2.2 Nietzsche
CAPUTO, John D. Heidegger and Aquinas: an essay on overcoming metaphysics. New York: Fordham University Press, 1982.
AS CONFERÊNCIAS SOBRE NIETZSCHE (1941)
1. Se a crítica da escolástica elaborada nos Problemas Básicos pertence ao ponto de vista de Ser e Tempo, a discussão da escolástica em A Metafísica como História do Ser move-se decididamente no quadro do ponto de vista tardio, sendo de não pequena importância seguir essa discussão, pois não só nos diz algo sobre como a posição de Heidegger progrediu nos anos intervenientes, mas também leva sua crítica da escolástica a um nível ainda mais radical.
2. Nessas páginas Heidegger olha a ontologia medieval em termos da história do Ser e, desse ponto de vista, encontra uma grande distância entre a ontologia grega e a medieval, pois em Ser e Tempo se pensa que os escolásticos avançaram a problemática da ontologia antiga, apesar da formulação dogmática que deram a seu pensamento, mas nos escritos tardios gregos e medievais são pensados como separados por um abismo, representando a tradução medieval das palavras básicas do pensamento grego um encobrimento fatídico da experiência grega original.
3. Agora os medievais são pensados como pertencentes à esteira de Platão e Aristóteles, que eles mesmos são apenas ecos de um grande começo nos primeiros gregos, sendo a história da metafísica uma contínua queda fora do primeiro encontro grego com o Ser, queda que recebeu um empurrão decisivo da doutrina escolástica do Ser.
Platão e Aristóteles: ideia e energeia
1. A distinção entre essência e existência é parte essencial da formação da história do Ser, e a expressão história do Ser, para quem não está já familiarizado com o Heidegger tardio, deve parecer bastante estranha, não falando Heidegger da história da filosofia, do pensamento ou do homem, porque não quer sugerir que essa história seja obra do homem.
2. A história do Ser não é nem a história do homem e da humanidade nem a história da relação humana com os entes e o Ser, sendo a história do Ser o próprio Ser e só isso, mas, porque o Ser reivindica a essência do homem para o fundamento de sua verdade nos entes, o homem permanece atraído para a história do Ser, mas sempre só com respeito ao modo como ele toma sua essência da relação do Ser consigo mesmo e, segundo essa relação, assume sua essência, perde-a, entrega-a, rende-a, funda-a ou a desperdiça.
3. Essa história é o próprio Ser, e envolve o homem apenas na medida em que o homem é requerido pelo Ser para efetuar sua autodescerração, pois para o Heidegger do período tardio a metafísica não é mais um nome para a autêntica descoberta do Ser, como era no livro sobre Kant e em O que é Metafísica, mas um nome para aquele tipo de pensamento do qual o Ser em sua verdade se retirou.
4. O que se descerra na metafísica, o que vem à presença na metafísica, é uma sequência de formações do Ser, figuras epocais do Ser nas quais experimentamos não o próprio Ser, mas o que Heidegger chama de entidade (Seiendheit) dos entes, traços e nomes do Ser tirados de uma região de entes ou outra, vontade, mente, matéria, espírito, etc., sendo a história da metafísica, portanto, não a história da especulação humana sobre o Ser, mas a história do progressivo encobrimento de sua verdade pelo próprio Ser por meio de sua revelação de si mesmo através dessas várias faces metafísicas.
5. A face metafísica dominante que o Ser tem no mundo moderno é a da atualidade (Wirklichkeit), palavra que sugere o que é real (wirklich), não meramente mental, mas, tendo raiz, como se viu, na palavra wirken, essa palavra sugere uma conexão com o trabalhar, fazer, produzir.
6. Ora, o sentido predominantemente moderno de atualidade (Wirklichkeit) é causal, sendo real o que age ou é capaz de agir sobre outro, sendo o mundo real o mundo espaço-temporal-causal, e, como tradução do latim existentia, Wirklichkeit se refere ao fato de que uma coisa é, o que por sua vez se distingue do que uma coisa é, que é uma mera possibilidade.
7. Para o Heidegger de 1941 essa distinção metafísica entre essência e existência não é apenas mais uma teoria metafísica, é uma prescrição e delineamento da essência da metafísica, pois o Ser se divide em quididade e quiddidade, começando a história da metafísica com essa distinção e sua preparação, incluindo a metafísica a distinção na estrutura da verdade sobre os entes como um todo, revelando-se assim o começo da metafísica como um evento que consiste numa determinação do Ser, no sentido do aparecimento da divisão em quididade e quiddidade.
8. A tarefa que Heidegger se propõe nesse ensaio é voltar à origem dessa distinção que é tomada em toda parte como evidente por si (selbstverständlich), sendo a questão da origem dessa distinção uma que a própria metafísica não pode levantar, pois a metafísica se move dentro da distinção e é tornada possível por ela, sendo assim a tentativa de inquirir sobre sua origem um ensaio de superação da metafísica.
9. Essa origem está oculta para ela, ou, na maneira grega de expressar, esquecida, significando esse esquecimento o autoencobrimento da origem do Ser dividido em quididade e quiddidade em favor do Ser que abre (lichtet) os entes como entes e permanece incontestado como Ser, permanecendo o próprio Ser impensado em favor do Ser (= entidade, Seiendheit) que se divide em essência e existência, mas esse esquecimento não é esquecimento humano, antes uma retração da parte do Ser, um evento na história do Ser.
10. A genealogia que Heidegger nos oferece nas conferências sobre Nietzsche difere, portanto, de modo fundamental da genealogia encontrada nos Grundprobleme, pois a origem da essência e da existência é traçada não a um modo pelo qual o Dasein projeta o Ser dos entes, não à compreensão projetiva do Ser do Dasein (Verstehen, Konstruktion), mas aos começos primordiais do pensamento ocidental entre os gregos.
11. Essência e existência são conceitos fundamentais que nos foram entregues pela tradição e brotam da primeira descerração do Ser entre os gregos, começando a história do Ocidente com a autodescerração do Ser aos primeiros gregos, descerração que recebe sua mais alta expressão nas palavras gregas aletheia e physis.
12. Physis significa a irrupção dos entes no Ser, a emergência do Ser no e através dos entes, significa o Ser como processo emergente, como elevar-se, como irrupção (Aufgehung), e aletheia significa a dimensão de luz do processo de emergência, e significa a emergência do Ser na presença (Anwesen), na clareira (Lichtung), o processo de abrir um espaço aberto, um espaço de manifestabilidade no qual os entes são descerrados como o que são.
13. Essa descerração primordial do Ser como uma espécie de autorrevelação límpida é concedida aos primeiros gregos, os gregos antes de Platão e Aristóteles, aqueles pensadores que são maiores pensadores do que Platão e Aristóteles porque ainda não são filósofos.
14. A descerração primordial do Ser como puro presenciar que é concedida aos primeiros gregos logo passa a uma certa congelação do presenciar na forma de presença permanente, pois no começo de sua história o Ser se abre como emergência (physis) e desvelamento (aletheia), chegando daí à formulação de presentidade (Anwesenheit) e permanência (Beständigkeit) no sentido de durar (Verweilen), ousia.
15. O processo fluido e emergente da physis é congelado numa espécie de permanência e presença estática, o vir-à-presença (An-wesen) pensado verbalmente endurece na presentidade (Anwesenheit) mais rígida e nominativa, a flutuação entre presença e ausência é consolidada em presença rígida, o Ser de uma coisa, como uma permanência entre a ausência da qual emerge e à qual retorna, torna-se uma presença predominantemente presente que tenta expulsar toda ausência.
16. O presenciar na ausência esforça-se por tornar-se presenciar sem ausência, tema anunciado com particular clareza na provocativa interpretação heideggeriana do fragmento de Anaximandro, que será examinado adiante, sendo o vir a ser e passar-se flutuante resistido, o ente tentando manter-se no Ser, e o processo de desvelamento dando lugar a algo permanentemente presente, sendo esse o significado fatídico (seinsgeschichtlich) da palavra ousia, o nome do Ser que é falado por Aristóteles.
17. Como então Aristóteles entende o que está presente (das Anwesende) em sua presença (Anwesen), pergunta-se, e responde-se que o que se torna presente se mostra ao pensamento de Aristóteles como aquilo que está numa permanência tendo chegado a uma parada, ou jaz presente tendo sido trazido a seu lugar, sendo o ente para Aristóteles aquilo que se estende em sua presença (das Vorliegende), o que é trazido a um repouso estável (das Beständige).
18. Esse repouso não é mera cessação, mas uma completude no sentido literal do alemão Voll-endung, ser trazido a uma plenitude, a um pleno terminar, o que explica a interpretação heideggeriana dos termos aristotélicos hypokeimenon, jazendo adiante, e entelecheia, cumprimento, dando ele o exemplo de uma casa.
19. A casa que está ali é exposta no desvelamento na medida em que é exposta em sua aparência exterior e está nessa aparência, e, estando, repousa, repousa no fora de sua exposição, não sendo o repouso do produzido nada, mas antes recolhimento, pois recolheu em si todos os movimentos da produção da casa, sendo a casa ali como ergon, significando obra o que está completamente em repouso no repouso da aparência exterior, estando, jazendo nela, o que está completamente em repouso no presenciar no desvelamento.
20. A casa é pensada não em termos de uma coisa no sentido de uma substância, como ousia foi mais tarde traduzida, mas em termos de manifestabilidade, desvelamento, interpretando Heidegger a obra aristotélica não no sentido de fazer mas no sentido de expor uma coisa à exposição (Ausstellung) do ser manifesto, querendo ler energeia em termos aleciológicos.
21. Pensada à maneira grega, a obra não é obra no sentido do cumprimento de um fazer laborioso, é obra no sentido daquilo que é posto no desvelamento de sua aparência exterior e perdura assim estando ou jazendo, e o ergon agora caracteriza o modo do presenciar, significando assim a presença, ousia, energeia, o presenciar como obra (presença entendida verbalmente) na obra da obridade.
22. Para Heidegger, portanto, Aristóteles não é o pai das quatro causas, não é o filósofo duro da causalidade natural que hoje associamos a seu nome, mas um pensador aleciológico que fala não de como as coisas são feitas, mas de como elas irrompem na manifestabilidade.
23. Mas mesmo concedida essa interpretação bastante ousada de Aristóteles, o que ela nos diz sobre a bifurcação do presenciar em essência e existência, pergunta-se, e para responder a essa questão Heidegger recorre à distinção de Aristóteles entre primeira e segunda ousia, sendo a ousia no sentido primário (o que vem à presença no sentido primário) o este, o singular, por exemplo, este homem, mas o que está presente num sentido secundário é o aspecto exterior, por exemplo, o homem individual está na aparência exterior (eidos) de um homem.
24. Essa é a distinção entre o indivíduo existente e o que o indivíduo é, em outras palavras entre que ele é (existencial) e o que ele é (essencial), mas essa é uma distinção que se origina no Ser como presença, pois a presença pode significar alternadamente ou a coisa singular que está presente (das Anwesende) ou o aspecto que ela tem ao ser exposta à vista.
25. Em Aristóteles o existencial predomina sobre o essencial, pois Aristóteles atribuiu a primazia ao tode ti, a coisa particular, tendo sido Platão quem tomou o aspecto exterior, o eidos, a ideia, como o que está verdadeiramente presente, tomando tanto Platão quanto Aristóteles o Ser como significando o presenciar permanente da ousia, mas acentuando Aristóteles a coisa singular e Platão o koinon, o aspecto universal.
26. Permanecendo com o concreto e o singular, Aristóteles é verdadeiramente mais grego que Platão, mas dizer que Aristóteles é mais verdadeiramente grego em seu pensamento do que Platão do modo descrito não significa que ele volte a se aproximar do pensamento primordial do Ser, pois entre energeia e a essência primordial do Ser (aletheia-physis) está a ideia.
27. Como resultado dos trabalhos de Platão e Aristóteles, os conceitos fundamentais para toda a metafísica subsequente, essência e existência, são elaborados em princípio, consistindo a história subsequente da metafísica na elaboração das possíveis inter-relações entre essas ideias, movendo-se toda metafísica posterior dentro do jogo desses dois conceitos.
28. Heidegger menciona que dentro da tradição metafísica do Ser como Anwesenheit e ousia, energeia tem precedência sobre eidos, a existência sobre a essência, sendo aqui um reconhecimento de sua parte da primazia da existência, mas evidentemente isso não afeta seu pensamento sobre essência e existência, pois, qualquer que seja o princípio tomado como primário, ambos permanecem cativos de uma tradição na qual o Ser como physis e aletheia é contraído ao Ser como presença permanente.
29. Mesmo a revolução existencial na metafísica tomista, ao que parece, não faz mudança de princípio no tipo de Ser que essa tradição metafísica tem em mente, pois, mesmo que todas as reivindicações dos tomistas sejam verdadeiras, o tomismo representaria algum tipo de completude e perfeição de sua tradição particular do Ser como Anwesenheit, mas não consegue, na visão de Heidegger, escapar dessa tradição, persistindo o esquecimento do Ser não importa se a essência ou a existência recebe primazia.
30. Mesmo onde a existência é tomada como prévia, Heidegger insiste, a existência mesma não merece mais comentário, sendo a existência o pôr de algo pelo qual é reconhecido como atual, sendo seu significado evidente por si e não warranting mais consideração, mas pode-se seriamente sustentar isso sobre a metafísica do esse em Santo Tomás, pergunta-se, e ainda, mesmo que isso não seja verdade de Santo Tomás, não está a metafísica tomista fixada dentro da tradição do Ser como presença permanente, sendo essas as questões que devem ocupar-nos ao prosseguir este estudo, mas por ora deve-se continuar a examinar a crítica de Heidegger.
Da energeia à actualitas
1. O próximo passo na interpretação heideggeriana da história da metafísica, história que pode ser contada inteiramente em termos da distinção entre quididade e quiddidade, é o exame da fase escolástica medieval, na qual energeia é traduzida como actualitas, não tomando Heidegger isso, como em toda tradução, como uma convenção linguística inocente, mas como um evento histórico fatídico.
2. À primeira vista, a palavra ex-sistentia é uma escolha adequada que parece preservar o impacto de energeia, pois literalmente significa estar (sisto, sistere, cognato de sto, stare) fora de (ex), traduzindo assim literalmente o grego ekstasis, e, consequentemente, sugerindo um sentido aleciológico, aquilo que se destaca na luz do dia, escrevendo Heidegger que ex-sistere speculo significa para Cícero sair da caverna, podendo-se suspeitar aqui de uma relação mais profunda da existentia como sair para fora e adiante com o vir adiante à presença e ao desvelamento, e então a palavra latina existentia preservaria um conteúdo grego essencial.
3. Mas nossas esperanças são frustradas, pois não é esse o caso, e, similarmente, actualitas não preserva mais a essência de energeia, sendo a tradução literal enganosa, trazendo em verdade precisamente outro deslocamento à palavra do Ser, um deslocamento de outro tipo de humanidade para com o todo dos entes, que se dá em virtude do fechamento do Ser.
4. Uma mudança essencial de significado se instala com essa tradução, e não meramente uma mudança de significado numa palavra particular, antes uma época inteiramente nova do Ser vem a ser na qual o significado do Ser e a relação entre o Ser e o homem sofre uma profunda modificação, e, no fim, para entender essa afirmação, ter-se-ia de examinar a concepção heideggeriana de linguagem, segundo a qual não é tanto o homem que fala mas a própria linguagem falando nele e através dele, ou, dito alternadamente, na qual o falar humano é mais uma resposta a uma palavra dirigida ao homem pelo Ser, não sendo a existentia uma escolha humana mas um movimento da parte do Ser.
5. O que acontece então com o advento da actualitas e da existentia, pergunta-se, e responde-se que no começo da metafísica o ente como ergon é o que vem à presença em seu ser produzido, e agora o ergon se torna o opus do operari, o factum do facere, o actus do agere, não sendo mais o ergon o que é libertado na abertura do presenciar, mas o que é efetuado no trabalhar, o que é cumprido na ação.
6. A essência da obra não é mais a obridade no sentido do presenciar distintivo no aberto, mas a realidade de uma coisa real que reina no trabalhar e está encaixada no procedimento do trabalhar, ou seja, existentia e actualitas despojam a energeia de seu sentido aleciológico.
7. Mesmo que a essência primordial do presenciar (der anfängliche Wesen des Anwesen) tivesse se congelado na concepção platônica e aristotélica de ousia, ela no entanto retivera um conteúdo aleciológico, ainda significando o reino do aberto, do manifesto, a esfera do autopresentar-se, mas na actualitas medieval o Ser é agora entendido em termos de fazer e ser feito, de trabalho causal.
8. Ergon vem a significar opus, factum, o que é confirmado pela interpretação escolástica da derivação da palavra ex-sistere, significando essa palavra que uma coisa está fora de suas causas, que é real ou atual no sentido de ser realmente feita e acabada, sendo assim o armário que o carpinteiro pensa em fazer uma essência, uma possibilidade, até que seja realmente feito, caso em que existe fora da mente do carpinteiro no mundo real.
9. Ser é ser atual (wirklich), isto é, ser trazido à luz (pro-ductum) fora de sua causa (pro-ducens), estando todo o mundo, a totalidade dos entes, dividido entre o ente que faz (ens infinitum, criador) e o ente que é feito (ens finitum, creatum), pertencendo a compreensão do Ser que governa a metafísica medieval à metafísica do fazer.
10. Não só o presenciar originário endureceu em presença permanente, mas perdeu sua qualidade original de manifestabilidade automostrativa e foi transformado no que está presente como produto, no que está objetivamente presente, não no que se automostra mas no que é feito e manufaturado.
11. Nos Problemas Básicos, o criacionismo cristão foi dito assentar como uma luva nas categorias da ontologia grega orientadas para o horizonte do fazer e produzir, mas agora essa interpretação foi revogada, e nos é pedido ler Platão e Aristóteles de modo aleciológico, e assim Heidegger procura em outro lugar um companheiro para a dispensação medieval do Ser, encontrando-o em Roma.
12. Mas para perceber suficientemente mesmo apenas historicamente o alcance dessa transição, deve-se entender o caráter romano na plena riqueza de seus desenvolvimentos históricos, sendo a metafísica do fazer que vem a ser no Medievo cristão auxiliada a nascer pela língua romana, sendo Roma uma civilização mundial da ação (actus, agere, actus, actualitas), os conquistadores do mundo, o poder imperial, e também a civilização mundial do fazer, do trabalho produtivo, dos construtores de estradas e pontes.
13. A sombra dessa civilização imperial-produtiva alcança o Medievo cristão e o mundo moderno, de modo que inclui o elemento político imperial de Roma, o elemento cristão da Igreja Romana e também o elemento romântico, sendo assim a concepção cristã medieval do Ser em termos de fazer e do que é feito articulada numa língua que pertence ao povo do fazer e do agir, não sendo Igreja Romana apenas uma apelação histórica, apontando para uma harmonia interior entre a metafísica cristã e a metafísica do fazer, que se juntam na concepção do Ser como Wirklichkeit, sendo nossa tradição então mais romana que grega, sendo determinados mais pelos construtores de impérios e estradas do que por aqueles que deixam as coisas estar presentes em sua presença.
14. Na transição da energeia para a actualitas, a essência primordial do Ser experimentada pelos gregos é encoberta, sendo o caráter essencial grego primordial do Ser de uma vez por todas mal compreendido e tornado inacessível pela interpretação romana do Ser.
15. Uma característica essencial dessa interpretação do Ser como atualidade é o predomínio do princípio de causalidade, mas a concepção grega de presença não está sem relação com esse desenvolvimento, pois, afinal, as épocas metafísicas são todas transformações da plenitude do próprio Anwesen (die Wandlungsfülle des Seins), de modo que mesmo o extremo encobrimento (Verdeckung) do Ser como presença que se dá como tecnologia é ele mesmo um modo de presença.
16. Na concepção grega a ideia está ligada ao agathon, que tem o papel de causa, aitia, do vir a ser de uma coisa de acordo com sua ideia, vindo então a aitia a predominar sobre arche, de modo que em Aristóteles as duas tendem a coalescer, e nesse ponto o Ser vem a significar aquilo que é responsável por, efetua ou traz à luz o constante (das Beständige).
17. Tudo isso é trazido muito claramente na concepção escolástica de Deus, pois quanto mais o que está presente perdura em sua permanência, mais atual é, mas Deus não pode carecer de Ser, e, como o Ser significa permanência, Deus é o ente mais duradouro, mais plenamente atual, o actus purus, sendo seu Ser autopersistente, devendo Ele Sua presença a nada outro que a Si mesmo.
18. Mas esse ser autopersistente (für sich Bestehendes) é o summum ens e como tal o summum bonum, o que O faz a causa das causas, concordando Platão, Aristóteles e os escolásticos em que entre as causas o fim é a causa mais alta, causalitas causae finalis est prima, e, como a causa mais alta, Deus dota (er-wirkt) o que é real (Wirklich) com sua persistência (Beständigkeit).
19. A experiência grega original do Ser é então encoberta pelas categorias de atualidade (Wirklichkeit), causalidade (Wirken) e presença persistente, sendo mesmo a presença mesma, a omnipraesentia divina, definida em termos de causalidade, dizendo assim Santo Tomás que Deus está presente a tudo em virtude de ser sua causa (ST, I, 8, 3).
20. Tanto actualitas quanto existentia têm um significado causal na metafísica escolástica, significando ex-sistentia aquilo que está fora de, mas o ponto crucial é determinar aquilo em referência ao qual está fora, e, embora para Aristóteles o ente esteja fora da fala e do pensamento, os escolásticos pensam o ente como estando fora de suas causas.
21. Suárez diz que a existência é aquilo pelo qual algo é constituído fora de suas causas (quo aliqua constituitur extra causas suas), aquilo pelo qual uma coisa é posta fora do estado de possibilidade (ponitur extra statum possibilitatis), sendo o ente libertado de sua causa e feito para estar por si mesmo, o que já se viu nas lições dos Problemas Básicos.
22. O significado do Ser é determinado em termos de Wirken, efetuar, e os modos múltiplos pelos quais os entes podem ser são todos modos de efetuar, derivados do efetuar, presenciando o Ser como efetuar no sentido unificado-múltiplo segundo o qual o ente é o efetuante, mas também o efetuado e também o efetuante-efetuado e o efetivo, sendo o ente assim determinado em termos de efetuar real (wirk-lich).
23. Nós que tivemos o cuidado de examinar a relação de Heidegger com Carl Braig só podemos nos perguntar quanto dessa caracterização do Ser na Idade Média é determinada por Vom Sein, mas essa é uma questão meramente histórica, sendo nossa preocupação última com a legitimidade e adequação dessa interpretação da metafísica medieval, especialmente na medida em que se aplica à metafísica do esse.
24. Faça-se então uma breve resenha do resultado dessa investigação sobre a história do Ser, pois o Ser é experimentado entre os primeiros gregos em termos de um presenciar primordial (Anwesen) que toma forma nas palavras physis, logos e aletheia, e o primeiro começo (Anfang) passa ao começo (Beginn) da metafísica em Platão e Aristóteles, no qual a presença original se congela em ousia, presença permanente.
25. Nesse congelamento tanto o agathon quanto o aition são deixados emergir, mas, embora o presenciar original tenha endurecido em ousia em Platão e Aristóteles, esses pensadores retêm ao menos um eco do grande origen da filosofia grega, e assim a ousia retém um vestígio de significado aleciológico, mas na transição para os escolásticos ouve-se apenas um eco muito mais fraco, muito mais difícil de encontrar, no qual o sentido original do presenciar foi encoberto em termos de Wirklichkeit e causalidade, efetuar e o que é efetuado, sendo isso o que se dá no movimento da physis para a energeia para a actualitas.
26. Nem esse é o fim da história, pois Heidegger sempre insistiu na continuidade das missões do Ser, e, mesmo que não se reduzam a um progresso necessário à maneira de Hegel, ainda há uma unidade e coesão no modo de seu movimento, preparando a época medieval o caminho para a retração do Ser na época moderna (epoche).
27. A origem essencial do Ser como tornar possível e como causar domina ao longo de toda a história futura do Ser, sendo o tornar possível, o causar, o dar conta, determinados de antemão como recolhimento em virtude do Uno como o que é unicamente unificante, estando a concepção moderna de natureza (natura, Natur) como sistema espaço-causal, como o mundo real no sentido do que produz efeitos reais, enraizada no criacionismo medieval, na metafísica criacionista.
28. Heidegger está assim sugerindo que a metafísica da tecnologia moderna, o Ge-stell, não está tão longe do causa prima e do Deus criador dos escolásticos, e, quando a Igreja enfrentou Bruno e Galileu no tempo do nascimento da física moderna, isso teve de ser para Heidegger uma controvérsia meramente interna que se deu dentro dos parâmetros de uma compreensão do Ser em termos de causalidade e atualidade.
