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Cristandade e Cultura Clássica

Jaroslav Pelikan — Cristandade e Cultura Clássica [JPCCC]

Christianity and Classical Culture: The Metamorphosis of Natural Theology in the Christian Encounter with Hellenism (Gifford Lectures Series)

Este livro notável é composto de um conjunto de preleções dadas pelo autor na consagrada Gifford Lectures de 1992-1993.

Tendo como subtítulo ''A metamorfose da teologia natural no encontro cristão com o helenismo“, examina quatro pensadores cristãos em língua grega, cuja influência coletiva foi determinante neste encontro e suas conseqüências. Os quatro capadócios Gregório de Nazianzo, Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa e Macrina, formados na cultura, filosofia e retórica clássicas, mas defensores e expositores da ortodoxia cristã, são estudados a fundo nesta obra.


Tópicos do Primeiro Capítulo

  • Significado histórico da redação do Novo Testamento em grego
    • Convergência linguística momentosa: o texto cristão fundamental escrito na língua de Sócrates e Platão, não no hebraico ou aramaico originais
    • Consequência para a tradução e interpretação: necessidade de considerar a carreira prévia de termos no pensamento grego, um problema de teologia natural e filologia
    • Exemplos paradigmáticos: logos no Prólogo joanino e hypostasis na Epístola aos Hebreus
    • Precedente da Septuaginta, mas origem última no vocabulário da filosofia e ciência clássica e helenística
    • Caso de Apocalipse 1,4: solecismo intencional ho ōn kai ho erchomenos conecta a identidade cristológica ao egō eimi ho ōn da teofania mosaica e ao ho ōn da ontologia grega
  • O lugar da teologia natural na história intelectual: o legado das Conferências Gifford
    • Propósito das Conferências Gifford (1885): promover o estudo da teologia natural
    • Lacuna identificada: as séries de Gilson (sobre a Idade Média latina) e de Barth (sobre a Reforma) deixaram de fora a tradição cristã oriental grega
    • Omissão notável: John Henry Newman, que teria abordado a teologia natural a partir dos Padres gregos do século IV
    • Contribuições parciais: Jaeger (sobre os primeiros filósofos gregos), Nock (sobre religião helenística), Inge (sobre Plotino)
    • Ausência de um estudo que continue essas análises para os períodos patrístico e bizantino gregos
  • Os Três Capadócios: contrapartida oriental de Agostinho
    • Tópico comum: Bizâncio nunca teve um Agostinho, uma diferença fundamental entre Oriente e Ocidente
    • Correção: Orígenes de Alexandria (c. 185–254) como gênio teológico-filosófico digno de ser colocado ao lado de Agostinho
    • Para o período pós-Niceia (325), a contrapartida é a conquista conjunta de Basílio de Cesareia (†379), Gregório de Nissa (†c.395) e Gregório de Nazianzo (†389)
    • Lugar dos Capadócios na “vida intelectual bizantina inicial” (Ivanka): após Constantino e Niceia, antes de Justiniano e Pseudo-Dionísio
    • Similaridade marcante de pensamento e linguagem entre eles, refletindo formação comum e classe social (aristocracia rural ou curial capadócia)
  • Biografia intelectual e relações entre os Capadócios
    • Abordagem sistemática, não sistematizante: tratar seu pensamento em conjunto, reunindo declarações convergentes
    • Relações pessoais complexas: conflitos de opinião e personalidade (ex.: entre Gregório de Nazianzo e Basílio), mas também afeto cordial e admiração fraterna
    • Caracterização de Quasten: Basílio como “homem de ação” (o Grande); Gregório de Nazianzo como “mestre da oratória” (o Teólogo); Gregório de Nissa como “o pensador”, teólogo especulativo e místico superior
    • Comparação de Florovsky: Basílio superou o neoplatonismo; Gregório de Nazianzo usou linguagem platônica para ideias não platônicas; Gregório de Nissa permaneceu um helenista
  • Macrina, a “Quarta Capadócia”
    • Irmã mais velha de Basílio e Gregório de Nissa, educadora da família em cultura clássica e cristianismo
    • Retratada por Gregório de Nissa como “irmã e professora”, modelo de espiritualidade ascética e erudição filosófica
    • Diálogo Sobre a Alma e a Ressurreição modelado após o Fédon de Platão, com Macrina no papel de Sócrates
    • Harnack: a Vida de Macrina como expressão mais pura da espiritualidade da Igreja grega
    • Momigliano: Gregório de Nissa como biógrafo criativo; retrato de Macrina como excepcional, combinando alto nascimento, poder intelectual e discrição
  • A atitude ambivalente dos Capadócios perante a cultura clássica grega
    • Posicionamento sólido na tradição cultural grega, combinado com crítica intensa a essa tradição
    • Justificativa: o exemplo de Moisés, instruído em toda a sabedoria dos egípcios (Atos 7,22)
    • Basílio: Moisés primeiro treinou a mente nos ensinamentos egípcios, depois contemplou Aquele que é
    • Macrina: uso de ideias de escritores pagãos, citação de “homens sábios” sobre o homem como microcosmo
    • Advertência: o pecado e o vício são universais, independentes do nível cultural
  • O tratado educativo de Basílio: Aos jovens sobre como tirar proveito da literatura grega
    • Síntese concisa da avaliação positiva da tradição clássica, compartilhada pelos Capadócios
    • Reconhecimento de conteúdo moralmente repugnante e doutrinariamente errôneo, mas também de muito a ser ganho
    • Rejeição do desprezo pela aprendizagem clássica em nome da piedade cristã
    • Objetivo: “descafeinar” os clássicos, neutralizar conteúdo pagão pernicioso e voltar o útil para fins cristãos
    • Contexto polêmico: resposta à renovação pagã consciente do imperador Juliano, o Apóstata (361–363)
  • A reação ao imperador Juliano e a defesa da cultura greco-cristã
    • Decreto de Juliano: proibir professores cristãos de ensinar os clássicos pagãos, rompendo a aliança entre cristianismo e cultura clássica
    • Afirmação de Juliano (segundo Gregório de Nazianzo): a língua e o helenismo pertencem exclusivamente aos que adoram os deuses verdadeiros; a sabedoria cristã é irracionalidade e fé cega
    • Resposta cristã: afirmação da prioridade cronológica (e, portanto, autoridade cultural) dos fenícios, egípcios e hebreus sobre os gregos
    • Contraste: as palavras reais e sofísticas do imperiano versus o testemunho simples de pescadores e camponeses, discípulos de Cristo
  • A crítica capadócia ao pensamento grego em nome do evangelho
    • Basílio: exaltação do caráter simples e não artificial das Escrituras hebraicas versus discussões curiosas dos filósofos gregos
    • Admoestação: preferir a simplicidade da fé às demonstrações da razão
    • Aplicação de 2 Coríntios 6,15 a Aristóteles: “Que acordo há entre Cristo e Belial?”
    • Exigência de Basílio a Eunômio: harmonizar o uso de epinoia com o das Escrituras, não com a tradição filosófica grega
    • Gregório de Nissa: crítica àqueles que consideram a aprendizagem pagã “mais poderosa” e negligenciam a fé dos pais
    • Gregório de Nazianzo: elogio à mãe Nonna, que recusou contaminar ouvidos e língua com contos gregos
  • A língua grega como legado menos ambivalente
    • Preconceito helênico persistente: a grandeza ligada à língua grega (desde Heródoto)
    • Gregório de Nazianzo: indignação com a tentativa de Juliano de excluir cristãos do uso e ensino da língua grega
    • Rejeição da identificação imperial entre língua clássica e culto clássico
    • Gregório de Nissa: domínio da linguagem ática usada tanto para crítica quanto para demonstração de habilidade
    • Consciência da relatividade histórica de toda linguagem e, fundamentalmente, das limitações da linguagem sobre a realidade transcendente
  • Retórica e literatura clássica: uso e crítica
    • Correspondência Basílio-Libânio: compartilhamento de gostos linguísticos e estilísticos apesar das diferenças metafísicas
    • Kennedy: Gregório de Nazianzo como figura mais importante na síntese da retórica clássica e do cristianismo
    • Crítica interna: os Capadócios se acusam mutuamente de vício retórico e de preferir o estudo à oração
    • Reconhecimento: a retórica, produto da formação nas doutrinas externas, foi enobrecida pelas doutrinas divinas cristãs
    • Atitude ambivalente perante a literatura: desprezo pelos “forjadores de mitologia” e teogonias indignas, mas uso gentil de Homero e Píndar em contextos internos
  • A filosofia clássica: instância preeminente de ambivalência
    • Acusação recorrente: a heresia cristã corrompida pelo estudo íntimo de escritores pagãos e sua filosofia
    • Exemplo: Gregório de Nissa acusa Eunômio de tentar fazer da teoria de Platão uma doutrina da igreja, mas também de negligenciar a filosofia
    • Uso de instrumentos clássicos: silogismo disjuntivo, prova geométrica, para refutar heresias
    • Análise de Macrina sobre a dialética: força de dois gumes, que pode derrubar a verdade ou detectar a falsidade
    • Advertência de Gregório de Nazianzo: quando a argumentação pura substitui a fé, a fraqueza do argumento parece pertencer ao mistério
    • Princípio: a razão se cumpre na fé
  • Platonismo e a teologia negativa: apropriação crítica
    • Diferença enorme entre platonismo e platonismo cristão (Jaki)
    • Importância central do Timeu para a cosmologia capadócia, em diálogo com o Gênesis
    • Distinção fundamental de Gregório de Nissa (do Timeu): natureza material e sensível versus natureza inteligível e imaterial
    • Princípio da indefinibilidade de Deus: Gregório de Nazianzo cita um “professor grego de divindade” (possivelmente o Timeu) para apoiar a impossibilidade de definir Deus
    • Síntese: a teologia natural dos Capadócios é o produto deste encontro com o helenismo, um tema de debate perene sobre “helenização” como apostasia ou progresso

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