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27 PÃO NOSSO

Orígenes — Da Oração. Tradução do Abade D. Paulo Rocha O.S.B.

XXVII O NOSSO PÃO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE

1 O nosso pão “diário”.

Na versão de Lucas, “dá-nos cada dia o pão necessário”. Como alguns estimam que esta petição se refere ao pão para o corpo, é justo que refutado o seu erro, se proponha o verdadeiro significado do pão diário.

A eles se poderá objetar: Aquele que nos diz que pecamos bens grandes e celestes, como pode mandar-nos pedir pão para o corpo, o qual não é nem grande nem celeste? Como poderia esquecer tudo que nos ensinou, e ordenar que elevemos ao Pai orações por algo de terreno e de pouca importância?

2 O verdadeiro pão.

Seguindo o próprio Mestre, vamos expor com maior amplitude o que ele nos ensina a respeito do pão. No Evangelho de João, diz aos que foram a Cafarnaum procurá-lo: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” (Jo 6,26).

Os que comeram dos pães que Jesus abençoou, e com eles se fartaram, procuram compreender melhor o Filho de Deus e correm para ele. Por isso, mandou ele: “Procurai não o alimento que perece, mas o alimento que permanece para a Vida Eterna, e que o Filho do Homem vos dará” (Jo 6,27). Aos que ouviram isto e interrogaram, dizendo: “Que faremos para realizar a obra de Deus?”, Jesus responde: “Esta é a obra de Deus, que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6,28-29). Deus, de fato, “enviou-lhes o seu Verbo e os curou” (Sl 106,20), como está escrito nos Salmos. Ele curou os que estavam enfermos. Os que acreditam nesse Verbo, fazem a obra de Deus, que é “alimento que permanece para a vida eterna” (Jo 6,27).

E ainda: “Meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. E o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá a vida ao mundo” (Jo 6, 32-33).

O pão verdadeiro é o que alimenta o homem verdadeiro, isto é, aquele que foi feito à imagem de Deus. Quem dele se nutre, torna-se também semelhante ao Criador. O que é, com efeito, mais apto a nutrir a alma do que o Verbo? O que é mais precioso do que a Sabedoria de Deus para a alma de quem a pode receber em si mesmo? Ou que coisa é mais conatural à criatura racional do que a Verdade?

3 Se alguém objeta a isto, dizendo que o Cristo não nos teria ensinado a pedir o “pão de cada dia” como se fosse diferente dele mesmo, ponha atenção no fato de que ele, no Evangelho segundo João, fala ora de um pão diverso dele, ora como se ele mesmo fosse o pão.

Exemplo do primeiro caso é o seguinte: “Moisés não lhes deu o pão do céu; meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6,32).

Exemplo de que estava identificando o pão consigo mesmo, é a resposta dada aos que lhe disseram: “Dá-nos sempre desse pão”. Disse-lhes Jesus: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vier a mim não terá fome, e aquele que Crer em mim não terá nunca sede” (Jo 6,34-35).

Um pouco mais adiante, ele diz: “Eu sou o Pão vivo descido do céu. Se alguém come deste pão, viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51).

4 Na linguagem da Escritura, todo alimento é chamado de pão, como aparece claramente nos escritos de Moisés. “Durante quarenta dias, não comi pão nem bebi água” (Dt 9,9). A Palavra que nutre é variada e diversa, pois nem todos podem alimentar-se com a solidez dos ensinamentos divinos. Por isso, quando Cristo quer oferecer alimento de atletas, próprio para os mais perfeitos, diz: “O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51). E um pouco mais adiante: “Se não comerdes da carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque minha carne é verdadeiro alimento e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Como o Pai que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim quem me come viverá por mim” (Jo 6,53-57).

Este é o alimento vivo, a carne de Cristo, que sendo o Verbo, se fez carne, segundo a palavra: “E o Verbo se fez carne” (Jo 1,14).

Quando o comemos, ele “habitou entre nós”. E quando ele é repartido, cumpre-se a palavra: “Vimos a sua glória” (Jo 1,14). E ainda esta: “Este é o pão descido do céu. Não como o maná que os pais comeram e morreram; agora aquele que come este pão viverá para sempre” (Jo 6,58).

5 Paulo, falando aos Coríntios que, ainda crianças, se comportavam de modo vulgar, dizia: “Eu vos alimentei com leite e não com alimento sólido, pois ainda não o podíeis suportar. Mas nem o suportais agora, porque ainda sois carnais” (1 Cor 3,2-3).

E na Carta aos Hebreus: “Tendes necessidade de leite, em lugar de comida sólida. Pois todo aquele que se nutre de leite, desconhece a doutrina da justiça, porque é criança. Ao contrário, a comida sólida é dos perfeitos, daqueles que por hábito exercitaram os sentidos a discernir o bem e o mal” (Hb 5, 12-14).

Mesmo aquela expressão de Paulo: “Um acredita poder comer de tudo, enquanto o fraco e imperfeito come apenas legumes” (Rm 14,2), penso que ele a refere não aos alimentos corporais, mas às palavras de Deus, que alimentam a alma. O mais fiel e mais perfeito pode comer de tudo, como se deduz das palavras: “Um acredita poder comer de tudo”, enquanto aos fracos e imperfeitos bastam ensinamentos mais simples e não de particular peso, como diz Paulo: “O fraco e imperfeito come apenas legumes”.

6 Mas parece que Salomão ensina o mesmo nos Provérbios: Aquele que por seus curtos conhecimentos não pode entender os mais elevados e vigorosos ensinamentos, mas se mantém fiel em suas convicções, é melhor do que outro inteligente e arguto, apto para captar estes assuntos com maior propriedade, mas que não vê claramente o valor da paz e da concórdia universal.

Eis o texto: “É melhor um prato de legumes com amor, do que um boi cevado, com ódio” (Pr 15,17). Muitas vezes, uma comida ordinária e simples dada de bom grado, quando nos convidam os que não podem oferecer outra coisa, nós a preferimos a explicações sublimes e altissonantes contra o conhecimento de Deus (cf. 2 Cor 10,5).

Sim, preferimos isso àqueles que com muito calor oratório anunciam uma doutrina diferente sobre o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos deu a Lei e os Profetas (cf. Mt 22,40). Para que nossa alma não adoeça por carência de alimento e nós não morramos relativamente a Deus por fome de sua Palavra, obedientes ao ensino do nosso Redentor, pecamos ao Pai o pão vivo, que é o mesmo que o pão substancial de cada dia, enquanto cremos e vivemos mais dignamente.

7 É o momento de examinar o significado da palavra “substancial” . Antes de tudo, é preciso saber que o termo “epioúsion” não se encontra em nenhum dos escritos gregos e dos sábios, que não é de uso corrente e parece cunhado pelos evangelistas (cf Mt 6,11; Lc 11,3).

Mateus e Lucas estão de acordo quanto ao uso dessa palavra. Sobre isso não há divergência entre os dois. Fizeram o mesmo para outras palavras os tradutores dos textos hebraicos.

Qual o grego que alguma vez usou as formas “pôr nos ouvi- ò dos” ou “dar a ouvir” ( enotídzou e akoutístheti ), em vez de “escutar” (eis tá ôta dexai) ou “ouvir” ( akousai poiéi)? Um vocábulo análogo a “epioúsios” em Moisés é posto na boca de Deus: “Vós sois para mim um povo 'perioúsios' ” (cf. Ex 19,6). Os dois adjetivos parecem-me derivar de “ousía” (substância, ser, peculiaridade, propriedade): o primeiro significa o pão transformado em nossa substância, o segundo indica o povo, que se tornou propriedade de Deus e que comunga com ele.

8 A substância (ousía) no sentido próprio daqueles que afirmam a subsistência fundamental dos seres incorpóreos é aplicada ao “ser” em seu significado estrito, imaterial, essencial, que não admite nem mais nem menos, nem sofre perda alguma.8 Crescer e diminuir é propriedade dos corpos sujeitos a crescimento ou diminuição, porque são corruptíveis e precisam de algo que lhes sirva de apoio e nutrição. Crescem quando há mais entradas do que saídas, diminuem quando há mais saídas do que entradas. Pode acontecer que estes não recebam mais nada do exterior e então, se acham no estado, por assim dizer, de puro decréscimo.

Os que pensam que o “ser” se refere, antes de tudo, ao material e, secundariamente, ao incorpóreo, dão as seguintes definições: substância (ousía) e a matéria prima (hyle), da qual todas as coisas são, a matéria dos corpos, de que são os corpos; ou o substrato das coisas denominadas, do qual tais coisas são denominadas; ou o primeiro elemento subsistente indeterminado; ou o elemento preexistente dos seres. Ou então, aquilo que recebe todas as transformações e todas as mudanças, sendo no entanto imutável conforme o próprio conceito, subjacente a toda mudança e transformação.

Segundo estes filósofos, a substância (ousía) é indeterminada e informe, por definição. Ela é como que a quantidade, o lugar onde todas as qualidades se assentam. Forma, nesse relacionamento, seria cada atividade em geral, a que pertencem também o movimento e as circunstâncias. Eles dizem que o ser, por definição, não participa de nenhuma dessas formas, mas que é inseparável delas, enquanto potência ou capacidade de receber qualquer energia ou ato causado pela forma ou alteração.

A substância, de fato, tem presente uma força que a tudo per-vade para ser causa das qualidades e circunstâncias que se efetuam em torno de si.

Dizem eles também que o ser, a substância, é mutável em tudo e que, sendo divisível, pode unir-se a outra substância, numa unidade.

9 Neste exame em que procuramos o significado de substância (ousía), em referência ao pão substancial (epioúsios) e ao povo peculiar (perioúsios), explicamos os seus vários sentidos. Em primeiro lugar, mostramos que o pão, que devemos pedir, era o pão espiritual. Necessariamente, pois, se deve entender que substância e pão são idênticos.

Como, pois, o pão corporal dado ao corpo daquele que o come passa para a sua substância, assim o “Pão vivo descido do céu” , dado ao espírito e à alma, comunica a sua própria força àquele que procura nutrir-se dele. Este será o pão substancial, objeto do nosso pedido.

A pessoa que se alimenta se robustece de modos diversos, conforme for a qualidade do alimento: sólido, próprio aos atletas, ou leite e vegetais.

Isto sucede com a palavra de Deus. Ela é dada como leite a meninos ou legumes aos fracos, mas aos lutadores ela é carne. Cada qual se nutre na Medida em que se dispõe a receber o poder da palavra, podendo, em grau distinto, fazer coisas diferentes e vindo a constituir uma classe diferente de pessoas. Existem, naturalmente, alimentos nocivos ou deletérios, e até mesmo alimentos que não podemos comer. Tudo isto se aplica, por analogia, à diversidade de força nutritiva dos ensinamentos.

O pão substancial, adequado à natureza racional ou à substância, traz à alma saúde, bem-estar, força, e comunica a quem o come a sua imortalidade, porque o Verbo de Deus é imortal.

10 Este pão substancial me parece indicado na Sagrada Escritura com um outro nome, com o nome de “árvore da vida” para a qual aquele que “estender a mão, e tomar dela viverá para sempre” (Gn 3,22).

Sob um terceiro nome, Salomão chama esta árvore de “Sabedoria de Deus”, quando diz: “Ela é árvore da vida para os que a ela são assíduos, e segura, para os que nela se apoiam como no Senhor” (Pr 3,18).

Sendo que mesmo os anjos se nutrem da sabedoria de Deus, e da contemplação da verdade conjunta à sabedoria, ganham forças para cumprir as suas obras próprias, diz-se nos Salmos que até os anjos se alimentam e que os homens de Deus, chamados “hebreus”, comungam com os anjos e são, por assim dizer, seus comensais.

É o significado daquelas palavras: “O homem comeu o pão dos anjos” (Sl 77,25).

Certamente não somos tão curtos de inteligência para pensar que os anjos se alimentam comendo sempre de um pão material como aquele que, segundo se conta, desceu do céu para os hebreus que haviam saído do Egito, e que os hebreus comungaram com os anjos, espíritos a serviço de Deus.

11 Como estamos examinando o que significa o “pão substancial”, a “árvore da vida”, a “sabedoria de Deus” e o “alimento comum aos santos e aos anjos”, não é fora de propósito refletir sobre aquilo que é narrado no Gênesis, isto é, os três homens que foram recebidos por Abraão e que se alimentaram de três medidas de flor de farinha amassadas para ser cozidas sobre brasas (cf Gn 18, 2-6).

Talvez essas coisas tenham sido escritas em sentido figurado. Pois os santos podem, às vezes, partilhar o alimento espiritual e racional não só com homens, mas também com os poderes divinos, para sua própria utilidade ou para mostrar que lhes foi dado o poder de adquirir tão grande alimento. Alegram-se os anjos e se alimentam com essa manifestação. Dispõem-se a cooperar e a prestar ajuda por todos os meios, e a inspirar doutrinas mais elevadas daquele que os alegra e por assim dizer os alimenta, com conhecimentos melhores e mais sublimes do que os anteriores, que eles haviam preparado como alimento.

Nada há de estranho que o homem alimente os anjos, quando o próprio Cristo diz que “está à porta e chama” (Ap 3,20), até que entre onde lhe abrem a porta e coma o que estiver servido. Depois, conforme o seu poder de Filho de Deus, repartirá os seus próprios alimentos com aqueles que o tiverem recebido.

12 Aquele que participa do pão substancial fortalece o seu coração e se torna filho de Deus. Mas o que come com o dragão não passa de um “etíope” espiritual, transformado em serpente pelos “laços do dragão” (Sl 73, 13-14) e, mesmo que mostre o desejo de se batizar, é desaprovado pelo Filho de Deus e ouve estas palavras: “Serpentes, raça de víboras! quem vos ensinou a fugir da ira iminente?” (Mt 3,7; Lc 3,7). Davi, a propósito da serpente comida pelos etíopes, disse: “Fendeste a cabeça da serpente das águas e quebraste o crânio do dragão, e o deste em alimento aos povos etíopes” (Sl 73,13-14).

Considerando, com efeito, que o Filho de Deus subsiste substancialmente, e que o mesmo acontece ao seu adversário, não é absurdo que ambos possam ser alimento para o grupo correspondente de pessoas. Por que duvidaremos em aceitar que todos os poderes bons e maus e igualmente os homens possam alimentar-se dessas coisas?

Pedro, quando estava prestes a falar com o centurião Cornélio e com a comunidade reunida em Cesareia, para comunicar a palavra de Deus aos pagãos, viu descer do céu uma toalha suspensa pelas quatro pontas, na qual havia toda sorte de quadrúpedes, répteis e animais selvagens da terra. E quando recebeu ordem de se levantar e matar e comer, recusou-se, dizendo: “Tu sabes que jamais nada de impuro entrou na minha boca” (At 10,1 ss.).

E foi-lhe ordenado que não qualificasse nenhum animal como imundo e impuro, porque tudo que fora purificado não devia Pedro tratar de impuro. Assim reza o texto: “O que Deus purificou, não deves chamar de impuro”( At 10,15).

Assim, os alimentos puros e impuros que, de acordo com a Lei, se distinguem segundo os nomes de diversos animais, se referem aos costumes diversos dos seres racionais. A lei ensina pois, que há alimentos bons para nós, mas não todos, até que Deus os purifique, tornando-os puros (cf. Mt 13,47).

13 Sendo assim, e havendo tal diferença de alimentos, há um que sobressai entre todos: o pão substancial de cada dia. Temos de orar para ser dignos dele e para que, alimentados pelo Verbo que estava em Deus desde o princípio (cf. Jo 1,1), nos divinizemos.

Mas diriam alguns que “epioúsion” é derivado de “epiénai” que significa “sobrevir”, “suceder”. Isto levaria a dizer que se nos manda pedir o pão próprio do século futuro, para que Deus no-lo conceda por antecipação e nos dê já hoje o que nos será dado amanhã. “Hoje” seria o mundo atual, “amanhã”, o futuro.

Mas, como em minha opinião, é melhor o primeiro significado, vamos examinar o conceito de “sémeron” (hoje), termo acrescentado por Mateus, ou a expressão “kath'eméran” (cada dia), que se acha escrita em Lucas.

Em muitos lugares da Sagrada Escritura, é costume indicar pelo termo “hoje” (sémeron) a perpetuidade. Exemplo disso é a passagem: “Ele é Pai dos Moabitas até hoje”, e “este é o progenitor dos Amonitas até hoje” (Gn 19,37-38). Veja-se também: “E correu esse rumor entre os Judeus até hoje” (Mt 28,15).

Leia-se igualmente nos Salmos: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações” (Sl 94,7). Exemplo muito claro se acha no livro de Josué: “Se deixais hoje de seguir o Senhor, é que vos estais rebelando contra ele hoje” (Js 22,18).

Se “hoje” equivale a dizer o presente, talvez aconteça que “ontem” signifique o passado. Sustento a hipótese de que é assim que se deve entender nos Salmos e na Carta de Paulo aos Hebreus.

Diz-se nos Salmos: “Mil anos são a teus olhos como um dia, o f dia de ontem que passou” (Sl 89,4). Talvez seja este o célebre milênio, idêntico ao “ontem” e distinto do “hoje” . Na Carta do Apóstolo se lê: “Ontem como hoje, Jesus Cristo é o mesmo e será sempre” (Hb 13,8). Nada há de estranho que Deus veja todas as épocas como um só dia, e ainda menos, a meu ver.

14 Precisamos agora examinar se temos de entender como ciclos de séculos as palavras escritas sobre as festas e as assembleias religiosas que se realizam conforme os dias, os meses, os tempos e os anos.

Pois se “a Lei é sombra dos bens futuros” (Hb 10,1), necessariamente os múltiplos sábados serão a sombra de dias numerosos e os novilúnios devem reaparecer em certos intervalos de tempo, de acordo com não sei qual conjunção da lua com o sol.

E se o primeiro mês e os dias entre 10 e 14, e a festa dos ázimos desde o dia 14 e o 21 (cf. Ex 12,2.3.6.15.18) são uma “sombra do mundo vindouro” , quem é suficientemente sábio (cf. Os 14,10) e tão amigo de Deus, que possa distinguir o primeiro de muitos meses e o décimo dia, etc? Que devo dizer da festa das sete semanas e do sétimo mês cujo novilúnio se anuncia com trombetas, e cujo décimo dia é o da expiação? (cf. Lv 16,29; 23,24 . 27-28).

Deus só conhece essas coisas e, por isso, deu suas leis? Quem conhece com profundeza a mente de Cristo, a ponto de compreender o sentido do ano sabático em que os servos hebreus obtinham a liberdade, e eram perdoadas as dívidas e a terra santa ficava sem cultivo? (cf. Ex 23,10-11; Lv 25,4-7; Dt 15,1-3).

Há uma festa ainda mais importante que a do ano sabático. É a do chamado jubileu. Mas ninguém consegue ter ideia clara de quão grande seja essa festa, e da sua realidade segundo o cumprimento das leis. Só o entendem os que tiverem contemplado o plano do Pai, dispondo todas as idades conforme os seus inescrutáveis desígnios e inacessíveis caminhos (cf. Rm 11,33).

15 Comparando dois textos do Apóstolo, fiquei perplexo e cheio de dúvida, perguntando-me como pode ser esta a “plenitude dos tempos” em que Jesus “apareceu de uma vez para sempre, a fim de destruir o pecado”, se a este tempo hão de suceder outros séculos.

Eis como soam os textos do Apóstolo. O primeiro é da Carta aos Hebreus: “Manifestou-se agora de uma só vez na plenitude dos tempos para a destruição do pecado, mediante o sacrifício de si mesmo” (Hb 9,26). Na Carta aos Efésios ele diz: “A fim de mostrar aos séculos vindouros a superabundante Riqueza da sua graça, por sua bondade para conosco” (Ef 2,7). Permitindo-me discorrer sobre este labirinto, penso deste modo: como a plenitude do ano é o último mês e depois começa o novo mês, assim talvez a plenitude dos séculos, como se fosse um ano de séculos, entra num outro período, o seguinte a muitos. E nestes séculos futuros Deus manifestará a riqueza da sua graça em sua benignidade.

Agora, portanto, o maior pecador, aquele que blasfemou contra o Espírito Santo, será possuído pelo pecado em todo o século presente, ao passo que, depois, desde o princípio ou no fim do século vindouro, não sei como ele será tratado, relativamente à graça da remissão.9

16 Aquele que refletiu sobre estas coisas e concebeu em sua mente a semana de séculos para contemplar o santo Sábado, e o mês de séculos para ver o santo Novilúnio de Deus, e o ano dos séculos para considerar as festas do ano, quando “todo indivíduo de sexo masculino deve comparecer diante do Senhor Deus” (Dt 16,16), e os anos que correspondem aos séculos para compreender o sétimo ano santo e o ano jubilar dos séculos, em que se louva Aquele que promulgou tão preciosa lei, a tal pessoa se pergunta o seguinte: como pode, com £ efeito, tal pessoa pensar que a mínima porção de uma hora em um dia de épocas tão grandes, pode ter pouca importância? Como vai ela deixar de fazer tudo que pode, a fim de que, depois da preparação neste mundo, mereça alcançar “o nosso pão substancial” no tempo chamado “Hoje”, e o receber cada dia?

Depois desta exposição, já se compreende o que significam as palavras “cada dia”.

Como Deus vive por toda a eternidade, aquele que pede a Deus não só “hoje”, mas “cada dia” , chegará a alcançá-lo “daquele que tem poder para realizar todas as coisas, de modo incomparavelmente melhor do que podemos pedir e pensar” (Ef 3,20). Se me permitem falar hiperbolicamente, direi que alcançará ainda mais do que “olho viu”, mais do que o “ouvido escutou”, mais do que aquilo que chegou ao “coração do homem” (1 Cor 2,9).

17 Tudo isso me pareceu necessário para compreender as palavras “hoje” e “cada dia” , quando oramos ao Pai que nos dê o pão substancial.

Referindo-nos, porém, ao último Evangelho (Lucas) e ao termo “nosso”, já examinado, devemos tomar consciência de como esse pão é nosso, porque ali não se diz: “Dá-nos hoje o nosso pão substancial”, mas, sim, “dá-nos cada dia o nosso pão necessário”(substancial). Surge a questão de como esse pão pode ser nosso, visto que o Apóstolo nos ensina que “seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro” (1 Cor 3,22), tudo pertence aos santos. Mas não é necessário por agora alongar-nos sobre esse assunto.

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