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Ensinamento
ANTOINE E CLAIRE GUILLAUMONT
Capítulo II — O tema do livro: o ensinamento do gnóstico
1. Definição e função do gnóstico
- A prática, praktike, é definida como método espiritual de purificação da parte passional da alma, visando à impassibilidade como condição necessária para o ingresso na vida gnóstica e para o acesso à gnose — a ciência ou contemplação espiritual — pela qual o monge prático, praktikos, se torna gnóstico, gnostikos.
- O termo gnose, gnosis, é preferido ao equivalente “ciência racional”, designando a ciência espiritual das naturezas criadas que culmina na ciência de Deus
- O vocábulo gnostikos aparece primeiramente como adjetivo em Platão, no Político, onde opõe a ciência prática, praktike episteme, à ciência gnóstica, gnostike episteme
- O termo pertence à tradição platônica e pitagórica, sendo quase estranho a Aristóteles e aos estoicos, que preferem opor praktikos a theoretikos
- O uso substantivo de gnostikos emerge com membros de seitas filosófico-religiosas dos séculos II e III, designando grupos que a si mesmos se chamavam gnósticos, conforme atesta Ireneu, adquirindo conotação pejorativa ao designar adeptos de uma pseudognose, pseudonymos gnosis — gnose falsamente assim chamada
- A expressão pseudonymos gnosis já aparece em 1 Tm 6,20
- Ireneu combate esses grupos em sua obra Adversus haereses
- Morton Smith examina essa história do termo no estudo intitulado The History of the Term Gnostikos, publicado em The Rediscovery of Gnosticism II, organizado por B. Layton, Leiden, 1981, p. 796-817
- É com Clemente de Alexandria que gnostikos recebe dignidade na literatura cristã, designando o verdadeiro gnóstico — o cristão que, pela prática das virtudes e pelo estudo, alcança uma certa ciência espiritual inacessível aos simples fiéis
- Voltker examina essa figura em Der wahre Gnostiker nach Clemens Alexandrinus, Leipzig, 1952
- Camelot estuda o tema em Foi et Gnose. Introduction à l'étude de la connaissance mystique chez Clément d'Alexandrie, Paris, 1945
- Orígenes preferiu o termo teleioi, perfeitos, para designar essa mesma categoria de cristãos
- Guillaumont examina essa relação no estudo Le gnostique chez Clément d'Alexandrie et chez Évagre le Pontique, publicado em Alexandrina. Mélanges offerts à Claude Mondésert, Paris, 1987, p. 195-201
- O gnóstico de Evágrio é descendente direto do gnóstico de Clemente de Alexandria, e sua função essencial é o ensinamento — não mais voltado apenas para a própria purificação, mas orientado ao auxílio dos outros, sendo sal para os que ainda estão na prática e luz para os que já se tornaram dignos da ciência espiritual
- Evágrio formula essa dupla função no capítulo 3 do Gnóstico
- O gnóstico deve ensinar aos práticos como se purificarão das paixões e iniciar nos mistérios da ciência espiritual os suficientemente purificados
- O pequeno livro responde a três questões: em que condições o gnóstico ensinará, o que ensinará e como ensinará
- O conteúdo mesmo da ciência — os dogmas que constituem as grandes teses da metafísica evagrina — é objeto da obra maior intitulada Képhalaia gnostica
2. Em que condições o gnóstico ensinará?
- A vida gnóstica pressupõe a impassibilidade adquirida, ao menos em algum grau, pois Evágrio concebe a impassibilidade como realidade graduada, desde a pequena impassibilidade ou impassibilidade imperfeita, obtida pela vitória sobre as paixões da parte concupiscível da alma, até a impassibilidade perfeita, conquistada pela vitória sobre todas as paixões, incluindo as da parte irascível
- A distinção entre paixões do corpo, provenientes da parte concupiscível, e paixões da alma, provenientes da parte irascível, é tratada nos capítulos 35-38 do Tratado prático e nas notas correspondentes em Sources chrétiennes 171, p. 580-589
- A vida gnóstica tem início quando se atinge o limiar da impassibilidade e se desenvolve progressivamente em direção à impassibilidade perfeita, que jamais se realiza plenamente na condição humana por ser propriamente angélica, de modo que a prática — purificação da alma — prossegue de certa maneira na própria vida gnóstica
- O gnóstico deve continuar cultivando as virtudes da prática, executando os exercícios que as produzem
- As recomendações das Bases da vida monástica permanecem válidas para o gnóstico: evitar distrações provenientes do convívio com muitas pessoas (cap. 11), evitar preocupações (cap. 10), evitar cuidados com alimentação e vestuário (cap. 38), dominar o corpo por regime severo como fazia Paulo (cap. 37)
- Embora todas as virtudes abram caminho ao gnóstico, cabe a ele especialmente purificar-se das paixões da parte irascível da alma, sobretudo da cólera, que é o principal obstáculo à ciência espiritual, opondo-se a ela como o erro se opõe à ciência racional
- Essa ideia é amplamente desenvolvida por Evágrio em seus outros livros
- O gnóstico deve ser isento de cólera, de rancor e de tristeza (cap. 10) — sendo a tristeza uma paixão da alma estreitamente ligada à cólera (cf. TP 10 e 11, com as notas em SC 171, p. 515-520)
- Para isso evitará os processos judiciais, mesmo tendo de suportar a injustiça (cap. 8)
- Permanecerá insensível a calúnias e críticas, reconhecendo nelas tentação dos demônios que buscam suscitar ódio e rancor para impedi-lo de aceder à ciência (cap. 32)
- O estado de ausência total de cólera, aorgesía, que Evágrio denomina alhures mansidão, é vizinho da caridade, tida como filha da impassibilidade e porta da ciência — a virtude por excelência do gnóstico — de modo que, para Evágrio como para Clemente de Alexandria, impassibilidade, caridade e ciência se encontram estreitamente unidas
- A caridade se manifesta primeiramente como esmola, e a forma própria de esmola do gnóstico é precisamente o ensinamento (cap. 7)
- O gnóstico satisfaz ao dever de caridade ensinando de modo desinteressado, não em vista do ganho, do bem-estar ou de uma glória passageira, sob pena de assemelhar-se aos vendilhões expulsos do templo (cap. 24)
- Toda pesquisa inspirada por alguma paixão ou não orientada exclusivamente ao bem conduz à falsa ciência — o pecado por excelência do gnóstico (cap. 43)
3. O que ensinará o gnóstico?
- A função principal do gnóstico, tal como apresentada neste livro, é transmitir a gnose ou ciência espiritual por ele mesmo adquirida àqueles que se tornaram capazes de recebê-la, ciência essa acessível pela impassibilidade (cap. 45) e pela graça de Deus (cap. 4), permitindo compreender as naturezas criadas, corpóreas e incorpóreas, visíveis e invisíveis, em seus logoi — termo tomado por Evágrio da terminologia estoica
- Na versão siríaca comum, logoi é traduzido literalmente por melte, palavras (igualmente em armênio, bari); na versão revisada, mais acertadamente, por reane, intelecções
- O logos de uma natureza é seu princípio ao mesmo tempo ontológico e explicativo — sua razão de ser e sua razão —, sendo raison, razão, a melhor tradução francesa (caps. 4, 15, 25, 40, 44)
- Contemplar o logos de uma natureza é apreendê-la na ideia que presidiu à sua criação e, portanto, compreendê-la em sua essência
- Entre os logoi figuram os da providência e do julgamento, concernentes à constituição presente do mundo e às disposições divinas para assegurar a salvação de todos os seres racionais, segundo as grandes teses da cosmologia e da escatologia evagrianas (caps. 36 e 48)
- A exegese da Escritura integra também a ciência espiritual e ocupa lugar central no ensinamento do gnóstico, consistindo — segundo Evágrio, fiel discípulo de Orígenes — em descobrir, para além da letra do texto escriturístico, o sentido espiritual ou alegórico, assim como a ciência das naturezas visava a descobrir suas razões para além da aparência sensível
- O gnóstico buscará estabelecer o sentido real do texto, levando em conta as habitudes da Escritura tal como recomendava Orígenes (cap. 19)
- Determinará a que ordem doutrinária pertence o texto: à prática ou ética, à física ou ciência das naturezas, ou à teologia ou ciência de Deus — segundo a divisão tripartite familiar a Evágrio (cap. 18)
- Atentará ao fato de que o sentido alegórico de um texto não é necessariamente da mesma ordem que o sentido literal (cap. 20)
- Evágrio impõe limites à exegese alegórica: não buscar significação espiritual para todas as palavras do texto bíblico (cap. 21) e não interpretar alegoricamente os mínimos detalhes da narrativa, o que exporia ao ridículo (cap. 34)
4. Como o gnóstico ensinará?
- O único objetivo do ensinamento do gnóstico é a salvação dos que tem a seu cargo instruir, o que exige adaptação ao nível espiritual de cada um, pois nem toda verdade é adequada a todos e em todo momento — regra de ouro da pedagogia
- Para isso o gnóstico deve conhecer com precisão o estado e o gênero de vida de seus ouvintes, a fim de poder dizer a cada um o que lhe é útil (cap. 15)
- Evágrio, invocando o que aprendeu de seu mestre Gregório de Nazianzo, define a justiça como a virtude cuja função é distribuir a cada um segundo seu grau (cap. 44)
- O gnóstico ensinará claramente o que é útil aos simples, os iniciantes na vida espiritual, mas formulará de modo obscuro ou enigmático as doutrinas que somente os suficientemente avançados podem compreender (cap. 44)
- O ensinamento da ética ou prática convém a todos — especialmente aos seculares e aos jovens monges —, visando à purificação da alma e à vitória sobre as paixões, mas mesmo nisso há graus: aos jovens cabe ensinar como vencer as paixões que neles provêm sobretudo da concupiscência; aos mais velhos, como lutar contra as que provêm da parte irascível da alma (cap. 31)
- O que pertence à física, ciência espiritual das naturezas, e à teologia deve ser comunicado aos principiantes apenas no mínimo necessário para a salvação (caps. 12 e 13)
- Discutir as coisas da ciência espiritual quando ainda se está sujeito às paixões é como debater saúde estando doente (cap. 25)
- Uma verdade mal compreendida pode ser causa de queda (cap. 25)
- As doutrinas sobre as razões da providência e do julgamento — teses da metafísica evagrina, da cosmologia e da escatologia — não devem ser ensinadas aos seculares e aos jovens, pois, além de não as poderem compreender, mal compreendidas os convidariam ao relaxamento (cap. 36)
- O gnóstico observará rigorosa gradação em seu ensinamento, mantendo-se sempre ao nível de seu auditório — colocando-se mesmo ligeiramente abaixo desse nível —, de modo a elevar-se apenas quando convidado por seus ouvintes, e fingirá ignorância diante de perguntas às quais julga não dever responder, o que não pode ser reputado mentira
- Organizará o ensinamento em dois tempos: o da exposição e o da discussão, admitindo a esta apenas os suficientemente avançados, pois toda discussão além das capacidades dos participantes é própria de disputadores e heréticos (cap. 26)
- O sentido simbólico da ação eucarística será revelado somente aos sacerdotes — em princípio gnósticos — e apenas aos melhores entre eles (cap. 14)
- O gnóstico usará prudência, guardando silêncio sobre os temas mais elevados da ciência espiritual ou reservando-os aos capazes e expressando-os em termos velados e obscuros, à semelhança da própria Escritura que revela as verdades mais altas sob o véu da alegoria
- Sobre a ciência de Deus ou teologia impõe-se reserva ainda maior do que sobre a ciência das naturezas: não se deve buscar definir a Deus nem falar dele inconsideradamente (cap. 27)
- Nada do que se aplica às naturezas criadas convém a Deus: o silêncio se impõe diante do Inefável (cap. 41)
- O próprio gnóstico deve, superando a física, aceder em certa medida à teologia, voltando seu olhar para a Causa primeira, pois é com o olhar voltado para o Arquétipo divino que modelará as imagens que são os intelectos daqueles que tem a cargo ensinar (caps. 49 e 50)
5. Situação desse ensinamento
a — no meio monástico
- O ensinamento do gnóstico tal como descrito por Evágrio se situa concretamente no gênero de vida semi-anacorético dos monges dos Kéllia, de Nitria e de Escete, transmitido principalmente pelos Apophthegmata Patrum — os ditos dos Padres — que consistem em respostas breves e concisas dadas por um ancião a um jovem monge com a pergunta habitual: dize-me uma palavra: como serei salvo
- Esse ensinamento visava essencialmente à salvação e se formulava em apoftegma conciso e breve, tal como o capítulo de Evágrio
- Os apoftegmas citados incluem Ammonas 1, PG 65, 120A; Arès, 132C; Hiérax 1, 232C; Macário do Egito 23, 272B e 27, 272D
- Na maior parte das vezes tratava-se de ensinamento individual, mas às vezes vários monges consultavam juntos um grande ancião, como mostram os ditos de Antônio 12, 17, 18, 19, 26, 27, ibid. 77CD, 80D, 81AB, 84CD
- Segundo a recensão longa da vida de Evágrio conservada em copta, Evágrio tinha o hábito de receber os irmãos reunidos ao seu redor nos sábados e domingos, recebendo também diariamente em sua cela cinco ou seis pessoas de regiões externas para ouvir seu ensinamento
- Pálade testemunha que nos Kéllia se constituiu ao redor de Evágrio e de seu amigo Amônio uma comunidade chamada o entorno de Amônio e Evágrio, ou simplesmente o entorno do bem-aventurado Evágrio, ou ainda a comunidade, synodia, a fraternidade, hetaireia, de Evágrio
- Evágrio aparece como mestre, didaskalos, dessa comunidade, conforme o chama Pálade, que nela foi seu discípulo
- Pálade menciona o ensinamento, didaskalia, de Evágrio, que era objeto de críticas por parte de outros monges, dirigidas à sua exegese alegórica e às grandes teses de sua metafísica
- Essas críticas ocasionaram a querela entre os chamados origenistas e os denominados por seus adversários antropomorfitas, por se aterem à exegese literal da Escritura, especialmente de Gn 1,13, que diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança
- Essa controvérsia é examinada por Guillaumont em Les Képhalaia Gnostica, p. 59-61
b — na tradição escolar
- O Gnóstico pode ser situado em perspectivas mais amplas — as da tradição escolar e erudita recebida pelo próprio Evágrio —, cuja obra revela profunda cultura retórica e filosófica, embora seja muito pouco o que se sabe sobre sua formação escolar
- Pálade, no capítulo que consagra a Evágrio na História lausíaca (cap. 38, ed. Butler, p. 116-117), menciona apenas as relações de Evágrio com Basílio e Gregório de Nazianzo, conhecidos provavelmente ainda na adolescência, durante os anos que os dois amigos passaram juntos por volta de 360 em Anésoi, no Ponto, não longe de Íbora, onde Evágrio nasceu
- Sozômeno, bem informado, afirma que Evágrio foi instruído por Gregório de Nazianzo na filosofia e nas ciências sagradas (História eclesiástica VI, 30, PG 67, 1384C)
- É provável que a Gregório de Nazianzo Evágrio deva também sua formação retórica, pois Gregório exerceu por algum tempo as atividades de rétor após seu retorno de Atenas, onde estudou em Cesareia da Capadócia, em Cesareia da Palestina — na escola fundada por Orígenes — e em Atenas
- O Gnóstico atesta que Evágrio conhecia bem não apenas a obra dos grandes teólogos cristãos — Gregório de Nazianzo e Basílio (caps. 44 e 45), Atanásio, Serapião de Tmuis e Dídimo (caps. 46, 47 e 48), além de Clemente de Alexandria e Orígenes —, mas também a dos filósofos neoplatônicos, Plotino e sobretudo Porfírio, cuja Isagoge parafraseou no capítulo 41
- A influência de Aristóteles se manifesta no final do cap. 14, onde é parafraseada uma frase do início da Metafísica
- A forma do képhalaion adotada por Evágrio neste e em outros livros é também emprestada da tradição escolar e praticada pelo próprio Porfírio (cf. E. von Ivánka, KEPHALAIA. Ein Byzantinische Literaturform und ihre antiken Wurzeln, Byzantinische Zeitschrift 47, 1954, p. 285-291)
- A influência da tradição escolar — ao mesmo tempo pagã e cristã — percebe-se não apenas na forma, mas na matéria mesma do livro, sendo o lugar central dado à exegese traço característico do ensinamento, tanto na filosofia pós-clássica quanto entre os teólogos cristãos
- O princípio de adaptar o ensinamento aos ouvintes e de reservar certas matérias aos que podem compreendê-las remonta ao menos a Platão e tornou-se lugar-comum na tradição neoplatônica, onde à herança platônica se mescla a influência do pitagorismo e das religiões de mistérios
- Esse princípio também está presente na tradição religiosa judaica: a Mishná, Hag. II,1, prescreve que certas exegeses não devem ser expostas diante de três pessoas, outras diante de duas, algumas mesmo diante de uma só, a menos que seja um sábio capaz de compreendê-las por si mesmo
- Filon situa-se no cruzamento dessas duas tradições, como mostra De sacrificiis 60-62, com linguagem tomada dos mistérios, e 131: coisas a dizer em segredo aos anciãos, mas a calar diante dos jovens
- Clemente de Alexandria e Orígenes — cujas obras eram familiares a Evágrio — adotam essa mesma atitude: Clemente, invocando o exemplo da Escritura e o ensinamento de Platão, Pitágoras e dos filósofos posteriores, afirma que nem tudo deve ser entregue sem reserva ao primeiro que apareça; Orígenes sustenta que certos ensinamentos devem ser reservados aos perfeitos e mantidos ocultos à multidão
- Clemente adverte que o mestre gnóstico, usando discernimento, formulará veladamente certas verdades e será responsável pela queda daqueles a quem ensinou verdades que não podiam compreender (Stromates V, VII, 54, 1-4)
- Orígenes aplica esse princípio, por exemplo, à doutrina sobre a entrada das almas nos corpos ou sobre o castigo dos pecadores no além (Contra Celso V, 29 e VI, 26)
- Orígenes sustenta que há perigo não apenas em mentir, mas também em dizer a verdade a quem não deve ouvi-la: não se devem lançar as pérolas diante dos porcos nem dar aos cães as coisas santas (Mt 7,6)
- Quem acedeu aos mistérios deverá ter a sobriedade da boca e saber a quem, quando e como convém falar dos mistérios divinos (Orígenes, Homilias sobre os Números XXVII, 12, trad. Méhat, SC 29, p. 551-552)
- Basílio e Gregório de Nazianzo — mestres imediatos de Evágrio — partilham atitude análoga: Basílio, no Tratado do Espírito Santo, desenvolve a ideia de que há na Igreja, ao lado do ensinamento escrito destinado a todos, um ensinamento transmitido oralmente e reservado ao pequeno número dos iniciados, segundo o exemplo de Moisés; Gregório de Nazianzo, no Discurso 28, parafraseia a teofania do Êxodo 24 para explicar os graus do ensinamento divino
- Gregório de Nazianzo explica que Moisés penetra na nuvem para entreter-se com Deus; Aarão e os anciãos permanecem em retraimento nos flancos da montanha segundo seu grau de pureza; os impuros ficam ao pé da montanha ou à distância
- As tábuas da Lei eram escritas dos dois lados (cf. Ex 32,15): um lado, a face visível, era para a multidão, tous pollois, que fica ao pé da montanha; o outro, a face oculta, para os poucos, tois oligois, que sobem ao cume da montanha (Discours 28, § 2, ed. Gallay, SC 250, p. 102-105)
- A consequência prática dessa teoria é a organização de um ensinamento em dois graus: um destinado aos mais numerosos, ainda distantes da impassibilidade, e outro, superior, reservado aos suficientemente puros para compreendê-lo e recebê-lo
- O ensinamento de grau superior destina-se a discípulos escolhidos — que o mestre estima suficientemente preparados —, tendo os discípulos papel mais ativo, convidados a fazer perguntas e participando de uma pesquisa conduzida em comum, zetesis
- Assim procedia Plotino, seguindo o exemplo de seu mestre Amônio, conforme testemunho de Porfírio, que observa que isso não se passava sem alguma desordem (Porfírio, Vida de Plotino, 3, ed. Bréhier, Enéadas, t. I, Paris 1924, p. 4)
- Assim também faziam Clemente de Alexandria e Orígenes (cf. para Orígenes, Eusébio, História eclesiástica VI, 15, comentado por Nautin, Orígenes, I, Paris 1977, p. 48-49)
- A método adotado por Evágrio consistia em convidar àqueles capazes de tornar-se gnósticos — somente eles — à pesquisa e discussão sobre os dogmata (cap. 35), pontos de doutrina deixados à livre investigação, e sobre textos da Escritura passíveis de interpretação alegórica diversificada
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