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Epístola do Conselho Privado

  • Em louvor caloroso dessa obra contemplativa, identificada com a sabedoria de Deus descendo graciosamente à alma humana para uni-la a si mesmo, Salomão exclama em palavras que devem ser compreendidas como elogio da consciência cega e nua do próprio ser, com todo saber engenhoso posto de lado.
    • Salomão é o sábio citado como voz laudatória da obra
    • Bem-aventurado o homem que encontra a sabedoria e que abunda em prudência. Sua aquisição é melhor do que o comércio de ouro e prata. Seus frutos são os primeiros e os mais puros. Guarda, filho meu, a lei e o conselho; e será vida para tua alma e graça para tua boca. Então caminharás com confiança pelo teu caminho, e teu pé não tropeçará. Se dormires, não temerás; descansarás e teu sono será suave. Não temas o terror repentino, nem o ímpeto dos poderes dos ímpios que se lançam sobre ti, porque o Senhor estará ao teu lado e guardará teu pé para que não sejas capturado”
    • O ouro e a prata significam moralmente todo o demais conhecimento — corporal ou espiritual — adquirido pelo esforço das faculdades naturais ao considerar os atributos de Deus ou de qualquer criatura
    • O fruto dessa obra é a sabedoria espiritual elevada, brotada súbita e livremente do próprio espírito humano — incriada, distante do engano e além do controle das faculdades naturais
    • Em comparação com esse fruto, as faculdades naturais — por mais sutis ou santas que sejam — podem ser chamadas de louca falsidade formada na ilusão, tão distantes da verdade genuína quanto a escuridão do luar enevoado numa noite de pleno inverno está distante do brilho dos raios solares no momento mais claro de um dia de verão
  • A lei e o conselho que Salomão manda guardar contêm em si todos os mandamentos e conselhos do Antigo e do Novo Testamento, pois seu fundamento e sua força são o dom glorioso do amor, pelo qual, como ensina o apóstolo, toda a lei se cumpre.
    • Paulo é o apóstolo citado: Plenitudo legis est dileccio — “O amor é o cumprimento da lei”
    • A obra é chamada lei apenas porque contém em si todos os ramos e frutos da lei
  • Guardar essa lei de amor produz vida interior à alma — na ternura do amor a Deus — e graça exterior à boca, no ensinamento mais verdadeiro e na conduta corporal mais ordenada diante dos demais cristãos.
    • Cristo ensina que de dois preceitos — amor a Deus e amor ao próximo — dependem toda a lei e os profetas: In hiis enim duobus tota lex pendet et prophete: scilicet dileccio dei et proximi
  • Tornado perfeito na obra interior e exterior, o contemplativo caminhará com confiança, fundado na graça, erguendo o ser cego e nu ao ser abençoado de Deus, com o qual é um em graça embora distintos em natureza, sem que o pé do amor tropece em ilusão alguma.
    • O pé do amor não tropeça porque todo esforço curioso das faculdades naturais foi posto de lado e esquecido, temendo a ilusão e a falsidade que poderiam contaminar a consciência nua do ser
    • Qualquer pensamento específico sobre algo que não seja o próprio ser cego e nu — que é Deus e a meta — desvia e divide o contemplativo de si mesmo e de Deus
    • Na contemplação cega do ser nu unido a Deus deve-se fazer tudo o que se faz — comer e beber, dormir e vigiar, caminhar e sentar, falar e calar, deitar e levantar, correr e montar, trabalhar e descansar
    • Essa oferta diária a Deus é a mais preciosa que se pode fazer e o principal de todos os atos, sejam ativos ou contemplativos
  • No sono dessa contemplação cega, surdo a todo o ruído e provocação do demônio feroz, do mundo falso e da carne frágil, o contemplativo não temerá perigo algum, pois o demônio é inteiramente confundido e cegado pela ignorância dolorosa sobre o que o contemplativo está fazendo.
    • Salomão prossegue: Vniverse carni sanitas est — “É saúde para toda a fraqueza e enfermidade da carne”
    • Como toda enfermidade e corrupção entraram na carne quando a alma se afastou dessa obra, toda saúde retornará à carne quando a alma — pela graça de Jesus, o principal operário — retornar a ela
    • Isso só pode ser esperado pela misericórdia de Jesus e pelo próprio consentimento amoroso do contemplativo
  • O demônio certamente virá com terror repentino, batendo nas paredes da morada do contemplativo ou incitando seus agentes a investir subitamente, por meio de um ou mais dos cinco sentidos corporais, para arrastá-lo para baixo dessa obra preciosa, mas o Senhor estará ao lado do contemplativo para guardá-lo.
    • Salomão: Et ne paueas repentino terrore, et irruentes tibi potencias impiorum — “E não sejas confundido pelo terror repentino, nem pelo ímpeto dos poderes dos ímpios que se lançam sobre ti”
    • Quia Dominus erit in latere tuo, et custodiet pedem tuum ne capiaris — “porque o Senhor estará ao teu lado e guardará teu pé para que não sejas capturado”
    • O pé aqui é a ascensão do amor pela qual o contemplativo se aproxima de Deus
    • O Senhor — que é o amor — ajudará, preservará e defenderá com poder, sabedoria e bondade todos aqueles que, na confiança amorosa que sentem por ele, estão dispostos a abandonar completamente a própria preservação
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