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Clemente de Alexandria— Stromata

Capítulo IV — Os Elogios Do Martírio

  • O gnóstico, quando chamado, obedece facilmente e entrega seu corpo a quem o pede — tendo previamente se desapegado das afeições desta carcaça, sem insultar o tentador, mas antes o treinando e convencendo.
    • Empédocles: “De que honra e de que extensão de riqueza caído” — assim caminha doravante entre os mortais.
    • O gnóstico testemunha de si mesmo que é fiel e leal a Deus; ao tentador, que este o invejou em vão por ser fiel pelo amor; e ao Senhor, da persuasão inspirada em relação à Sua doutrina, da qual não se afastará por temor da morte.
    • Ele confirma também a verdade da pregação por seu ato, mostrando que Deus para quem se apressa é poderoso; e envergonha os incrédulos pelo seu sangue precioso.
    • Evita negar Cristo por temor; não vende sua fé na esperança dos dons preparados; mas pelo amor ao Senhor parte de bom grado desta vida — talvez dando graças tanto ao que lhe proporcionou a causa de sua partida quanto ao que tramou contra ele, por ter recebido uma razão honrosa de mostrar o que é.
    • O Senhor o saúda com as palavras da poesia: “Querido irmão” — por razão da semelhança de sua vida.
  • O martírio é chamado de perfeição não porque o homem chega ao fim de sua vida como os demais, mas porque exibiu a obra perfeita do amor — e os antigos louvavam a morte dos gregos que morriam em guerra não por aconselharem a morte violenta, mas porque morrer em batalha é ser libertado sem o pavor de morrer.
    • Os que morrem em doenças partem em estado de efeminação e desejando viver — não entregam a alma pura, mas carregando consigo suas concupiscências como pesos de chumbo.
    • Alguns morrem em batalha com suas próprias concupiscências, sem em nada diferir dos que teriam definhado por doença.
  • Se a confissão a Deus é martírio, cada alma que viveu puramente no conhecimento de Deus e obedeceu aos mandamentos é testemunha tanto pela vida quanto pela palavra — derramando a fé como sangue ao longo de toda sua existência até a partida do corpo.
    • O Senhor no Evangelho: “Quem quer que deixe pai, ou mãe, ou irmãos… pelo bem do Evangelho e do meu nome” é bem-aventurado — indicando não o martírio simples, mas o martírio gnóstico, do homem que conduziu a si mesmo segundo a regra do Evangelho no amor ao Senhor.
    • O conhecimento do Nome e o entendimento do Evangelho apontam para a gnose, e não para a mera denominação.
    • “Mãe” designa figurativamente a Pátria e o sustento; “pais” designam as leis da política civil — as quais o homem justo e magnânimo deve desprezar com ação de graças para ser amigo de Deus e obter o lugar à direita no lugar santo, como fizeram os apóstolos.
    • Heraclito: “Deuses e homens honram os mortos em batalha.”
    • Platão, no quinto livro da República: “Dos que morrem em serviço militar, quem quer que morra após conquistar renome, não diremos que é chefe da raça de ouro? Com toda a certeza.” — e a raça de ouro está com os deuses, que estão no céu, na esfera fixa, que detêm principalmente o comando na providência exercida para com os homens.
  • Alguns heréticos que mal compreenderam o Senhor têm ao mesmo tempo um amor ímpio e covarde pela vida, dizendo que o verdadeiro martírio é o conhecimento do único Deus verdadeiro e que quem se confessa pela morte é um suicida — mas há também outros que se precipitam sobre a morte por ódio ao Criador, e esses se exilam sem serem mártires.
    • Os heréticos aduzem sofismas de covardia; a eles se responderá no momento adequado, pois diferem nos primeiros princípios.
    • Os que se apressam a se entregar — pobres miseráveis que morrem por ódio ao Criador — se exilam sem ser mártires, mesmo que sejam punidos publicamente, pois não preservam a marca característica do martírio crente, não tendo conhecido o único Deus verdadeiro.
    • Entregam-se a uma morte vã, como os gimnosofistas dos indianos ao fogo inútil.
  • O mecanismo harmonioso do corpo contribui para o entendimento que conduz à bondade da natureza — e Platão, invocado pelos que caluniam o corpo, afirma na República que o cuidado com o corpo deve ser tomado em prol da harmonia da alma.
    • Platão, no terceiro livro da República: “Para a harmonia da alma, o cuidado com o corpo deve ser tomado” — pelo qual quem anuncia a proclamação da verdade pode viver, e viver bem.
    • É pelo caminho da vida e da saúde que se aprende a gnose; e quem no corpo se dedicou a uma vida boa está sendo enviado ao estado de imortalidade.
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