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7 Homem e Mulher

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

7 “Uma fraternidade e sororidade promíscua”: o homem e a mulher nas igrejas primitivas

1. Para seus críticos pagãos, o cristianismo era uma religião notória pela estreita associação com as mulheres, pois eles reconheciam uns aos outros através de sinais e marcas secretos, apaixonavam-se quase antes de travarem conhecimento e introduziam por toda parte uma espécie de concupiscência religiosa, uma fraternidade e sororidade promíscua.

2. A convicção pagã de que os cristãos se reuniam no intuito de se entregarem à promiscuidade sexual custou a morrer, pois isso não chegou a ser surpreendente: por volta do ano de 200, todos os grupos de cristãos haviam acusado seus próprios rivais cristãos de práticas sexuais bizarras.

3. Na época de Justino, um jovem de Alexandria chegou a solicitar ao augusto Prefeito permissão para se mandar castrar, pois somente passando por essa operação drástica é que ele poderia ter a esperança de convencer os pagãos de que as relações sexuais indiscriminadas não eram o que os homens cristãos buscavam em suas irmãs.

4. Ainda na década de 320, o imperador Licínio atormentou as igrejas das províncias orientais com uma lei que prescrevia que os homens não aparecessem na companhia de mulheres nas casas de oração, e proibia as mulheres de freqüentar as sagradas escolas da virtude ou receber instrução dos bispos, pois essas reações dizem mais sobre as fantasias mediterrâneas tradicionais de que o mundo estaria de pernas para o ar do que sobre as relações efetivas entre os homens e mulheres nas comunidades cristãs.

5. Os relatos dos mártires, entretanto, fornecem estatísticas lúgubres, pois em Lyon, em 177, morreram 24 homens e 23 mulheres; na Sicília, em 180, sete homens e cinco mulheres; em Abitina, no ano de 303, as autoridades invadiram uma assembléia cristã e prenderam 31 homens e 17 mulheres.

6. A voz mais clara e perturbadora que chegou até nós do mundo romano foi a de uma cristã, Víbia Perpétua, pois não só os Atos de seu martírio começam por um longo relato autobiográfico das experiências de Perpétua em seu julgamento e na prisão, como também o autor que concluiu o relato se apresentou como mero executor do testamento de Perpétua, levando à sua assustadora conclusão a descrição de uma exibição plenamente pública de heroísmo que aquela mulher nobre havia legado à Igreja cristã.

7. Perpétua não foi a única mulher a sofrer em Cartago, pois em 259 Quartillosa aguardava o martírio, com seu marido e filho já executados, e ela e seus amigos vinham passando fome, até que viu seu filho que padecera chegar à prisão e, depois dele, um rapaz jovem carregando em cada uma das mãos duas chávenas cheias de leite que nunca se esvaziaram, e súbito a pedra que dividia a janela foi removida e a janela se iluminou, e viram a plenitude do céu.

8. A muitos era negada inclusive a dignidade de uma morte pública, pois quatro mulheres estiveram entre um grupo de treze em Roma, em 250, e todas, pela vontade de Deus, morreram de fome na prisão, de modo que ao menos no legado de coragem homens e mulheres foram lembrados como iguais na igreja cristã.

9. Entre as censuras dos pagãos e dos cristãos e o heroísmo corajoso dos mártires, é surpreendente quão pouco se sabe sobre as relações entre os homens e mulheres das comunidades cristãs do século II e início do século III, pois a vida cotidiana dos cristãos é um cenário obscuro, intermitentemente iluminado pelos clarões dos fogos da polêmica que relampejavam nos céus.

10. A maioria dos dados que chegaram veio dos líderes da Igreja, visto que eles discutiam furiosamente entre si, pois nunca se pretendeu que esses dados respondessem ao tipo de perguntas que uma pessoa da era moderna desejaria formular sobre uma comunidade cristã primitiva.

11. Um fato, entretanto, é certo: os séculos II e III testemunharam duas revoluções silenciosas que iriam determinar o desenvolvimento futuro da religião na Europa e no Oriente Próximo — a ascensão dos rabinos à dominação no judaísmo e a criação de uma divisão rigorosa entre o clero e a laicidade na igreja cristã —, pois essas duas revoluções explicitaram agudamente os problemas das relações entre a plebe de uma comunidade religiosa e sua elite.

12. Os rabinos, por exemplo, não tinham qualquer dúvida acerca de sua importância singular em Israel, pois eles e seus discípulos é que se empenhavam todos os dias em edificar o mundo.

13. Não obstante, o etéreo fio de palavras tecido pelos Sábios dependia, para ter continuidade, da sólida materialidade carnal dos relacionamentos conjugais normais, pois as sinagogas e os estudiosos eram mantidos por judeus de condição social elevada, que eram benfeitores ricos e casados, e os próprios Sábios eram casados e tinham grande interesse em regulamentar o casamento do próximo.

14. As mulheres os consultavam com frequência sobre questões sexuais, pois eles tinham que resistir à intensa tentação de negar sua dependência da plebe menos ortodoxa, da am ha-aretz, e Israel era uma comunidade única e indivisa em que os doutos e os ignorantes precisavam colaborar: possam os cachos das vinhas orar pelas folhas, pois, não fosse pelas folhas, os cachos não existiriam.

15. Os líderes das igrejas cristãs viram-se numa situação similar, pois todos os domingos os leigos se acotovelavam diante da riqueza do altar, que sabidamente provinha de atividades que os punham em contato diário com um mundo pagão depravado.

16. Embora muitos de seus clérigos, profetas e guias espirituais fossem continentes, a congregação cristã média mantinha seu número graças às crianças geradas pelos leigos, pois a linha divisória entre os defensores do cristianismo da Grande Igreja e os grupos rotulados de hereges ficava clara nessa questão eminentemente prática.

17. Na Grande Igreja, assim como no judaísmo, a plebe era considerada passível de conquistar merecimento através do apoio dado à minoria de eleitos, pois ela o fazia oferecendo à comunidade cristã muitas das coisas a que a elite em si havia renunciado severamente: fornecia a riqueza e os filhos.

18. É de se suspeitar que a doutrina ortodoxa de Deus como Criador do mundo material não teria sido tão acaloradamente debatida, no correr do século II, se não tivesse também desempenhado um papel na validação do discreto fluxo dos bens deste mundo para a Igreja, pois, como em qualquer sinagoga bem provida de donativos, a riqueza pessoal era considerada, pelos cristãos de posses, como um dos muitos dons com que um Criador benevolente cumulara Seu mundo: ela podia ser-lhe oferecida, em sinal de gratidão, sendo gasta na Igreja.

19. Nos grupos mais radicais, o comércio do merecimento entre a elite e a plebe sofria um curto-circuito, pois numa igreja em que todos os membros batizados eram abstinentes, a distinção entre o clero continente e a laicidade procriadora se esfumava.

20. Também a riqueza não podia ser usada da mesma maneira prudente, pois, criticando Márcio, Irineu assinalou que, se toda a riqueza pertencia ao maligno Deus Criador dos tempos atuais, ela não poderia ser oferecida à Igreja em sinal de gratidão, como parte de uma boa Criação, nem redistribuída pelo bispo sob a forma de óbulos e obras de caridade semelhantes.

21. Aceitar a riqueza como um dom divino era aceitar, implicitamente, as estruturas da sociedade que permitiam que a riqueza fosse acumulada, pois significava, na verdade, aceitar a paz do Império Romano pagão como sendo, em si mesma, um dos muitos dons de Deus a Suas criaturas.

22. Foi uma colocação incisiva, pois era sabido pelos críticos de Márcio que ele havia comprado seu ingresso na Igreja de Roma através da oferta de uma soma principesca, do tamanho da que se esperava que qualquer personalidade dos vilarejos prodigalizasse a sua cidade, soma que representava o fruto de seus negócios familiares como armador dedicado ao comércio marítimo entre o Mar Negro e a Itália.

23. Os ortodoxos souberam aceitar essa riqueza com a consciência limpa, pois a lenta ascensão do cristianismo da Grande Igreja às expensas dos grupos mais radicais foi possibilitada por essa decisão elementar: se a riqueza, como o casamento, fosse considerada uma parte dos nocivos tempos atuais a que se devesse renunciar prontamente, em vez de administrá-la com critério como um dom da providência divina, não teria havido possibilidade de acumular recursos para a Igreja e de produzir gerações de filhos cristãos criados em famílias cristãs.

24. Aproximadamente no século III, a Igreja estava solidamente estabelecida nas cidades romanas, precisamente por ser rica o bastante para cuidar de seus próprios pobres e por poder contar com o apoio leal do tipo de chefes de família abastados para os quais Clemente de Alexandria havia escrito.

25. O que tornou a história da igreja cristã visivelmente diferente da de outros grupos religiosos foi a ânsia constante de seu clero em definir sua posição contra os principais benfeitores da comunidade cristã, pois os cristãos primitivos esperavam que seus líderes possuíssem sinais reconhecíveis e perpétuos de superioridade em relação aos leigos.

26. Podia-se esperar que dessem mostras de uma vocação carismática, pois eles eram incentivados, se possível, a praticar a continência perpétua, e mesmo quando esses dois critérios estavam ausentes, só eles teriam recebido a devida ordenação por meio da imposição das mãos.

27. Isso, por sua vez, dava-lhes um papel exclusivo na celebração da Eucaristia, que era o rito central das comunidades cristãs, pois através dessas precauções o clero garantiu que a liderança da Igreja não gravitasse inadvertidamente para as mãos dos benfeitores leigos mais ricos e mais poderosos.

28. O clero cristão, portanto, defendeu sua posição privilegiada em relação aos leigos, pois deu também um passo que o separou dos rabinos da Palestina e da liderança judaica da Diáspora: acolheu as mulheres como padroeiras e chegou até a oferecer papéis femininos em que elas pudessem agir como colaboradoras.

29. Por volta de 200 d.C., o papel das mulheres nas igrejas cristãs era inconfundível, pois o fator crucial nesse ponto é que as mulheres foram incentivadas a se manter continentes e exortadas a permanecer viúvas depois da morte do primeiro marido.

30. É sumamente improvável que sua proeminência tivesse sido alcançada numa comunidade em que se esperasse que todas as mulheres se casassem, pois, no judaísmo, ao contrário, as mulheres eram excluídas da atividade central dos rabinos: com raras e honrosas exceções, não participavam da transmissão da tradição por meio do estudo intensivo da Torah.

31. Em contrapartida, a mulher casada supria a continuidade biológica de Israel, pois mantinha o lar de onde partiam os estudiosos e os filhos dos estudiosos, e esse era um papel inequivocamente abençoado pelos rabinos como parte da excelência da criação de Deus, mas constituía um obstáculo esmagador para a continuação do serviço religioso.

32. O estudo da Torah pressupunha o precioso privilégio dos homens livres nas sociedades antigas — a liberdade de dispor do próprio tempo —, pois, quanto à mulher, os deveres ligados à criação dos filhos ocorriam precisamente nos anos em que o marido, como um jovem no final da adolescência, ficava livre para cumprir seu longo aprendizado aos pés dos Sábios.

33. A realidade biológica da menstruação implicava uma incapacidade de participar de tantos rituais que era praticamente impossível a uma mulher madura ajustar seus horários de maneira a acompanhar o ritmo dos horários dos homens ociosos, pois, pelo menos na Palestina, se não na Diáspora, o papel das mulheres como benfeitoras da sociedade era mantido no nível mínimo.

34. O célebre comentário de que era melhor queimar a Torah do que permitir a uma mulher manuseá-la foi uma afronta feita por um rabino a uma matrona rica, pois, se os Sábios eram forçados a depender de patronos sem erudição, pelo menos evitariam a humilhação de parecer dependentes de uma mulher.

35. Por mais que tenham ocasionalmente desejado afrontar suas protetoras da mesma maneira ríspida, os clérigos cristãos da antiguidade recente constataram que, em sua comunidade, as mulheres influentes tinham vindo para ficar, pois essa não foi uma inovação a que se deva considerar natural.

36. As cartas pseudopaulinas mostram comunidades cristãs que estavam muito satisfeitas com a solução defendida pelos rabinos, pois determinavam que a mulher aprendesse em silêncio, com toda a sujeição, que não se tolerasse que a mulher ensinasse nem usurpasse a autoridade do homem, mas permanecesse em silêncio, e que ela seria salva dando filhos à luz, se eles persistissem com modéstia na fé, na caridade e na santificação.

37. Mais ou menos no ano de 200, entretanto, essa atitude de descaso deixou de ser possível, pois a continência fora ativamente incentivada tanto nas mulheres quanto nos homens, e era menor o mérito ligado à maternidade.

38. O sentimento da poluição pelo sangue, que tendera a excluir as mulheres como fonte de impureza menstrual, não foi inteiramente abandonado nos círculos cristãos, pois um autor desconhecido da Síria, em meados do século III, dedicou muitas páginas a persuadir os homens e mulheres a não prestarem atenção às restrições contidas nas leis judaicas de pureza, visto que o fato de haverem menstruado, de terem mantido relações sexuais ou de haverem experimentado uma polução noturna ainda era considerado por essas pessoas como razão para não se aproximarem da Eucaristia, não rezarem e não tocarem nos livros sagrados.

39. Um bispo de Alexandria presumiu que nenhuma mulher cristã se aproximaria da Eucaristia durante seu período menstrual, pois esses tabus impiedosamente precisos tinham sido suplantados pelo sentimento generalizado de que as relações sexuais em si — e não apenas os produtos informes do corpo humano, o sangue e o sêmen — excluíam o Espírito Santo.

40. Era para os homens que Clemente de Alexandria tinha escrito extensamente, a fim de reassegurá-los de que a relação sexual no casamento não barrava automaticamente os cristãos do acesso à perfeição, pois nos círculos cristãos a defesa eloquente, por bem mais de um século, de visões extremadas sobre a continência acarretou uma situação de que nunca se tivera notícia no judaísmo.

41. Os homens casados tremiam ante a iminência de serem rebaixados à posição das mulheres, pois seu envolvimento fisiológico na sexualidade os tornava inelegíveis para os papéis de liderança na comunidade, enquanto algumas mulheres iam chegando mais perto do clero: a continência ou a viuvez libertavam-nas das restrições associadas à atividade sexual.

42. Só se dispõe de uns poucos vislumbres claros do que era ser mulher nas comunidades cristãs da época, pois eles sugerem que, na realidade, a continência era muitas vezes a única opção que os jovens podiam fazer.

43. Num pequeno grupo em que o casamento com pagãos era severamente desestimulado, mas onde as considerações quanto à posição social de modo algum tinham sido suspensas entre os santos, há de ter sido extremamente difícil para muitos chefes de família encontrar maridos e mulheres adequados para seus filhos, pois muitos fiéis simplesmente evitavam as alianças inconvenientes incentivando seus filhos a crescerem virgens.

44. Clemente ouviu certa vez sobre o diácono Nicolau que, dentre seus filhos, todas as filhas permaneceram virgens até a velhice, e seu filho também permaneceu incorrupto, pois é possível que alguns dos ensinamentos gnósticos mais extravagantes, que pareciam defender a Comunhão através do amor livre, tenham servido como meio de incentivar os pais cristãos a permitir que suas filhas circulassem mais livremente na irmandade, como donzelas casadoiras.

45. Consta que um deles se aproximou de uma virgem de nossa igreja que tinha um rosto adorável e lhe disse que as Escrituras dizem dá a todos os que te solicitam, mas ela, porém, deu a honrosa resposta de que, quanto à questão do casamento, se dirigisse a sua mãe.

46. No começo do século III, o Papa Calixto angariou o escárnio de seu rival, Hipólito, ao permitir que mulheres da classe alta da Igreja Romana vivessem em concubinato com fiéis da classe baixa, pois, sendo mulheres de uma nobreza decididamente pagã, elas só consentiam em desposar maridos dentro da Igreja se esses plebeus não fossem considerados cônjuges legais plenos.

47. Não chega a surpreender, dadas essas dificuldades, que muitos cristãos preferissem a continência às complexidades de arranjar um parceiro, e que tanto os homens quanto as mulheres fossem vivamente exortados a não agravar essas complexidades tentando casar-se novamente depois de enviuvar.

48. Em todas as igrejas surgiu uma ordem de viúvas desde épocas muito remotas, pois em sua maioria eram criaturas desamparadas, senhoras carentes que ficavam satisfeitíssimas em receber alimento e roupas das mãos do clero.

49. O que se sabe de outros grupos em que o novo casamento era desestimulado indica que as viúvas devem ter-se tornado um elemento numericamente importante em qualquer igreja cristã, pois em meados do século III a Igreja Romana sustentava 1500 viúvas e pessoas carentes.

50. Numa igreja africana, em Cirta, no ano de 303, as autoridades pagãs confiscaram 38 vésus, 82 túnicas de mulheres, 47 pares de chinelas femininas e apenas dezesseis peças de vestuário masculino, pois ao término do século IV a igreja de Antioquia sustentava três mil viúvas e virgens.

51. Nem todas essas viúvas, entretanto, eram de baixa posição social, pois, afinal, as mulheres de condição elevada é que haveriam de experimentar maiores dificuldades em encontrar maridos dentro da igreja.

52. Muitas jovens ricas e cultas hão de se haver descoberto, quando da morte de seus maridos, com a perspectiva de passar o resto da vida a serviço da igreja, pois Jerônimo teve notícia de três senhoras na Gália que já haviam passado quarenta, vinte e doze anos na viuvez.

53. A mãe de João Crisóstomo enviuvou aos vinte anos de idade, pois a futura alma gêmea de Crisóstomo, a admirável Olímpia, ficou viúva por volta dos 25 anos e passou os outros vinte anos de sua vida sustentando a igreja de Constantinopla.

54. As viúvas influentes e devotas eram criaturas perturbadoramente dúbias, pois não estavam nem inequivocamente desclassificadas como pessoas comuns nem plenamente integradas à hierarquia clerical.

55. No ano de 200, ainda se lida com uma cristandade dominada por chefes de família casados, pois todo o debate sobre a renúncia sexual se deu à luz de um cronograma não verbalizado, estabelecido pelos mais velhos, dentro de casa, para os mais moços.

56. A sexualidade não era encarada como um problema dos jovens, pois era, antes, um problema dos pais: os pais seriam responsabilizados, no Dia do Juízo Final, caso seus filhos degenerassem para a perdição por eles não lhes terem fornecido parceiros conjugais em idade precoce e apropriada.

57. O casamento daí decorrente, no início da adolescência, era considerado indissolúvel e exclusivo, pois assim, só com a morte do cônjuge é que o homem ou a mulher cristãos podiam pensar na continência como uma escolha pessoal.

58. Ao contrário da unívira romana, que era enaltecida pelo marido por ser fiel apenas a ele, numa sociedade em que tinha a liberdade de abandoná-lo mediante o divórcio ou o adultério, a viúva cristã só era livre para escolher a virtude depois da morte do marido, pois nessa ocasião a fides que os romanos ocasionalmente esperavam que a mulher demonstrasse até mesmo ao marido morto, recusando-se a voltar a se casar, era transformada numa fidelidade perpétua a Cristo, que se esperava que as boas viúvas cristãs demonstrassem pelo resto da vida.

59. A continência, portanto, brotava do casamento, tanto para os homens quanto para as mulheres, pois, na verdade, para um rigorista como Tertuliano, o próprio casamento não passava de uma escola de continência, uma preparação sombria para os longos anos de viuvez.

60. Quando Tertuliano falou na castitas, não estava se referindo à virgindade; pretendia referir-se à atividade sexual gradativamente reduzida ao mínimo no casamento e totalmente abandonada depois dele, pois essa visão tinha lá sua dose de realismo.

61. Os homens e mulheres mais propensos a decidir não voltar a se casar eram os membros da igreja já comprometidos com ela, pois Leônidas, por exemplo, o pai de Orígenes, foi executado quando este, que era seu filho mais velho, ainda não chegara aos dezessete anos, e ele havia gerado seis outros filhos em pouco menos de dezessete anos.

62. Se Leônidas cumpriu os períodos prolongados de abstinência que um homem como Clemente de Alexandria considerava naturais, mantendo-se afastado da mulher durante os períodos de gravidez e lactação, é bem possível que só tenha dormido com ela a cada dois anos de casamento, pois deve ter ficado tranquilo por só haver desfrutado de relações sexuais com a mulher, na realidade, no intuito de gerar os seis filhos que emergiram desses contatos solenemente espaçados.

63. Foi desse reservatório austero de celibatários pós-conjugais, viúvos e viúvas, e não dos que se comprometeram com uma vida singularmente virginal desde a adolescência, que as igrejas cristãs tenderam a extrair seus líderes, pois como resultado, homens e mulheres ficaram em pé de igualdade no tocante à natureza da continência que haviam abraçado.

64. A mulher continente normal não era uma moça virgem, dedicada a uma reclusão devota desde a infância, pois, ao contrário, era uma mulher que tinha sido uma dona de casa cristã e mãe de filhos cristãos.

65. Muitas vezes, controlava propriedades, pois sua riqueza lhe facultava impor-se à igreja local como benfeitora, da maneira que era normal nos círculos pagãos e judaicos, e ela não era uma criatura pudica que voltasse a se enfurnar na casa dos pais.

66. Circulando pelas casas, as adultas continentes, na qualidade de viúvas, gozavam de parte da invejável mobilidade associada à vocação apostólica, pois, maduras, financeiramente independentes e já influentes, as viúvas cristãs tomavam uma decisão tão formal e heroica de abraçar a continência quanto o era a de seus equivalentes viúvos, os membros médios do clero.

67. Como não é de surpreender, as descrições da organização apropriada da igreja compiladas no curso do século III deixam transparecer uma tensão crescente a propósito da posição das viúvas, pois elas frequentemente exerciam papéis paraclericais e recebiam pedidos de conselhos e instrução.

68. Certa ordem eclesiástica chegou a providenciar o sustento de duas viúvas em nome de suas orações e revelações, pois, embora a profecia estivesse excluída da solene assembleia clerical da Eucaristia na maioria das igrejas fora das comunidades montanistas da Frígia, a profecia feminina continuou a existir em contextos mais particulares.

69. Na economia imaginária da maioria dos grupos cristãos, o dom profético das mulheres era praticamente inerradicável, pois a percepção masculina das mulheres como mais acessíveis ao desconhecido garantiu que elas continuassem a atrair clientes e admiradores do sexo masculino por toda a duração dos séculos II e III.

70. As profetisas surgiam dramaticamente nas épocas de crise, pois em 234, depois de ocorrerem terremotos e novas perseguições na Capadócia, de repente uma mulher em estado de transe se anunciou como profetisa e agiu como se estivesse tomada pelo Espírito Santo, andando descalça no rigor do inverno sobre a neve congelada, e a muitos enganou, fingindo que, mediante uma invocação poderosa, podia santificar o pão e celebrar a Eucaristia, e também batizar muitas pessoas, servindo-se das palavras costumeiras e legítimas do rito.

71. Vinte anos depois, relembrado pelo Bispo de Cesareia numa carta a Cipriano, Bispo de Cartago, esse incidente foi um lembrete da facilidade com que o domínio do clero sobre seu rebanho, baseado na prerrogativa masculina da ordenação, podia ser posto de lado, pois o clero tampouco desfrutava do controle exclusivo sobre a vida intelectual das igrejas.

72. Em todas as comunidades cristãs que ostentavam membros da classe alta e simpatizantes, as mulheres tinham destaque, pois o mundo dos grandes mestres cristãos era próximo do dos círculos de estudo da classe alta em torno dos filósofos pagãos.

73. Como os filósofos, os professores cristãos presumiam que as mulheres estivessem presentes em suas reuniões, que fizessem perguntas e tivessem o direito de receber respostas criteriosas, pois no início do século III a didascália dirigida por Hipólito, em Roma, ergueu em sua memória uma estátua reaproveitada de uma figura sentada, e na lista de suas obras gravada na parte lateral do trono figurava um tratado dedicado a uma mulher.

74. Muitas vezes, as mulheres que recebiam o ensino cristão eram bem situadas na sociedade romana, pois o próprio Hipólito parece ter escrito a uma imperatriz em certa ocasião, e Orígenes, mais tarde, foi consultado por outra.

75. Essas mulheres tinham o poder de influenciar seus maridos a protegerem a Igreja, pois a bête noire de Hipólito, o futuro Papa Calixto, foi resgatado dos trabalhos pesados nas minas da Sardenha pelos préstimos de Márcia, concubina do imperador Cômodo, que, reverente a Deus e desejosa de praticar alguma boa obra, chamou à sua presença o consagrado Vitor, Bispo de Roma, e indagou dele que mártires estavam na Sardenha.

76. Conseguindo que Cômodo atendesse a seu pedido, remeteu a carta concedendo-lhes a liberdade a Jacinto, um padre eunuco, possivelmente no sentido de celibatário, e, ao recebê-la, ele zarpou rumo à Sardenha.

77. Exatamente na mesma época, em Alexandria, o jovem Orígenes crescia sob a proteção de senhoras cristãs, pois, após a morte do pai, ele encontrou acolhida e repouso junto a uma mulher de grande riqueza e notável em seu estilo de vida, e sua benfeitora também protegia um famoso professor gnóstico para quem acorria uma grande multidão, não apenas de hereges mas também de nossa gente.

78. O último patrono de Orígenes, Ambrósio, foi um antigo valentiniano, pois é possível que tenha começado a viver na continência com sua mulher quando era seguidor de Valentino, e Marcela, sua companheira devota, e a irmã de Ambrósio, Taciana, foram peças muito importantes da família, sem cujo apoio o prodigioso trabalho exegético de Orígenes teria sido impossível.

79. De modo geral, a intelectualidade cristã da época tinha por absolutamente certa a presença de mulheres como discípulas e benfeitoras, pois mesmo nas comunidades mais simples era difícil manter uma segregação rigorosa dos papéis.

80. Numa ordem eclesiástica ideal cujas determinações vigoravam no norte da Síria, esperava-se que as viúvas oferecessem apenas uma exortação moral, presumivelmente às mulheres mais moças, sobre os deveres domésticos, pois a Carta pseudopaulina a Tito deixou claro esse ponto: as viúvas idosas deveriam ser mestras nas boas coisas e ensinar as mulheres jovens a ser prudentes, a amar seus maridos, a amar seus filhos, a ser discretas, castas, boas donas de casa e obedientes a seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada.

81. Contudo, por volta de 250, um pagão bem poderia ouvir um membro da ordem cristã das viúvas ser firmemente incentivado por uma plateia mista a discursar sobre os grandes temas da salvação, sobre o fim dos ídolos, o repouso dos santos e a ordem da vinda de Cristo, pois esses eram temas sobre os quais nem as viúvas nem os leigos devem discursar, e, como acrescentou o autor com cativante autoestima, o Evangelho era como uma semente de mostarda; podia arder de verdade se não fosse competentemente preparado por um membro do clero.

82. Eis aí a voz de um sacerdote no espaço de apenas duas gerações desde o triunfo de sua igreja no Império Romano, pois a situação do cristianismo no final do século II e durante o século III produziu um gênero literário notável, o dos Atos Apócrifos dos apóstolos, em que as mulheres abstinentes desempenham um papel central.

83. Não obstante, os Atos Apócrifos não devem ser lidos como prova do papel efetivo das mulheres na cristandade, pois o que eles refletem, antes, é a maneira como os homens cristãos daquela época compartilhavam da tendência profundamente enraizada de todos os homens da antiguidade a usar as mulheres para pensar.

84. Não há dúvida de que as mulheres desempenharam um papel importante na economia imaginária da Igreja, pois sua presença condensava a profunda preocupação dos homens cristãos com suas relações com o mundo, com a realidade sempre presente de uma sociedade pagã depravada e sedutora, que fazia parte das fantasias que eles partilhavam com seus contemporâneos pagãos.

85. As mulheres podiam se apaixonar, pois o corpo delas, exposto a inúmeros infortúnios na busca de seu amor, era potencialmente o mais vulnerável de todos os corpos, e por essa razão mais impressionante era sua resistência.

86. Os Atos Apócrifos começaram a circular na província da Ásia, na costa egeia da Turquia, em meados do século II, pois versavam obsessivamente sobre esse tema e dirigiam-se às igrejas cristãs como um todo.

87. Os Atos de Tomás serviram às necessidades dos grupos encratitas da Síria no início do século III, mas nem todos os Atos pertencem a um meio radical indefinível, pois sua textura imprecisa os tornou tão acessíveis quanto uma mancha do Rorschach às mais diferentes interpretações, e geração após geração de cristãos os leu com prazer e os reelaborou com entusiasmo.

88. Esses Atos revelam um cristianismo muito diferente do de Tertuliano ou de Clemente de Alexandria, pois é um cristianismo épico, um cristianismo de impacto.

89. Os apóstolos iam passando pelas cidades orgulhosas causando estragos à ordem pagã estabelecida — os altares explodiam, ruíam os templos, e as tempestades punham um fim ignominioso ao rugido malévolo do circo —, pois costumavam ser retratados arrancando as moças solteiras de um isolamento sereno e tirando as mulheres da cama dos maridos: e ainda muitas outras mulheres se apaixonaram pela doutrina da pureza, e também os homens deixaram de dormir com suas mulheres, houve assim uma imensa consternação em Roma.

90. Os Atos Apócrifos exploraram com zelo e atenção as questões da vocação, da vulnerabilidade e da sobrevivência num ambiente dramaticamente hostil, pois por esse motivo a escolha do romance da antiguidade recente como modelo para tantos Atos foi um lampejo de genialidade.

91. É que os romances pagãos já haviam desenvolvido uma forma narrativa que se superpôs aos interesses centrais de um cristianismo de impacto e vocação, pois era frequente principiarem por uma situação de amor à primeira vista, e o tempo parava quando duas almas destinadas uma à outra se encontravam pela primeira vez.

92. O resto do romance se desenrolava engenhosamente, retardando a ação, pois o destino evidente dos jovens enamorados era repetidamente adiado por aventuras que enfatizavam a vulnerabilidade de todos os seres humanos aos caprichos da sorte e, mais particularmente, a vulnerabilidade dos jovens e belos à concupiscência sexual dos poderosos, dos brutos e dos sedutores.

93. Ao longo de suas provações, a moça, e por vezes também o rapaz, preservavam sua virgindade, em circunstâncias em que essa preservação era considerada tão improvável a ponto de ser milagrosa, pois o amor e a fidelidade por ele gerada eram apresentados como a única força duradoura num mundo caótico e ameaçador.

94. Os autores cristãos dos Atos Apócrifos só precisaram substituir a evidente destinação ao leito conjugal com que terminavam todos os romances pagãos pela vocação apostólica para a continência, pois, como nos romances, o perigo também surgia desde o primeiro momento.

95. Isso porque, depois do momento da conversão, apresentava-se aos leitores dos Atos uma evocação dramática da força imperiosa do mundo, oprimindo seus heróis e heroínas, e a impressão de seu poder brutal era aguçada pelo fato de ele ser encarado pelo ponto de vista da mais vulnerável de todas as suas vítimas potenciais: a virgem desprotegida.

96. Nos Atos de Paulo e Tecla, as tensas relações entre os sexos ficaram em primeiro plano, pois, olhando para a casa de um vizinho do retiro recatado de sua janela em Icônio, a jovem prometida em casamento, Tecla, viu muitas mulheres e virgens indo até Paulo e desejou ser também considerada digna de ficar na presença dele.

97. Fascinada com as palavras de Paulo sobre a virgindade e a ressurreição, que flutuaram até ela vindo do jardim vizinho, Tecla foi arrebatada para fora de casa, para o círculo de Paulo, pois tornou-se a suplicante cristã modelar nas celas dos mártires, passando as noites na cela, observando a figura imperturbável de Paulo: sua fé também foi aumentada quando lhe beijou os grilhões.

98. Tecla se enroscava no lugar onde ele havia lecionado, pois depois a ligação entre Tecla e Paulo tornou-se ainda mais pungente: ela procurava Paulo como um cordeiro no deserto.

99. Da mesma maneira, uma mulher real, na Esmirna do século III, recusou-se a se separar de seu guia espiritual, o padre Piônio: Sabina se agarrou às roupas dele, por causa dos solavancos da multidão, a tal ponto que alguns disseram num gracejo: ora, vejam só quão apavorada ela está com a ideia de ser desmamada!

100. Tecla dispôs-se até mesmo a se vestir de homem para acompanhar Paulo em suas viagens, pois seus pais pagãos não tiveram dúvidas sobre o que tudo aquilo devia significar e sexualizaram instantaneamente o comportamento de Tecla.

101. O antiquíssimo cenário da violência sobrenatural exercida pelos encantos amorosos foi um recurso explorado com entusiasmo por todos os escritores do século II, pois punham-se a imaginar como podia uma donzela de tamanho pudor ficar tão estranhamente perturbada, como uma aranha presa à janela pelas palavras dele, dominada por um novo desejo e uma temível paixão, e clamavam volta para teu Tamires e te envergonha, fora com o feiticeiro, pois que ele corrompeu todas as nossas mulheres.

102. Contudo, por trás dos cenários impudicamente sexuais dos Atos, paira a presença mais terrível do mundo, pois na Ásia este assumia a forma de uma ordem romana autoconfiante, exuberantemente leal a seus deuses locais.

103. É bem possível que os pequenos círculos congregados para ouvir a leitura dos Atos de Paulo e Tecla considerassem as cenas de perseguição triunfalmente confrontada como sendo as partes mais arrebatadoras da narrativa, pois Tecla, a virgem viajante desprotegida, não fez simplesmente resistir aos avanços do nobre Alexandre de Antioquia; golpeou-lhe os ouvidos com tal força que a enorme coroa de ouro dos sacerdotes do culto imperial, carregada de imagens dos próprios imperadores, caiu de sua cabeça.

104. A estranha, a desolada Tecla, virgem desprotegida numa cidade estranha e tão completamente vulnerável, foi mais do que um objeto da violência sexual: foi exibida diante do povo de Antioquia como uma destruidora das coisas sagradas, pois para os leitores cristãos, Tecla, no auge de sua desproteção, era o veículo privilegiado do poder indestrutível de Cristo.

105. Em Icônio, foi trazida nua, e o governador chorou e se maravilhou ante o poder que havia nela, pois no anfiteatro de Antioquia ela saltou para uma piscina repleta de tubarões, gritando: é chegada a hora de eu me banhar, recebendo assim o grande rito do batismo, e uma nuvem de fogo a cercou, para que nem as feras pudessem tocá-la, nem ela pudesse ser vista desnuda.

106. Pretendia-se que essa cena triunfal transmitisse mais do que uma vitória sobre a vergonha sexual, pois para o autor dos Atos o batismo foi um selo: deu a Tecla a proteção de que os fiéis precisavam para atravessar a mais terrível tentação de todas — a passividade indefesa diante da humilhação ritualizada da morte dos mártires.

107. Tecla foi a cristã ideal numa era de perseguição, pois sua história resumiu uma visão da integridade humana aprisionada no mundo em que ela está, mas não de conseguir sempre evitar o único destino que é pior do que a morte: a aniquilação da própria identidade.

108. Como mostra o rápido crescimento de seu culto, Tecla, a virgem imaginária inviolada, e não Víbia Perpétua, uma mulher real, matronaliter nupta e mãe de um filho, estava destinada a se tornar a santa do futuro, pois a difusão de uma lenda como a de Tecla acrescentou outra nota mais aguda ao aglomerado de noções associadas ao ideal da castidade nos círculos cristãos.

109. Tertuliano e Clemente de Alexandria teriam considerado mais inteligível a coragem de Perpétua, pois, como homens que estavam entrando na meia-idade no ano de 200, Tertuliano e Clemente representavam formas de cristianismo que já pertenciam a uma era passada.

110. Por mais que diferissem um do outro, ambos tinham visualizado a pessoa humana essencialmente como parte da sociedade normalmente constituída, pois, para ambos, a atividade sexual tinha que ser disciplinada e eventualmente suspensa, de maneira a deixar o corpo humano ainda ligado a seu ambiente imediato.

111. Nem dos Sábios cristãos de Clemente nem dos profetas idosos de Tertuliano se esperava que abandonassem o lar estável, como se imaginou que Tecla teria feito, pois Tecla tampouco mergulhou sua identidade na de um grupo santificado, como tendiam a fazer os encratitas.

112. O corpo jovem de Tecla permaneceu assombrosamente só, pois preservar sua virgindade significou preservar uma identidade individual enraizada no corpo físico, por ser expressa no estado de integridade que ela carregava em si desde o nascimento.

113. Tecla não foi um modelo de papel que se esperasse ser seguido apenas pelas cristãs, pois seu corpo intacto foi significativo para homens e mulheres, e foi uma imagem condensada do indivíduo, sempre ameaçado de aniquilação, situado desde o nascimento acima das ameaçadoras pressões do mundo.

114. O fato de ter sido essa a forma específica de heroísmo, ligada a uma forma particular de renúncia sexual — a preservação do estado virginal em sentido estrito —, que se apossou cada vez mais da imaginação de todos os cristãos constitui um fenômeno que não se deve tomar por natural, simplesmente por ter acontecido com rapidez aparentemente incontestável.

115. Os capítulos subsequentes tentarão traçar alguns aspectos da emergência de uma noção plenamente madura de virgindade, no século crucial que se estendeu entre a juventude de Orígenes e o surgimento de Santo Antônio do deserto.

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