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e:caputo:1997:1

1 Ideia

DERRIDA, Jacques; CAPUTO, John D. Deconstruction in a nutshell: a conversation with Jacques Derrida. New York: Fordham University Press, 1997.

1. A desconstrução em uma nutshell: a própria ideia (!)

1. A solicitação jornalística de explicar a desconstrução em uma nutshell encontra uma dificuldade que Derrida reconhece sem transformá-la em proibição absoluta, pois a impossibilidade de oferecer uma definição suficiente não elimina a utilidade eventual de tentar formulações condensadas.

A aporética da nutshell

1. A proposta de encerrar a desconstrução em uma fórmula breve suscita imediatamente uma objeção à própria ideia de condensação, figurada pela expressão nutshell.

2. A nutshell representa o fechamento, a proteção e a simplificação que a pressa jornalística exige, enquanto a desconstrução se orienta para a abertura, a exposição e a ampliação da complexidade, procurando liberar possibilidades ainda não imaginadas e romper os invólucros que as mantêm contidas.

3. A desconstrução interroga a pretensão de atribuir significados definitivos e missões determináveis a textos, instituições, tradições e práticas, mostrando que essas configurações excedem os limites que atualmente lhes são impostos e que aquilo que nelas acontece permanece aberto ao porvir, escapando às tentativas de reuni-las em uma unidade estável.

4. O encontro com um limite, um axioma seguro ou uma máxima concisa exige pressionar sua aparente estabilidade e abri-la ao que exclui, permitindo formular, paradoxalmente, que desconstruir consiste em romper as próprias nutshells que pretendem defini-lo.

5. A tentativa de condensar aquilo que se opõe estruturalmente à condensação produz uma aporia, pois a recusa de qualquer definição fechada já pode funcionar como uma definição relativamente adequada, fazendo o fechamento retornar no próprio gesto que procura afastá-lo.

6. A aporia não encerra a investigação, mas constitui seu impulso, uma vez que a desconstrução encontra na experiência do impossível uma das formulações menos inadequadas de sua atividade, compreendendo a impossibilidade como exigência que mobiliza o pensamento e a ação.

7. A busca desconstrutiva dirige-se a possibilidades alimentadas por sua própria impossibilidade, enquanto a experiência deixa de significar apenas percepção do que se apresenta e passa a designar o confronto com os limites do inapresentável e do irrepresentável, permitindo que uma definição provisória seja tentada desde que permaneça exposta à impossibilidade que a atravessa.

8. A aproximação à desconstrução deve reconhecer gestos, estilos e maneiras de ler, escrever, pensar e agir sem eliminar sua multiplicidade, produzindo uma nutshell que exponha sua própria insuficiência e seja capaz de desconstruir-se.

9. As formulações em torno de justiça, dom, messiânico, instituição, hospitalidade, fé e afirmação do outro oferecem diferentes nutshells da desconstrução, mas sua abundância disseminada impede que uma delas assuma definitivamente o lugar de essência única e exige compreender a produtividade dessa pluralidade.

10. A imagem da semente permite conceber as nutshells como possibilidades disseminadas que, acolhidas em diferentes contextos e parcialmente entregues ao esquecimento, podem desenvolver-se em um campo amplo de obras e práticas desconstrutivas.

11. A imagem dos fogos de artifício apresenta essas nutshells como concentrações de energia capazes de produzir efeitos inesperados de forma, cor e intensidade, fazendo de uma expressão aparentemente simples o ponto de partida de uma transformação mais ampla.

12. A imagem das nutshells como projéteis dirigidos ao poder estabelecido ressalta o potencial perturbador da desconstrução, mas pode induzir a uma compreensão excessivamente negativa que a confunde com destruição e obscurece suas possibilidades afirmativas.

13. A imagem de uma seleção para degustação permite compreender as nutshells como estímulos ao desejo de aprofundamento, oferecendo experiências parciais que ampliam o interesse sem pretender satisfazê-lo definitivamente.

14. A linguagem acessível e a seleção de temas não eliminam a dificuldade da desconstrução nem autorizam uma simplificação extrema, pois a exposição de seus gestos e estratégias deve incentivar uma investigação autônoma na qual cada leitor enfrente as próprias dificuldades, sem receber uma compreensão inteiramente pronta nem ser privado da inquietação que acompanha o pensamento.

A axiomática da indignação: a própria ideia!

1. A compreensão inicial da desconstrução exige afastar a imagem de Derrida como inimigo da verdade, da filosofia e das instituições, cuja atividade seria uma combinação irresponsável de relativismo, niilismo e arbitrariedade, reconhecendo que essa caricatura substitui a investigação efetiva de seu pensamento por uma condenação frequentemente apresentada em nome da responsabilidade acadêmica.

2. As questões sobre instituição, tradição, comunidade, justiça e religião adquirem particular importância em uma universidade que inaugura um programa de doutorado, pois colocam a desconstrução em relação direta com valores e compromissos institucionais cuja legitimidade ela não pretende simplesmente eliminar.

3. A desconstrução procura conservar a vitalidade da tradição mediante releitura, seleção responsável e transformação, reconhecendo a multiplicidade de heranças que a constituem e recusando tanto sua destruição indiscriminada quanto sua conservação imóvel, de modo que preservar uma tradição exige mantê-la aberta a acontecimentos e revisões que o conservadorismo tende a bloquear.

4. A identificação da desconstrução com um relativismo no qual qualquer interpretação seria admissível sustenta uma reação de indignação que transforma seus críticos em defensores autodesignados do bem e da verdade, particularmente quando suas consequências ultrapassam a leitura literária e alcançam a ética e a política.

5. A controvérsia sobre a concessão de um título honorário a Derrida por Cambridge, em 1992, exemplifica essa reação mediante uma intervenção pública de opositores que procuraram impedir a homenagem e atribuíram à sua escrita falta de inteligibilidade, trivialidade ou falsidade, levantando também a questão da autoridade assumida por agentes externos diante da deliberação universitária.

6. A contestação do reconhecimento acadêmico de Derrida apresenta sua obra como um ataque parcialmente inteligível à razão, à verdade e ao rigor da pesquisa, convertendo esses valores em critérios de exclusão de sua legitimidade filosófica.

7. A composição e a atuação dos signatários da carta evidenciam uma disputa entre estilos filosóficos e formas de poder acadêmico, na qual a pretensão de representatividade internacional convive com a defesa de uma concepção restrita da atividade filosófica, resistente à tradição continental e à consideração de seus contextos históricos e políticos.

8. A hegemonia dessa orientação contribui para o isolamento cultural da filosofia em importantes instituições norte-americanas e desloca a leitura de autores como Hegel e Derrida para outros departamentos, enquanto a interpretação de John McCumber relaciona esse retraimento a estratégias de proteção adotadas durante o macarthismo e a trajetória de Richard Rorty exemplifica a ruptura com tal fechamento em direção à intervenção intelectual pública.

9. A condenação de Derrida sem um estudo cuidadoso de seus escritos contradiz os próprios valores de razão, verdade e investigação invocados para justificá-la, convertendo rumores, fontes secundárias e repulsa diante de um estilo diferente em julgamento aparentemente fundamentado.

10. A pretensão de proteger uma instituição de sua própria decisão torna especialmente problemática a autoridade reivindicada por aqueles que intervêm em nome de uma responsabilidade acadêmica não demonstrada pela qualidade de sua leitura.

11. A hostilidade dirigida a Derrida revela a força de uma indignação que ultrapassa o desacordo filosófico, embora suas análises mantenham relações de convergência e interlocução com pensadores analíticos e desenvolvam uma atenção minuciosa aos significados e aos usos das palavras.

12. A multiplicidade de acusações dirigidas à desconstrução reúne imputações incompatíveis, que a responsabilizam tanto pela transformação de departamentos universitários quanto por um suposto afastamento esteticista da realidade, fazendo dela um alvo disponível para temores e insatisfações de naturezas diversas.

13. A ampliação caricatural dessas acusações evidencia o esvaziamento de sua precisão crítica quando a desconstrução passa a responder indistintamente por males que não guardam relação demonstrável com sua atividade.

14. A superação desses equívocos exige reconhecer o caráter afirmativo da desconstrução, cuja crítica do presente não implica negação de toda possibilidade de sentido, mas abertura ao porvir como aquilo que permanece estruturalmente por chegar e não se reduz a um presente futuro previsível, sustentando uma afirmação do inteiramente outro e do indesconstruível.

15. O indesconstruível não designa uma nutshell finalmente protegida de toda abertura, mas aquilo em virtude do qual as configurações estabelecidas podem ser abertas e deslocadas para acolher a chegada do outro.

16. A invenção do outro orienta a desconstrução para acontecimentos imprevisíveis e distingue sua atividade tanto do essencialismo quanto do convencionalismo, pois nem essências imutáveis nem convenções historicamente consolidadas podem encerrar as possibilidades de transformação do que existe.

17. A democracia por vir exprime essa orientação ao exigir a crítica permanente das democracias existentes, cujas promessas são comprometidas pelo poder econômico, pela corrupção, pela demagogia e pela manipulação dos meios de comunicação, impedindo que suas formas atuais sejam tomadas como realização suficiente da democracia.

18. A instrumentalização política da liberdade, da reforma e do cristianismo pode legitimar exclusões, favorecer os mais ricos e abandonar os mais vulneráveis, enquanto a identificação nacionalista entre religião e poder encobre violências históricas e contraria a orientação profética de solidariedade com os marginalizados.

19. A crítica desconstrutiva das democracias procura abrir suas instituições à promessa que ainda não realizam, permitindo a chegada do diferente e do radicalmente novo, de modo que a democracia radical exige preparar condições de acolhimento do outro em vez de organizar antecipadamente sua exclusão.

20. A abertura democrática pode receber, assim, uma formulação em uma nutshell que permanece comprometida com a transformação das instituições pela possibilidade de acolher aquilo que não controlam.

21. A relação da desconstrução com tradição, comunidade, justiça, democracia e religião encontra sua orientação no respeito responsável pelo outro, cujo acolhimento exige limitar o narcisismo do si-mesmo e criar espaço para uma alteridade que não seja simplesmente assimilada às suas próprias exigências.

Apologia: uma justificativa para a violência

1. A exigência de responder em inglês, diante de um público heterogêneo e em um tempo reduzido, impõe à exposição de Derrida uma violência de condensação que ele próprio reconhece, embora a participação nesse dispositivo permita produzir respostas cuja fecundidade permanece inseparável da dificuldade de oferecê-las responsavelmente.

2. O caráter público e cosmopolita da atividade de Derrida faz de sua escrita uma resposta contínua a convites, solicitações e interlocuções internacionais, de modo que cada intervenção precisa corresponder a expectativas e simultaneamente surpreendê-las, retomando o pensamento a partir da singularidade de uma nova situação.

3. A circulação internacional não constitui apenas uma circunstância técnica de sua produção, mas corresponde a um estilo filosófico que não executa simplesmente um programa previamente estabelecido e procura recomeçar diante da novidade e da estranheza de cada tema.

4. A identificação retrospectiva de uma assinatura ou de uma unidade em sua obra cabe também à leitura de outros, sem obrigar o próprio pensamento a obedecer a uma imagem fixa de si ou a um contrato de coerência estabelecido antecipadamente.

5. A ausência de um projeto fundamental sistemático manifesta-se na origem circunstancial dos textos e na disposição de enfrentar singularidades mutáveis sem programar previamente seus resultados, permitindo avançar e manter uma orientação sem depender de um rumo único que controle tudo o que pode acontecer.

6. A produção de Derrida realiza-se em proximidade constante com o público, entre viagens, conferências, conversações e respostas a interlocutores, enquanto suas entrevistas oferecem vias particularmente esclarecedoras de acesso a uma obra cuja elaboração permanece ligada às exigências e às oportunidades de cada ocasião.

7. A condensação pública de suas respostas pertence a uma economia inevitável de violência, na qual não há uma posição de não violência absolutamente pura, mas diferentes graus e efeitos de imposição, alguns capazes de produzir encontros e esclarecimentos mais fecundos do que outros.

Nutshells, seis delas

1. A apresentação introdutória da desconstrução distingue-se de uma interpretação mais arriscada de seus motivos religiosos e messiânicos, embora ambas reconheçam sua orientação para o porvir, exigindo diferenciar uma leitura que desenvolve possibilidades do pensamento de outra que o deforma por incompreensão.

2. A organização do comentário acompanha seis perguntas e procura ampliar as respostas improvisadas de Derrida mediante suas investigações publicadas, assumindo uma função suplementar que esclarece sem pretender substituir os textos e as ocasiões que os produziram.

3. A inauguração de um programa de doutorado confere unidade circunstancial à discussão e coloca em primeiro plano a questão dos começos, fazendo com que o problema de como algo se inicia atravesse o conjunto do encontro.

4. Os seis temas permitem aproximar a desconstrução de elementos fundamentais das tradições filosóficas e institucionais, articulando-a ao direito à filosofia, ao amor pelos gregos, à comunidade sem comunidade, à justiça, ao messiânico e à afirmação.

5. Essas seis nutshells oferecem formulações provisórias que permitem iniciar a investigação sem constituir um fechamento definitivo de seu sentido.

6. A própria possibilidade de outras nutshells mantém aberta a série e impede que a enumeração se converta em uma totalidade acabada.

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