, pois, necessário o exercício dessas obras, porque sem elas e impossível subir ao cume da caridade.

As obras de caridade e misericórdia, como as chamais, são também necessárias neste tempo, enquanto ainda reina a desigualdade. Mas dessas obras nem mesmo seria de esperar a sua prática, se não houvesse, aqui em baixo, um número muito grande de pobres, necessitados e enfermos, produzido pela injustiça dos homens, daqueles, quero dizer, que retiveram para seu uso exclusivo, sem contudo, realmente servir-se delas, as coisas que o criador comum concedeu a todos.

Enquanto, pois, grassar neste mundo uma tal desigualdade, aquela ação tão necessária aproveitará a quem a exercer, dando ao bom coração e benevolência fraterna o prêmio da herança eterna. Mas no século futuro, reinando a igualdade, ela cessará. Já não mais haverá ali diferenças que exijam a sua prática, mas todos passarão da multiplicidade da ação à caridade de Deus e a contemplação das coisas divinas, numa perpétua pureza de coração.

É a isto que, deste este século, se dedicam com todas as forças, aqueles que só querem cuidar da ciência e da purificação da sua mente. Consagrando-se, enquanto se acham na condição carnal e corruptível, ao ofício em que haverão de permanecer depois de a ter deixado, eles atingem aquela promessa ao Senhor, nosso Salvador, que diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5:8).

XI. A perpetuidade da caridade

Por que vos admirais da transitoriedade daqueles serviços acima enumerados? O próprio Apóstolo nos descreve como passageiros até os mais sublimes carismas do Espírito Santo. Somente a caridade, como ele nos indica, permanece sem fim: “As profecias serão abolidas, as línguas cessarão; a ciência será destruída” (1 Cor 13,8).

Mas quanto a caridade, diz ele:“A caridade não passará jamais” (id).

Todos os dons, com efeito, nos são dados em razão da utilidade e da necessidade, por algum tempo, devendo, sem dúvida, desaparecer logo que se consumar a presente economia. A caridade, porém, não será jamais interrompida. Não é só neste mundo que ela opera em nós de modo útil, mas também no futuro. Depois de deposto o fardo das necessidades corporais, ela permanecerá ainda mais eficaz e mais excelente, para que, sempre imune de qualquer desgaste, para aderir a Deus, na eterna incorruptibilidade, de modo ainda mais ardente e mais intenso.

XII. Pergunta sobre a perseverança da ”theoria” espiritual (contemplação)

Germano: Quem é que pode ser sempre tão preso a essa contemplação, na fragilidade da carne, que nunca pense na chegada dum irmão, na visita de um doente, no trabalho manual, ou na hospitalidade devida aos peregrinos ou a pessoas que chegam? E, afinal, quem não é solicitado a prover as necessidades e cuidados do corpo? Muito gostaríamos de aprender como e em que Medida pode a mente unir-se a esse Deus invisível e incompreensível.

XIII. Resposta sobre a orientação do coração para Deus e sobre o reino de Deus e do demônio

Unir-se a Deus sem interrupção e ficar-lhe inseparavelmente unido pela contemplação, como dizeis, é impossível ao homem na fragilidade da carne.

Mas precisamos de saber onde devemos ter fixa a intenção da nossa mente e para qual objetivo reconduzir constantemente o olhar da nossa alma. Se a mente puder guardá-la, alegre-se; se se deixar distrair, deplore e suspire.

E saiba que dacaíu do bem supremo, todas as vezes que se surpreender esquecida daquela contemplação. Julgue ser uma prostituição todo afastamento, ainda que momentâneo, da contemplação do Cristo. Quando, pois, o nosso olhar se desviar dele um pouco, voltemos de novo para ele os olhos do coração e reapliquemos como em linha reta a força da mente.

Tudo, na verdade, se tem na profundeza da alma. Se daí foi expulso o diabo, e se os vícios não mais aí reinam, consequentemente se funda em nós o reino de Deus, como diz o Evangelista: “O reino de Deus não vira de modo visível. Não dirão: ei-lo aqui ou ali. Em verdade, eu vos digo, o reino de Deus esta dentro de vós”(Lucas 17:20-21).

Ora, dentro de nós, não pode existir senão o conhecimento ou a ignorância da verdade e o amor dos vícios ou da virtude, pelos quais preparamos em nosso coração um reino para o diabo ou para o Cristo. O Apóstolo, por sua vez, assim descreve a qualidade desse reino: “O reino de Deus não é comida ou bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17).

Se, portanto, o reino de Deus está dentro de nós, e se ele é justiça, paz e alegria, quem mora nessas virtudes, está, sem dúvida, no reino de Deus. E, pelo contrário, quem vive na injustiça, na discórdia e na tristeza que produz a morte, está no reino do diabo, no inferno e na morte, pois é por esses indícios que se discerne o reino de Deus ou do diabo.

E, de fato, se, elevando o olhar da mente, considerarmos aquele estado em que vivem as potencias celestes que estão verdadeiramente no reino celeste, como é que devemos julgá-lo, senão a perpétua e contínua alegria ? Que é, pois, mais próprio e mais conveniente à verdadeira bem-aventurança, do que a tranquilidade constante e a alegria eterna?

E para aprenderes com maior certeza que assim é como dizemos, não por minha conjetura, mas pela Autoridade mesma do Senhor, escuta-o descrevendo claramente a natureza e o estado daquele mundo: “Eis que eu creio novos céus e uma nova terra; as coisas antigas não serão mais lembradas, nem subirão mais ao coração. Mas gozareis de uma alegria e exultação eterna no que eu criar” (Isaías 65:17-18). E ainda: “Nela se encontrarão o gozo e a alegria, ação de graças e cantos de louvor. E isto será de mês a mês, de sábado a sábado” (Isaías 51:3; 66,23). E mais uma vez: “A alegria e a exultação eles terão, a dor e o gemido fugirão” (Isaías 35:10).

Se desejais conhecer com clareza ainda maior o que são a vida e a cidade dos santos, prestai atenção ao que diz a voz do Senhor, falando a Jerusalém: “Eu te darei por visita a paz e como autoridades a justiça. Não se ouvirá mais falar de iniquidade em tua terra, nem de devastações e de ruínas em tuas fronteiras, e a salvação cobrirá teus muros e o louvor as tuas portas. Para ti não mais o sol para luzir durante o dia, nem o esplendor da lua te iluminará, pois o próprio Senhor será a tua luz eterna, e Deus a tua glória. Teu sol não se porá, e tua lua não diminuirá, mas o Senhor será uma luz sempiterna, e terminarão os dias do teu luto” ( Isaías 60:17-20).

Por isto, o santo Apóstolo não declara que qualquer alegria, de um modo geral é simplesmente, seja o reino de Deus, mas somente aquela que é no Espírito, como ele assinala a específica (cf. Romanos 14:17). Ele sabe que existe uma outra alegria, que e censurável, da qual se diz: “Este mundo se alegrará” (João 16:20), e ainda: “Ai de vós que rides, porque chorareis” (Lucas 6:25).

O reino dos céus, sem duvida, deve ser entendido em três sentidos: ou que os céus, isto é, os santos, hão de reinar sobre os outros homens submetidos a eles, conforme esta palavra: “Tu governarás cinco cidades e tu a dez” (Lucas 19:19 e 17), e esta outra dirigida aos discípulos : “Assentar-vos-ei sobre doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel” (Mateus 19:28). Outro sentido é que os próprios céus tornar-se-ão o reino de Cristo, quando tudo lhe será submetido e Deus começar a “ser tudo em todos” (1 Cor 15,28). Ou, enfim, que os santos reinarão nos céus com o Senhor.

XIV. Da imortalidade da alma

Por este motivo, saiba cada um desde agora, enquanto se acha neste corpo, que lhe caberá aquele lugar e ministério do qual na vida presente ele se mostrar um membro devotado. E não duvide, também, que no século eterno ele terá a mesma sorte daquele cujo serviço e companhia tiver agora preferido. É a sentença do Senhor que diz: “Se alguém me quer servir, me siga, e onde eu estou, lá estará o meu ministro” (João 12:26).

Assim como alguém acolhe pela conivência no vício o reino do diabo, assim também possui o de Deus pela prática das virtudes na pureza de coração e na ciência espiritual. Mas onde está o reino de Deus, aí esta, fora de dúvida, a Vida Eterna. E lá onde está o reino do diabo, aí, com toda certeza, está igualmente a morte e o inferno, onde aquele que lá estiver, nem pode louvar o Senhor, segundo a sentença do profeta que diz: “Os mortos não vos louvarão, Senhor, nem todos os que descem para o inferno” (sem dúvida, o do pecado). “Mas nós, continua ele, que vivemos (não para o vício, nem para este mundo, mas para Deus), bendizemos o Senhor, desde agora e para sempre” (SI 113,17-18). “Porque não há ninguém na morte, que se lembre de Deus; no inferno (do pecado), quem louvará o Senhor?” (SI 6,6). O que significa ninguém.

Ninguém, na verdade, embora milhares de vezes se professe cristão ou monge, louva o Senhor, quando peca. Ninguém se lembra de Deus, se comete aquilo que o Senhor abomina, nem se diz com verdade servo daquele cujos mandamentos despreza por contumaz temeridade.

É dessa morte, que a viúva que vive nas delícias esta morta, como afirma o Apóstolo: “A viúva que vive nas delícias, está morta, embora vivendo”(1 Tim 5,6).

Existem, pois, muitos que, mesmo se vivem neste corpo, são mortos e, jazendo no inferno, não podem louvar a Deus. Mas, de outro lado, existem os que, mortos no corpo, bendizem e louvam a Deus pelo espírito, segundo esta palavra: “Bendizei o Senhor, espíritos e almas dos justos” (Daniel 3:86) e ainda: “Todo espírito louve o Senhor” (SI 150,6).

E no Apocalipse é dito que as almas dos imolados não só louvam a Deus, mas ainda gritam por ele (Cf. Apoc 6,9-10). E no Evangelho, o Senhor fala mais claramente ainda aos Saduceus, dizendo: “Não lestes o que vos foi dito por Deus: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de ISAQUE e o Deus de Jacó? Ele não é um Deus de mortos, mas de vivos”(Mateus 22:31-32). Todos eles vivem para Deus. Referindo-se a eles, diz também o Apóstolo:“Por isto, Deus não se envergonha de ser chamado seu Deus, porque lhes preparou uma cidade” (Hebreus 11:16).

Que as almas depois de separadas de seus corpos nem ficam ociosas nem deixam de sentir, mostra-o também a parábola evangélica do pobre Lázaro e do rico vestido de púrpura. Um merece o lugar da suprema felicidade, o repouso no seio de Abraão; o outro é abrasado pelo intolerável ardor do fogo eterno (cf. Lucas 16:18 ss).

Se quisermos, igualmente, prestar atenção ao que foi dito ao ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43), qual é o seu sentido manifesto, senão que perduram nas almas não só os seus conhecimentos anteriores, mas também que elas gozam duma conveniente mudança conforme a qualidade dos seus méritos e ações.

O Senhor nunca lhe teria feito esta promessa, se soubesse que sua alma, depois de separada do corpo, deveria ser privada de sentimento ou dissolvida no nada . Não era seu corpo, mas sua alma, que devia entrar com Cristo no paraíso.

Devemos, pois, evitar, ou melhor abominar com horror, aquela perversa distinção de certos heréticos que, não crendo que o Cristo tenha podido achar-se no céu no mesmo dia em que desceu aos infernos, assim cortam a frase: “Em verdade eu te digo hoje” e, pondo aí uma divisão, acrescentaram: “Estarás comigo no paraíso”.

E como se devesse entender a realização da promessa não imediatamente após a passagem desta vida, mas somente depois da vinda da ressurreição. Eles não compreendem aquilo que, antes da sua ressurreição, ele disse aos Judeus, que o criam preso, como eles, aos limites estreitos do humano e a fraqueza da carne: “Ninguém sobe ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho que está no céu” (João 3:13).

Tudo isto prova claramente que as almas dos defuntos não só continuam dotadas de seus sentimentos, mas até mesmo não deixam de ter afetos tais como esperança e tristeza, alegria e medo. E que já começam a antegozar algo de quanto lhes é reservado no juízo final. E, enfim, que elas não se dissolvem no nada após a saída deste mundo, conforme opinião de alguns incrédulos, mas, ao contrário, subsistem num modo mais vivo e se entregam mais intensamente ao louvor de Deus.

E, de fato, se, deixando por um momento o testemunho das Escrituras, passo a disputar um pouco sobre a natureza da alma, segundo a mediocridade da minha razão, não é, acaso, para lá não digo só da frivolidade, mas da loucura, supor mesmo de leve que aquela parte mais preciosa do homem, que traz em si, segundo o Apóstolo, a imagem de Deus e sua semelhança, possa tornar-se insensível, justamente ao depor o fardo corporal que agora a embota?

Ela que contém em si a força da razão e faz, por seu consórcio que a matéria muda e insensível da carne se torne sensível, é absolutamente lógico e conforme a reta ordem da razão, concluir que, uma vez livre desta gordura carnal que a entorpece, ela recobra em melhores condições as suas forças intelectuais e, em lugar de perdê-las, as recebe de volta, mais puras e mais sutis.

O bem-aventurado Apóstolo é a tal ponto convencido da verdade que dissemos, que chega a desejar sair da carne, para assim poder unir-se mais intimamente ao Senhor: “Tenho o desejo de ir-me embora e de estar com Cristo, o que é muito melhor” (Filipenses 2:23), “porque enquanto estamos no corpo, somos em exílio longe do Cristo” (2 Cor 5,6). Por isto, “temos confiança e preferimos, de boa mente, exilar-nos do corpo e estar junto do Senhor. É também por esta razão que nos esforçamos, seja ausentes seja presentes, para agradar-lhes” (id.8-9). Assim, declara ele que a habitação da alma na carne é um exílio longe do Senhor e uma ausência em relação a Cristo, ao passo que confia com toda fé que a separação deste corpo é presença junto de Cristo.

Com maior clareza, ele fala, em outra passagem, desse estado vivíssimo das almas: “Vós vos aproximastes da montanha de Sião e da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celeste, e da multidão de milhares e milhares de anjos, e da assembleia dos primogênitos inscritos no céu e dos espíritos dos justos prefeitos”(Hebreus 12:22-23). Referindo-se a estes espíritos em outro lugar, ele diz: “Depois tivemos como mestres os nossos pais segundo a carne e os respeitávamos; com maior razão não nos haveremos de submeter-nos ao Pai dos espíritos para que vivamos?” (id 8-9).

XV. A contemplação de Deus

A contemplação de Deus pode entender-se de muitos modos.

Pois Deus, nós o conhecemos não só pela admiração da sua essência incompreensível, que ainda se acha escondida na esperança da promessa, mas também pela grandeza das suas criaturas, ou se consideramos a sua justiça ou o auxílio cotidiano da sua providência. Assim é quando repassamos, de mente muito pura, tudo que ele fez por seus santos ao longo de cada geração. E quando admiramos, de coração a tremer, a força com que governa, modera e rege todas as coisas, bem como a imensidade da sua ciência e o seu olhar ao qual não escapa nem o segredo dos corações. Ou quando pensamos que o número das areias e das ondas do mar ele contou e conhece. E quando contemplamos, cheios de estupefação, que são presentes ao seu conhecimento as gotas das chuvas, os dias e as horas dos séculos, e passado e o futuro. E quando vemos, num transporte de admiração, a inefável clemência com que suporta, sem que a sua longanimidade se canse, os crimes inumeráveis cometidos a cada momento diante dos seus olhos. E a vocação a que nos chamou, pela graça da sua misericórdia e sem quaisquer méritos precedentes. E ainda quantas ocasiões de salvação ele concede aos que vai adotar como filhos!

Pois ele nos fez nascer de tal modo que, desde o berço, a sua graça e o conhecimento da sua lei nos fossem dados. E, vencendo em nós ele próprio o adversário, ao preço apenas do consentimento da nossa boa vontade, nos agracia com a eterna bem-aventurança e prêmios sem salvar, o plano de sua incarnação, e dilatar entre os povos as maravilhas dos seus mistérios.

São, aliás, inumeráveis outras contemplações do mesmo gênero, que podem nascer em nossas faculdades, segundo a qualidade da nossa vida e a pureza do coração, e nas quais Deus é visto ou possuído em puras intuições. Ninguém, no entanto, as poderia reter perpetuamente, se nele ainda vive algo dos afetos carnais. Porque “não poderás ver a minha face”, diz o Senhor, “nenhum homem pode me ver e viver” (Êxodo 33:20), isto é, para este mundo e as afeições terrenas.

XVI. Pergunta sobre a mobilidade dos pensamentos

Germano: Como é que pensamentos supérfluos, mesmo contra a nossa vontade e até mesmo sem sabermos, se insinuam em nós de modo tão sutil e escondido, que temos não pequena dificuldade não só para os repelir, mas também para os conhecer e descobrir? Pode a mente ver-se um dia livre deles e não ser mais atacada por ilusões desta espécie?

XVII. Resposta sobre o que pode e o que não pode a mente quanto ao estado dos pensamentos

Moisés: É impossível, sem dúvida, que a mente não seja perturbada por pensamentos. Mas a quem se empenha, é possível os acolher ou rejeitar. Se, de um lado o seu nascimento não depende inteiramente de nós, já a sua aprovação e acolhida esta em nossas mãos.

E se dissemos ser impossível à mente não ser assaltada por pensamentos, nem por isto se deve tudo atribuir as suas investidas ou aos espíritos malignos que nos tentam sugeri-los. Se assim não fosse, nem sobraria ao homem o livre arbítrio, nem nos restaria o empenho da nossa própria correção.

Eu digo, ao contrario, que depende de nós, em grande parte, melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, e influir na sua formação em nossos corações, se santos e espirituais ou carnais e terrenos.

É a este fim, portanto, que se prendem a leitura frequente e a constante meditação das Escrituras: proporcionar a memória das coisas espirituais.

Este o motivo do canto repetido dos Salmos: alimentar-nos a contínua compunção, e afinar-nos de tal modo a mente, que ela perca o sabor das coisas terrenas e possa contemplar as celestes. Se, voltando atrás, e levados por uma sorrateira negligência, cessarmos tais exercícios, é inevitável que a mente obscurecida pela impureza dos vícios se incline logo para o lado da carne e aí se precipite.

XVIII. Comparação da alma com a mó de moinho

Este exercício do coração bem se pode comparar à mó que as águas dum canal, tombando, fazem rodar com rapidez. Sempre a dar voltas ao impulso das águas, ela não pode, de nenhum modo, cessar o seu trabalho. Entretanto, está no poder daquele que se acha à testa do moinho, escolher o que vai moer, se o trigo, a cevada ou o joio. O que é fora de dúvida, é que só mói aquilo que o responsável tiver fornecido.

Ora, o mesmo acontece com a alma. Posta em movimento pelas torrentes de tentações que a investem de todos os lados através dos choques da vida presente, ela não poderá ficar vazia da maré dos pensamentos. A seu zelo e diligência cabe ver quais deve admitir ou procurar.

Se, pois, como dissemos, recorremos à meditação assídua das Escrituras e levantamos a nossa memória a lembranças das coisas espirituais e ao desejo da perfeição e esperança da futura bem aventurança, é inevitável que os pensamentos daí nascidos sejam espirituais e farão que nossa mente se detenha naquilo que meditamos.

Se, pelo contrário, vencidos pela preguiça ou a negligência, nos deixamos invadir pelos vícios e conversas ociosas, ou nos embaraçamos com cuidados mundanos e preocupações supérfluas, a espécie de cizânia que daí nasce sobrecarregará o nosso coração com um trabalho nocivo. E segundo a sentença do nosso Salvador, onde estiver o tesouro das nossas obras e de nossa intenção, lá permanecerá necessariamente o nosso coração (cf. Mateus 6:21).

XIX. Os três princípios dos nossos pensamentos

Uma coisa importante devemos, antes de tudo, saber: três são os princípios dos nossos pensamentos, isto é, Deus, o demônio e nós mesmos.

São, com efeito, de Deus, quando ele se digna de nos visitar por uma iluminação do Espírito Santo, elevando-nos a progresso mais alto; também, quando ele nos castiga por uma compunção salutar, se avançamos menos ou nos deixamos vencer, agindo com relaxamento; ou ainda, ao descobrir-nos os celestes mistérios e quando atrai a nossa vontade e propósito a atos ainda melhores (cf. Est 6, 1ss).

É como aconteceu com o rei Assuero, quando castigado pelo Senhor, e levado a consultar os anais e estes lhe trazem à memória os benefícios de Mardoqueu. Ele então o exalta com as maiores honras e revoga de imediato a crudelíssima sentença de morte contra o povo judeu.

O mesmo se dá com o profeta, ao recordar: “Escutarei o que me fala o Senhor Deus”(Salmos 84:9). E este outro que afirma: “Assim falou o anjo que falava em mim” ( Zacarias 1:14). Ou como quando o Filho de Deus promete vir com o Pai e fazer em nós a sua morada“ (cf João 14:23). Ou quando ele diz: “Não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós”(Mateus 10:20). E também quando diz o vaso da Eleição, S.Paulo: “Procurais uma prova de que é Cristo que fala em mim”(2 Cor 13,3).

Do Demônio, por outro lado, nasce uma série de pensamentos, quando se esforça por derrubar-nos tanto pela atração dos vícios, como por ocultas ciladas, pondo em ação a sua sutilíssima esperteza para nos apresentar fraudulentamente o mal como bem e transfigurar-se a nossos olhos em anjo de luz (cf. 2 Coríntios 11:14).

Ou como conta o evangelista: “E acabada ceia, como já o demônio tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariota, o propósito de trair o Senhor” ( João 13:2), e depois: “Depois do bocado, entrou nele Satanás (id 27). O mesmo disse Pedro a Ananias: “Por que Satanás tentou o teu coração, para mentires ao Espírito Santo (Atos 5:3) ?

Acrescentemos ainda o que lemos no Evangelho, mas que muito antes o Eclesiastes predizia: “Se o espírito do que tem o poder se levante contra ti, não deixes teu lugar”(Eclesiastes 10:4). Igualmente, o que pela boca do espírito imundo se diz a Deus contra Acab, no terceiro livro dos Reis: “Eu sairei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas”(III Reis 22,12).

Quanto aos pensamentos que vem de nós, são os que nascem quando nos lembramos naturalmente de tudo que estamos fazendo, ou fizemos ou ouvimos. É a estes que se refere o bem-aventurado Davi, quando diz: “Eu pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos, e meditei, de noite, quando se exercitava no meu coração e examinava o meu espírito”(SI 76,6-7). E ainda: “O Senhor conhece os pensamentos dos homens e sabe que são vãos ” (SI 93,11), e também: “Os pensamentos dos justos são justiça”(Prov 12,5). E nos Evangelhos diz o Senhor aos Fariseus: “Por que pensais o mal em vossos corações?)( Mateus 9:4).

XX. O discernimento dos pensamentos a exemplo do cambista perito

Devemos, portanto, sempre ter em vista esta causa tríplice dos nossos pensamentos e examinar com sagaz discernimento todos os que emergem em nosso coração. É preciso indagar desde o princípio as suas origens, causas e autores, a fim de podermos considerar, segundo o mérito do que sugerem, como os devemos acolher. Assim nos tornaremos cambistas peritos, segundo o preceito do Senhor (Mateus 25:27).

Sua Arte e perícia, com efeito, consiste em reconhecer o que é ouro puríssimo e o que foi menos purificado pelo fogo no cadinho. No seu bem atilado discernimento, ele não se deixa enganar, se uma peça vil de cobre tenta imitar, com as aparências de ouro brilhante, uma moeda preciosa. Pois não só sabe reconhecer as peças cunhadas com a efígie de tiranos, mas também discernir com perícia mais sagaz as que, embora trazendo a imagem dum rei verdadeiro, são dinheiro falsificado. Finalmente, investigam cuidadosamente, ao exame da balança, se nada lhes falta do legitimo peso.

Tudo isto nós também devemos observar espiritualmente, como nos mostra em exemplo, com este nome de cambista, a palavra do Evangelho.

Assim é que nos cumpre, em primeiro lugar, examinar com o maior cuidado tudo quanto se introduz sorrateiramente em nossos corações, ou qualquer preceito que nos seja apresentado, a ver se não é, acaso, algo ligado à superstição judaica ou proveniente da orgulhosa filosofia do século, que apresenta uma piedade de mera superfície. Isto poderemos fazer, se cumprirmos aquela palavra do Apóstolo: “Não creias em qualquer espírito, mas provai os espíritos se são de Deus” (l João 4:1).

Nesta espécie de erros cairam, enganados, aqueles que, depois de ter feito profissão de monge, se deixaram iludir por belas palavras e certas sentenças de filósofos, que, à primeira vista, lhes soavam com sentido piedoso e de acordo com a religião. Enganadoras em seu brilho exterior de ouro, elas deixaram para sempre nus e miseráveis aqueles que seduziram por sua aparência, como moedas de cobre vil e falsificadas, seja fazendo-os voltar ao barulho do mundo, seja por arrastá-los a erros heréticos ou a opiniões orgulhosas.

Foi o que sofreu Acor, como lemos no livro de Jesus, Filho de Navé. Tomado pela cobiça, ele furtou um lingote de ouro do acampamento dos Filisteus, merecendo por isto ser punido de anátema e condenado à morte eterna.

Em segundo lugar, convém observar com todo cuidado que, ligado ao ouro puríssimo das Escrituras, uma falsa interpretação não nos engane por causa do metal precioso. Foi neste ponto que o demônio, muito esperto, tentou enganar o nosso Salvador, como se se tratasse de um simples homem. Corrompendo com uma interpretação maliciosa o que deve ser entendido das pessoas dos justos em geral, ele tenta explicá-lo de modo especial àquele que não precisava da guarda dos anjos: “Ele ordenou a seus anjos por causa de ti, que guardem em todos os teus caminhos; e eles te transportarão em suas mãos, para que não batas o teu pé contra as pedras” (Mateus 4:6;Salmos 90:11-12).

Como se vê, ele assim transmuda, por uma astuta interpretação, as preciosas palavras da Escritura, torcendo-as num sentido contrário e nocivo, para nos apresentar, sob as cores do ouro falso, a imagem dum tirano usurpador.

O mesmo acontece, quando ele se esforça por nos iludir com moedas falsas, aconselhando, por exemplo, alguma obra de piedade que não provém da cunhagem legítima dos antigos e, sob pretexto de virtude, nos leva ao vício. São jejuns imoderados e inoportunos, vigílias excessivas, orações desordenadas, leituras inconvenientes com que nos logra e arrasta a um fim desgraçado.

Outras vezes, ele nos persuade a fazer intervenções e visitas piedosas, a fim de nos tirar da clausura espiritual do mosteiro e do segredo duma paz amiga. Ou também nos leva a assumir os cuidados e assuntos de Religiosas destituídas de recursos, para que o monge, prisioneiro desses laços de que não pode soltar-se, se veja dividido por preocupações perniciosas. Ou então ele nos instiga a desejar a santa função da clericatura, sob pretexto de edificação de muitos e por amor do lucro espiritual, para nos arrancar, com isto, à humildade e austeridade do nosso propósito. Embora tais coisas sejam contrárias a nossa salvação e profissão, como, no entanto, se cobrem de certo véu de misericórdia e piedade, facilmente enganam os inexperientes e incautos.

Elas imitam as moedas do rei verdadeiro, pois parecem, à primeira vista, cheias de piedade, mas não foram cunhadas pelos legítimos moedeiros, isto é, os Padres católicos e aprovados, nem procedem da oficina do seu firme e autorizado ensinamento. São moedas clandestinas, fabricadas em fraude pelos demônios e passadas, com grande dano, aos inexperientes e ignorantes.

Conquanto pareçam no momento úteis e necessárias , se, contudo, começam depois a ser contrarias à solidez da nossa profissão e a pôr em risco, de certo modo, todo o corpo do nosso propósito. Importa à nossa salvação cortá-las e lançá-las fora, como a um membro que, embora necessário, nos escandaliza, mesmo que nos pareça exercer a função de mão ou pé direito. É preferível, de fato, ter um membro a menos, isto é, privar-se da realização e do fruto de um preceito, e continuar são e firme quanto aos outros e, depois entrar, amputado, no reino dos céus; a cair,com todos os mandamentos completos, em algum escândalo. Transformado em pernicioso habito, ele nos separaria da regra de austeridade e da disciplina do projeto de vida que abraçamos, para lançar-nos numa tal ruína, que, sem poder compensar os danos futuros, exponha ao fogo do inferno todos os nossos frutos passados e o corpo inteiro das nossas obras (cf. Mateus 18:8).

Deste gênero de ilusões, o livro dos provérbios fala bem a propósito: “Há caminhos que parecem retos ao homem, mas o seu final é o fundo do inferno”(Prov 16,25). E também: “O maligno prejudica quando se une ao justo (id 11,25), vale dizer, o demônio engana, quando se cobre com as cores da santidade. “Ele odeia a palavra que protege”, isto é, o vigor da discrição que procede das palavras e conselhos dos antigos.

XXI. A Ilusão do abade João

É deste modo que, há pouco, segundo sabemos, foi enganado o abade João, que mora em Lico.

Com o corpo exausto e alquebrado, ele retardou por um jejum de dois dias a tomada de alimento. No dia seguinte, quando se aproximava da refeição, veio a ele o demônio na figura de um negro etíope, e lançou-se aos seus joelhos, dizendo: Perdoa-me pois fui eu que te impus este trabalho.

Então, aquele grande varão, tão perfeito no senso da discrição, compreendeu que, sob as cores da abstinência exercida de modo inconveniente, fora surpreendido pelo demônio e se deixara enfraquecer por um jejum que sobrecarregou o seu corpo já fatigado, com um esfalfamento desnecessário e, mais ainda, nocivo ao seu espírito. Fora, assim, ludibriado por uma moeda falsa, na qual venerou a imagem do rei verdadeiro, pouco indagando se era de cunhagem legítima.

Agora, a ultima tarefa do cambista perito. Dissemos acima que é o exame do peso. Ela se cumprira, se o nosso pensamento refletir sobre as coisas que tivermos a fazer, revolvendo-as com o maior escrúpulo, para que, depois de colocá-las na balança do nosso coração, as possamos pesar com a mais perfeita exatidão. Assim apuraremos se são completas segundo a dignidade da nossa regra comum, se são de peso em razão do temor de Deus e irrepreensíveis quanto ao sentido; ou se são levianas por ostentação humana ou alguma novidade presunçosa, e se a vanglória não lhes teria diminuído ou arruinado o peso de seu mérito.

Desta maneira, nós as examinamos numa balança autorizada, conferindo-as com os atos e os ensinamentos dos profetas e dos apóstolos, de modo que possamos ou guardá-las, se são coisas íntegras e perfeitas e de peso igual a tais ensinamentos, ou recusá-las com toda cautela e diligência, se defeituosas e nocivas e não conformes ao mesmo padrão.

XXII. A quadrupla divisão da discrição

Assim, precisamos da discrição nos quatro modos de que falamos.

Primeiro, pois, é preciso que não ignoremos qual a natureza da matéria, se é ouro verdadeiro ou falsificado. Em segundo lugar, devemos rejeitar como moeda falsa os pensamentos que mentirosamente fingem a piedade. Eles contêm a imagem do rei, mas são falsos porque não cunhados de modo legítimo. Devemos, em seguida, discernir e igualmente rejeitar tudo aquilo que sobre o ouro preciosíssimo das Escrituras imprime um sentido vicioso e herético: a imagem não é do rei verdadeiro, mas do tirano. Finalmente, temos de recusar como dinheiro leve, prejudicial e com peso a menos, os pensamentos roídos pela ferrugem da vaidade, não podendo, por isto, corresponder à Medida dos antigos.

Com isso, evitaremos cair naquilo que o preceito do Senhor nos admoesta a observar com toda a força, para não sermos defraudados nem do mérito nem da recompensa dos nossos trabalhos: “Não acumuleis tesouros para vós na terra, onde a ferrugem e os vermes roem, e os ladrões cavam e roubam” (Mateus 6:19).

Pois tudo que fizermos em vista da glória humana, saibamos que é um tesouro que acumulamos na terra, segundo a sentença do Senhor. Assim sendo, devemos considerá-lo como escondido no chão e metido na terra, à mercê da devastação dos demônios ou da ferrugem voraz da vaidade, e de tal maneira pronto a ser devorado pelas traças da soberba, que não pode pretender a qualquer utilidade e proveito para quem o esconde.

É, pois, preciso examinar, sem cessar, as profundezas do nosso coração e, com o faro mais sensível, seguir o rastro dos que ali entram, para não acontecer que alguma fera espiritual, leão ou dragão, passando por lá, deixe em segredo a marca de seus passos perniciosos e permita, pela negligência quanto aos pensamentos, o acesso de outros ao santuário íntimo da nossa alma.

E assim, ao longo de cada hora e de cada minuto, sulcando a terra do nosso coração com o arado do Evangelho, isto é, a constante lembrança da cruz do Senhor, poderemos exterminar de nós os covis de animais ferozes e o esconderijo de serpentes venenosas.

XXIII. A palavra do mestre segundo o mérito do ouvinte

Enquanto nos olhava, estupefactos como estávamos por tudo e inflamados de imenso ardor diante desse discurso, o ancião, não contendo o seu espanto pela força do nosso desejo, suspendeu por um momento a palavra e depois acrescentou: Vossa aplicação, ó filhos, me provocou a tão longa discussão, e eu vejo que em razão do vosso desejo, um certo fogo alimenta com pensamentos mais ardentes o nosso discurso.

Mas, por isso mesmo, a fim de que eu veja claramente que na verdade tendes sede da doutrina da perfeição, quero dissertar um pouco mais sobre a superioridade e a graça da discrição, que entre todas as virtudes tem o mais alto lugar e a primazia, e comprovar a sua excelência e utilidade, não só por exemplos cotidianos, mas também pelas sentenças e pareceres dos antigos pais.

Lembro-me, porém, de que frequentemente, a muitos que me rogavam com lágrimas e gemidos um discurso desta natureza, não pude satisfazer-lhes a vontade, apesar do meu grande desejo de dar-lhes alguma doutrina. Faltavam me não só as ideias, mas até as palavras, e eu não achava nada para despedi-los com um pouco de consolação, ao menos. Estes indícios mostram com clareza que é segundo o mérito e o desejo dos ouvintes, que a graça de Deus inspira os que discorrem.

Mas não é possível terminar esta conferência no brevíssimo espaço que nos resta da noite. É melhor conceder um repouso ao corpo, pois, se lhe denegamos o pouco, seremos obrigados a pagar-lhe tudo. Reservemos, portanto, ao dia ou a noite de amanhã o exame integral do nosso assunto.

Convém, na verdade, a perfeitos conselheiros da discrição que eles comecem por mostrar por ela a diligência do seu espírito, e comprovar mediante tal indício e paciência, se são ou podem ser capazes dessa virtude. Ao tratarem da virtude que é a mãe da moderação, não incorram no vício do excesso, que é o seu contrario, violando por seus atos a Medida e a natureza daquilo que exaltam por suas palavras.

Seja-nos, pois, este o primeiro lucro proveniente do bem da discrição, cujo exame decidimos prosseguir, com a ajuda do Senhor: ao dissertarmos sobre a sua excelência e moderação, que é o primeiro valor intrínseco que se lhe reconhece, ela própria não nos permita exceder a justa medida no tempo e na discussão.

Com estas palavras, o bem-aventurado Moisés pôs um fim a nossa conversa. Apesar de ainda ávidos e pendentes dos seus lábios, ele nos exortou a gozar de um pouco de Sono, estendendo-nos nas mesmas esteiras em que estávamos sentados, e pondo sob as nossas cabeças, em lugar de travesseiros, uns trançados de nome embrimia, feitos de papiros mais grossos, reunidos em feixes longos e esguios que se ligam com um pé e meio de intervalo. Eles servem aos irmãos, ora como assentos baixinhos usados em vez de escabelo na sinaxe, ora de travesseiro para dormir, não duro em excesso, mas flexível e cômodo.

Eles são considerados como bem oportunos e apropriados a esses usos monásticos. Pois, além de até certo ponto macios e de custarem pouco trabalho e gasto, porque o papiro cresce em toda parte às margens do Nilo, são fáceis de carregar para lá e para cá, feitos de material maneável e leve.

Assim, pois, finalmente, concordamos em gozar do sono, a conselho do ancião, num descanso que muito nos custava, inflamados que estávamos tanto pela alegria da conferência terminada, como pela expectativa da exposição prometida.

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