Sujeito-Objeto
Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979
A distinção entre sujeito e objeto, e a questão das relações que os ligam, constitui um dos problemas maiores da filosofia moderna desde Descartes, problema que esta é incapaz de resolver com a ajuda de seus próprios métodos. Nem o realismo escolástico, nem o idealismo sob suas diferentes formas conseguem sair do dualismo em questão. A ciência, que pretende ser objetiva, culmina no fim das contas apenas na relatividade. Nem a ciência, nem a filosofia conseguem atingir a realidade, que está além de toda dualidade como sujeito-objeto, espírito-matéria, essência-existência, etc. É preciso realizar a Não-dualidade (advaita) para chegar à Realidade onde se resolvem todas as antinomias e todas as dualidades, ou equivalentemente ultrapassar a distinção do sujeito e do objeto realizando, pelo conhecimento metafísico, a identidade do Ser e do Conhecer, ou do Sujeito puro e do Objeto puro: “Buscai primeiro o Reino de Deus e sua Justiça, e o resto vos será dado por acréscimo” (Mat. VI, 33).
Aquém deste Reino, chafurda-se na relatividade, ou na objetividade ilusória da ciência, ou na subjetividade não menos ilusória do existencialismo, ou ainda na objetividade mortal do estruturalismo, a menos que se afunde no lodaçal da psicanálise ou que se evada nos paraísos artificiais da droga.
A relatividade, ou a objetividade ilusória da ciência, pode ser ilustrada pela questão dos fenômenos astronômicos. Até Galileu ou Copérnico, o homem crê que o Sol gira em torno da Terra; depois deles, é o contrário. A ciência, se ela souber ficar em seus limites, deve afirmar que em todos os casos, não se sai do mundo das aparências e que estas dependem evidentemente do observador ou do sistema de referência. Concluir que o sistema de Copérnico é real ou objetivo, porque as equações ou as leis do movimento são mais simples, não significa nada. Aqueles que creem nisso não fazem senão tentar satisfazer sua necessidade de crer e, para a maioria, é um substituto da crença em Deus. Apenas o simbolismo natural das aparências permite religar sua “realidade relativa” de aparências à Realidade absoluta.
A questão, geralmente colocada, de saber se a terra gira objetivamente em torno do Sol, independentemente de todo sujeito pensante, não tem sentido, pois, em virtude da identidade do Ser e do Conhecer in divinis, não há, no nível da manifestação ou das aparências, objeto sem sujeito, e, segundo René Guénon, “a consciência é uma razão de ser para a manifestação”. Não se encontra aí nenhum subjetivismo: não é o sujeito pensante que cria o objeto, mas o Sol visível não teria sua razão de ser, se não houvesse ninguém para o olhar. No entanto, para o homem (e não para o animal) o Sol visível deve ser um símbolo do Verbo, Sol invisível, e se, segundo as aparências terrestres que concernem o homem, o sol gira indefinidamente em torno da Terra, é porque ele não é o Verbo, e no entanto se seu movimento é sempre o mesmo, é que ele é também o Verbo, na medida em que o símbolo é “participante” de seu Arquétipo.
