Carta aos Irmãos de Mont-Dieu
Guilherme de Saint-Thierry — Carta aos Irmãos de Mont-Dieu
Carta I.41-45
Assim com uma estrela difere da outra em brilho, também uma célula de outra no caminho dos neófitos, dos medianos e dos perfeitos (teleios). O estado dos neófitos é chamado de animal, o estado dos em progresso de racional, o estado dos perfeitos de espiritual. No caso daqueles que estão ainda no estado animal algumas vezes algo pode ser permitido que não seria para aqueles que já alcançaram o estado racional. Certas coisas são permitidas no estado racional que não são permitidas no estado espiritual., cujos membros deveriam ser perfeitos em todas as coisas e dignos de imitação e louvor ao invés de crítica.
Toda forma religiosa de vida é feita destas três espécies de pessoas. Assim como cada uma é distinguida por seu nome, também são reconhecidas por suas atividades distintas. Todos que são filhos da luz do dia devem sempre investigar na luz do dia presente o que neles falta, de onde vieram, quanto progrediram, e o grau de progresso que estimam ganhar em cada dia e hora.
Os tipos animais são aqueles que por si próprios não são conduzidos pela razão ou levados pela atração, mas são conduzidos pela Autoridade ou inspirados pelo ensinamento, ou movidos pelo exemplo de a aprovar o bem onde o encontram. Como homens cegos, levados pela mão, seguem, imitam. Os tipos racionais são aqueles que através do juízo da razão e o discernimento (diakrisis) do conhecimento natural tem tanto o conhecimento como o desejo (epithymia) pelo bem (agathon). Mas não têm ainda uma atração amorosa. Os perfeitos são aqueles que são conduzidos pelo espírito, que são mais inteiramente iluminados pelo Espírito Santo, e são chamados sábios (literalmente saboreadores) porque saboreiam o bem que os atrai. O Espírito Santo os põe vestimentas, assim como pôs em Gideão (Juízes 6:34). e como vestidos pelo Espírito Santo são chamados espirituais.
O primeiro estado concerne o corpo; o segundo a alma intelectual (logistikon), e o terceiro só descansa em Deus. Cada um deles tem seu póprio modo de progredir, assim como cada tem uma Medida de perfeição (katartismos) em sua classe. O princípio do bem na vida animal é a obediência perfeita; seu progresso é subjugar o corpo (soma) e reduzir assim a servidão; sua perfeição é quando o fazer bem habitualmente se torna um prazer (hedone). O princípio da vida racional é compreender o que lhe é apresentado no ensinamento da fé (pistis); seu progresso está em tratar as coisas de modo a que se encaixem neste ensinamento; sua perfeição é quando o juízo da razão transforma-se em afeição de amor da mente (nous). A perfeição da vida racional é o começo da vida espiritual; seu progresso está em “ver a glória de Deus com a face desvelada”; sua perfeição é “ser transformado na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Espírito do Senhor” (2Co 3:18).
Livro II, cap. III, 16
Há outra semelhança de Deus, sobre a qual muito se tem falado e que, por ser própria em si mesma, deve ser chamada não de semelhança, mas de unidade espiritual, quando o homem se torna uma só coisa com Deus, um só espírito, não apenas idêntico pela unidade da vontade, mas por uma certa unidade de virtude mais pronunciada, pela qual não se consegue desejar outra coisa. Isso é chamado de unidade de espírito não apenas porque o Espírito Santo a opera ou conduz a ela o espírito do homem, mas porque é o próprio Espírito Santo. Deus como caridade. Dele, que é o amor do Pai e do Filho, provêm a unidade, a doçura, o bem, o beijo, o abraço e tudo o que de comum pode haver entre ambos naquela suma unidade de verdade e verdade de unidade; no homem, em relação a Deus, ocorre, à sua maneira, a mesma coisa que, por unidade substancial, une o Filho ao Pai e o Pai ao Filho.
No abraço e no beijo do Pai e do Filho, a consciência bem-aventurada encontra-se no meio; e de modo inefável e impensável o homem merece tornar-se homem de Deus, não Deus, mas, no entanto, o que o homem é por graça, o homem é por natureza.
