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1 Quando as coisas falam

LECLERC, Eloi. Le cantique des créatures ou le symbole de l'union. Paris: Fayard, 1970

  1. A releitura contemporânea do Cântico do Sol encontra-se entre a exigência hermenêutica de interpretar todo lenguaje com escuta e suspeita e a resistência diante de uma obra cuja simplicidade parece transparente.
  2. A interpretação mais simples parece inicialmente a mais verdadeira, pois Francisco recomenda em seu Testamento que suas palavras sejam entendidas pura e simplesmente.
  3. O Cântico das Criaturas manifesta a personalidade inteira de Francisco, pois seu olhar sobre as coisas abre um caminho para sua intimidade espiritual.
    • O sentido íntimo da obra exige examinar a escolha e a valorização dos elementos cósmicos.
    • A denominação das coisas como “irmão” ou “irmã” revela uma relação fraterna com o mundo.
    • A dimensão arquetípica das imagens aponta para profundidades simbólicas.
    • A estrutura do poema e o acréscimo das duas últimas estrofes também participam da significação global.
  4. O Cântico do Sol celebra diversas realidades cósmicas em louvor a Deus, mas se distingue dos cânticos bíblicos e litúrgicos porque não apenas enumera os elementos, e sim os qualifica ricamente e lhes confere relevo próprio.
  5. A abundância de qualificativos revela uma valorização da matéria, na qual o universo cantado por Francisco aparece como tecido precioso, animado por sinais de força, esplendor, vida, intimidade e profundidade sagrada.
  6. As imagens materiais do sol, da lua, das estrelas, do vento, da água, do fogo e da terra não são simples descrições exteriores, mas seleções imaginárias que revelam escolhas profundas na maneira de perceber e valorizar cada elemento.
  7. A imaginação material possui função criadora, pois, segundo a perspectiva de Gaston Bachelard, a imagem material não se reduz à reprodução do real percebido, mas nasce como matéria originária do imaginário.
  8. As imagens materiais enraízam-se na alma e permitem decifrar complexos secretos, porque os elementos tradicionais da matéria correspondem a regiões profundas do psiquismo.
  9. A imagem material possui dupla realidade, psíquica e física, mas, no caso do Cântico, a realidade psíquica sobredetermina a realidade física e concede ao elemento seu ser propriamente imaginário.
  10. A valorização das substâncias deve ser examinada discretamente, pois adjetivos aparentemente simples, como “precioso”, fazem transparecer valores íntimos e inconscientes de grande profundidade.
  11. O qualificativo “precioso” aplicado às estrelas não exprime simples observação objetiva, mas remete em Francisco ao vocabulário do sagrado, especialmente ao lugar, aos objetos e ao sacramento vinculados ao Corpo e ao Sangue do Senhor.
  12. A coisa verdadeiramente preciosa é, para Francisco, a realidade sagrada em si mesma, de modo que “precioso” designa uma riqueza misteriosa e não uma posse socialmente mensurável.
  13. A estrela preciosa é uma imagem poética e onírica, pois sua cintilação se transforma pela imaginação em matéria preciosa, em pedra celeste e em reflexo de um brilho interior.
  14. A valorização poética dos elementos cósmicos levanta a questão das forças íntimas, dos arquétipos inconscientes e das experiências profundas que falam através do sol, do vento, da água, do fogo, da terra, da lua e das estrelas.
  15. A resposta a essa questão exige examinar cada imagem material, sua posição no poema, suas linhas de valor e as preferências elementares que revelam um temperamento onírico fundamental.
  16. O Cântico das Criaturas não esgota seu sentido na realidade material imediata, pois as coisas visíveis são também símbolos e linguagem inconsciente de um universo interior.
  17. A investigação do sentido profundo do Cântico deve ampliar o campo do problema antes de propor uma solução, recolhendo os dados que unem o universo cósmico e o universo interior.
  18. A denominação dos elementos como “irmão” ou “irmã” introduz uma presença fraterna no mundo e se opõe a uma relação cartesiana de dominação e posse da natureza.
  19. A linguagem fraterna de Francisco não é simples alegoria nem fórmula estilística, pois exprime no cotidiano a realidade mesma das criaturas como presenças familiares.
  20. A fraternidade universal das criaturas apoia-se numa intuição religiosa da paternidade universal de Deus, pela qual cada criatura deriva da Bondade divina e manifesta sua origem comum.
  21. A intuição teológica de Francisco enraíza-se numa experiência afetiva e estética profunda, pois os nomes “irmão” e “irmã” exprimem tanto uma verdade dogmática quanto uma emoção amorosa e uma fusão cósmica.
  22. A declaração de fraternidade dirige-se diretamente às coisas materiais, pois Francisco vive perto delas, sente-as existir consigo e percebe nelas vínculos misteriosos com seu destino.
  23. A fraternidade espontânea de Francisco com os elementos supõe uma experiência primária de intimidade com as coisas, ligada à alegria infantil, aos sonhos primeiros e à comunhão inocente com tudo o que existe.
  24. A imaginação poética da matéria nasce de origens humildes e preparações longas, pois suas raízes mais vivas mergulham na experiência onírica infantil e nas impressões orgânicas que encantaram o despertar da criança para a vida.
  25. Os termos “irmão” e “irmã” não se limitam aos elementos naturais, mas atravessam a matéria imaginária para alcançar valores íntimos inconscientes que são valorizados e significados pelo próprio elemento material.
  26. A escolha entre “irmão” e “irmã” não depende apenas do gênero gramatical, mas da maneira como cada substância é sonhada, imaginada e valorizada, como se vê no fogo viril e dinâmico e na água feminina, humilde, preciosa e casta.
  27. A denominação fraterna faz parte da própria imagem imaginada, pois humaniza a substância material, introduz as coisas no universo das relações familiares e exprime uma comunhão afetiva com a totalidade das criaturas.
  28. A exploração do sentido íntimo da fraternidade cósmica ainda precisa avançar antes de se abordar de modo direto sua significação última.
  29. A valorização dos elementos cósmicos mostra que o Cântico do Sol trabalha com imagens materiais carregadas de sentido, isto é, imagens simbólicas cuja expressividade sagrada remete ao Altíssimo.
  30. A profundidade psicológica do simbolismo franciscano deve ser investigada para discernir se ele nasce apenas de referências bíblicas e litúrgicas ou de uma experiência onírica original, arquetípica e profunda.
  31. O testemunho dos primeiros biógrafos mostra que o simbolismo franciscano possui um primeiro nível bíblico e litúrgico, no qual a luz, o sol, as pedras e a água remetem à Escritura, à penitência, ao batismo e à doçura de Cristo.
  32. A inspiração bíblica e litúrgica é indiscutível, mas a valorização franciscana dos elementos cósmicos revela também uma fonte mais original e profunda, ligada a uma experiência maravilhada do mundo e a uma comunhão direta com o sagrado na matéria.
  33. As imagens do Cântico das Criaturas exprimem uma experiência sagrada do mundo e simbolizam, por meio das grandes imagens arquetípicas, forças afetivas e imaginativas profundas da alma.
  34. O simbolismo cósmico do Cântico pode ser entendido como leitura do sagrado na alma, pois os elementos revelam a alma do poeta em suas forças de comunhão, infância eterna, luz invisível e profundidade onírica.
  35. A dimensão onírica e arquetípica do Cântico do Sol intensifica a pergunta sobre o sentido de sua linguagem, suas realidades profundas e suas experiências simbólicas.
  36. A estrutura do Cântico do Sol também é significativa, pois o poema não é simples sucessão de imagens, mas construção organizada cujas estrofes formam um conjunto coerente.
  37. A primeira estrofe funciona como envio ou dedicatória da louvação ao Altíssimo, enquanto as seis estrofes seguintes distribuem os elementos cósmicos em ordem própria.
  38. A organização das seis estrofes obedece a uma lógica de construção rigorosa e significativa, marcada especialmente pela alternância regular entre “irmão” e “irmã”.
  39. Os pares cósmicos do poema não são arbitrários, pois correspondem às leis da imaginação material, que tende a reunir os elementos em combinações binárias e sexualizadas.
  40. A estrutura do Cântico se organiza pelo envolvimento de todos os elementos entre duas grandes imagens cósmicas: o Sol, imagem viril, celeste e paterna do Altíssimo, e a Terra, imagem feminina, materna e nutridora.
  41. A ordem dos elementos no Cântico não segue um sistema cosmológico objetivo, pois modifica a sequência antiga dos quatro elementos e revela combinações propriamente imaginárias.
  42. As combinações imaginárias do Cântico pertencem a tradições simbólicas universais, nas quais pares como Sol e Lua, Vento e Água, Fogo e Terra, Céu e Terra ou Sol e Terra exprimem estruturas primordiais do imaginário religioso.
  43. O Cântico do Sol pertence à simbólica universal porque suas combinações de elementos manifestam arquétipos do inconsciente coletivo e transformam a louvação cósmica em linguagem arquetípica das profundezas humanas.
  44. O acréscimo das duas últimas estrofes exige atenção, pois elas não pertenciam ao cântico primitivo e foram compostas em contextos históricos posteriores, ligados ao perdão e à paz e, depois, à proximidade da morte de Francisco.
  45. As duas últimas estrofes contrastam com o restante da obra por seu estilo mais pesado, por seu objeto diretamente humano e por sua dimensão dramática, centrada nos conflitos, na doença e na morte.
  46. Apesar das diferenças, Francisco quis integrar as duas últimas estrofes ao Cântico do Sol porque elas procediam da mesma inspiração fundamental, uma presença fraterna total no mundo, ao mesmo tempo cósmica e humana.
  47. As estrofes finais fazem perguntar se a louvação cósmica não traz escondido um sentido antropológico profundo, orientado para a reconciliação do ser humano consigo mesmo, com seus semelhantes e com sua própria morte.
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