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CALLISTUS CATAPHYGIOTES – UNIÃO DIVINA
Callisto Cataphygiotes — Sobre a união divina e a vida contemplativa
- Por natureza, todo ser vivo recebe repouso e prazer proporcionado pela atividade mais elevada que lhe é natural, devendo o ser humano, por possuir intelecto e a atividade da intelecção como sua vida por natureza, experimentar o maior prazer e verdadeiro repouso quando conhece as realidades supremas concernentes a si mesmo — o que se poderia chamar de “o bem” ou “o belo” —, o que ocorre verdadeiramente quando ele tem Deus em seu intelecto, medita nas virtudes Daquele que é a derradeira Realidade a ser conhecida (embora Ele transcenda o intelecto), que ama o ser humano supremamente de modo transcendente ao intelecto e que prepara para o seu povo recompensas supremas e bens belos e bons que transcendem o intelecto, concedendo-os para serem desfrutados por toda a eternidade.
- A atividade mais elevada natural a cada ser vivo é denominada “ἐνεργείᾳ”.
- Deus é descrito como “ὑπὲρ νοῦν νοητός”, “ὑπὲρ νοῦν” amante do ser humano e possuidor de recompensas “ὑπὲρ νοῦν”.
- Todo nascimento gera descendência semelhante ao seu progenitor, conforme o Senhor disse: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6), sendo claro que, se quem é nascido do Espírito é espírito, ele será também um deus, semelhante ao Espírito que o gerou, pois o Espírito é verdadeiro Deus e é dele que o participante do Espírito nasce por graça, tornando-se contemplativo, já que Deus é chamado Theos porque contempla e vê todas as coisas.
- A citação bíblica completa é: “That which is born of the flesh is flesh, and that which is born of the Spirit is spirit” (João 3:6).
- Aquele que não contempla ou ainda não recebeu o nascimento espiritual e a participação, ou, tendo-os recebido, por nunca ter aprendido o melhor, fecha sua capacidade de visão e, por nunca ter sido ensinado, desvia seu olhar dos raios inteligíveis divinos que irradiam do Sol Noético da Justiça (Malaquias 4:2), permanecendo miseravelmente privado da atividade da contemplação, mesmo almejando verdadeiramente a santidade.
- Todas as coisas receberam seu movimento e propriedade natural Daquele que as criou por palavra e razão (λόγος), incluindo o intelecto, cujo movimento tem a propriedade da eternidade, sendo infinito e ilimitado, sendo contrário à sua dignidade própria e ao que é verdadeiramente natural para ele que o intelecto seja confinado ou limitado em seu movimento — o que ocorrerá enquanto ele se mover no meio de coisas finitas e limitadas —, exigindo o movimento perpétuo do intelecto algo infinito e ilimitado para o qual ele possa se mover conforme a razão e sua própria natureza, não havendo nada infinito e verdadeiramente ilimitado senão Deus, que é por natureza Uno no sentido próprio da palavra.
- Deus é aquele que é em Sua natureza Um no sentido próprio da palavra.
- O intelecto deve esforçar-se e dirigir seu olhar para cima, movendo-se em direção ao verdadeiramente infinito Um, Deus, pois isso é o que é verdadeiramente natural ao intelecto.
- As realidades contempladas ao redor de Deus são infinitas e ilimitadas, mas nem mesmo essas realidades podem ser experimentadas com alegria perfeita pelo intelecto, que busca o Um de quem elas procedem, pois cada coisa naturalmente se alegra no que é semelhante a si mesma, e o intelecto é um por natureza (embora múltiplo nas intelecções [νοήσεις]), sendo-lhe impossível alegrar-se plenamente até que tenha atingido, por meio do Espírito, o Um cuja natureza única não tem limites, após ter “ultrapassado a multiplicidade”, por assim dizer.
- As intelecções do intelecto são denominadas “νοήσεις”.
- O intelecto só pode alegrar-se plenamente em Deus, pois a principal propriedade natural do intelecto é mover-se, ascender, atingir e alegrar-se plenamente somente em Deus, que é simples e ilimitadamente Um.
- Todo movimento de toda espécie de coisa criada, incluindo o do próprio intelecto, esforça-se e tende para a estabilidade (στάσις) e tranquilidade (ἠρεμία), sendo o propósito e o repouso próprio de uma dada coisa criada tornar-se estável e tranquilo através de seu movimento, mas o intelecto, embora seja uma das coisas criadas, não pode participar da estabilidade e tranquilidade por meio do movimento no meio das coisas criadas, pois a criação recebeu finitude por ter um começo, deixando o intelecto perpetuamente em movimento e buscando mover-se para outro lugar.
- A estabilidade é denominada “στάσις” e a tranquilidade “ἠρεμία”.
- É irracional presumir que o intelecto possa encontrar tranquilidade ou estabilidade nas coisas criadas, sendo somente em Deus, que é verdadeira e transcendentemente Um, que o intelecto pode fazer uso próprio de seu movimento (tornando-se estável através do movimento) e encontrar tranquilidade, paz e um senso seguro de repouso, pois Deus é o incircunscritível Um que o intelecto deve atingir através do movimento para encontrar a tranquilidade natural a ele em seu próprio repouso noético, onde há estabilidade através do Espírito — um estado paradoxal de repouso e o ilimitado para além de todas as coisas.
- Se Deus, segundo Davi, faz dos espíritos Seus anjos (Salmos 103:4; Hebreus 1:7) e dentre os homens aqueles que são nascidos do Espírito Ele faz espírito, conforme o Senhor disse (João 3:6), então o homem que nasce do Espírito mediante participação consciente Nele é feito anjo, sendo a obra dos anjos contemplar constantemente a face de nosso Pai celestial, conforme o Senhor disse (Mateus 18:10), devendo, portanto, o participante consciente no Espírito Santo elevar-se a si mesmo para contemplar a face de Deus.
- As citações bíblicas são: Salmos 103:4; Hebreus 1:7; João 3:6; Mateus 18:10; Salmos 104:4; João 15:4; Salmos 33:6; Salmos 35:10.
- Aquele que se tornou participante do Espírito Santo, experimentou o inefável nascimento do Espírito e ascendeu à dignidade de anjo não cuida propriamente de sua nova condição se fecha sua percepção noética (νοερὰν αἴσθησιν) de Deus e não deseja elevar-se a Deus e às realidades divinas por excessivo temor piedoso, pois essas coisas são ordenadas pelo Salvador, que nos disse para permanecermos Nele, como Ele também permanece em nós (João 15:4), e Davi diz: “Aproximai-vos Dele e sede iluminados” (Salmos 33:6).
- Há três maneiras pelas quais o intelecto ascende à contemplação de Deus: através do movimento intrínseco (αὐτοκινήτως), do movimento derivado (ἑτεροκινήτως) ou de uma combinação de ambos, sendo o modo do movimento intrínseco realizado simplesmente pela natureza do intelecto ao exercer sua vontade através da faculdade conceitual (φαντασία), tendo como fim a contemplação das realidades ao redor de Deus (τὰ περὶ Θεὸν θεωρία) que os filhos da Grécia puderam conceituar (φαντάζεσθαι) de certo modo, enquanto o segundo modo é sobrenatural e trazido pela vontade e iluminação de Deus somente, no qual o intelecto fica sob total influência divina (κατοχή), é tomado por revelações divinas, saboreia os inefáveis mistérios de Deus e contempla eventos futuros.
- A faculdade conceitual é denominada “φαντασία” e as realidades ao redor de Deus “τὰ περὶ Θεὸν θεωρία”.
- O modo combinado é composto de aspectos dos dois primeiros, conformando-se ao movimento intrínseco na medida em que opera por meio da vontade própria e da faculdade conceitual, mas participando do movimento derivado na medida em que está unido a si mesmo através da iluminação divina e contempla inefavelmente Deus para além da própria união noética, momento em que o intelecto vai além de todas as realidades contempladas ao redor de Deus e ditas sobre Ele, não vendo nem “benevolência” nem “poder deificador”, nem “sabedoria” nem “domínio capacitador”, nem “providência” nem qualquer outro atributo divino, mas é preenchido até a borda com luz noética e grande alegria, inflamado pelo fogo divino e misturado com amor.
- O intelecto que emprega sua própria faculdade conceitual (φαντασία) para contemplar coisas invisíveis é guiado pela fé e, quando iluminado pela graça, é assegurado da esperança; quando inundado pela luz divina, torna-se um tesouro de amor pelas pessoas e ainda mais por Deus, tornando-se perfeita e deificadora, segura e firme a ordem tríplice e o movimento do intelecto na fé, esperança e amor.
- Pode-se dizer também que, quando o intelecto alcançou esta cidadela espaçosa, está seguro na fortaleza do amor.
- São Paulo disse: “O amor tudo protege e tudo suporta” para o bem da fé e da esperança; ele diz ainda: “o amor jamais acaba”, por causa de sua união flamejante e inefável afinidade com Deus (1 Coríntios 13:7-8).
- O Um não pode ser abstraído de nenhuma coisa criada, pois todas as coisas criadas diferem entre si em relação a algum modo de particularidade única (ἰδιότης), mas na medida em que são todas criadas, não diferem entre si por terem todas um começo, serem finitas, cumprirem seu fim na natureza e nenhuma delas ser absolutamente una no verdadeiro sentido da palavra, pois somente o Incriado é verdadeiramente Um, sendo simples, sem começo, sem fim, ilimitado e, portanto, infinito, isto é, Deus.
- A particularidade única é denominada “ἰδιότης”.
- Se o intelecto contempla o Um através da participação no Espírito Vivificante e do empoderamento por Ele, recebe diariamente o aumento de que necessita e é unido, tornado simples e possuído de um estado divinizado, reconhecendo com completa certeza que, aparte do Um e sem seu olhar dirigido para Ele no Espírito, é impossível atingir a plenitude (νοῦν βέλτιον ἔχειν), pois o intelecto é disperso por estar sujeito ao mundo fragmentado e às paixões, necessitando, consequentemente, de um poder transcendente, isto é, o Um sobrenatural para o qual deve voltar seu olhar, a fim de que, sendo arrebatado das coisas que o dividem, possa superar as paixões e a discórdia e assim atingir a semelhança com Deus (τὸ θεοειδές).
- Se a falsidade é fragmentada, enquanto a verdade é una, então o intelecto que ascende ao Um no Espírito — ao transcendente, àquilo que está para além de todas as coisas e de onde vêm os múltiplos — ascende à própria verdade, não podendo, porém, o intelecto ser livre das paixões a menos que a verdade o liberte (João 8:32), sendo a liberdade mais condizente com a impassibilidade, a condição deiforme e a adoção espiritual do intelecto, enquanto a servidão é tudo menos isso.
- A citação bíblica é: “The servant does not know what his lord is doing” (João 15:15), sendo a ignorância um traço do servo e o conhecimento dos mistérios do Pai um traço daquele que ganhou sua liberdade, ascendendo à excelente dignidade de filho adotivo.
- O Espírito da Verdade verdadeiramente liberta aqueles a quem Ele vem, e é precisamente isso que os torna filhos de Deus, como diz o Apóstolo: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos 8:14).
- O Espírito Santo diz: “O Senhor teu Deus, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4), sendo nosso dever elevar o intelecto ao Um transcendente pela graça do Espírito Divino, não sendo correto que alguém proclame (κηρύττειν) o Um sem sentir desejo de que o intelecto se volte para Ele e O contemple, pois o que o Espírito Santo diz é precisamente o que Ele deseja que o intelecto conheça (νοεῖσθαι), e o que é conhecido é também aquilo para o qual o intelecto deve se voltar.
- Se o intelecto não fosse projetado para se voltar para uma realidade inteligível, então a realidade que o intelecto poderia potencialmente conhecer tampouco existiria, e isso alteraria necessariamente nossa proclamação do Um e, portanto, nossa fé também, sendo absurdo, então, não pensar ativamente no Um voltando e elevando o intelecto para Ele.
- É natural que as realidades causadas, especialmente os seres racionais, ascendam e olhem para sua causa em um movimento de retorno (ἐπιστρεπτικῶς), sendo Deus a causa de todas as coisas, incluindo o intelecto, por ser Deus o Um supremo e absoluto, sendo, portanto, natural que o intelecto ascenda e olhe para o Um supremo e absoluto, retornando assim à sua causa.
- O movimento de retorno é denominado “ἐπιστρεπτικῶς”.
- Se todas as coisas são d’Ele, por Ele e para Ele (Romanos 11:36), e o intelecto é, certamente, uma de todas as coisas, então o intelecto existe d’Ele e por Ele — e isso é especialmente verdadeiro para o intelecto por causa de sua semelhança com Deus (διὰ τὸ θεοείκελον) —, devendo o intelecto mais do que qualquer outra coisa olhar de volta para Ele, sendo que a expressão “para Ele” indica que se deve redirecionar o olhar para a manifestação do Um transcendente em um movimento de retorno, concluindo-se que o intelecto deve direcionar seu olhar para o Um.
- A semelhança com Deus é expressa como “διὰ τὸ θεοείκελον”.
- Os múltiplos procedem (προιέναι) do Um, não o Um dos múltiplos, sendo a criação múltipla, sendo, portanto, bastante claro que a criação veio do Um, o qual está acima da criação como seu Criador e Fazedor, de modo que aquele que contempla a criação corretamente será inevitavelmente levado ao Um transcendente ao final de sua contemplação, pois no meio das coisas causadas há, por assim dizer, infinitos ecos (πάμπολλα […] ἀπηχήματα) da Causa, e por meio destes é reconhecido Aquele que produziu todas as coisas segundo sua vontade e providência, em arte e sabedoria, em poder e bondade.
- A ação de proceder é denominada “προιέναι” e os ecos “πάμπολλα […] ἀπηχήματα”.
- Isaías, inspirado pelo Espírito, diz: “Levantai vossos olhos e vede: Quem manifestou todas estas coisas?” (Isaías 40:26), referindo-se todas estas coisas aos múltiplos que são causados, e “Quem” para elevar nossos intelectos a Ele de quem todas estas coisas existem e que é por natureza absolutamente Um.
- A criação também é reunida (συνάγεσθαι) no uno, mas esta unidade é composta e múltipla e não incriada (ἄναρχος), visto que é criada, enquanto o Criador é Um, não apenas Uno em termos de produzir a harmonização de muitas e várias coisas em uma unidade universal orgânica para um propósito, mas também simplesmente porque Ele é Incriado como a Causa Preoriginada (προκαταρκτικὸν αἴτιον), de modo que, quando o intelecto ascende ao que é anterior, ele eventualmente alcançará um Um que tanto desenha a ordem visível quanto origina a gênese dos seres criados, fundindo-os em uma unidade orgânica (σύμπνοια) e harmonizando-os no uno.
- As ações de ser reunido e de fusão em unidade orgânica são expressas como “συνάγεσθαι” e “σύμπνοια”.
- Para cada coisa que se move e se torna, deve haver um tempo em que ela não era; na medida em que ainda não existia, começou; se começou, também foi posta em movimento. Devemos buscar então Aquilo que a pôs em movimento e a trouxe à existência, e Isto terá de ser imóvel na medida em que faz as coisas se moverem, pois se não é imóvel, o que poderia movê-lO, considerando que Ele existe sob nenhum outro princípio (ἀρχή), sendo Ele mesmo Incriado (ἄναρχον)? Se Ele é de fato imóvel, então Ele é também imutável, e se este é o caso, segue-se que Ele será também simples, pois o composto está sujeito à mudança, enquanto já mostramos que Ele é imutável; pois a composição é o início da divisão, e a divisão o início da dissolução, que é a última fase do movimento.
- O Senhor sozinho os conduzia, e não havia deus estrangeiro com eles (Deuteronômio 32:12), sendo o Senhor aquele que conduz aqueles que O seguem, não aqueles que se voltam para trás, e aquilo que alguém segue é aquilo para o que direciona sua atenção (ἐπιστρέφεσθαι); se, então, não tivéssemos outro deus conosco, seja um demônio ou uma paixão, sigamos o Único e Sozinho dirigindo nosso intelecto a Ele, para que também sobre nós seja dito corretamente que o Senhor sozinho os conduzia, e não havia deus estrangeiro com eles.
- A ação de direcionar a atenção é expressa como “ἐπιστρέφεσθαι”.
- Embora os múltiplos venham (εἰσὶν) do Um, cada um deles vem do Um de maneira diferente, uma vez que as realidades procedem da primeira Unidade em vários modos, havendo alguns desses “múltiplos” que têm um começo e são criados, enquanto outros são incriados e estão fora do princípio do começo no tempo (τὸν τῆς χρονικῆς ἀρχῆς λόγον), sendo o Um para além da realidade (ὑπερούσιον) a Causa de absolutamente todas essas realidades, mas Causa das primeiras segundo o modo de criação e das últimas segundo o modo de natureza.
- O Um para além da realidade é denominado “ὑπερούσιον”.
- Não devemos nos aproximar e nos engajar com todas essas realidades da mesma maneira ou na mesma extensão, mas as coisas que existem sob o princípio do começo e da criaturalidade devem ser abordadas por causa de outra coisa e não por si mesmas, como na maneira como nos aproximamos de um espelho não por causa do espelho, mas para ver a forma e a imagem refletidas por ele, não podendo receber nenhuma plenificação (βελτίωσις) ao nos aproximarmos da criação por qualquer outra razão senão por causa do Um último manifestado dentro dela; por outro lado, nos aproximamos das realidades sem começo (ἄναρχα) e naturais [propriedades] de Deus não por causa de outra coisa, mas tanto por si mesmas quanto por causa do Um de quem elas procedem (τὸ ἐξ οὗ).
- Há um tipo de ação (πρᾶξις) que precede a contemplação (θεωρία) e um tipo de ação que segue a contemplação, sendo a primeira ação realizada no corpo para que, ao refrear os impulsos do corpo e gradualmente treiná-lo a se comportar bem, possa, desse modo, permitir que o intelecto passe livremente para as coisas que lhe são próprias, isto é, para as realidades inteligíveis (νοητά), realizando assim adequadamente sua própria virtude distintiva (διαφέρον καλῶς ἐργάζοιτο), enquanto a segunda ação começa com o intelecto e o ato de conhecer no Espírito, e concentra-se (συνάγεσθαι) naquilo que está além do intelecto, isto é, Deus.
- A ação é denominada “πρᾶξις”, a contemplação “θεωρία”, as realidades inteligíveis “νοητά” e a ação de concentrar-se “συνάγεσθαι”.
- Quando o intelecto se aproxima de Deus, encontra o Um, pois Deus é o Um, e então o próprio intelecto é unido consigo mesmo no uno e se torna indiviso, pois quando contemplamos o Um, isso produz unidade e simplicidade deiforme, sendo incompatível que o intelecto contemple o Um sem se tornar uno e simples ele mesmo.
- O desejo mais último de todos (τῶν πάντων ἐφετῶν ἄκρον) é a união da alma com Deus além do intelecto, exigindo essa união com Deus a semelhança com Deus, e a semelhança com Deus exige atividade noética, isto é, contemplação (theorein), pois tal é o Divino (theion), e daí o nome ‘Theos’ ter-lhe sido atribuído, de modo que a contemplação procede diretamente à percepção (ἔννοια) de Deus.
- O desejo mais último é denominado “τῶν πάντων ἐφετῶν ἄκρον”, o Divino “theion” e a percepção “ἔννοια”.
- Em toda parte e em todas as coisas, Deus apresenta certos raios de luz ao intelecto contemplativo, cujo objeto é Deus, o Um transcendente. A natureza do intelecto é tal que ele se torna semelhante em energia àquilo que vê, como o divino Teólogo Gregório deixa claro ao se referir à frase “ver e ‘padecer’ (πάσχειν) o esplendor de Deus”, e Pedro de Damasco diz que o intelecto é saturado pelas coisas que contempla, tornando-se uno quando ascendeu à visão do Um transcendente e absoluto.
- Quando o intelecto está dividido em muitos ou mesmo apenas em duas partes, é bastante claro que não pode contemplar o Um simples, sendo por isso limitado, finito e indistinto, porque tal é a natureza das coisas que não são absolutamente simples, mas quando ele entra em contato intangível com o verdadeiro Um e, no Espírito, contempla-O para além da visão, então ele também se torna sem começo, infinito, ilimitado, sem forma ou figura; ele é imerso na ausência de fala e permanece em silêncio no assombro; ele é preenchido com puro deleite e ‘padece’ (πάσχειν) o inefável.
- O intelecto não se torna sem começo, infinito e ilimitado segundo sua essência, mas segundo a energia, porque o que muda no intelecto não é sua essência, mas sua energia, pois se ele fosse transformado em essência por ‘ver e padecer’ a deificação, isto é, tornar-se deus por contemplar Deus, ele seria Deus em essência, o que é impossível e nem mesmo os anjos são capazes de ser Deus em essência, pois isso pertence ao Único e Sozinho e Supremo Deus somente.
- Todas as coisas, após terem brilhado, por assim dizer, a partir do Um transcendente, não foram removidas do Um por quem foram feitas (em qualquer modo de ser), mas, assim como vieram a ser Nele, assim são mantidas juntas e aperfeiçoadas Nele, não existindo uma única coisa que não tenha um tipo de eflúvio e cheiro, por assim dizer, daquele Criativo e Verdadeiro Um, e todas as coisas que participam do ser não apenas enviam sua voz anunciando o Um transcendente (cf. Salmos 18:4) (pois Ele está estabelecido acima de todas as formas de contemplação e intelecção), mas também estabelecem raios de Sua radiância transcendente, por assim dizer.
- O versículo bíblico mencionado é Salmos 18:4, além de João 11:25 (“I am the life”), João 17:3 (“This is eternal life, that they may know You, the only true God”), Salmos 68:33 (“Seek God and your soul shall live”) e Salmos 35:10 (“In Your light shall we see light”).
- Porque o Um é proclamado em alta voz por todas as coisas e todas as coisas se inclinam para o Um — e este Um transcendente Se manifesta ao intelecto através de todas as coisas —, o intelecto deve ser dirigido, guiado e levado ao Um transcendente, compelido, por um lado, pela voz persuasiva da multidão de coisas e, por outro lado, o Um criativo também deseja que o intelecto O contemple na abundância de Sua bondade, para que o intelecto experimente a vida verdadeira Nele.
- Tudo o que Deus — que é o Um Bem Triádico — fez, Ele fez por Sua vontade, e tudo o que Deus deseja é totalmente bom, pois a bondade é Sua natureza, tendo Ele feito o intelecto um contemplador de Si mesmo e de Seus atributos, os quais conduzem o contemplador ao Um; portanto, Deus deseja que o intelecto seja Seu contemplador, e isto é, em si e por si mesmo, o bem supremo, sendo Deus própria e absolutamente Um, e contemplar e concentrar-se unicamente Nele é o bem último, como foi demonstrado.
- Se o eros absoluto é um e é sentido com devoção exclusiva (συνεπτυγμένος), conforme a instrução daqueles sábios em questões divinas, então o objeto desse eros deve ser um também, pois se houvesse pelo menos dois objetos de eros, então haveria ou dois tipos de eros, ou o único eros seria dividido em dois e dificilmente poderia ser dito uno e com devoção exclusiva; mas agora, uma vez que o eros absoluto é dito ser um e sentido com devoção exclusiva, podemos entender claramente que há também um amado.
- O eros sentido com devoção exclusiva é denominado “συνεπτυγμένος”.
- O amado deve existir antes do eros sentido por ele, não havendo maneira de alguém experimentar o eros do amado antes de primeiro avistar o amado. O eros é amor intenso (ἀγάπη), e este é o tipo de amor que a lei natural e escrita de Deus exige que tenhamos para com Deus: a lei natural persuade totalmente o intelecto amante da beleza (φιλόκαλος) a buscar o Superior, isto é, Deus, enquanto a lei escrita diz: “Amarás o Senhor teu Deus com toda a tua alma, com todo o teu coração e com toda a tua mente” (Deuteronômio 6:5), e “O Senhor teu Deus, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4).
- Quando o intelecto ascendeu ao Um além da mente, é impossível que ele não se apaixone perdidamente por Ele, pois encontra uma beleza inefável e inconcebível brotando Dele, como da raiz de todo o poder, caindo então sob a luz das iluminações divinas e maravilhando-se ao contemplar a Beleza além do intelecto, intoxicando-se como que por vinho e tornando-se, por assim dizer, louco de êxtase, sendo tomado por assombro além do pensamento, incapaz de suportar o peso da visão gloriosa de tão extraordinária Beleza.
- O Um além da mente é Um, e ainda assim é proclamado por todas as coisas, pois é a Causa Preoriginada de todas as coisas: como começo, como fim e como o poder que mantém todas as coisas juntas; produziu a beleza e a bondade de todas as coisas belas e boas na superabundância do poder que torna tudo belo e bom, enquanto Ele mesmo está a uma altura infinitamente infinita acima de toda beleza e bondade como o Um insuperável e transcendente; Ele sozinho é por natureza o objeto de amor (ἐραστός) acima de todos os amores, porque Ele sozinho é propriamente Belo e Bom, transcendendo tudo o que é belo e bom, e segundo a lei da natureza e da ordem, Ele sozinho é verdadeiramente amável (ἀγαπητός) como a Causa de todas as coisas.
- Para tudo o que é por natureza unificado no Espírito, a divisão é degradação, de modo que, se o intelecto é alguma vez dividido em energia, ele cai do estado de graça (κατὰ χάριν) que lhe é próprio, padecendo isso quando contempla várias coisas, pois é impossível permanecer indiviso quando está disperso em diferentes direções, sendo tal estado de sujeição à divisão mais propenso ao pecado do que qualquer outro, e é por isso que essa própria divisão é condenada por aqueles que são criteriosos nessas questões.
- O estado de graça é denominado “κατὰ χάριν”.
- Considerando que é natural que o poder noético do intelecto saboreie a Beleza além da natureza com seu sentido noético (νοερὰ αἰσθήσει) totalmente unificado, contemplando o Um supremo e transcendente, então esta divisão é contrária ao estado de graça. Devemos, portanto, apegar-nos ao Um transcendente (Ἕν) e contemplar somente o Único e Sozinho com toda a nossa alma para evitar a divisão e a diferenciação (ἑτερότης).
- O intelecto então vai além de sua natureza quando chega plenamente ao Um além do intelecto, após tornar-se sem forma, sem figura e totalmente além da forma em Deus — sem começo e infinito, e pode-se até dizer, após transcender sua própria união —, pois enquanto ainda tem seu poder de pensamento, mesmo que esteja engajado em coisas divinas e inteligíveis, diz-se que está se movendo e agindo naturalmente e permanecendo dentro dos limites de sua própria natureza, mas o sobrenatural naturalmente supera o natural e o excede em muito, devendo, portanto, desejar (φιλεῖν) e esforçar-se para atingir o sobrenatural, que é muito maior, conforme o mandamento que nos diz para esforçarmo-nos pelos maiores dons (1 Coríntios 12:31).
- A ação de desejar é expressa como “φιλεῖν”.
- É claro que, quando o intelecto atingiu o sobrenatural, ele atingiu Deus, pois Deus está naturalmente fora de toda natureza, uma vez que Ele é de fato o Um principal e absoluto, devendo o intelecto assim ascender e esforçar-se para contemplar e elevar-se ao Um principal e absoluto, para que, tendo ascendido ao Um além da natureza e ultrapassando sua própria energia natural, possa encontrar plenificação (βέλτιον) e transcender sua própria natureza.
- Cada coisa naturalmente se alegra e encontra repouso em seus próprios princípios (τὰ ἑαυτοῦ ἰδικά), os quais todos pré-existem na Causa primária (ἀρχαιάτατον αἰτίον) no sentido de que Ela é o único Princípio de sua causação (κατ’ αἰτίαν ἑνοειδῆ), e então o intelecto entrará na natureza em verdadeiros deleites em cumprimento de sua natureza, e não terá prazer fugaz, e encontrará repouso profundo, quando tiver ultrapassado e renunciado a todas as coisas e se devotado àquela Causa única, original e primordial, e assim através do retorno noético atingir o Um de quem todas as coisas e suas razões vêm a ser (isto é, seus princípios, meios e fins).
- Os princípios são denominados “τὰ ἑαυτοῦ ἰδικά”, a Causa primária “ἀρχαιάτατον αἰτίον” e a causação unforme “κατ’ αἰτίαν ἑνοειδῆ”.
- O intelecto tem uma certa maneira de retornar a si mesmo quando retorna àquela Causa principal de tudo, que é seu verdadeiro arquétipo, e porque tudo naturalmente se ama, e isso é especialmente o caso para o intelecto porque é uma imagem extremamente bela da beleza inconcebível do Um além do entendimento, ele tem um grande amor para olhar de volta para sua própria Causa através do retorno, pois, como foi dito, ele se vê nela e ama além do amor (ὑπεραγαπάω).
- Toda essência vem do Ser para além do ser e da essência, e toda natureza vem do Um além da natureza, e todos os seres temporais e compostos vêm do intemporal e do incomposto, e de fato todas as criaturas vieram a ser do incriado, e toda forma veio a ser do sem forma, e os múltiplos fenômenos vêm do Um além do universo, de modo que aquele que nem se devota nem direciona seu olhar ao Um sem forma como aquele de que depende, mas em vez disso olha para uma das coisas formadas e criadas, tal pessoa colocou o incomparavelmente inferior acima do Transcendente, e talvez esteja perto dos idólatras.
- Aquele a quem alguém se devota e direciona seu olhar é o objeto de seu desejo; o que ele deseja é o que o conquista; e o que o conquista é o que o escraviza (δεδούλωται) (2Pd 2,19). Tal pessoa verdadeiramente adora a criação em vez do Criador (Romanos 1:25), porque, seguindo este raciocínio, o intelecto de cada pessoa adora, torna-se servo (δεδούλωται) e ama aquilo em que fixa seu olhar e se devota.
- Se todos os seres desejam o ser, e a causa do ser de todas as coisas está contida no Um além do ser, então todos os seres, especialmente os racionais — desde que se movam corretamente e propriamente —, desejam na verdade o Um além do ser em seu desejo pelo ser, de modo que o intelecto que não se eleva em direção ao Um além do ser, e não O deseja, está engajado em um movimento perverso e equivocado (ἡμαρτημένος) e fica aquém de sua dignidade própria: o conhecimento do Um além do ser, a unidade unificadora sumamente divina e o amor a Ele que transcende o intelecto.
- O movimento perverso e equivocado é denominado “ἡμαρτημένος”.
- As causas (τὰ αἴτια) têm maior beleza do que seus efeitos (τὰ αἰτιατά), e além disso, a Causa universal de todas as coisas é o Um além da essência, de modo que, se o intelecto volta sua atenção para algo subsequente ao Um além da essência, considerando-o belo ou de alguma forma digno de atração noética, ele obviamente errou seu alvo (ἡμάρτηται ὁ σκοπὸς αὐτοῦ), porque é essencialmente amante da beleza (philokalic), mas, devido à sua ignorância ou indolência, em vez de se mover em direção ao primeiro e principal Um além da essência (pelo qual todas as coisas belas se tornam belas através da participação), ele se move em direção às coisas que derivaram sua beleza Dele.
- As causas são “τὰ αἴτια”, os efeitos “τὰ αἰτιατά”, e o erro de alvo “ἡμάρτηται ὁ σκοπὸς αὐτοῦ”.
- O intelecto que se direciona com sucesso estende o olhar da mente ao Um acima da essência, pois está certo de que encontrará ainda mais do que anseia, porque através desta visão noética ele atinge a Causa; e está bastante seguro de que nada pode comunicar-lhe sua própria bondade ou beleza senão o Um acima da essência.
- Todas as coisas naturalmente desejam o bem, e novamente, o Um é verdadeiramente Bom, embora muitos sejam chamados de “bons”, pois entre os muitos você não encontrará nada absolutamente bom e totalmente perfeito, por assim dizer, mas todo bem é chamado apenas de “bom” por ter uma certa participação no Bem, isto é, por participar do Bem e Um acima da essência, e não por possuir bondade de si mesmo, pois somente aquele Um além da essência é absolutamente bom e além do bem e a fonte de toda bondade, sendo comunicativo de Seu próprio bem; Ele sozinho naturalmente restaura a Si mesmo toda essência, existência, condição, poder, movimento, energia, propriedade e toda forma de beleza e bondade.
- Absolutamente todas as coisas, e as realidades que contemplamos sobre elas, receberam sua manifestação através de terem sido criadas pelo Um além da essência, de modo que o intelecto que é direcionado a qualquer outra coisa além do Um simples além da essência tem movimento desviado; ele pode até estar se movendo em direção a algum bem, mas não em direção ao Bem próprio e absoluto, que na superabundância de sua benevolência melhora e cumpre com bondade tudo o que requer melhoria e cumprimento (βελτίωσις) na bondade.
- Os intelectos de “os muitos” (οἱ πολλοί), que estão sujeitos à divisão por causa de sua tolice e distraídos pelos muitos (τὰ πολλά), não conhecem o bem que é absolutamente Um, nem sequer O buscam ou se interessam por Ele, concernente aos quais o Espírito diz através de Davi: “Muitos dizem: ‘Quem nos mostrará os bens?’” (Salmos 4:7) — eles não dizem “o Bem”, como seria de se esperar, porque estão ansiosos e perturbados sobre muitas coisas, quando Uma é necessária; participando deste Um é chamada a boa porção na santa palavra de Deus (Lucas 10:41-42) —, mas aqueles que foram conduzidos e ensinados por Davi e consideraram adequado seguir seus passos dizem: “A luz da Tua face, Senhor, foi assinalada sobre nós” (Salmos 4:7), ou seja, “O conhecimento da Tua glória única foi-nos exibido como num espelho”.
- Os muitos (pessoas) são “οἱ πολλοί”, os muitos (coisas) são “τὰ πολλά”.
- Os vulgares e “muitos” das massas se alegram em ‘muitos bens’, mas, em contraste, aqueles que vivem no Espírito são iluminados e transcendentemente iluminados no conhecimento do bem único e absoluto.
- Assim como a força de um fluxo de água é maior quando flui em uma única cascata do que quando é dividida e dividida em muitos canais, assim o olhar do intelecto e seu movimento e desejo naturais se tornarão mais fortes se ele se aplicar sem ser variegado e distraído, em uma unificação sem divisão, o que é feito naturalmente elevando o intelecto, contemplando e contemplando o Um transcendente e absoluto, pois o Um transcendente e totalmente simples é o que verdadeiramente tem o poder de reunir e unir; e uma vez que o intelecto é considerado digno de contemplá-lo, é então impossível que ele não seja conformado a Ele, como uma imagem, e se torne uniforme em uma ordem de unidade — simples, incolor, sem forma, sem atributo, impalpável, ilimitado, infinito, sem figura — e até mesmo se torne ele mesmo um ‘Um transcendente absoluto’ ao ser gloriosamente revestido com os raios do eros divino e transcendente na revelação do conhecimento místico.
- O versículo bíblico mencionado é Salmos 76:11.
- Deus é de fato a Unidade que unifica e Intelecto além da intelecção; e então o intelecto é transcendentemente formado na visão Dele, isto é, quando, além do que foi dito, ele se torna um além da intelecção e experimenta isso através da manifestação divina.
- A Divindade Tríade além da essência está unida em concordância transcendente, pois Deus é uma Unidade Tri-hipostática, não sendo possível, portanto, que a alma imageie uma semelhança de Deus, enquanto ainda for tripartite e ainda não se tiver tornado uma consigo mesma de maneira além da natureza, sendo a alma tripartite não em respeito às suas partes racional (λογιστικόν), irascível (θυμικόν) e apetitiva (ἐπιθυμητικόν), pois propriamente falando, a alma não é “tripartite” neste aspecto, uma vez que a alma racional dificilmente tem qualquer relação com apetite e raiva — de fato, derivamos estes da parte irracional e eles surgiram como consequência [da Queda] para nossa presente vida animal, sendo inerentemente irracionais e obscurecidos, enquanto a alma é racional e sua natureza é cheia de luz noética.
- As partes da alma são denominadas “λογιστικόν”, “θυμικόν” e “ἐπιθυμητικόν”.
- Deveríamos dizer que as coisas que pertencem propriamente à alma são aqueles atributos sem os quais ela não pode realizar sua própria energia e atividade natural, mas ela certamente pode agir apartada da raiva e do desejo; e é precisamente quando age sem eles que ela está verdadeiramente ativa, não sendo, portanto, estas verdadeiras partes da alma, mas, como foi dito, poderes do estado animal inferior e subsistem ao lado dele, pois a alma racional que examina noeticamente as coisas superiores e contempla realidades inteligíveis e se eleva além de si mesma e, eu diria, voa alto a tal altura, rejeita o desejo e a raiva como conversa fiada, não tendo utilidade para eles onde tem simplicidade, o sem forma, o sem figura, o incolor, o informe e todas as outras qualidades que pressupõem um intelecto livre e totalmente simples.
- O número uno sensível (μονὰς αἰσθητή) é a unidade principal (ἀρχή) de toda quantidade numérica (πλῆθος), e o Um transcendente (μονὰς ὑπερκόσμιος) é o princípio (ἀρχή) de toda quantidade (πλῆθος) perceptível e inteligível, e de tudo o que existe, de modo que, assim como a unidade principal (ἀρχή) de todo número é um, assim também tudo o que existe jorra do Um transcendente em um modo de causação, seja sendo causado naturalmente ou sendo criado.
- O número uno sensível é “μονὰς αἰσθητή”, a unidade principal “ἀρχή”, a quantidade “πλῆθος”, e o Um transcendente “μονὰς ὑπερκόσμιος”.
- O valor posicional (θέσις) do número um, porque é sensível, é ditado por sua natureza: uma vez que é a unidade principal (ἀρχή) de todo o sistema numérico, deve vir primeiro ao contar coisas sensíveis (ἡ αἴσθησις ἀριθμοῦσα). Mas no caso do Um transcendente, que está além do intelecto, o oposto é verdadeiro, pois enquanto Ele naturalmente está diante de todas as coisas como o Um, o intelecto O coloca depois de todas as coisas, porque nenhum intelecto jamais foi capaz de começar com o Um como um começo (ἀρχή) e proceder Dele para os muitos [como em uma sequência], mas, pelo contrário, começa sua ascensão a partir dos muitos e é reunido ao Um.
- Toda realidade (πάντα τὰ ὄντα) é dividida em realidades criadas sensíveis, realidades criadas inteligíveis, realidades incriadas inteligíveis e o Um incriado além do intelecto e da realidade (ὑπερούσιον), e, ao contemplá-las, o intelecto é ele próprio elevado (αἴρεται) da prática correta do recolhimento como se subisse os degraus de uma escada para o ato de contemplação, a fim de atingir a verdadeira Realidade (τὸ ὄντως Ὄν) e deleitar-se nas coisas celestiais, circundar os raios da verdade, exultar e tornar-se infinitamente rico em coisas eternas, experimentar um prazer e doçura maravilhosos, e talvez até ser arrebatado da terra através da sinergia da graça e, com o tempo, através da manifestação da luz noética, tornar-se impermeável às coisas presentes pela inspiração do Um além do intelecto e pela manifestação (φαντασία) do Um incomparavelmente além de todo bem.
- A realidade é “πάντα τὰ ὄντα”, o Um incriado além do intelecto e da realidade é “ὑπερούσιον”, a verdadeira Realidade é “τὸ ὄντως Ὄν”, e a manifestação é “φαντασία”.
- Esta escada sagrada é dividida em cinco segmentos e assim seus degraus nos conduzem ao objetivo final; não há distância espacial entre esses degraus, mas sua diferença e distância um do outro é uma ordem de qualidade ou tipo, não de grau. Por exemplo, tanto as coisas criadas sensíveis quanto as coisas criadas inteligíveis são realidades, mas estas últimas são tão superiores às primeiras quanto a beleza peculiar do intelecto é superior à sensação. Novamente, as realidades inteligíveis incriadas superam em muito as inteligíveis criadas, enquanto ambos os conjuntos pertencem à categoria “realidades” (ὄντα). No entanto, as realidades inteligíveis incriadas são dependentes (ὑποβεβήκασι) do Um incriado acima do intelecto.
- Três coisas dentro da alma exigem prática ascética (πρᾶξις): as partes racional, apetitiva e irascível; da mesma forma, três coisas fora dela: o desejo por glória, prazer e ganho (τὸ πλείον), sendo que, quando a alma considera sabiamente essas duas tríades [à luz da] vida de Cristo na carne, o intelecto é curado pela graça do Senhor Jesus através das quatro virtudes cardeais correspondentes, a saber, prudência, justiça, temperança e coragem, permitindo assim que a alma possibilite que o intelecto seja elevado sem impedimentos para perceber coisas divinas e contemplar Deus.
- A prática ascética é “πρᾶξις”, e o desejo de ganho “τὸ πλείον”.
- Quando o Senhor Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para derrotar o diabo (Mateus 4:1-11), Ele curou a parte apetitiva pelo jejum, a parte racional pela vigilância e oração silenciosa, e a parte irascível repreendendo o diabo. Em relação ao amor ao prazer, Ele passou fome e não procurou que as pedras se transformassem em pão, como o diabo sugeriu; em relação ao amor à glória, Ele se recusou a lançar-se do pináculo do Templo para ser glorificado pelas multidões por não sofrer nada com a queda; em relação ao amor ao dinheiro, Ele não pôde ser persuadido a adorar o diabo com a promessa de receber a riqueza de todos os reinos, mas com contradição espirituosa (θυμοειδής) repreendeu Satanás; Ele fez isso por meio da prudência, justiça, temperança e coragem, ensinando-nos assim como frustrar todos os ataques do diabo.
- Quando o intelecto ascendeu ao reino da Ocultação divina (ἀποκρυφιότης), ele naturalmente permanece em silêncio, unificado em simplicidade e, portanto, singularmente iluminado pelo Um além do intelecto pela participação no Espírito, pois o que ele teria para dizer, depois de ter ido além de sua própria inteligência (νοερότης), e ser levado para fora de todo pensamento (νόημα), e despojado para estar além da intelecção?
- A Ocultação divina é “ἀποκρυφιότης”, a inteligência “νοερότης”, e o pensamento “νόημα”.
- Se ele ainda tem qualquer fala (λόγος) para expressar, é claro que ele também pensa (νοεῖν), uma vez que toda fala (λόγος) segue o pensamento (νόημα); e se ele pensa em algo, como é que ele está no reino da Ocultação? Pois não é propriamente “oculto” aquilo que, embora não visto por mais ninguém, ainda pode ser visto pelo próprio intelecto; pois, de outra forma, muitas coisas poderiam ser chamadas de ocultas, uma vez que tantas, ou mesmo, eu diria, todas as coisas que o intelecto vê, ele vê de uma maneira desconhecida por outros (μὴ γινώσκοντος ἑτέρου), o que seria absurdo.
- Se palavras e razões (λόγοι) naturalmente fazem o intelecto proceder e progredir, então elas devem eventualmente elevá-lo a um ponto que a fala não pode alcançar, isto é, a uma realidade que se cumpre no silêncio, pois se as palavras fossem uma característica permanente do intelecto, e a alma devesse sempre confiar nelas, então, por minha parte, não vejo que progresso o intelecto poderia ter além do raciocínio, pois o raciocínio não é apenas benéfico para a prática, mas também igualmente útil para a contemplação; no entanto, quando o intelecto ascende de palavras na forma de realidades (λόγοι ἐν σχήματι τῶν ὄντων) até àquilo que é totalmente sem forma além da fala (ὑπὲρ λόγον) e absoluta e propriamente Um, nesse ponto todas as palavras parecem supérfluas, ou até se tornam obstáculos, para dizer com mais precisão.
- Palavras e razões são “λόγοι”, e palavras na forma de realidades são “λόγοι ἐν σχήματι τῶν ὄντων”.
- Palavras e razões geralmente consistem em transições (μετάβασις) de um pensamento (νόημα) para outro, mas como poderia o simples e absoluto e ilimitado e sem figura, que é inteira e propriamente Um e está além da fala, precisar de palavras? O que ele precisaria para fazer a transição? Ou como poderia ser definido? Pois a fala tem o costume de definir coisas de maneira específica, mas o Um é indefinível, sendo ilimitado e sem forma. Se a fala não é adequada ao Um oculto além do intelecto, uma vez que Ele é indefinível e sem forma, então o que é adequado a Ele é o silêncio.
- Se palavras e razões (λόγοι) se referem a coisas que são conhecidas, e o Oculto é desconhecido, então o Oculto está além da palavra e da razão, pois se o não-saber do Oculto é superior a todo conhecimento, e aquilo que é superior ao conhecimento não tem necessidade de conhecimento, muito menos de fala, de modo que o intelecto que ascendeu ao Um absoluto oculto naturalmente observa o silêncio (σιωπὴν ἀσκεῖ), e se não cai em silêncio natural e sem esforço, então ainda não alcançou o Um oculto e sumamente simples em sua ascensão.
- A ação de observar o silêncio é “σιωπὴν ἀσκεῖ”.
- Assim como os hesicastas (ἡσυχίαν ἀσκοῦντες ἄνθρωποι) às vezes se afastam de sua cela e conhecem pela experiência a grande diferença entre permanecer sentado em quietude e estar fora e sobre, da mesma forma aqueles que experimentaram (πάσχειν) o silêncio e depois retomaram a fala, isto é, aqueles que se devotam na contemplação à glória de Deus, reconhecem em que estado estão quando o silêncio vem sobre eles por natureza, mas não por sua própria volição (φύσει, οὐ προαιρέσει), e em que estado estão quando estão dispostos a falar; de fato, quando o silêncio vem sobre eles, desejam nunca ter aberto suas bocas e rezam para que possam permanecer continuamente naquele estado.
- Hesicastas são “ἡσυχίαν ἀσκοῦντες ἄνθρωποι”, e a vinda do silêncio por natureza, não por volição, é “φύσει, οὐ προαιρέσει”.
- Então, como outros anjos postos sobre a terra, eles estão unidos à verdade de maneira unificada, sem forma, sem visão, sem figura e simples, por olhares imóveis do intelecto, possuindo em si mesmos apenas espanto e admiração, sem saber nada por intelecção, mas simplesmente lançando seu olhar sem visão sobre as iluminações divinas sem começo. Mas quando o intelecto desceu daquele estado através de sua mutabilidade inerente, eles retornam à fala e ao discurso inteligível por meio de muitas e variadas discursões; e para trazer de volta o estado de silêncio, uma vez que é vastamente superior à fala, eles abraçam a quietude e guardam os sentidos das coisas sensíveis e empregam qualquer meio para evitar falar e até mesmo a intelecção.
- O Divino não é inteiramente manifesto (ἐκπεφασμένος) nem novamente inteiramente oculto; pois o fato de que Ele existe é tornado claro e até bastante óbvio, mas quanto ao que Ele é, isso está oculto, havendo uma vasta diferença entre saber o que Deus é e saber que Ele é; pois o último é mostrado pela energia de Deus, enquanto o primeiro se refere à Sua essência, que nem mesmo os anjos diante de Deus poderiam esperar conhecer, pois Deus é infinitamente infinito vezes além de toda existência, todo intelecto e toda intelecção.
- A manifestação de Deus é “ἐκπεφασμένος”.
- Portanto, quando o intelecto apreende as coisas que demonstram a existência de Deus, ele tem muitas coisas excelentes sobre as quais falar (λέγω) e filosofar, podendo então ser dito tanto um filósofo quanto um teólogo (θεολόγος). Mas quando o intelecto se eleva e ascende além do fato da existência de Deus, é envolvido na Ocultação divina e recebe a energia da manifestação (φαντασία) do que Deus é, tornando-se assim totalmente sem forma e intangível e sem visão, então toda palavra que falaria de Deus é fútil, e o intelecto chega ao repouso na unidade, imerso no inconcebível.
- Deus é chamado Um não apenas porque é simples e exaltado acima de toda composição, mas também porque Ele sozinho é propriamente aquele que É (Êxodo 3:14) entre todas as coisas que se diz que “são” (precisamente porque têm seu ser Dele), pois o que não “existe” no sentido próprio e absoluto não pode ser “um” no sentido próprio e absoluto tampouco, e porque Ele está em toda parte sem ser englobado pelo espaço, e é sozinho dissimilar a todas as coisas, e não adulterado por nenhuma outra coisa (καθαρῶς πάντων ἐκτός); e porque Ele é eterno, não tendo começo nem fim; e porque Ele brilha a radiância divina de Sua providência sobre todas as coisas igualmente sem ser manchado por elas (ἀχράντως) (embora nem todos os seres a recebam da mesma maneira); e, além disso, porque Ele Se faz conhecido a todos sem ser condicionado por eles (ἀσχέτως).
- A não-adulteração é “καθαρῶς πάντων ἐκτός”, a não-mancha “ἀχράντως”, e o não-ser condicionado “ἀσχέτως”.
- Isso requer que o intelecto seja invariado, sem forma, sem figura, incolor, intocado por todas as realidades e totalmente livre em ilimitabilidade sem limites, e que ascenda além do tempo, espaço, natureza e tudo o que pertence à natureza para contemplá-Lo de alguma forma, na unidade além da união noética.
- Visto que a conexão espiritual (συναφή) entre Deus e o intelecto transcende a intelecção, é por isso que se diz que o intelecto está além de sua própria natureza neste momento, ao receber livremente a manifestação (φανταζόμενος) do Um oculto sobrenatural através da percepção noética (αἰσθήσει νοερᾷ), mas, no entanto, o que o intelecto experimenta (πάσχειν) está de acordo com sua natureza, que foi purificada pela graça, pois a intelecção é para o intelecto o que ver é para o olho.
- A conexão espiritual é “συναφή”, a manifestação “φανταζόμενος”, e a percepção noética “αἰσθήσει νοερᾷ”.
- Assim, aquele que abre seus olhos na escuridão não vê nada, mas no entanto vê aquela escuridão como uma (ἕν), e pode ver que não vê, enquanto se tivesse seus olhos cobertos, poderia assumir que estava cercado de luz e outros objetos. Mas com seus olhos bem abertos, ele vê claramente que não vê. Agora, a capacidade da faculdade visual de penetrar na escuridão e ver coisas ocultas está além da natureza do olho, mas não sua capacidade de ver que não vê.
- A intelecção é a natureza do intelecto, e a intelecção consiste de movimento e discursão, mas quando o intelecto chegou a Deus, ele transcendeu a intelecção e o movimento, e poderia razoavelmente ser dito que o intelecto vai além de sua natureza quando recebe a manifestação absoluta (φανταζόμενος) de Deus, pois é claro que todo conhecimento surge naturalmente de uma coisa ou realidade particular (ἐκ πράγματος), e onde nenhuma realidade pode ser contemplada, tampouco pode qualquer conhecimento vir a ser ou existir.
- A manifestação absoluta é “φανταζόμενος”, e a realidade particular “ἐκ πράγματος”.
- Uma vez que Deus não pode de maneira alguma ser visto como Ele realmente É (πραγματικῶς), Ele naturalmente Se manifesta ao intelecto a partir das realidades que O cercam, isto é, as [energias] pelas quais Ele age, que possuem uma esfera de poder que logicamente procede de uma fonte de poder (δυνατόν). Então, porque, em respeito a tudo o mais, o intelecto está acostumado a perceber (θεωρεῖν) poderes simultaneamente com [suas correspondentes] fontes de poder, ele também busca experimentar (πάσχειν) o mesmo com respeito a Deus. No entanto, sendo completamente incapaz disso na medida em que transcende a natureza de todo intelecto criado, ele contempla as realidades ao redor de Deus e recebe Sua manifestação além da visão, como dissemos, em percepção simples e imediata (ἁπλῆ καὶ ἀθρόα ἐπιβολή).
- Tudo o que é chamado de “oculto” deve possuir algo manifesto pelo qual se possa ter uma noção do que está oculto; caso contrário, seria quase idêntico ao não-ser, pois aquilo que não dá absolutamente nenhum indício reconhecível de sua existência poderia ser considerado equivalente àquilo que é completamente inexistente, de modo que, juntamente com a ocultação de Deus, também devem existir certos sinais manifestos, e, à medida que o intelecto segue essas pistas, por assim dizer, ele adquire uma noção (δέχεται αἴσθησιν) da Ocultação Divina e segue a cognoscibilidade de Deus até Sua incompreensibilidade.
- A ação de adquirir uma noção é “δέχεται αἴσθησιν”.
- Quando atinge este estado, ele sabe com certeza que existe Algo que escapa à sua compreensão natural e que, sendo Sobrenatural, está além de qualquer tipo de compreensão noética, mesmo angélica. E embora Ele seja a causa e o princípio e o fim de toda natureza e essência e toda realidade, Ele mesmo está além da natureza e da essência, habitando infinitamente mais alto do que toda existência, sendo ingênito, sem começo, ilimitado e absolutamente incircunscritível em termos de natureza, espaço e tempo. Este é o Um oculto acima do intelecto.
- À medida que o intelecto lança seu olhar sem visão (ἐπιβάλλειν) sobre a Ocultação sumamente divina, única, transcendentemente principal (ὑπεραρχικός) e suprema, uma recepção (παραδοχή) vem ao intelecto a partir Dela — também sem visão, unificada e única, cheia de esplendor extremamente belo, radiante e inefável, e sobrecarrega o intelecto com admiração e espanto em silêncio, após ter prepossuído o coração com energia espiritual e doce alegria.
- O olhar sem visão é “ἐπιβάλλειν”, a recepção “παραδοχή”, e o transcendentemente principal “ὑπεραρχικός”.
- Esta recepção torna-se para o intelecto iluminação noética, esclarecimento e, subsequentemente, eros divino e alegria radiante, pois deve sua causa a Deus, de quem vem todo bom dom (Tiago 1:17), desde que o intelecto seja puro; deriva seu material, por assim dizer, das várias manifestações divinas das Escrituras e realidades (ὄντα), desde que sejam contempladas com prudência e retidão, em quietude e em oração.
- A contemplação mais resplandecente, unificada e única do intelecto sobre Deus, que discerne tanto a Ocultação divina unificadora quanto o esplendor que brilha a partir Dela, e se tornou receptiva (παραδεδεγμένη) ao eflúvio divino da radiância incriada e infinita, requer não apenas o silêncio da boca, mas também o silêncio do intelecto, pois é possível, enquanto se mantém a boca silenciosa, que o intelecto delibere (διατίθεσθαι) interiormente, progrida em cogitações e intelecções e seja alterado por elas, sendo esta uma função do discurso interno; mas distante deste estado está o intelecto que voou alto para a Ocultação sumamente simples e sem forma (ἀτύπωτος) da Unidade divina.
- A receptividade é “παραδεδεγμένη”, a deliberação interior “διατίθεσθαι”, e o sem forma “ἀτύπωτος”.
- O poder contemplativo (θεωρεῖν) do intelecto é uma coisa, enquanto seu poder de raciocinar e pensar (διανοεῖσθαι) discursivamente, que pertence ao discurso interno, é outra. Portanto, quando o intelecto se aproxima de coisas criadas e compostas, ou de outra forma variadas, ele primeiro percebe, e depois pensa e se torna variado ele mesmo, a ponto de frequentemente encontrar muitos pensamentos para uma única e mesma coisa. Mas naquela Ocultação divina única e uniforme e íntima, ele levanta e abre seu olho contemplativo e capta os raios da simplicidade da radiância divina, embora seja de nenhuma maneira capaz de processá-los discursivamente e com deliberação pensativa.
- Quando a direção do intelecto está totalmente voltada para Deus, e seu poder contemplativo anseia pelos raios deslumbrantes da beleza divina, e ele se eleva sem forma para a simplicidade e ilimitabilidade do Um oculto e sem forma, tornando-se até mesmo um consigo mesmo através de sua ascensão e olhar para o Um pela inspiração do Espírito, então ele certamente atinge aquele espírito verdadeiramente infantil, recebendo um gostinho da realidade inefável e sobrenatural do Reino de Deus segundo a palavra do Senhor: “Se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 18:3), pois então o intelecto se torna livre e totalmente incondicionado (ἄσχετος) por qualquer coisa, tendo voado além dos limites implícitos em todo conhecimento, em toda maneira de intelecção e em toda composição e variação, e ascende ao Inefável e Incognoscível além do intelecto.
- A condição de incondicionado é “ἄσχετος”.
- Portanto, ele naturalmente mantém silêncio neste estado, que não está apenas além da fala, mas também além da energia noética, pelo que ele atinge, além do oculto e sem forma, também aquilo que é sobrenatural, amável e prazeroso para o gozo noético.
- Os contemplativos contemplam Deus como o Um unificado em Sua forma sem forma, Sua beleza imaterial, incomposta que ultrapassa em muito a natureza, e Seu semblante sumamente simples: grinaldado com bens infinitos, resplandecente com inúmeras belezas, brilhando raios luminosos de beleza para todo intelecto; uma riqueza inefável e indescritível, uma abundância generosa e infinitamente sempre fluente de coisas boas e belas, um tesouro de glória — inesgotável, insondável, infalível — preenchendo intelectos privados de visão com o mais abundante deleite, alegria e jubilação do coração, com uma alegria pura como um rio sempre fluente que brota misticamente daquela Unidade divina e sobrenatural que transcende tudo, oculta na Ocultação.
- A contemplação dos contemplativos é descrita em detalhe, incluindo referências a Salmos 31:1 e Salmos 93:12.
- Quão vasto, insondável e incircunscritível mar de bondade inefável, amor inexplicável e providência inconcebível Ele derrama em poder ilimitado e sabedoria inexprimível é algo incompreensível para os anjos, e mesmo para os Serafins, pois está estabelecido além de todo intelecto. E, de fato, até mesmo tais coisas que podemos apreender (συλλαμβάνω) presentemente pela razão sem fala (ἀρρήτῳ λόγῳ), e que na era vindoura serão restauradas (ἀποκαθίστημι) e como que entregues (ἀπογεννάω) e levadas à perfeição, essas realidades espantam os intelectos dos Querubins, e apenas um tanto obscuramente eles são capazes de aplicar suas mentes para sequer conceber tais [mistérios].
- No Espírito e na verdade são reveladas aquelas realidades que são invisíveis para aqueles que habitam no mundo, na medida em que não podem receber o Espírito Santo, como o Senhor declarou (João 14:17); mas para aqueles que valorizam o retiro espiritual e uma vida tranquila longe do mundo e das coisas mundanas, para quem a luz noética brilhou nos olhos de seus corações através da graça divina — a Alva do Sol inteligível desde o alto (Lucas 1:78; Malaquias 4:2) —, que receberam ajuda de Deus para que deliberem ascensões em seus corações (Salmos 83:6), e são irradiados pelas iluminações da visão divina (θεοπτικαῖς), como é natural: para estes essas realidades se tornam visíveis e são vistas com bastante clareza, juntamente com tantas outras realidades divinas e inteligíveis e coisas dignas de visão espiritual, até mesmo a futura restauração eterna e inabalável daqueles que viveram piedosamente, como será não apenas acima dos sentidos, mas até mesmo além do intelecto.
- A visão divina é “θεοπτικαῖς”.
- Os [justos] serão completamente mudados, tendo atingido totalmente o estado além do intelecto, bem como a vida e o deleite que transcendem toda concepção, e, assim como deuses adotivos e postos diante d’Aquele que é Deus por natureza, eles se deleitarão e se alegrarão em bênçãos além da natureza, que jorram do Deus Último e Único por natureza.
- Depois que o intelecto se despediu dos intervalos e extensões do tempo e do espaço, bem como das propriedades que definem as naturezas das coisas, e as ultrapassou, então ele é verdadeiramente despojado à simplicidade unificada e a uma vida simples sem artifício, e sem qualquer tela ou cobertura, ascende sobrenaturalmente a um estado inconcebível e inefável, sem começo e sem limites, através de um poder divino e iluminação do coração produzida pelo Espírito, e essa iluminação parece co-estender-se ao infinito juntamente com a contemplação do intelecto.
- Nesse momento, a paz de Deus amanhece na alma desde o alto, e a alegria inefável e a jubilação inexprimível do Espírito Santo se derramam nela, e o êxtase além do conhecimento sobrepuja a alma enquanto ela canta humildemente: “Não somente o Deus dos deuses será visto, mas de fato já é visto, em Sião” (Salmos 83:8), isto é, dentro do intelecto que viajou celestialmente e olhou para o alto; “Ó Senhor, Deus dos exércitos, bem-aventurado o homem que espera em ti” (Salmos 83:13).
- Quando o intelecto permanece iluminado em êxtases inconcebíveis e inexprimíveis e se vê no meio da presença de Deus e das coisas de Deus, então ele come, se assim posso dizer, os verdadeiros frutos do conhecimento espiritual, e é divinizado e se alegra e aumenta no eros divino, não dizendo absolutamente nada, nem expressando qualquer disposição interior ou exterior, nem novamente pensa, mas antes vê noeticamente e simplesmente na luz do Espírito e da verdade , e salvaguarda as coisas que vê para delas se deleitar constantemente.
- As ações do intelecto neste estado incluem comer os frutos do conhecimento espiritual, ser divinizado, alegrar-se e aumentar no eros divino, sem falar, expressar disposições ou pensar.
- Quando o semblante do intelecto está voltado dentro do coração e vê a iluminação do Espírito brotando interminavelmente dele, então é verdadeiramente um tempo de se calar (Ecle 3,7), e quando toda a fisionomia noética do intelecto vê Deus, ou melhor, quando todo o intelecto é encontrado dentro de Deus, ou, dito de outra maneira, quando Deus é encontrado dentro de todo o intelecto, isto é, certamente, ainda mais, o tempo de se calar (Ecle 3,7).
- A citação bíblica é Eclesiastes 3:7.
- Quando, pela participação no Espírito, o intelecto de fato (κατὰ τὰ γινόμενα) está diante de Deus em contemplação e desfruta devidamente da glória e do esplendor da presença de Deus, ele deve, muito naturalmente, silenciar-se para contemplar em quietude e sem distração (ἀπερικτυπήτως), mas se alguma escuridão nevoenta (ἀχλυώδης) alguma vez se intrometer entre o intelecto e Deus, o intelecto [deve] imediatamente lançar um fogo luminoso e incandescente, por assim dizer, na causa exata (λόγον) dessa escuridão por meio de uma palavra adequada (πεφυκότι λόγ) — uma palavra breve (βραχύλεκτον) mas infundida com luz divina.
- O estado “de fato” é “κατὰ τὰ γινόμενα”, sem distração é “ἀπερικτυπήτως”, escuridão nevoenta é “ἀχλυώδης”, a causa exata “λόγον”, a palavra adequada “πεφυκότι λόγῳ”, e a palavra breve “βραχύλεκτον”.
- Dessa forma, após extinguir rapidamente a escuridão e a névoa por meio da luz e do calor, e assim iluminando e aquecendo o intelecto pelos mesmos meios, ele pode retornar à presença de Deus como antes, contemplar Sua beleza, deleitar-se naturalmente Nele e ser embelezado por Ele. Em suma, ele pode ‘padecer’ as experiências da percepção noética através da recepção (πάσχειν […] τὰ κατὰ νοερὰν ἐπιβολὴν διὰ παραδοχῆς) do Espírito Vivificante de Deus, e pode ser ainda mais simplificado e liberado de todas as coisas por Deus em Espírito e verdade , e até mesmo ir além das realidades ao redor de Deus.
- Quando o intelecto, iluminado por cada raio que emana do Espírito, fica maravilhado e deslumbrado e percebe a si mesmo sendo estendido e alterado no infinito e no ilimitado, então é um tempo de se calar (Ecle 3,7); quando, no entanto, ele se sente um tanto cansado dessas visões deslumbrantes e deseja partir deste estado para relaxar da intensidade e ter algum descanso, então é naturalmente um tempo de falar (Ecle 3,7), mas apenas com moderação (βραχύλεκτα) e de acordo com a iluminação divina.
- Falar com moderação é “βραχύλεκτα”.
- Quando o intelecto passou pelo meio do mar e escapou do Faraó noético, passando suas noites na luz do fogo e seus dias sob a sombra da nuvem (Êxodo 13:21), então certamente chegou o tempo para o silêncio e a quietude e o verdadeiro começo da purificação da alma, mas quando o terrível Amaleque noético e as nações que o seguem o resistem, bloqueando sua passagem para a Terra Prometida, então é um tempo apropriado para falar (Ecle 3,7), mas a Deus [em oração], apoiado de um lado pela prática noética e de outro pela verdadeira contemplação, assim como Moisés antigamente, cujos braços foram sustentados por Aarão e Hur (Êxodo 17:12).
- A citação bíblica é Êxodo 17,12.
- Quando, das profundezas insondáveis da fonte da contemplação divina e noética, o poder espiritual jorra rompendo do coração, então naturalmente chegou o tempo de se calar , pois então o intelecto, sem palavras, conduz a adoração e a veneração de Deus em Espírito e em verdade (João 4:24), e isso ele faz através da verdadeira percepção noética, e quando, olhando noeticamente para Deus, a parte racional da alma está completamente cheia de êxtase divino, a parte noética de visão, e toda a alma de regozijo, então é indubitavelmente um tempo de se calar , pois então, pelo Espírito e na sutileza da percepção, o intelecto pode contemplar em concentração (συνεπτυγμένος) a verdade e glorificar em adoração o Deus que brilha dentro dele.
- A concentração é “συνεπτυγμένος”.
- Aqueles que adoram a Deus propriamente em Espírito e em verdade (João 4:24) e O veneram corretamente não O adoram e veneram apenas fora do espaço (οὐκ ἐν τόπῳ), mas também não menos fora do discurso falado, pois assim como o sentido noético que é elevado em retidão reverente não tem desejo de adorar o Incircunscritível no espaço, já que Ele não tem lugar de repouso (Isaías 66:1), da mesma forma, quando permanece unido à verdade, como deve, o infinito, ilimitado, incriado, sem forma e perfeitamente simples e, em suma, Aquele que está além do intelecto, o sentido noético dificilmente está acostumado a tolerar a adoração e veneração que consistem meramente de uma variedade de palavras e expressões fixas.
- Adorar fora do espaço é “οὐκ ἐν τόπῳ”.
- Pois quando chega o momento, pelo empoderamento e inspiração do Espírito, para o intelecto ser iluminado de maneira unificada com o conhecimento da verdade divina (cf. 1 Timóteo 2:4), neste momento o intelecto, tendo-se tornado completamente livre de todas as coisas e até mesmo ido além de si mesmo, encontra boa razão não apenas para se abster da fala, mas até mesmo da intelecção (ἀνοησίαν εὐλόγως ἀσκεῖν), pois então se engaja na contemplação de realidades superiores à palavra, à razão e ao intelecto (τὰ κρείττω καὶ λόγου καὶ νοῦ) com exultação e êxtase em luz noética, uma vez que se tornou — de alguma forma, sem qualquer artifício de sua parte — imóvel e inabalável na percepção sem visão através de uma união que transcende sua própria natureza.
- O intelecto deve prestar atenção a si mesmo com diligência e direcionar sua disposição noética com entendimento, sabedoria e julgamento, e quando se encontra contemplando os mistérios simples e não-simbólicos (ἀτύπωτα) da teologia, ele deve permanecer em quietude e silêncio, nem deixando de se maravilhar nem ignorando a energia e a iluminação do Espírito em seu coração, pois então não é apenas um tempo para manter os sentidos completamente quietos de todas as coisas sensíveis, mas também não menos um tempo de silêncio de todo tipo de fala discursiva (διεξοδεύων λόγος).
- Os mistérios não-simbólicos são “ἀτύπωτα”, e a fala discursiva é “διεξοδεύων λόγος”.
- E ainda mais para aqueles devotados ao conhecimento (γνωστικοί), se assim posso dizer, este é um tempo para praticar a quietude noética e a arte do não-ver, isto é, deve-se treinar para adquirir imobilidade nos sentidos, na fala e no raciocínio, nos pensamentos e percepções, para que o intelecto possa diretamente — e, se necessário, em completo isolamento — e livre e verdadeiramente contemplar o infinito, incriado e incircunscritível na visão unificada e única do Deus Trino Único e Sozinho, bem como todas as outras [propriedades] divinas e imutáveis e absolutas, e ser unido a elas, tendo-se tornado transfigurado (συνηλλοιωμένος) pela contemplação, simples e totalmente deiforme pela graça divina com todo deleite e admiração.
- Quando o intelecto, por experimentar (προσπάσχειν) a revelação divina unificada através da visão noética, é transfigurado (ἀλλοιοῦσθαι) e iluminado pelo Desconhecido além de todo conhecimento, e se torna indivisível, simples e ilimitado como se singularmente deslumbrado pela escuridão divina , e contempla a Beleza indescritível em Sua extrema simplicidade, Sem Forma em Sua superioridade a toda forma, Incriado (ἄναρχον) em Sua transcendência de qualquer princípio originador (ἀρχή) que seja, Ele mesmo Incompreensível enquanto engloba em Si mesmo os limites e a compreensão de todas as coisas, preenchendo todas as coisas como o Super-Abundante, sendo ao mesmo tempo Infinito em Si mesmo; e, em suma, quando o intelecto vê além (ὑπεροψία) de todas as realidades através da visão sagrada (ἐποψία) do Um, e vê (ὄψηται) tudo com um poder inefável de inteligência além da intelecção, então é um tempo de se calar (Ecle 3,7), tanto mística quanto transcendentemente, ou, eu diria, deleitando-se sem visão ou fala no gozo único da verdade de uma maneira ainda mais divina de iniciação.
- Experimentar é “προσπάσχειν”, ser transfigurado é “ἀλλοιοῦσθαι”, sem princípio é “ἄναρχον”, ver além é “ὑπεροψία”, a visão sagrada é “ἐποψία”, e ver é “ὄψηται”.
- No entanto, quando essas realidades estão ausentes do intelecto e a divisão aparece ao seu redor, então é um tempo de falar (Ecle 3,7); mas que se digam coisas dignas de conduzir (ἀναγωγή) o intelecto de volta ao silêncio. Pois muito superior a toda palavra racional (λόγος) é aquele silêncio além da razão (ὑπὲρ λόγον) que poderia muito razoavelmente ser chamado de “silêncio oportuno” (ἔγκαιρος σιγή), uma vez que Salomão, que o preferiu acima de tudo, diz primeiro: “Há um tempo de se calar”, e depois, “um tempo de falar” (Ecle 3,7).
- Quando o intelecto, tendo passado pelas coisas aqui embaixo e ascendido além delas, abraça alegremente o silêncio de maneira natural, então é um tempo de deleitar-se em coisas transcendentes e inefáveis; é um tempo de iluminação e luz noética, de união do intelecto e da contemplação, de simplicidade, de ilimitabilidade e infinitude e conhecimento sumamente radiante (ὑπερφαής), e, para resumir, um tempo para tomar (ἀντίληψις) e participar (μετάληψις) da sabedoria espiritual, pela qual o intelecto é aperfeiçoado em quietude (σχολή) e silêncio, uma vez que recebeu alegria inexprimível em êxtase.
- Sumamente radiante é “ὑπερφαής”, tomar é “ἀντίληψις”, participar é “μετάληψις”, e a quietude é “σχολή”.
- Quando a alma percebe, através de sua percepção da verdade, que ficou embriagada do cálice da graça, como do mais fino vinho (Salmos 22:5), e até mesmo saiu de seu juízo (ἔκνουν), então é certamente um tempo de se calar , e quando a disposição do homem interior deseja clamar em alta voz: “Senhor, por que se multiplicaram os que me afligem? Muitos se levantam contra mim” (Salmos 3:2), então é um tempo de falar ; não, certamente, para falar palavras vãs, mas para falar contra os inimigos moderadamente e adequadamente, conforme a ocasião exigir, e quando a luz do rosto do Senhor foi assinalada sobre a alma (Salmos 4:7) de modo que ela é embelezada e irradiada por ela e imersa na alegria divina, então é de fato um tempo de se calar , e quando a alma vê testemunhas injustas se levantarem contra ela , acusando-a de coisas que ela não sabe (Salmos 34:11) e a colocando em tumulto, então é verdadeiramente um tempo de falar e até mesmo de responder em oposição.
- Fora do juízo é “ἔκνουν”.
- Deus é o Supremo e, pode-se dizer, o Último, ou de outra forma a Mais Alta Beleza e Bem sobre todas as coisas existentes (ὄντα) e realidades inteligíveis (νοούμενα), e entre todas as coisas visíveis o ser humano por natureza tem a melhor natureza de longe e é sem dúvida incomparavelmente maior do que todas elas; no entanto, pela graça, o homem é ainda superior aos anjos, de modo que, à medida que o intelecto contemplativo se aproxima do Um além da concepção no meio da vasta multidão de realidades entre Deus e os homens, ele simplesmente permanece em espanto até experimentar plenamente a graça da iluminação; mas uma vez que a saboreou através do poder espiritual ativo (ἐνεργής) no coração, ouso dizer que ele então ascende a Deus, a Beleza e o Bem Últimos, e entra Nele através de um dom ainda mais divino (κατὰ δωρεὰν θειοτέραν), vendo em unidade e êxtase, habitando (αὐλιζόμενος) silenciosamente na profundidade além do intelecto.
- O poder ativo é “ἐνεργής”, o dom mais divino “κατὰ δωρεὰν θειοτέραν”, e o habitar “αὐλιζόμενος”.
- Esta é verdadeiramente a garantia, como se poderia chamá-la, do primeiro repouso sabático, cujo tipo é o repouso sabático de Deus após a criação de todas as coisas (Gênesis 2:2-3). Outro repouso sabático, que a Escritura inerrantemente proclama como um repouso sabático que permanece para o povo de Deus (Hebreus 4:9) — um repouso maior de outro tipo — é aquele que o homem desfruta quando se voltou de Deus para si mesmo e se conheceu como imagem do Protótipo, e de fato todas as qualidades existentes entre Deus e os homens.
- Quando o intelecto realiza a negação (ἀπόφασις) de todas as coisas criadas como se não existissem (ὡς μὴ ὄντα), ele então recebe, contemplando em verdade e em Espírito , a inefável manifestação Daquilo que Verdadeiramente É (τὸ ὄντως ὄν) além da energia e união noéticas, infinitamente superior a todo tipo de contemplação divina sobre realidades existentes (περὶ τὰ ὄντα), e então o intelecto se torna unificado, ou mesmo, por assim dizer, “um”, e é inefavelmente vencido pela ausência de fala; torna-se cheio de amor e alegria, e não de modo comum, mas o amor e a alegria que vêm da energia do Espírito, um deleite próprio dos anjos.
- A negação é “ἀπόφασις”, as realidades existentes são “περὶ τὰ ὄντα”, e a manifestação Daquilo que Verdadeiramente É é “τὸ ὄντως ὄν”.
- Assim como não podes ser apreendido (ληπτός) segundo a Tua essência por ninguém de maneira alguma, ó Senhor, seja por qualquer tipo de natureza racional ou inteligente (νοερά), ou por meio de qualquer conhecimento criado, nem mesmo o dos querubins, mas Tu estás infinitas vezes infinitamente mais alto do que todo conhecimento, assim também os Teus atributos (καὶ τὰ περὶ σέ), ó Soberano, são totalmente infinitos e ilimitados, no entanto, em Teu cuidado insuperável por nós, ordenaste ao legislador do Antigo Testamento Moisés que proclamasse o fato de que Tu És (ὤν) e que Te chamas a Si mesmo Aquele Que É (Êxodo 3:14), mas ainda assim, isto Tu disseste concernente aos Teus atributos, ó Tu que és o mais infalível e és sozinho a verdade última, porque Tu apareces por meio deles; Teu nome, no entanto, não revelaste (Gênesis 32:29).
- Ser apreendido é “ληπτός”, a natureza inteligente é “νοερά”, os atributos “καὶ τὰ περὶ σέ”, e o fato de que Tu és “ὤν”.
- Teu nome é incomparavelmente mais alto do que todo nome (Fl 2,9), não apenas os nomes de todas as coisas na terra, mas também daquelas no céu. Além disso, aqueles que foram cheios da Tua luz Te descrevem como “Essência”, mas isso eles fazem sem predicar uma substância subjacente (ἐνυποκειμένου χωρίς), para que possam assim mostrar que Tu estás além do ser e da essência; eles também Te descrevem como “Intelecto” (νόησις), mas inteiramente sem qualquer substância subjacente (τι ὑποκείμενον), para que possas ser claramente conhecido como estando acima do intelecto, bem como infinitamente incognoscível e superior a tudo o que pode ser conhecido.
- Quando o intelecto cessa de entreter muitos pensamentos (πολύνοια) por desistir (ἀποπείθεσθαι) de diferenciações e conceitos fragmentados, ele vai além da dispersão mental pela inspiração e participação do Espírito Santo, que o une e constantemente refresca o coração com uma brisa sempre fluente (ἀείβλυτα πνέοντος); e quando o intelecto ama habitar continuamente em lugares divinos e imbuiu, por assim dizer, manifestações concernentes a Deus, de modo que pela simples introspecção noética possa ver o reflexo de todas as realidades ao redor de Deus em unidade (τὰ ἡλίκα, ὅσα περὶ Θεὸν ἑνοειδῶς) com inefável eros divino, então ele claramente atingiu o repouso divino e chegou ao gozo de uma profunda paz divina e um repouso do coração extremamente santo e tranquilo, em Cristo Jesus nosso Senhor.
- Muitos pensamentos é “πολύνοια”, desistir é “ἀποπείθεσθαι”, e a brisa sempre fluente é “ἀείβλυτα πνέοντος”.
- Quando o intelecto conversa com Deus em oração, como um filho com um pai totalmente afetuoso em disposição, e sente um deleite inexprimível ao ver a luz de Jesus, e torna-se totalmente extático ao sentir manifestamente o eros divino e a energia sobrenatural do Espírito Santo no coração, e deseja voar ainda além das revelações e perfeições divinas em um voo místico além do mundo, nesse ponto ele verdadeiramente descansa de todas as suas obras (cf. Gênesis 2:3), isto é, indo além da intelecção após se envolver na intelecção (ὑπὲρ τὸ νοεῖν μετὰ τὸ νοεῖν), e experimenta um prazer maravilhoso (ἡδυπαθεῖν), e verdadeiramente repousa na paz do Espírito Vivificante de Cristo.
- O prazer maravilhoso é “ἡδυπαθεῖν”.
- Deus descansou de todas as obras que começara a fazer (Gênesis 2:3), isto é, após ter completado a criação em Palavra e Espírito. De maneira semelhante, o intelecto semelhante a Deus (θεοείκελος) descansa de todas as obras que começara a fazer desde o início para completar o mundo inteligível da virtude, mas ele faz isso após ter primeiro examinado e, por assim dizer, continuamente trabalhado todo o mundo novamente juntamente com as realidades inteligíveis dentro dele (ἐπεξεργάζεσθαι) através da Palavra de Deus e do Espírito Vivificante, e ter ascendido destas — novamente na Palavra e no Espírito — ao que alguns chamaram de realidades “metafísicas”, e perscrutar as visões místicas simples e absolutas da teologia, pois então, neste descanso das obras, o intelecto desfruta do máximo repouso e paz na verdade noética, e é até mesmo deificado na luz do conhecimento e participação no Espírito Vivificante, em Cristo Jesus, nosso Senhor.
- Intelecto semelhante a Deus é “θεοείκελος”, e a ação de trabalhar continuamente é “ἐπεξεργάζεσθαι”.
- Quando Deus descansou de todas as Suas obras , Ele não descansou de absolutamente todas elas, mas apenas daquelas obras que começara a criar (Gênesis 2:3); pois Ele não cessou das obras que são sem começo, incriadas e em um certo modo naturais a Ele. Da mesma forma, o intelecto que imita Deus, tendo passado e ido além da criação visível pela graça da Divina Palavra e do Espírito Vivificante, não pode possivelmente descansar de todas as obras naturais a ele, que não têm começo nem fim, mas cessa das obras visíveis, que têm tanto começo quanto fim.
- O intelecto não atinge o repouso a menos que atinja o movimento perpétuo (ἀεικίνητος) através da constante inspiração vivificante do Espírito ao voltar seu olhar cognoscente para além das coisas visíveis, caso contrário, nunca perceberá que existe um repouso noético que se move perpetuamente ao redor de Deus somente em unidade e deifica aquele que dele participa com repouso inexprimível e inefável em Cristo.
- Não te apresses a proferir uma palavra diante do rosto do Senhor, diz Salomão, pois Deus está no céu acima e tu estás na terra abaixo (Ecle 5,1), indicando-nos com tamanha clareza e precisão qual é o tempo de se calar (Ecle 3,7), pois ele diz explicitamente que quando tu, que estás na terra abaixo, vens diante do rosto do Senhor que está no céu acima e és considerado digno de tamanha graça que tu, estando abaixo, és capaz de fixar tua mente e discernir as coisas acima (Colossenses 3:2), e através da percepção noética ficar diante do rosto do Senhor, não te apresses a proferir qualquer palavra, pois então é um tempo de se calar .
- A exortação de Salomão em Eclesiastes 5:1 é citada.
- Isto é, não desejes [falar] quando teu intelecto recebe a energia da verdade de maneira unificada e deiforme (pois é isso que ‘estar diante do rosto do Senhor’ significa, quando o intelecto contempla as muitas realidades ao redor de Deus de maneira indiferenciada (μονοειδῶς), em uma percepção simples e unitária de Deus; e não te apresses a proferir uma palavra quando experimentas (πάσχειν) isso e estás diante do rosto do Senhor; caso contrário, em tua ignorância e obstinação, apressas-te a degradar e rebaixar a ti mesmo.
- Toda a natureza humana de outrora estava sem cuidado e tristeza e permanecia justamente distante de toda espécie de mal, estando perto de Deus; contemplava a Deus e desfrutava da glória da beleza de Seu rosto com alegria e espanto na pessoa de nosso antepassado Adão, em deleite imaterial, noético, celestial e incorruptível, e a graça abundante inundava a alma do primeiro homem, e seu intelecto deiforme estava imerso em contemplações de conhecimento espiritual e ascensões (γνωστικαῖς θεωρίαις καὶ ἀνατάσεσι) a Deus, e dentro do Paraíso sensível ele também desfrutava do Paraíso noético e do que eu chamaria de vida feliz e abençoada (μακαρία ζωή), estando verdadeiramente unido consigo mesmo e com Deus, permanecendo em si mesmo e até mesmo em Deus como é justo, e apegando-se a este estado unificador e verdadeiramente deiforme, e muito naturalmente, uma vez que havia sido feito segundo a imagem de Deus (Gênesis 1:26).
- As contemplações e ascensões são “γνωστικαῖς θεωρίαις καὶ ἀνατάσεσι”, e a vida feliz e abençoada é “μακαρία ζωή”.
- Estas são precisamente as coisas boas que Deus pretendeu que desfrutássemos. No entanto, para o inimigo de nossa boa herança e glória, aquele demônio vingativo, isso era insuportável, pois, atingido pela inveja, como não poderia ser? E, portanto, aquele que tudo destrói fez muito para nos enganar e dissipar nossa esperança com conselhos aparentemente justos, incitando nosso desejo para que buscássemos uma deificação mais alta do que a que já tínhamos, e o primeiro obreiro do mal difamou (διαβάλλειν) a sinceridade (τὸ εὐθές) do mandamento de Deus (Gênesis 3:4-5). Deste engano sofremos uma destruição lamentável e fomos banidos de Deus e do deleite divino (Gênesis 3:23-24).
- A Divindade Tríade além da essência está unida em concordância transcendente, pois Deus é uma Unidade Tri-hipostática, não sendo possível, portanto, que a alma imageie uma semelhança de Deus, enquanto ainda for tripartite e ainda não se tiver tornado uma consigo mesma de maneira além da natureza, sendo a alma tripartite não em respeito às suas partes racional (λογιστικόν), irascível (θυμικόν) e apetitiva (ἐπιθυμητικόν), pois propriamente falando, a alma não é “tripartite” neste aspecto, uma vez que a alma racional dificilmente tem qualquer relação com apetite e raiva — de fato, derivamos estes da parte irracional e eles surgiram como consequência [da Queda] para nossa presente vida animal, sendo inerentemente irracionais e obscurecidos, enquanto a alma é racional e sua natureza é cheia de luz noética.
- As partes da alma são denominadas “λογιστικόν”, “θυμικόν” e “ἐπιθυμητικόν”.
- Deveríamos dizer que as coisas que pertencem propriamente à alma são aqueles atributos sem os quais ela não pode realizar sua própria energia e atividade natural, mas ela certamente pode agir apartada da raiva e do desejo; e é precisamente quando age sem eles que ela está verdadeiramente ativa, não sendo, portanto, estas verdadeiras partes da alma, mas, como foi dito, poderes do estado animal inferior e subsistem ao lado dele, pois a alma racional que examina noeticamente as coisas superiores e contempla realidades inteligíveis e se eleva além de si mesma e, eu diria, voa alto a tal altura, rejeita o desejo e a raiva como conversa fiada, não tendo utilidade para eles onde tem simplicidade, o sem forma, o sem figura, o incolor, o informe e todas as outras qualidades que pressupõem um intelecto livre e totalmente simples.
- O número uno sensível (μονὰς αἰσθητή) é a unidade principal (ἀρχή) de toda quantidade numérica (πλῆθος), e o Um transcendente (μονὰς ὑπερκόσμιος) é o princípio (ἀρχή) de toda quantidade (πλῆθος) perceptível e inteligível, e de tudo o que existe, de modo que, assim como a unidade principal (ἀρχή) de todo número é um, assim também tudo o que existe jorra do Um transcendente em um modo de causação, seja sendo causado naturalmente ou sendo criado.
- O número uno sensível é “μονὰς αἰσθητή”, a unidade principal “ἀρχή”, a quantidade “πλῆθος”, e o Um transcendente “μονὰς ὑπερκόσμιος”.
- O valor posicional (θέσις) do número um, porque é sensível, é ditado por sua natureza: uma vez que é a unidade principal (ἀρχή) de todo o sistema numérico, deve vir primeiro ao contar coisas sensíveis (ἡ αἴσθησις ἀριθμοῦσα). Mas no caso do Um transcendente, que está além do intelecto, o oposto é verdadeiro, pois enquanto Ele naturalmente está diante de todas as coisas como o Um, o intelecto O coloca depois de todas as coisas, porque nenhum intelecto jamais foi capaz de começar com o Um como um começo (ἀρχή) e proceder Dele para os muitos [como em uma sequência], mas, pelo contrário, começa sua ascensão a partir dos muitos e é reunido ao Um.
- Toda realidade (πάντα τὰ ὄντα) é dividida em realidades criadas sensíveis, realidades criadas inteligíveis, realidades incriadas inteligíveis e o Um incriado além do intelecto e da realidade (ὑπερούσιον), e, ao contemplá-las, o intelecto é ele próprio elevado (αἴρεται) da prática correta do recolhimento como se subisse os degraus de uma escada para o ato de contemplação, a fim de atingir a verdadeira Realidade (τὸ ὄντως Ὄν) e deleitar-se nas coisas celestiais, circundar os raios da verdade, exultar e tornar-se infinitamente rico em coisas eternas, experimentar um prazer e doçura maravilhosos, e talvez até ser arrebatado da terra através da sinergia da graça e, com o tempo, através da manifestação da luz noética, tornar-se impermeável às coisas presentes pela inspiração do Um além do intelecto e pela manifestação (φαντασία) do Um incomparavelmente além de todo bem.
- A realidade é “πάντα τὰ ὄντα”, o Um incriado além do intelecto e da realidade é “ὑπερούσιον”, a verdadeira Realidade é “τὸ ὄντως Ὄν”, e a manifestação é “φαντασία”.
- Esta escada sagrada é dividida em cinco segmentos e assim seus degraus nos conduzem ao objetivo final; não há distância espacial entre esses degraus, mas sua diferença e distância um do outro é uma ordem de qualidade ou tipo, não de grau. Por exemplo, tanto as coisas criadas sensíveis quanto as coisas criadas inteligíveis são realidades, mas estas últimas são tão superiores às primeiras quanto a beleza peculiar do intelecto é superior à sensação. Novamente, as realidades inteligíveis incriadas superam em muito as inteligíveis criadas, enquanto ambos os conjuntos pertencem à categoria “realidades” (ὄντα). No entanto, as realidades inteligíveis incriadas são dependentes (ὑποβεβήκασι) do Um incriado acima do intelecto.
- Três coisas dentro da alma exigem prática ascética (πρᾶξις): as partes racional, apetitiva e irascível; da mesma forma, três coisas fora dela: o desejo por glória, prazer e ganho (τὸ πλείον), sendo que, quando a alma considera sabiamente essas duas tríades [à luz da] vida de Cristo na carne, o intelecto é curado pela graça do Senhor Jesus através das quatro virtudes cardeais correspondentes, a saber, prudência, justiça, temperança e coragem, permitindo assim que a alma possibilite que o intelecto seja elevado sem impedimentos para perceber coisas divinas e contemplar Deus.
- A prática ascética é “πρᾶξις”, e o desejo de ganho “τὸ πλείον”.
- Quando o Senhor Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para derrotar o diabo (Mateus 4:1-11), Ele curou a parte apetitiva pelo jejum, a parte racional pela vigilância e oração silenciosa, e a parte irascível repreendendo o diabo. Em relação ao amor ao prazer, Ele passou fome e não procurou que as pedras se transformassem em pão, como o diabo sugeriu; em relação ao amor à glória, Ele se recusou a lançar-se do pináculo do Templo para ser glorificado pelas multidões por não sofrer nada com a queda; em relação ao amor ao dinheiro, Ele não pôde ser persuadido a adorar o diabo com a promessa de receber a riqueza de todos os reinos, mas com contradição espirituosa (θυμοειδής) repreendeu Satanás; Ele fez isso por meio da prudência, justiça, temperança e coragem, ensinando-nos assim como frustrar todos os ataques do diabo.
- Quando o intelecto ascendeu ao reino da Ocultação divina (ἀποκρυφιότης), ele naturalmente permanece em silêncio, unificado em simplicidade e, portanto, singularmente iluminado pelo Um além do intelecto pela participação no Espírito, pois o que ele teria para dizer, depois de ter ido além de sua própria inteligência (νοερότης), e ser levado para fora de todo pensamento (νόημα), e despojado para estar além da intelecção?
- A Ocultação divina é “ἀποκρυφιότης”, a inteligência “νοερότης”, e o pensamento “νόημα”.
- Se ele ainda tem qualquer fala (λόγος) para expressar, é claro que ele também pensa (νοεῖν), uma vez que toda fala (λόγος) segue o pensamento (νόημα); e se ele pensa em algo, como é que ele está no reino da Ocultação? Pois não é propriamente “oculto” aquilo que, embora não visto por mais ninguém, ainda pode ser visto pelo próprio intelecto; pois, de outra forma, muitas coisas poderiam ser chamadas de ocultas, uma vez que tantas, ou mesmo, eu diria, todas as coisas que o intelecto vê, ele vê de uma maneira desconhecida por outros (μὴ γινώσκοντος ἑτέρου), o que seria absurdo.
- Se palavras e razões (λόγοι) naturalmente fazem o intelecto proceder e progredir, então elas devem eventualmente elevá-lo a um ponto que a fala não pode alcançar, isto é, a uma realidade que se cumpre no silêncio, pois se as palavras fossem uma característica permanente do intelecto, e a alma devesse sempre confiar nelas, então, por minha parte, não vejo que progresso o intelecto poderia ter além do raciocínio, pois o raciocínio não é apenas benéfico para a prática, mas também igualmente útil para a contemplação; no entanto, quando o intelecto ascende de palavras na forma de realidades (λόγοι ἐν σχήματι τῶν ὄντων) até àquilo que é totalmente sem forma além da fala (ὑπὲρ λόγον) e absoluta e propriamente Um, nesse ponto todas as palavras parecem supérfluas, ou até se tornam obstáculos, para dizer com mais precisão.
- Palavras e razões são “λόγοι”, e palavras na forma de realidades são “λόγοι ἐν σχήματι τῶν ὄντων”.
- Palavras e razões geralmente consistem em transições (μετάβασις) de um pensamento (νόημα) para outro, mas como poderia o simples e absoluto e ilimitado e sem figura, que é inteira e propriamente Um e está além da fala, precisar de palavras? O que ele precisaria para fazer a transição? Ou como poderia ser definido? Pois a fala tem o costume de definir coisas de maneira específica, mas o Um é indefinível, sendo ilimitado e sem forma. Se a fala não é adequada ao Um oculto além do intelecto, uma vez que Ele é indefinível e sem forma, então o que é adequado a Ele é o silêncio.
- Se palavras e razões (λόγοι) se referem a coisas que são conhecidas, e o Oculto é desconhecido, então o Oculto está além da palavra e da razão, pois se o não-saber do Oculto é superior a todo conhecimento, e aquilo que é superior ao conhecimento não tem necessidade de conhecimento, muito menos de fala, de modo que o intelecto que ascendeu ao Um absoluto oculto naturalmente observa o silêncio (σιωπὴν ἀσκεῖ), e se não cai em silêncio natural e sem esforço, então ainda não alcançou o Um oculto e sumamente simples em sua ascensão.
- A ação de observar o silêncio é “σιωπὴν ἀσκεῖ”.
- Assim como os hesicastas (ἡσυχίαν ἀσκοῦντες ἄνθρωποι) às vezes se afastam de sua cela e conhecem pela experiência a grande diferença entre permanecer sentado em quietude e estar fora e sobre, da mesma forma aqueles que experimentaram (πάσχειν) o silêncio e depois retomaram a fala, isto é, aqueles que se devotam na contemplação à glória de Deus, reconhecem em que estado estão quando o silêncio vem sobre eles por natureza, mas não por sua própria volição (φύσει, οὐ προαιρέσει), e em que estado estão quando estão dispostos a falar; de fato, quando o silêncio vem sobre eles, desejam nunca ter aberto suas bocas e rezam para que possam permanecer continuamente naquele estado.
- Hesicastas são “ἡσυχίαν ἀσκοῦντες ἄνθρωποι”, e a vinda do silêncio por natureza, não por volição, é “φύσει, οὐ προαιρέσει”.
- Então, como outros anjos postos sobre a terra, eles estão unidos à verdade de maneira unificada, sem forma, sem visão, sem figura e simples, por olhares imóveis do intelecto, possuindo em si mesmos apenas espanto e admiração, sem saber nada por intelecção, mas simplesmente lançando seu olhar sem visão sobre as iluminações divinas sem começo. Mas quando o intelecto desceu daquele estado através de sua mutabilidade inerente, eles retornam à fala e ao discurso inteligível por meio de muitas e variadas discursões; e para trazer de volta o estado de silêncio, uma vez que é vastamente superior à fala, eles abraçam a quietude e guardam os sentidos das coisas sensíveis e empregam qualquer meio para evitar falar e até mesmo a intelecção.
- O Divino não é inteiramente manifesto (ἐκπεφασμένος) nem novamente inteiramente oculto; pois o fato de que Ele existe é tornado claro e até bastante óbvio, mas quanto ao que Ele é, isso está oculto, havendo uma vasta diferença entre saber o que Deus é e saber que Ele é; pois o último é mostrado pela energia de Deus, enquanto o primeiro se refere à Sua essência, que nem mesmo os anjos diante de Deus poderiam esperar conhecer, pois Deus é infinitamente infinito vezes além de toda existência, todo intelecto e toda intelecção.
- A manifestação de Deus é “ἐκπεφασμένος”.
- Portanto, quando o intelecto apreende as coisas que demonstram a existência de Deus, ele tem muitas coisas excelentes sobre as quais falar (λέγω) e filosofar, podendo então ser dito tanto um filósofo quanto um teólogo (θεολόγος). Mas quando o intelecto se eleva e ascende além do fato da existência de Deus, é envolvido na Ocultação divina e recebe a energia da manifestação (φαντασία) do que Deus é, tornando-se assim totalmente sem forma e intangível e sem visão, então toda palavra que falaria de Deus é fútil, e o intelecto chega ao repouso na unidade, imerso no inconcebível.
- Deus é chamado Um não apenas porque é simples e exaltado acima de toda composição, mas também porque Ele sozinho é propriamente aquele que É (Êxodo 3:14) entre todas as coisas que se diz que “são” (precisamente porque têm seu ser Dele), pois o que não “existe” no sentido próprio e absoluto não pode ser “um” no sentido próprio e absoluto tampouco, e porque Ele está em toda parte sem ser englobado pelo espaço, e é sozinho dissimilar a todas as coisas, e não adulterado por nenhuma outra coisa (καθαρῶς πάντων ἐκτός); e porque Ele é eterno, não tendo começo nem fim; e porque Ele brilha a radiância divina de Sua providência sobre todas as coisas igualmente sem ser manchado por elas (ἀχράντως) (embora nem todos os seres a recebam da mesma maneira); e, além disso, porque Ele Se faz conhecido a todos sem ser condicionado por eles (ἀσχέτως).
- A não-adulteração é “καθαρῶς πάντων ἐκτός”, a não-mancha “ἀχράντως”, e o não-ser condicionado “ἀσχέτως”.
- Isso requer que o intelecto seja invariado, sem forma, sem figura, incolor, intocado por todas as realidades e totalmente livre em ilimitabilidade sem limites, e que ascenda além do tempo, espaço, natureza e tudo o que pertence à natureza para contemplá-Lo de alguma forma, na unidade além da união noética.
- Visto que a conexão espiritual (συναφή) entre Deus e o intelecto transcende a intelecção, é por isso que se diz que o intelecto está além de sua própria natureza neste momento, ao receber livremente a manifestação (φανταζόμενος) do Um oculto sobrenatural através da percepção noética (αἰσθήσει νοερᾷ), mas, no entanto, o que o intelecto experimenta (πάσχειν) está de acordo com sua natureza, que foi purificada pela graça, pois a intelecção é para o intelecto o que ver é para o olho.
- A conexão espiritual é “συναφή”, a manifestação “φανταζόμενος”, e a percepção noética “αἰσθήσει νοερᾷ”.
- Assim, aquele que abre seus olhos na escuridão não vê nada, mas no entanto vê aquela escuridão como uma (ἕν), e pode ver que não vê, enquanto se tivesse seus olhos cobertos, poderia assumir que estava cercado de luz e outros objetos. Mas com seus olhos bem abertos, ele vê claramente que não vê. Agora, a capacidade da faculdade visual de penetrar na escuridão e ver coisas ocultas está além da natureza do olho, mas não sua capacidade de ver que não vê.
- A intelecção é a natureza do intelecto, e a intelecção consiste de movimento e discursão, mas quando o intelecto chegou a Deus, ele transcendeu a intelecção e o movimento, e poderia razoavelmente ser dito que o intelecto vai além de sua natureza quando recebe a manifestação absoluta (φανταζόμενος) de Deus, pois é claro que todo conhecimento surge naturalmente de uma coisa ou realidade particular (ἐκ πράγματος), e onde nenhuma realidade pode ser contemplada, tampouco pode qualquer conhecimento vir a ser ou existir.
- A manifestação absoluta é “φανταζόμενος”, e a realidade particular “ἐκ πράγματος”.
- Uma vez que Deus não pode de maneira alguma ser visto como Ele realmente É (πραγματικῶς), Ele naturalmente Se manifesta ao intelecto a partir das realidades que O cercam, isto é, as [energias] pelas quais Ele age, que possuem uma esfera de poder que logicamente procede de uma fonte de poder (δυνατόν). Então, porque, em respeito a tudo o mais, o intelecto está acostumado a perceber (θεωρεῖν) poderes simultaneamente com [suas correspondentes] fontes de poder, ele também busca experimentar (πάσχειν) o mesmo com respeito a Deus. No entanto, sendo completamente incapaz disso na medida em que transcende a natureza de todo intelecto criado, ele contempla as realidades ao redor de Deus e recebe Sua manifestação além da visão, como dissemos, em percepção simples e imediata (ἁπλῆ καὶ ἀθρόα ἐπιβολή).
- Tudo o que é chamado de “oculto” deve possuir algo manifesto pelo qual se possa ter uma noção do que está oculto; caso contrário, seria quase idêntico ao não-ser, pois aquilo que não dá absolutamente nenhum indício reconhecível de sua existência poderia ser considerado equivalente àquilo que é completamente inexistente, de modo que, juntamente com a ocultação de Deus, também devem existir certos sinais manifestos, e, à medida que o intelecto segue essas pistas, por assim dizer, ele adquire uma noção (δέχεται αἴσθησιν) da Ocultação Divina e segue a cognoscibilidade de Deus até Sua incompreensibilidade.
- A ação de adquirir uma noção é “δέχεται αἴσθησιν”.
- Quando atinge este estado, ele sabe com certeza que existe Algo que escapa à sua compreensão natural e que, sendo Sobrenatural, está além de qualquer tipo de compreensão noética, mesmo angélica. E embora Ele seja a causa e o princípio e o fim de toda natureza e essência e toda realidade, Ele mesmo está além da natureza e da essência, habitando infinitamente mais alto do que toda existência, sendo ingênito, sem começo, ilimitado e absolutamente incircunscritível em termos de natureza, espaço e tempo. Este é o Um oculto acima do intelecto.
- À medida que o intelecto lança seu olhar sem visão (ἐπιβάλλειν) sobre a Ocultação sumamente divina, única, transcendentemente principal (ὑπεραρχικός) e suprema, uma recepção (παραδοχή) vem ao intelecto a partir Dela — também sem visão, unificada e única, cheia de esplendor extremamente belo, radiante e inefável, e sobrecarrega o intelecto com admiração e espanto em silêncio, após ter prepossuído o coração com energia espiritual e doce alegria.
- O olhar sem visão é “ἐπιβάλλειν”, a recepção “παραδοχή”, e o transcendentemente principal “ὑπεραρχικός”.
- Esta recepção torna-se para o intelecto iluminação noética, esclarecimento e, subsequentemente, eros divino e alegria radiante, pois deve sua causa a Deus, de quem vem todo bom dom (Tiago 1:17), desde que o intelecto seja puro; deriva seu material, por assim dizer, das várias manifestações divinas das Escrituras e realidades (ὄντα), desde que sejam contempladas com prudência e retidão, em quietude e em oração.
- A contemplação mais resplandecente, unificada e única do intelecto sobre Deus, que discerne tanto a Ocultação divina unificadora quanto o esplendor que brilha a partir Dela, e se tornou receptiva (παραδεδεγμένη) ao eflúvio divino da radiância incriada e infinita, requer não apenas o silêncio da boca, mas também o silêncio do intelecto, pois é possível, enquanto se mantém a boca silenciosa, que o intelecto delibere (διατίθεσθαι) interiormente, progrida em cogitações e intelecções e seja alterado por elas, sendo esta uma função do discurso interno; mas distante deste estado está o intelecto que voou alto para a Ocultação sumamente simples e sem forma (ἀτύπωτος) da Unidade divina.
- A receptividade é “παραδεδεγμένη”, a deliberação interior “διατίθεσθαι”, e o sem forma “ἀτύπωτος”.
- O poder contemplativo (θεωρεῖν) do intelecto é uma coisa, enquanto seu poder de raciocinar e pensar (διανοεῖσθαι) discursivamente, que pertence ao discurso interno, é outra. Portanto, quando o intelecto se aproxima de coisas criadas e compostas, ou de outra forma variadas, ele primeiro percebe, e depois pensa e se torna variado ele mesmo, a ponto de frequentemente encontrar muitos pensamentos para uma única e mesma coisa. Mas naquela Ocultação divina única e uniforme e íntima, ele levanta e abre seu olho contemplativo e capta os raios da simplicidade da radiância divina, embora seja de nenhuma maneira capaz de processá-los discursivamente e com deliberação pensativa.
- Quando a direção do intelecto está totalmente voltada para Deus, e seu poder contemplativo anseia pelos raios deslumbrantes da beleza divina, e ele se eleva sem forma para a simplicidade e ilimitabilidade do Um oculto e sem forma, tornando-se até mesmo um consigo mesmo através de sua ascensão e olhar para o Um pela inspiração do Espírito, então ele certamente atinge aquele espírito verdadeiramente infantil, recebendo um gostinho da realidade inefável e sobrenatural do Reino de Deus segundo a palavra do Senhor: “Se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 18:3), pois então o intelecto se torna livre e totalmente incondicionado (ἄσχετος) por qualquer coisa, tendo voado além dos limites implícitos em todo conhecimento, em toda maneira de intelecção e em toda composição e variação, e ascende ao Inefável e Incognoscível além do intelecto.
- A condição de incondicionado é “ἄσχετος”.
- Portanto, ele naturalmente mantém silêncio neste estado, que não está apenas além da fala, mas também além da energia noética, pelo que ele atinge, além do oculto e sem forma, também aquilo que é sobrenatural, amável e prazeroso para o gozo noético.
- Os contemplativos contemplam Deus como o Um unificado em Sua forma sem forma, Sua beleza imaterial, incomposta que ultrapassa em muito a natureza, e Seu semblante sumamente simples: grinaldado com bens infinitos, resplandecente com inúmeras belezas, brilhando raios luminosos de beleza para todo intelecto; uma riqueza inefável e indescritível, uma abundância generosa e infinitamente sempre fluente de coisas boas e belas, um tesouro de glória — inesgotável, insondável, infalível — preenchendo intelectos privados de visão com o mais abundante deleite, alegria e jubilação do coração, com uma alegria pura como um rio sempre fluente que brota misticamente daquela Unidade divina e sobrenatural que transcende tudo, oculta na Ocultação.
- A contemplação dos contemplativos é descrita em detalhe, incluindo referências a Salmos 31:1 e Salmos 93:12.
- Quão vasto, insondável e incircunscritível mar de bondade inefável, amor inexplicável e providência inconcebível Ele derrama em poder ilimitado e sabedoria inexprimível é algo incompreensível para os anjos, e mesmo para os Serafins, pois está estabelecido além de todo intelecto. E, de fato, até mesmo tais coisas que podemos apreender (συλλαμβάνω) presentemente pela razão sem fala (ἀρρήτῳ λόγῳ), e que na era vindoura serão restauradas (ἀποκαθίστημι) e como que entregues (ἀπογεννάω) e levadas à perfeição, essas realidades espantam os intelectos dos Querubins, e apenas um tanto obscuramente eles são capazes de aplicar suas mentes para sequer conceber tais [mistérios].
- No Espírito e na verdade são reveladas aquelas realidades que são invisíveis para aqueles que habitam no mundo, na medida em que não podem receber o Espírito Santo, como o Senhor declarou (João 14:17); mas para aqueles que valorizam o retiro espiritual e uma vida tranquila longe do mundo e das coisas mundanas, para quem a luz noética brilhou nos olhos de seus corações através da graça divina — a Alva do Sol inteligível desde o alto (Lucas 1:78; Malaquias 4:2) —, que receberam ajuda de Deus para que deliberem ascensões em seus corações (Salmos 83:6), e são irradiados pelas iluminações da visão divina (θεοπτικαῖς), como é natural: para estes essas realidades se tornam visíveis e são vistas com bastante clareza, juntamente com tantas outras realidades divinas e inteligíveis e coisas dignas de visão espiritual, até mesmo a futura restauração eterna e inabalável daqueles que viveram piedosamente, como será não apenas acima dos sentidos, mas até mesmo além do intelecto.
- A visão divina é “θεοπτικαῖς”.
- Os [justos] serão completamente mudados, tendo atingido totalmente o estado além do intelecto, bem como a vida e o deleite que transcendem toda concepção, e, assim como deuses adotivos e postos diante d’Aquele que é Deus por natureza, eles se deleitarão e se alegrarão em bênçãos além da natureza, que jorram do Deus Último e Único por natureza.
- Depois que o intelecto se despediu dos intervalos e extensões do tempo e do espaço, bem como das propriedades que definem as naturezas das coisas, e as ultrapassou, então ele é verdadeiramente despojado à simplicidade unificada e a uma vida simples sem artifício, e sem qualquer tela ou cobertura, ascende sobrenaturalmente a um estado inconcebível e inefável, sem começo e sem limites, através de um poder divino e iluminação do coração produzida pelo Espírito, e essa iluminação parece co-estender-se ao infinito juntamente com a contemplação do intelecto.
- Nesse momento, a paz de Deus amanhece na alma desde o alto, e a alegria inefável e a jubilação inexprimível do Espírito Santo se derramam nela, e o êxtase além do conhecimento sobrepuja a alma enquanto ela canta humildemente: “Não somente o Deus dos deuses será visto, mas de fato já é visto, em Sião” (Salmos 83:8), isto é, dentro do intelecto que viajou celestialmente e olhou para o alto; “Ó Senhor, Deus dos exércitos, bem-aventurado o homem que espera em ti” (Salmos 83:13).
- Quando o intelecto permanece iluminado em êxtases inconcebíveis e inexprimíveis e se vê no meio da presença de Deus e das coisas de Deus, então ele come, se assim posso dizer, os verdadeiros frutos do conhecimento espiritual, e é divinizado e se alegra e aumenta no eros divino, não dizendo absolutamente nada, nem expressando qualquer disposição interior ou exterior, nem novamente pensa, mas antes vê noeticamente e simplesmente na luz do Espírito e da verdade , e salvaguarda as coisas que vê para delas se deleitar constantemente.
- As ações do intelecto neste estado incluem comer os frutos do conhecimento espiritual, ser divinizado, alegrar-se e aumentar no eros divino, sem falar, expressar disposições ou pensar.
- Quando o semblante do intelecto está voltado dentro do coração e vê a iluminação do Espírito brotando interminavelmente dele, então é verdadeiramente um tempo de se calar (Ecle 3,7), e quando toda a fisionomia noética do intelecto vê Deus, ou melhor, quando todo o intelecto é encontrado dentro de Deus, ou, dito de outra maneira, quando Deus é encontrado dentro de todo o intelecto, isto é, certamente, ainda mais, o tempo de se calar (Ecle 3,7).
- A citação bíblica é Eclesiastes 3:7.
- Quando, pela participação no Espírito, o intelecto de fato (κατὰ τὰ γινόμενα) está diante de Deus em contemplação e desfruta devidamente da glória e do esplendor da presença de Deus, ele deve, muito naturalmente, silenciar-se para contemplar em quietude e sem distração (ἀπερικτυπήτως), mas se alguma escuridão nevoenta (ἀχλυώδης) alguma vez se intrometer entre o intelecto e Deus, o intelecto [deve] imediatamente lançar um fogo luminoso e incandescente, por assim dizer, na causa exata (λόγον) dessa escuridão por meio de uma palavra adequada (πεφυκότι λόγ) — uma palavra breve (βραχύλεκτον) mas infundida com luz divina.
- O estado “de fato” é “κατὰ τὰ γινόμενα”, sem distração é “ἀπερικτυπήτως”, escuridão nevoenta é “ἀχλυώδης”, a causa exata “λόγον”, a palavra adequada “πεφυκότι λόγῳ”, e a palavra breve “βραχύλεκτον”.
- Dessa forma, após extinguir rapidamente a escuridão e a névoa por meio da luz e do calor, e assim iluminando e aquecendo o intelecto pelos mesmos meios, ele pode retornar à presença de Deus como antes, contemplar Sua beleza, deleitar-se naturalmente Nele e ser embelezado por Ele. Em suma, ele pode ‘padecer’ as experiências da percepção noética através da recepção (πάσχειν […] τὰ κατὰ νοερὰν ἐπιβολὴν διὰ παραδοχῆς) do Espírito Vivificante de Deus, e pode ser ainda mais simplificado e liberado de todas as coisas por Deus em Espírito e verdade , e até mesmo ir além das realidades ao redor de Deus.
- Quando o intelecto, iluminado por cada raio que emana do Espírito, fica maravilhado e deslumbrado e percebe a si mesmo sendo estendido e alterado no infinito e no ilimitado, então é um tempo de se calar (Ecle 3,7); quando, no entanto, ele se sente um tanto cansado dessas visões deslumbrantes e deseja partir deste estado para relaxar da intensidade e ter algum descanso, então é naturalmente um tempo de falar (Ecle 3,7), mas apenas com moderação (βραχύλεκτα) e de acordo com a iluminação divina.
- Falar com moderação é “βραχύλεκτα”.
- Quando o intelecto passou pelo meio do mar e escapou do Faraó noético, passando suas noites na luz do fogo e seus dias sob a sombra da nuvem (Êxodo 13:21), então certamente chegou o tempo para o silêncio e a quietude e o verdadeiro começo da purificação da alma, mas quando o terrível Amaleque noético e as nações que o seguem o resistem, bloqueando sua passagem para a Terra Prometida, então é um tempo apropriado para falar (Ecle 3,7), mas a Deus [em oração], apoiado de um lado pela prática noética e de outro pela verdadeira contemplação, assim como Moisés antigamente, cujos braços foram sustentados por Aarão e Hur (Êxodo 17:12).
- A citação bíblica é Êxodo 17,12.
- Quando, das profundezas insondáveis da fonte da contemplação divina e noética, o poder espiritual jorra rompendo do coração, então naturalmente chegou o tempo de se calar , pois então o intelecto, sem palavras, conduz a adoração e a veneração de Deus em Espírito e em verdade (João 4:24), e isso ele faz através da verdadeira percepção noética, e quando, olhando noeticamente para Deus, a parte racional da alma está completamente cheia de êxtase divino, a parte noética de visão, e toda a alma de regozijo, então é indubitavelmente um tempo de se calar , pois então, pelo Espírito e na sutileza da percepção, o intelecto pode contemplar em concentração (συνεπτυγμένος) a verdade e glorificar em adoração o Deus que brilha dentro dele.
- A concentração é “συνεπτυγμένος”.
- Aqueles que adoram a Deus propriamente em Espírito e em verdade (João 4:24) e O veneram corretamente não O adoram e veneram apenas fora do espaço (οὐκ ἐν τόπῳ), mas também não menos fora do discurso falado, pois assim como o sentido noético que é elevado em retidão reverente não tem desejo de adorar o Incircunscritível no espaço, já que Ele não tem lugar de repouso (Isaías 66:1), da mesma forma, quando permanece unido à verdade, como deve, o infinito, ilimitado, incriado, sem forma e perfeitamente simples e, em suma, Aquele que está além do intelecto, o sentido noético dificilmente está acostumado a tolerar a adoração e veneração que consistem meramente de uma variedade de palavras e expressões fixas.
- Adorar fora do espaço é “οὐκ ἐν τόπῳ”.
- Pois quando chega o momento, pelo empoderamento e inspiração do Espírito, para o intelecto ser iluminado de maneira unificada com o conhecimento da verdade divina (cf. 1 Timóteo 2:4), neste momento o intelecto, tendo-se tornado completamente livre de todas as coisas e até mesmo ido além de si mesmo, encontra boa razão não apenas para se abster da fala, mas até mesmo da intelecção (ἀνοησίαν εὐλόγως ἀσκεῖν), pois então se engaja na contemplação de realidades superiores à palavra, à razão e ao intelecto (τὰ κρείττω καὶ λόγου καὶ νοῦ) com exultação e êxtase em luz noética, uma vez que se tornou — de alguma forma, sem qualquer artifício de sua parte — imóvel e inabalável na percepção sem visão através de uma união que transcende sua própria natureza.
- O intelecto deve prestar atenção a si mesmo com diligência e direcionar sua disposição noética com entendimento, sabedoria e julgamento, e quando se encontra contemplando os mistérios simples e não-simbólicos (ἀτύπωτα) da teologia, ele deve permanecer em quietude e silêncio, nem deixando de se maravilhar nem ignorando a energia e a iluminação do Espírito em seu coração, pois então não é apenas um tempo para manter os sentidos completamente quietos de todas as coisas sensíveis, mas também não menos um tempo de silêncio de todo tipo de fala discursiva (διεξοδεύων λόγος).
- Os mistérios não-simbólicos são “ἀτύπωτα”, e a fala discursiva é “διεξοδεύων λόγος”.
- E ainda mais para aqueles devotados ao conhecimento (γνωστικοί), se assim posso dizer, este é um tempo para praticar a quietude noética e a arte do não-ver, isto é, deve-se treinar para adquirir imobilidade nos sentidos, na fala e no raciocínio, nos pensamentos e percepções, para que o intelecto possa diretamente — e, se necessário, em completo isolamento — e livre e verdadeiramente contemplar o infinito, incriado e incircunscritível na visão unificada e única do Deus Trino Único e Sozinho, bem como todas as outras [propriedades] divinas e imutáveis e absolutas, e ser unido a elas, tendo-se tornado transfigurado (συνηλλοιωμένος) pela contemplação, simples e totalmente deiforme pela graça divina com todo deleite e admiração.
- Quando o intelecto, por experimentar (προσπάσχειν) a revelação divina unificada através da visão noética, é transfigurado (ἀλλοιοῦσθαι) e iluminado pelo Desconhecido além de todo conhecimento, e se torna indivisível, simples e ilimitado como se singularmente deslumbrado pela escuridão divina , e contempla a Beleza indescritível em Sua extrema simplicidade, Sem Forma em Sua superioridade a toda forma, Incriado (ἄναρχον) em Sua transcendência de qualquer princípio originador (ἀρχή) que seja, Ele mesmo Incompreensível enquanto engloba em Si mesmo os limites e a compreensão de todas as coisas, preenchendo todas as coisas como o Super-Abundante, sendo ao mesmo tempo Infinito em Si mesmo; e, em suma, quando o intelecto vê além (ὑπεροψία) de todas as realidades através da visão sagrada (ἐποψία) do Um, e vê (ὄψηται) tudo com um poder inefável de inteligência além da intelecção, então é um tempo de se calar (Ecle 3,7), tanto mística quanto transcendentemente, ou, eu diria, deleitando-se sem visão ou fala no gozo único da verdade de uma maneira ainda mais divina de iniciação.
- Experimentar é “προσπάσχειν”, ser transfigurado é “ἀλλοιοῦσθαι”, sem princípio é “ἄναρχον”, ver além é “ὑπεροψία”, a visão sagrada é “ἐποψία”, e ver é “ὄψηται”.
- No entanto, quando essas realidades estão ausentes do intelecto e a divisão aparece ao seu redor, então é um tempo de falar (Ecle 3,7); mas que se digam coisas dignas de conduzir (ἀναγωγή) o intelecto de volta ao silêncio. Pois muito superior a toda palavra racional (λόγος) é aquele silêncio além da razão (ὑπὲρ λόγον) que poderia muito razoavelmente ser chamado de “silêncio oportuno” (ἔγκαιρος σιγή), uma vez que Salomão, que o preferiu acima de tudo, diz primeiro: “Há um tempo de se calar”, e depois, “um tempo de falar” (Ecle 3,7).
- Quando o intelecto, tendo passado pelas coisas aqui embaixo e ascendido além delas, abraça alegremente o silêncio de maneira natural, então é um tempo de deleitar-se em coisas transcendentes e inefáveis; é um tempo de iluminação e luz noética, de união do intelecto e da contemplação, de simplicidade, de ilimitabilidade e infinitude e conhecimento sumamente radiante (ὑπερφαής), e, para resumir, um tempo para tomar (ἀντίληψις) e participar (μετάληψις) da sabedoria espiritual, pela qual o intelecto é aperfeiçoado em quietude (σχολή) e silêncio, uma vez que recebeu alegria inexprimível em êxtase.
- Sumamente radiante é “ὑπερφαής”, tomar é “ἀντίληψις”, participar é “μετάληψις”, e a quietude é “σχολή”.
- Quando a alma percebe, através de sua percepção da verdade, que ficou embriagada do cálice da graça, como do mais fino vinho (Salmos 22:5), e até mesmo saiu de seu juízo (ἔκνουν), então é certamente um tempo de se calar , e quando a disposição do homem interior deseja clamar em alta voz: “Senhor, por que se multiplicaram os que me afligem? Muitos se levantam contra mim” (Salmos 3:2), então é um tempo de falar ; não, certamente, para falar palavras vãs, mas para falar contra os inimigos moderadamente e adequadamente, conforme a ocasião exigir, e quando a luz do rosto do Senhor foi assinalada sobre a alma (Salmos 4:7) de modo que ela é embelezada e irradiada por ela e imersa na alegria divina, então é de fato um tempo de se calar , e quando a alma vê testemunhas injustas se levantarem contra ela , acusando-a de coisas que ela não sabe (Salmos 34:11) e a colocando em tumulto, então é verdadeiramente um tempo de falar e até mesmo de responder em oposição.
- Fora do juízo é “ἔκνουν”.
- Deus é o Supremo e, pode-se dizer, o Último, ou de outra forma a Mais Alta Beleza e Bem sobre todas as coisas existentes (ὄντα) e realidades inteligíveis (νοούμενα), e entre todas as coisas visíveis o ser humano por natureza tem a melhor natureza de longe e é sem dúvida incomparavelmente maior do que todas elas; no entanto, pela graça, o homem é ainda superior aos anjos, de modo que, à medida que o intelecto contemplativo se aproxima do Um além da concepção no meio da vasta multidão de realidades entre Deus e os homens, ele simplesmente permanece em espanto até experimentar plenamente a graça da iluminação; mas uma vez que a saboreou através do poder espiritual ativo (ἐνεργής) no coração, ouso dizer que ele então ascende a Deus, a Beleza e o Bem Últimos, e entra Nele através de um dom ainda mais divino (κατὰ δωρεὰν θειοτέραν), vendo em unidade e êxtase, habitando (αὐλιζόμενος) silenciosamente na profundidade além do intelecto.
- O poder ativo é “ἐνεργής”, o dom mais divino “κατὰ δωρεὰν θειοτέραν”, e o habitar “αὐλιζόμενος”.
- Esta é verdadeiramente a garantia, como se poderia chamá-la, do primeiro repouso sabático, cujo tipo é o repouso sabático de Deus após a criação de todas as coisas (Gênesis 2:2-3). Outro repouso sabático, que a Escritura inerrantemente proclama como um repouso sabático que permanece para o povo de Deus (Hebreus 4:9) — um repouso maior de outro tipo — é aquele que o homem desfruta quando se voltou de Deus para si mesmo e se conheceu como imagem do Protótipo, e de fato todas as qualidades existentes entre Deus e os homens.
- Quando o intelecto realiza a negação (ἀπόφασις) de todas as coisas criadas como se não existissem (ὡς μὴ ὄντα), ele então recebe, contemplando em verdade e em Espírito , a inefável manifestação Daquilo que Verdadeiramente É (τὸ ὄντως ὄν) além da energia e união noéticas, infinitamente superior a todo tipo de contemplação divina sobre realidades existentes (περὶ τὰ ὄντα), e então o intelecto se torna unificado, ou mesmo, por assim dizer, “um”, e é inefavelmente vencido pela ausência de fala; torna-se cheio de amor e alegria, e não de modo comum, mas o amor e a alegria que vêm da energia do Espírito, um deleite próprio dos anjos.
- A negação é “ἀπόφασις”, as realidades existentes são “περὶ τὰ ὄντα”, e a manifestação Daquilo que Verdadeiramente É é “τὸ ὄντως ὄν”.
- Assim como não podes ser apreendido (ληπτός) segundo a Tua essência por ninguém de maneira alguma, ó Senhor, seja por qualquer tipo de natureza racional ou inteligente (νοερά), ou por meio de qualquer conhecimento criado, nem mesmo o dos querubins, mas Tu estás infinitas vezes infinitamente mais alto do que todo conhecimento, assim também os Teus atributos (καὶ τὰ περὶ σέ), ó Soberano, são totalmente infinitos e ilimitados, no entanto, em Teu cuidado insuperável por nós, ordenaste ao legislador do Antigo Testamento Moisés que proclamasse o fato de que Tu És (ὤν) e que Te chamas a Si mesmo Aquele Que É (Êxodo 3:14), mas ainda assim, isto Tu disseste concernente aos Teus atributos, ó Tu que és o mais infalível e és sozinho a verdade última, porque Tu apareces por meio deles; Teu nome, no entanto, não revelaste (Gênesis 32:29).
- Ser apreendido é “ληπτός”, a natureza inteligente é “νοερά”, os atributos “καὶ τὰ περὶ σέ”, e o fato de que Tu és “ὤν”.
- Teu nome é incomparavelmente mais alto do que todo nome (Fl 2,9), não apenas os nomes de todas as coisas na terra, mas também daquelas no céu. Além disso, aqueles que foram cheios da Tua luz Te descrevem como “Essência”, mas isso eles fazem sem predicar uma substância subjacente (ἐνυποκειμένου χωρίς), para que possam assim mostrar que Tu estás além do ser e da essência; eles também Te descrevem como “Intelecto” (νόησις), mas inteiramente sem qualquer substância subjacente (τι ὑποκείμενον), para que possas ser claramente conhecido como estando acima do intelecto, bem como infinitamente incognoscível e superior a tudo o que pode ser conhecido.
- Quando o intelecto cessa de entreter muitos pensamentos (πολύνοια) por desistir (ἀποπείθεσθαι) de diferenciações e conceitos fragmentados, ele vai além da dispersão mental pela inspiração e participação do Espírito Santo, que o une e constantemente refresca o coração com uma brisa sempre fluente (ἀείβλυτα πνέοντος); e quando o intelecto ama habitar continuamente em lugares divinos e imbuiu, por assim dizer, manifestações concernentes a Deus, de modo que pela simples introspecção noética possa ver o reflexo de todas as realidades ao redor de Deus em unidade (τὰ ἡλίκα, ὅσα περὶ Θεὸν ἑνοειδῶς) com inefável eros divino, então ele claramente atingiu o repouso divino e chegou ao gozo de uma profunda paz divina e um repouso do coração extremamente santo e tranquilo, em Cristo Jesus nosso Senhor.
- Muitos pensamentos é “πολύνοια”, desistir é “ἀποπείθεσθαι”, e a brisa sempre fluente é “ἀείβλυτα πνέοντος”.
- Quando o intelecto conversa com Deus em oração, como um filho com um pai totalmente afetuoso em disposição, e sente um deleite inexprimível ao ver a luz de Jesus, e torna-se totalmente extático ao sentir manifestamente o eros divino e a energia sobrenatural do Espírito Santo no coração, e deseja voar ainda além das revelações e perfeições divinas em um voo místico além do mundo, nesse ponto ele verdadeiramente descansa de todas as suas obras (cf. Gênesis 2:3), isto é, indo além da intelecção após se envolver na intelecção (ὑπὲρ τὸ νοεῖν μετὰ τὸ νοεῖν), e experimenta um prazer maravilhoso (ἡδυπαθεῖν), e verdadeiramente repousa na paz do Espírito Vivificante de Cristo.
- O prazer maravilhoso é “ἡδυπαθεῖν”.
- Deus descansou de todas as obras que começara a fazer (Gênesis 2:3), isto é, após ter completado a criação em Palavra e Espírito. De maneira semelhante, o intelecto semelhante a Deus (θεοείκελος) descansa de todas as obras que começara a fazer desde o início para completar o mundo inteligível da virtude, mas ele faz isso após ter primeiro examinado e, por assim dizer, continuamente trabalhado todo o mundo novamente juntamente com as realidades inteligíveis dentro dele (ἐπεξεργάζεσθαι) através da Palavra de Deus e do Espírito Vivificante, e ter ascendido destas — novamente na Palavra e no Espírito — ao que alguns chamaram de realidades “metafísicas”, e perscrutar as visões místicas simples e absolutas da teologia, pois então, neste descanso das obras, o intelecto desfruta do máximo repouso e paz na verdade noética, e é até mesmo deificado na luz do conhecimento e participação no Espírito Vivificante, em Cristo Jesus, nosso Senhor.
- Intelecto semelhante a Deus é “θεοείκελος”, e a ação de trabalhar continuamente é “ἐπεξεργάζεσθαι”.
- Quando Deus descansou de todas as Suas obras , Ele não descansou de absolutamente todas elas, mas apenas daquelas obras que começara a criar (Gênesis 2:3); pois Ele não cessou das obras que são sem começo, incriadas e em um certo modo naturais a Ele. Da mesma forma, o intelecto que imita Deus, tendo passado e ido além da criação visível pela graça da Divina Palavra e do Espírito Vivificante, não pode possivelmente descansar de todas as obras naturais a ele, que não têm começo nem fim, mas cessa das obras visíveis, que têm tanto começo quanto fim.
- O intelecto não atinge o repouso a menos que atinja o movimento perpétuo (ἀεικίνητος) através da constante inspiração vivificante do Espírito ao voltar seu olhar cognoscente para além das coisas visíveis, caso contrário, nunca perceberá que existe um repouso noético que se move perpetuamente ao redor de Deus somente em unidade e deifica aquele que dele participa com repouso inexprimível e inefável em Cristo.
- Não te apresses a proferir uma palavra diante do rosto do Senhor, diz Salomão, pois Deus está no céu acima e tu estás na terra abaixo (Ecle 5,1), indicando-nos com tamanha clareza e precisão qual é o tempo de se calar (Ecle 3,7), pois ele diz explicitamente que quando tu, que estás na terra abaixo, vens diante do rosto do Senhor que está no céu acima e és considerado digno de tamanha graça que tu, estando abaixo, és capaz de fixar tua mente e discernir as coisas acima (Colossenses 3:2), e através da percepção noética ficar diante do rosto do Senhor, não te apresses a proferir qualquer palavra, pois então é um tempo de se calar .
- A exortação de Salomão em Eclesiastes 5:1 é citada.
- Isto é, não desejes [falar] quando teu intelecto recebe a energia da verdade de maneira unificada e deiforme (pois é isso que ‘estar diante do rosto do Senhor’ significa, quando o intelecto contempla as muitas realidades ao redor de Deus de maneira indiferenciada (μονοειδῶς), em uma percepção simples e unitária de Deus; e não te apresses a proferir uma palavra quando experimentas (πάσχειν) isso e estás diante do rosto do Senhor; caso contrário, em tua ignorância e obstinação, apressas-te a degradar e rebaixar a ti mesmo.
- Toda a natureza humana de outrora estava sem cuidado e tristeza e permanecia justamente distante de toda espécie de mal, estando perto de Deus; contemplava a Deus e desfrutava da glória da beleza de Seu rosto com alegria e espanto na pessoa de nosso antepassado Adão, em deleite imaterial, noético, celestial e incorruptível, e a graça abundante inundava a alma do primeiro homem, e seu intelecto deiforme estava imerso em contemplações de conhecimento espiritual e ascensões (γνωστικαῖς θεωρίαις καὶ ἀνατάσεσι) a Deus, e dentro do Paraíso sensível ele também desfrutava do Paraíso noético e do que eu chamaria de vida feliz e abençoada (μακαρία ζωή), estando verdadeiramente unido consigo mesmo e com Deus, permanecendo em si mesmo e até mesmo em Deus como é justo, e apegando-se a este estado unificador e verdadeiramente deiforme, e muito naturalmente, uma vez que havia sido feito segundo a imagem de Deus (Gênesis 1:26).
- As contemplações e ascensões são “γνωστικαῖς θεωρίαις καὶ ἀνατάσεσι”, e a vida feliz e abençoada é “μακαρία ζωή”.
- Estas são precisamente as coisas boas que Deus pretendeu que desfrutássemos. No entanto, para o inimigo de nossa boa herança e glória, aquele demônio vingativo, isso era insuportável, pois, atingido pela inveja, como não poderia ser? E, portanto, aquele que tudo destrói fez muito para nos enganar e dissipar nossa esperança com conselhos aparentemente justos, incitando nosso desejo para que buscássemos uma deificação mais alta do que a que já tínhamos, e o primeiro obreiro do mal difamou (διαβάλλειν) a sinceridade (τὸ εὐθές) do mandamento de Deus (Gênesis 3:4-5). Deste engano sofremos uma destruição lamentável e fomos banidos de Deus e do deleite divino (Gênesis 3:23-24).
- Por natureza, todo ser vivo recebe repouso e prazer proporcionado pela atividade mais elevada que lhe é natural, devendo o ser humano, por possuir intelecto e a atividade da intelecção como sua vida por natureza, experimentar o maior prazer e verdadeiro repouso quando conhece as realidades supremas concernentes a si mesmo — o que se poderia chamar de “o bem” ou “o belo” —, o que ocorre verdadeiramente quando ele tem Deus em seu intelecto, medita nas virtudes Daquele que é a derradeira Realidade a ser conhecida (embora Ele transcenda o intelecto), que ama o ser humano supremamente de modo transcendente ao intelecto e que prepara para o seu povo recompensas supremas e bens belos e bons que transcendem o intelecto, concedendo-os para serem desfrutados por toda a eternidade.
- A atividade mais elevada natural a cada ser vivo é denominada “ἐνεργείᾳ”.
- Deus é descrito como “ὑπὲρ νοῦν νοητός”, “ὑπὲρ νοῦν” amante do ser humano e possuidor de recompensas “ὑπὲρ νοῦν”.
- Todo nascimento gera descendência semelhante ao seu progenitor, conforme o Senhor disse: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6), sendo claro que, se quem é nascido do Espírito é espírito, ele será também um deus, semelhante ao Espírito que o gerou, pois o Espírito é verdadeiro Deus e é dele que o participante do Espírito nasce por graça, tornando-se contemplativo, já que Deus é chamado Theos porque contempla e vê todas as coisas.
- A citação bíblica completa é: “That which is born of the flesh is flesh, and that which is born of the Spirit is spirit” (João 3:6).
- Aquele que não contempla ou ainda não recebeu o nascimento espiritual e a participação, ou, tendo-os recebido, por nunca ter aprendido o melhor, fecha sua capacidade de visão e, por nunca ter sido ensinado, desvia seu olhar dos raios inteligíveis divinos que irradiam do Sol Noético da Justiça (Malaquias 4:2), permanecendo miseravelmente privado da atividade da contemplação, mesmo almejando verdadeiramente a santidade.
- Todas as coisas receberam seu movimento e propriedade natural Daquele que as criou por palavra e razão (λόγος), incluindo o intelecto, cujo movimento tem a propriedade da eternidade, sendo infinito e ilimitado, sendo contrário à sua dignidade própria e ao que é verdadeiramente natural para ele que o intelecto seja confinado ou limitado em seu movimento — o que ocorrerá enquanto ele se mover no meio de coisas finitas e limitadas —, exigindo o movimento perpétuo do intelecto algo infinito e ilimitado para o qual ele possa se mover conforme a razão e sua própria natureza, não havendo nada infinito e verdadeiramente ilimitado senão Deus, que é por natureza Uno no sentido próprio da palavra.
- Deus é aquele que é em Sua natureza Um no sentido próprio da palavra.
- O intelecto deve esforçar-se e dirigir seu olhar para cima, movendo-se em direção ao verdadeiramente infinito Um, Deus, pois isso é o que é verdadeiramente natural ao intelecto.
- As realidades contempladas ao redor de Deus são infinitas e ilimitadas, mas nem mesmo essas realidades podem ser experimentadas com alegria perfeita pelo intelecto, que busca o Um de quem elas procedem, pois cada coisa naturalmente se alegra no que é semelhante a si mesma, e o intelecto é um por natureza (embora múltiplo nas intelecções [νοήσεις]), sendo-lhe impossível alegrar-se plenamente até que tenha atingido, por meio do Espírito, o Um cuja natureza única não tem limites, após ter “ultrapassado a multiplicidade”, por assim dizer.
- As intelecções do intelecto são denominadas “νοήσεις”.
- O intelecto só pode alegrar-se plenamente em Deus, pois a principal propriedade natural do intelecto é mover-se, ascender, atingir e alegrar-se plenamente somente em Deus, que é simples e ilimitadamente Um.
- Todo movimento de toda espécie de coisa criada, incluindo o do próprio intelecto, esforça-se e tende para a estabilidade (στάσις) e tranquilidade (ἠρεμία), sendo o propósito e o repouso próprio de uma dada coisa criada tornar-se estável e tranquilo através de seu movimento, mas o intelecto, embora seja uma das coisas criadas, não pode participar da estabilidade e tranquilidade por meio do movimento no meio das coisas criadas, pois a criação recebeu finitude por ter um começo, deixando o intelecto perpetuamente em movimento e buscando mover-se para outro lugar.
- A estabilidade é denominada “στάσις” e a tranquilidade “ἠρεμία”.
- É irracional presumir que o intelecto possa encontrar tranquilidade ou estabilidade nas coisas criadas, sendo somente em Deus, que é verdadeira e transcendentemente Um, que o intelecto pode fazer uso próprio de seu movimento (tornando-se estável através do movimento) e encontrar tranquilidade, paz e um senso seguro de repouso, pois Deus é o incircunscritível Um que o intelecto deve atingir através do movimento para encontrar a tranquilidade natural a ele em seu próprio repouso noético, onde há estabilidade através do Espírito — um estado paradoxal de repouso e o ilimitado para além de todas as coisas.
- Se Deus, segundo Davi, faz dos espíritos Seus anjos (Salmos 103:4; Hebreus 1:7) e dentre os homens aqueles que são nascidos do Espírito Ele faz espírito, conforme o Senhor disse (João 3:6), então o homem que nasce do Espírito mediante participação consciente Nele é feito anjo, sendo a obra dos anjos contemplar constantemente a face de nosso Pai celestial, conforme o Senhor disse (Mateus 18:10), devendo, portanto, o participante consciente no Espírito Santo elevar-se a si mesmo para contemplar a face de Deus.
- As citações bíblicas são: Salmos 103:4; Hebreus 1:7; João 3:6; Mateus 18:10; Salmos 104:4; João 15:4; Salmos 33:6; Salmos 35:10.
- Aquele que se tornou participante do Espírito Santo, experimentou o inefável nascimento do Espírito e ascendeu à dignidade de anjo não cuida propriamente de sua nova condição se fecha sua percepção noética (νοερὰν αἴσθησιν) de Deus e não deseja elevar-se a Deus e às realidades divinas por excessivo temor piedoso, pois essas coisas são ordenadas pelo Salvador, que nos disse para permanecermos Nele, como Ele também permanece em nós (João 15:4), e Davi diz: “Aproximai-vos Dele e sede iluminados” (Salmos 33:6).
- Há três maneiras pelas quais o intelecto ascende à contemplação de Deus: através do movimento intrínseco (αὐτοκινήτως), do movimento derivado (ἑτεροκινήτως) ou de uma combinação de ambos, sendo o modo do movimento intrínseco realizado simplesmente pela natureza do intelecto ao exercer sua vontade através da faculdade conceitual (φαντασία), tendo como fim a contemplação das realidades ao redor de Deus (τὰ περὶ Θεὸν θεωρία) que os filhos da Grécia puderam conceituar (φαντάζεσθαι) de certo modo, enquanto o segundo modo é sobrenatural e trazido pela vontade e iluminação de Deus somente, no qual o intelecto fica sob total influência divina (κατοχή), é tomado por revelações divinas, saboreia os inefáveis mistérios de Deus e contempla eventos futuros.
- A faculdade conceitual é denominada “φαντασία” e as realidades ao redor de Deus “τὰ περὶ Θεὸν θεωρία”.
- O modo combinado é composto de aspectos dos dois primeiros, conformando-se ao movimento intrínseco na medida em que opera por meio da vontade própria e da faculdade conceitual, mas participando do movimento derivado na medida em que está unido a si mesmo através da iluminação divina e contempla inefavelmente Deus para além da própria união noética, momento em que o intelecto vai além de todas as realidades contempladas ao redor de Deus e ditas sobre Ele, não vendo nem “benevolência” nem “poder deificador”, nem “sabedoria” nem “domínio capacitador”, nem “providência” nem qualquer outro atributo divino, mas é preenchido até a borda com luz noética e grande alegria, inflamado pelo fogo divino e misturado com amor.
- O intelecto que emprega sua própria faculdade conceitual (φαντασία) para contemplar coisas invisíveis é guiado pela fé e, quando iluminado pela graça, é assegurado da esperança; quando inundado pela luz divina, torna-se um tesouro de amor pelas pessoas e ainda mais por Deus, tornando-se perfeita e deificadora, segura e firme a ordem tríplice e o movimento do intelecto na fé, esperança e amor.
- Pode-se dizer também que, quando o intelecto alcançou esta cidadela espaçosa, está seguro na fortaleza do amor.
- São Paulo disse: “O amor tudo protege e tudo suporta” para o bem da fé e da esperança; ele diz ainda: “o amor jamais acaba”, por causa de sua união flamejante e inefável afinidade com Deus (1 Coríntios 13:7-8).
- O Um não pode ser abstraído de nenhuma coisa criada, pois todas as coisas criadas diferem entre si em relação a algum modo de particularidade única (ἰδιότης), mas na medida em que são todas criadas, não diferem entre si por terem todas um começo, serem finitas, cumprirem seu fim na natureza e nenhuma delas ser absolutamente una no verdadeiro sentido da palavra, pois somente o Incriado é verdadeiramente Um, sendo simples, sem começo, sem fim, ilimitado e, portanto, infinito, isto é, Deus.
- A particularidade única é denominada “ἰδιότης”.
- Se o intelecto contempla o Um através da participação no Espírito Vivificante e do empoderamento por Ele, recebe diariamente o aumento de que necessita e é unido, tornado simples e possuído de um estado divinizado, reconhecendo com completa certeza que, aparte do Um e sem seu olhar dirigido para Ele no Espírito, é impossível atingir a plenitude (νοῦν βέλτιον ἔχειν), pois o intelecto é disperso por estar sujeito ao mundo fragmentado e às paixões, necessitando, consequentemente, de um poder transcendente, isto é, o Um sobrenatural para o qual deve voltar seu olhar, a fim de que, sendo arrebatado das coisas que o dividem, possa superar as paixões e a discórdia e assim atingir a semelhança com Deus (τὸ θεοειδές).
- Se a falsidade é fragmentada, enquanto a verdade é una, então o intelecto que ascende ao Um no Espírito — ao transcendente, àquilo que está para além de todas as coisas e de onde vêm os múltiplos — ascende à própria verdade, não podendo, porém, o intelecto ser livre das paixões a menos que a verdade o liberte (João 8:32), sendo a liberdade mais condizente com a impassibilidade, a condição deiforme e a adoção espiritual do intelecto, enquanto a servidão é tudo menos isso.
- A citação bíblica é: “The servant does not know what his lord is doing” (João 15:15), sendo a ignorância um traço do servo e o conhecimento dos mistérios do Pai um traço daquele que ganhou sua liberdade, ascendendo à excelente dignidade de filho adotivo.
- O Espírito da Verdade verdadeiramente liberta aqueles a quem Ele vem, e é precisamente isso que os torna filhos de Deus, como diz o Apóstolo: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Romanos 8:14).
- O Espírito Santo diz: “O Senhor teu Deus, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4), sendo nosso dever elevar o intelecto ao Um transcendente pela graça do Espírito Divino, não sendo correto que alguém proclame (κηρύττειν) o Um sem sentir desejo de que o intelecto se volte para Ele e O contemple, pois o que o Espírito Santo diz é precisamente o que Ele deseja que o intelecto conheça (νοεῖσθαι), e o que é conhecido é também aquilo para o qual o intelecto deve se voltar.
- Se o intelecto não fosse projetado para se voltar para uma realidade inteligível, então a realidade que o intelecto poderia potencialmente conhecer tampouco existiria, e isso alteraria necessariamente nossa proclamação do Um e, portanto, nossa fé também, sendo absurdo, então, não pensar ativamente no Um voltando e elevando o intelecto para Ele.
- É natural que as realidades causadas, especialmente os seres racionais, ascendam e olhem para sua causa em um movimento de retorno (ἐπιστρεπτικῶς), sendo Deus a causa de todas as coisas, incluindo o intelecto, por ser Deus o Um supremo e absoluto, sendo, portanto, natural que o intelecto ascenda e olhe para o Um supremo e absoluto, retornando assim à sua causa.
- O movimento de retorno é denominado “ἐπιστρεπτικῶς”.
- Se todas as coisas são d’Ele, por Ele e para Ele (Romanos 11:36), e o intelecto é, certamente, uma de todas as coisas , então o intelecto existe d’Ele e por Ele — e isso é especialmente verdadeiro para o intelecto por causa de sua semelhança com Deus (διὰ τὸ θεοείκελον) —, devendo o intelecto mais do que qualquer outra coisa olhar de volta para Ele , sendo que a expressão “para Ele” indica que se deve redirecionar o olhar para a manifestação do Um transcendente em um movimento de retorno, concluindo-se que o intelecto deve direcionar seu olhar para o Um.
- A semelhança com Deus é expressa como “διὰ τὸ θεοείκελον”.
- Os múltiplos procedem (προιέναι) do Um, não o Um dos múltiplos, sendo a criação múltipla, sendo, portanto, bastante claro que a criação veio do Um, o qual está acima da criação como seu Criador e Fazedor, de modo que aquele que contempla a criação corretamente será inevitavelmente levado ao Um transcendente ao final de sua contemplação, pois no meio das coisas causadas há, por assim dizer, infinitos ecos (πάμπολλα […] ἀπηχήματα) da Causa, e por meio destes é reconhecido Aquele que produziu todas as coisas segundo sua vontade e providência, em arte e sabedoria, em poder e bondade.
- A ação de proceder é denominada “προιέναι” e os ecos “πάμπολλα […] ἀπηχήματα”.
- Isaías, inspirado pelo Espírito, diz: “Levantai vossos olhos e vede: Quem manifestou todas estas coisas?” (Isaías 40:26), referindo-se todas estas coisas aos múltiplos que são causados, e “Quem” para elevar nossos intelectos a Ele de quem todas estas coisas existem e que é por natureza absolutamente Um.
- A criação também é reunida (συνάγεσθαι) no uno, mas esta unidade é composta e múltipla e não incriada (ἄναρχος), visto que é criada, enquanto o Criador é Um, não apenas Uno em termos de produzir a harmonização de muitas e várias coisas em uma unidade universal orgânica para um propósito, mas também simplesmente porque Ele é Incriado como a Causa Preoriginada (προκαταρκτικὸν αἴτιον), de modo que, quando o intelecto ascende ao que é anterior, ele eventualmente alcançará um Um que tanto desenha a ordem visível quanto origina a gênese dos seres criados, fundindo-os em uma unidade orgânica (σύμπνοια) e harmonizando-os no uno.
- As ações de ser reunido e de fusão em unidade orgânica são expressas como “συνάγεσθαι” e “σύμπνοια”.
- Para cada coisa que se move e se torna, deve haver um tempo em que ela não era; na medida em que ainda não existia, começou; se começou, também foi posta em movimento. Devemos buscar então Aquilo que a pôs em movimento e a trouxe à existência, e Isto terá de ser imóvel na medida em que faz as coisas se moverem, pois se não é imóvel, o que poderia movê-lO, considerando que Ele existe sob nenhum outro princípio (ἀρχή), sendo Ele mesmo Incriado (ἄναρχον)? Se Ele é de fato imóvel, então Ele é também imutável, e se este é o caso, segue-se que Ele será também simples, pois o composto está sujeito à mudança, enquanto já mostramos que Ele é imutável; pois a composição é o início da divisão, e a divisão o início da dissolução, que é a última fase do movimento.
- O Senhor sozinho os conduzia, e não havia deus estrangeiro com eles (Deuteronômio 32:12), sendo o Senhor aquele que conduz aqueles que O seguem, não aqueles que se voltam para trás, e aquilo que alguém segue é aquilo para o que direciona sua atenção (ἐπιστρέφεσθαι); se, então, não tivéssemos outro deus conosco, seja um demônio ou uma paixão, sigamos o Único e Sozinho dirigindo nosso intelecto a Ele, para que também sobre nós seja dito corretamente que o Senhor sozinho os conduzia, e não havia deus estrangeiro com eles.
- A ação de direcionar a atenção é expressa como “ἐπιστρέφεσθαι”.
- Embora os múltiplos venham (εἰσὶν) do Um, cada um deles vem do Um de maneira diferente, uma vez que as realidades procedem da primeira Unidade em vários modos, havendo alguns desses “múltiplos” que têm um começo e são criados, enquanto outros são incriados e estão fora do princípio do começo no tempo (τὸν τῆς χρονικῆς ἀρχῆς λόγον), sendo o Um para além da realidade (ὑπερούσιον) a Causa de absolutamente todas essas realidades, mas Causa das primeiras segundo o modo de criação e das últimas segundo o modo de natureza.
- O Um para além da realidade é denominado “ὑπερούσιον”.
- Não devemos nos aproximar e nos engajar com todas essas realidades da mesma maneira ou na mesma extensão, mas as coisas que existem sob o princípio do começo e da criaturalidade devem ser abordadas por causa de outra coisa e não por si mesmas, como na maneira como nos aproximamos de um espelho não por causa do espelho, mas para ver a forma e a imagem refletidas por ele, não podendo receber nenhuma plenificação (βελτίωσις) ao nos aproximarmos da criação por qualquer outra razão senão por causa do Um último manifestado dentro dela; por outro lado, nos aproximamos das realidades sem começo (ἄναρχα) e naturais [propriedades] de Deus não por causa de outra coisa, mas tanto por si mesmas quanto por causa do Um de quem elas procedem (τὸ ἐξ οὗ).
- Há um tipo de ação (πρᾶξις) que precede a contemplação (θεωρία) e um tipo de ação que segue a contemplação, sendo a primeira ação realizada no corpo para que, ao refrear os impulsos do corpo e gradualmente treiná-lo a se comportar bem, possa, desse modo, permitir que o intelecto passe livremente para as coisas que lhe são próprias, isto é, para as realidades inteligíveis (νοητά), realizando assim adequadamente sua própria virtude distintiva (διαφέρον καλῶς ἐργάζοιτο), enquanto a segunda ação começa com o intelecto e o ato de conhecer no Espírito, e concentra-se (συνάγεσθαι) naquilo que está além do intelecto, isto é, Deus.
- A ação é denominada “πρᾶξις”, a contemplação “θεωρία”, as realidades inteligíveis “νοητά” e a ação de concentrar-se “συνάγεσθαι”.
- Quando o intelecto se aproxima de Deus, encontra o Um, pois Deus é o Um, e então o próprio intelecto é unido consigo mesmo no uno e se torna indiviso, pois quando contemplamos o Um, isso produz unidade e simplicidade deiforme, sendo incompatível que o intelecto contemple o Um sem se tornar uno e simples ele mesmo.
- O desejo mais último de todos (τῶν πάντων ἐφετῶν ἄκρον) é a união da alma com Deus além do intelecto, exigindo essa união com Deus a semelhança com Deus, e a semelhança com Deus exige atividade noética, isto é, contemplação (theorein), pois tal é o Divino (theion), e daí o nome ‘Theos’ ter-lhe sido atribuído, de modo que a contemplação procede diretamente à percepção (ἔννοια) de Deus.
- O desejo mais último é denominado “τῶν πάντων ἐφετῶν ἄκρον”, o Divino “theion” e a percepção “ἔννοια”.
- Em toda parte e em todas as coisas, Deus apresenta certos raios de luz ao intelecto contemplativo, cujo objeto é Deus, o Um transcendente. A natureza do intelecto é tal que ele se torna semelhante em energia àquilo que vê, como o divino Teólogo Gregório deixa claro ao se referir à frase “ver e ‘padecer’ (πάσχειν) o esplendor de Deus”, e Pedro de Damasco diz que o intelecto é saturado pelas coisas que contempla, tornando-se uno quando ascendeu à visão do Um transcendente e absoluto.
- Quando o intelecto está dividido em muitos ou mesmo apenas em duas partes, é bastante claro que não pode contemplar o Um simples, sendo por isso limitado, finito e indistinto, porque tal é a natureza das coisas que não são absolutamente simples, mas quando ele entra em contato intangível com o verdadeiro Um e, no Espírito, contempla-O para além da visão, então ele também se torna sem começo, infinito, ilimitado, sem forma ou figura; ele é imerso na ausência de fala e permanece em silêncio no assombro; ele é preenchido com puro deleite e ‘padece’ (πάσχειν) o inefável.
- O intelecto não se torna sem começo, infinito e ilimitado segundo sua essência, mas segundo a energia, porque o que muda no intelecto não é sua essência, mas sua energia, pois se ele fosse transformado em essência por ‘ver e padecer’ a deificação, isto é, tornar-se deus por contemplar Deus, ele seria Deus em essência, o que é impossível e nem mesmo os anjos são capazes de ser Deus em essência, pois isso pertence ao Único e Sozinho e Supremo Deus somente.
- Todas as coisas, após terem brilhado, por assim dizer, a partir do Um transcendente, não foram removidas do Um por quem foram feitas (em qualquer modo de ser), mas, assim como vieram a ser Nele, assim são mantidas juntas e aperfeiçoadas Nele, não existindo uma única coisa que não tenha um tipo de eflúvio e cheiro, por assim dizer, daquele Criativo e Verdadeiro Um, e todas as coisas que participam do ser não apenas enviam sua voz anunciando o Um transcendente (cf. Salmos 18:4) (pois Ele está estabelecido acima de todas as formas de contemplação e intelecção), mas também estabelecem raios de Sua radiância transcendente, por assim dizer.
- O versículo bíblico mencionado é Salmos 18:4, além de João 11:25 (“I am the life”), João 17:3 (“This is eternal life, that they may know You, the only true God”), Salmos 68:33 (“Seek God and your soul shall live”) e Salmos 35:10 (“In Your light shall we see light”).
- Porque o Um é proclamado em alta voz por todas as coisas e todas as coisas se inclinam para o Um — e este Um transcendente Se manifesta ao intelecto através de todas as coisas —, o intelecto deve ser dirigido, guiado e levado ao Um transcendente, compelido, por um lado, pela voz persuasiva da multidão de coisas e, por outro lado, o Um criativo também deseja que o intelecto O contemple na abundância de Sua bondade, para que o intelecto experimente a vida verdadeira Nele.
- Tudo o que Deus — que é o Um Bem Triádico — fez, Ele fez por Sua vontade, e tudo o que Deus deseja é totalmente bom, pois a bondade é Sua natureza, tendo Ele feito o intelecto um contemplador de Si mesmo e de Seus atributos, os quais conduzem o contemplador ao Um; portanto, Deus deseja que o intelecto seja Seu contemplador, e isto é, em si e por si mesmo, o bem supremo, sendo Deus própria e absolutamente Um, e contemplar e concentrar-se unicamente Nele é o bem último, como foi demonstrado.
- Se o eros absoluto é um e é sentido com devoção exclusiva (συνεπτυγμένος), conforme a instrução daqueles sábios em questões divinas, então o objeto desse eros deve ser um também, pois se houvesse pelo menos dois objetos de eros, então haveria ou dois tipos de eros, ou o único eros seria dividido em dois e dificilmente poderia ser dito uno e com devoção exclusiva; mas agora, uma vez que o eros absoluto é dito ser um e sentido com devoção exclusiva, podemos entender claramente que há também um amado.
- O eros sentido com devoção exclusiva é denominado “συνεπτυγμένος”.
- O amado deve existir antes do eros sentido por ele, não havendo maneira de alguém experimentar o eros do amado antes de primeiro avistar o amado. O eros é amor intenso (ἀγάπη), e este é o tipo de amor que a lei natural e escrita de Deus exige que tenhamos para com Deus: a lei natural persuade totalmente o intelecto amante da beleza (φιλόκαλος) a buscar o Superior, isto é, Deus, enquanto a lei escrita diz: “Amarás o Senhor teu Deus com toda a tua alma, com todo o teu coração e com toda a tua mente” (Deuteronômio 6:5), e “O Senhor teu Deus, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4).
- Quando o intelecto ascendeu ao Um além da mente, é impossível que ele não se apaixone perdidamente por Ele, pois encontra uma beleza inefável e inconcebível brotando Dele, como da raiz de todo o poder, caindo então sob a luz das iluminações divinas e maravilhando-se ao contemplar a Beleza além do intelecto, intoxicando-se como que por vinho e tornando-se, por assim dizer, louco de êxtase, sendo tomado por assombro além do pensamento, incapaz de suportar o peso da visão gloriosa de tão extraordinária Beleza.
- O Um além da mente é Um, e ainda assim é proclamado por todas as coisas, pois é a Causa Preoriginada de todas as coisas: como começo, como fim e como o poder que mantém todas as coisas juntas; produziu a beleza e a bondade de todas as coisas belas e boas na superabundância do poder que torna tudo belo e bom, enquanto Ele mesmo está a uma altura infinitamente infinita acima de toda beleza e bondade como o Um insuperável e transcendente; Ele sozinho é por natureza o objeto de amor (ἐραστός) acima de todos os amores, porque Ele sozinho é propriamente Belo e Bom, transcendendo tudo o que é belo e bom, e segundo a lei da natureza e da ordem, Ele sozinho é verdadeiramente amável (ἀγαπητός) como a Causa de todas as coisas.
- Para tudo o que é por natureza unificado no Espírito, a divisão é degradação, de modo que, se o intelecto é alguma vez dividido em energia, ele cai do estado de graça (κατὰ χάριν) que lhe é próprio, padecendo isso quando contempla várias coisas, pois é impossível permanecer indiviso quando está disperso em diferentes direções, sendo tal estado de sujeição à divisão mais propenso ao pecado do que qualquer outro, e é por isso que essa própria divisão é condenada por aqueles que são criteriosos nessas questões.
- O estado de graça é denominado “κατὰ χάριν”.
- Considerando que é natural que o poder noético do intelecto saboreie a Beleza além da natureza com seu sentido noético (νοερὰ αἰσθήσει) totalmente unificado, contemplando o Um supremo e transcendente, então esta divisão é contrária ao estado de graça. Devemos, portanto, apegar-nos ao Um transcendente (Ἕν) e contemplar somente o Único e Sozinho com toda a nossa alma para evitar a divisão e a diferenciação (ἑτερότης).
- O intelecto então vai além de sua natureza quando chega plenamente ao Um além do intelecto, após tornar-se sem forma, sem figura e totalmente além da forma em Deus — sem começo e infinito, e pode-se até dizer, após transcender sua própria união —, pois enquanto ainda tem seu poder de pensamento, mesmo que esteja engajado em coisas divinas e inteligíveis, diz-se que está se movendo e agindo naturalmente e permanecendo dentro dos limites de sua própria natureza, mas o sobrenatural naturalmente supera o natural e o excede em muito, devendo, portanto, desejar (φιλεῖν) e esforçar-se para atingir o sobrenatural, que é muito maior, conforme o mandamento que nos diz para esforçarmo-nos pelos maiores dons (1 Coríntios 12:31).
- A ação de desejar é expressa como “φιλεῖν”.
- É claro que, quando o intelecto atingiu o sobrenatural, ele atingiu Deus, pois Deus está naturalmente fora de toda natureza, uma vez que Ele é de fato o Um principal e absoluto, devendo o intelecto assim ascender e esforçar-se para contemplar e elevar-se ao Um principal e absoluto, para que, tendo ascendido ao Um além da natureza e ultrapassando sua própria energia natural, possa encontrar plenificação (βέλτιον) e transcender sua própria natureza.
- Cada coisa naturalmente se alegra e encontra repouso em seus próprios princípios (τὰ ἑαυτοῦ ἰδικά), os quais todos pré-existem na Causa primária (ἀρχαιάτατον αἰτίον) no sentido de que Ela é o único Princípio de sua causação (κατ’ αἰτίαν ἑνοειδῆ), e então o intelecto entrará na natureza em verdadeiros deleites em cumprimento de sua natureza, e não terá prazer fugaz, e encontrará repouso profundo, quando tiver ultrapassado e renunciado a todas as coisas e se devotado àquela Causa única, original e primordial, e assim através do retorno noético atingir o Um de quem todas as coisas e suas razões vêm a ser (isto é, seus princípios, meios e fins).
- Os princípios são denominados “τὰ ἑαυτοῦ ἰδικά”, a Causa primária “ἀρχαιάτατον αἰτίον” e a causação unforme “κατ’ αἰτίαν ἑνοειδῆ”.
- O intelecto tem uma certa maneira de retornar a si mesmo quando retorna àquela Causa principal de tudo, que é seu verdadeiro arquétipo, e porque tudo naturalmente se ama, e isso é especialmente o caso para o intelecto porque é uma imagem extremamente bela da beleza inconcebível do Um além do entendimento, ele tem um grande amor para olhar de volta para sua própria Causa através do retorno, pois, como foi dito, ele se vê nela e ama além do amor (ὑπεραγαπάω).
- Toda essência vem do Ser para além do ser e da essência, e toda natureza vem do Um além da natureza, e todos os seres temporais e compostos vêm do intemporal e do incomposto, e de fato todas as criaturas vieram a ser do incriado, e toda forma veio a ser do sem forma, e os múltiplos fenômenos vêm do Um além do universo, de modo que aquele que nem se devota nem direciona seu olhar ao Um sem forma como aquele de que depende, mas em vez disso olha para uma das coisas formadas e criadas, tal pessoa colocou o incomparavelmente inferior acima do Transcendente, e talvez esteja perto dos idólatras.
- Aquele a quem alguém se devota e direciona seu olhar é o objeto de seu desejo; o que ele deseja é o que o conquista; e o que o conquista é o que o escraviza (δεδούλωται) (2Pd 2,19). Tal pessoa verdadeiramente adora a criação em vez do Criador (Romanos 1:25), porque, seguindo este raciocínio, o intelecto de cada pessoa adora, torna-se servo (δεδούλωται) e ama aquilo em que fixa seu olhar e se devota.
- Se todos os seres desejam o ser, e a causa do ser de todas as coisas está contida no Um além do ser, então todos os seres, especialmente os racionais — desde que se movam corretamente e propriamente —, desejam na verdade o Um além do ser em seu desejo pelo ser, de modo que o intelecto que não se eleva em direção ao Um além do ser, e não O deseja, está engajado em um movimento perverso e equivocado (ἡμαρτημένος) e fica aquém de sua dignidade própria: o conhecimento do Um além do ser, a unidade unificadora sumamente divina e o amor a Ele que transcende o intelecto.
- O movimento perverso e equivocado é denominado “ἡμαρτημένος”.
- As causas (τὰ αἴτια) têm maior beleza do que seus efeitos (τὰ αἰτιατά), e além disso, a Causa universal de todas as coisas é o Um além da essência, de modo que, se o intelecto volta sua atenção para algo subsequente ao Um além da essência, considerando-o belo ou de alguma forma digno de atração noética, ele obviamente errou seu alvo (ἡμάρτηται ὁ σκοπὸς αὐτοῦ), porque é essencialmente amante da beleza (philokalic), mas, devido à sua ignorância ou indolência, em vez de se mover em direção ao primeiro e principal Um além da essência (pelo qual todas as coisas belas se tornam belas através da participação), ele se move em direção às coisas que derivaram sua beleza Dele.
- As causas são “τὰ αἴτια”, os efeitos “τὰ αἰτιατά”, e o erro de alvo “ἡμάρτηται ὁ σκοπὸς αὐτοῦ”.
- O intelecto que se direciona com sucesso estende o olhar da mente ao Um acima da essência, pois está certo de que encontrará ainda mais do que anseia, porque através desta visão noética ele atinge a Causa; e está bastante seguro de que nada pode comunicar-lhe sua própria bondade ou beleza senão o Um acima da essência.
- Todas as coisas naturalmente desejam o bem, e novamente, o Um é verdadeiramente Bom, embora muitos sejam chamados de “bons”, pois entre os muitos você não encontrará nada absolutamente bom e totalmente perfeito, por assim dizer, mas todo bem é chamado apenas de “bom” por ter uma certa participação no Bem, isto é, por participar do Bem e Um acima da essência, e não por possuir bondade de si mesmo, pois somente aquele Um além da essência é absolutamente bom e além do bem e a fonte de toda bondade, sendo comunicativo de Seu próprio bem; Ele sozinho naturalmente restaura a Si mesmo toda essência, existência, condição, poder, movimento, energia, propriedade e toda forma de beleza e bondade.
- Absolutamente todas as coisas, e as realidades que contemplamos sobre elas, receberam sua manifestação através de terem sido criadas pelo Um além da essência, de modo que o intelecto que é direcionado a qualquer outra coisa além do Um simples além da essência tem movimento desviado; ele pode até estar se movendo em direção a algum bem, mas não em direção ao Bem próprio e absoluto, que na superabundância de sua benevolência melhora e cumpre com bondade tudo o que requer melhoria e cumprimento (βελτίωσις) na bondade.
- Os intelectos de “os muitos” (οἱ πολλοί), que estão sujeitos à divisão por causa de sua tolice e distraídos pelos muitos (τὰ πολλά), não conhecem o bem que é absolutamente Um, nem sequer O buscam ou se interessam por Ele, concernente aos quais o Espírito diz através de Davi: “Muitos dizem: ‘Quem nos mostrará os bens?’” (Salmos 4:7) — eles não dizem “o Bem”, como seria de se esperar, porque estão ansiosos e perturbados sobre muitas coisas, quando Uma é necessária; participando deste Um é chamada a boa porção na santa palavra de Deus (Lucas 10:41-42) —, mas aqueles que foram conduzidos e ensinados por Davi e consideraram adequado seguir seus passos dizem: “A luz da Tua face, Senhor, foi assinalada sobre nós” (Salmos 4:7), ou seja, “O conhecimento da Tua glória única foi-nos exibido como num espelho”.
- Os muitos (pessoas) são “οἱ πολλοί”, os muitos (coisas) são “τὰ πολλά”.
- Os vulgares e “muitos” das massas se alegram em ‘muitos bens’, mas, em contraste, aqueles que vivem no Espírito são iluminados e transcendentemente iluminados no conhecimento do bem único e absoluto.
- Assim como a força de um fluxo de água é maior quando flui em uma única cascata do que quando é dividida e dividida em muitos canais, assim o olhar do intelecto e seu movimento e desejo naturais se tornarão mais fortes se ele se aplicar sem ser variegado e distraído, em uma unificação sem divisão, o que é feito naturalmente elevando o intelecto, contemplando e contemplando o Um transcendente e absoluto, pois o Um transcendente e totalmente simples é o que verdadeiramente tem o poder de reunir e unir; e uma vez que o intelecto é considerado digno de contemplá-lo, é então impossível que ele não seja conformado a Ele, como uma imagem, e se torne uniforme em uma ordem de unidade — simples, incolor, sem forma, sem atributo, impalpável, ilimitado, infinito, sem figura — e até mesmo se torne ele mesmo um ‘Um transcendente absoluto’ ao ser gloriosamente revestido com os raios do eros divino e transcendente na revelação do conhecimento místico.
- O versículo bíblico mencionado é Salmos 76:11.
- Deus é de fato a Unidade que unifica e Intelecto além da intelecção; e então o intelecto é transcendentemente formado na visão Dele, isto é, quando, além do que foi dito, ele se torna um além da intelecção e experimenta isso através da manifestação divina.
- A Divindade Tríade além da essência está unida em concordância transcendente, pois Deus é uma Unidade Tri-hipostática, não sendo possível, portanto, que a alma imageie uma semelhança de Deus, enquanto ainda for tripartite e ainda não se tiver tornado uma consigo mesma de maneira além da natureza, sendo a alma tripartite não em respeito às suas partes racional (λογιστικόν), irascível (θυμικόν) e apetitiva (ἐπιθυμητικόν), pois propriamente falando, a alma não é “tripartite” neste aspecto, uma vez que a alma racional dificilmente tem qualquer relação com apetite e raiva — de fato, derivamos estes da parte irracional e eles surgiram como consequência [da Queda] para nossa presente vida animal, sendo inerentemente irracionais e obscurecidos, enquanto a alma é racional e sua natureza é cheia de luz noética.
- As partes da alma são denominadas “λογιστικόν”, “θυμικόν” e “ἐπιθυμητικόν”.
- Deveríamos dizer que as coisas que pertencem propriamente à alma são aqueles atributos sem os quais ela não pode realizar sua própria energia e atividade natural, mas ela certamente pode agir apartada da raiva e do desejo; e é precisamente quando age sem eles que ela está verdadeiramente ativa, não sendo, portanto, estas verdadeiras partes da alma, mas, como foi dito, poderes do estado animal inferior e subsistem ao lado dele, pois a alma racional que examina noeticamente as coisas superiores e contempla realidades inteligíveis e se eleva além de si mesma e, eu diria, voa alto a tal altura, rejeita o desejo e a raiva como conversa fiada, não tendo utilidade para eles onde tem simplicidade, o sem forma, o sem figura, o incolor, o informe e todas as outras qualidades que pressupõem um intelecto livre e totalmente simples.
- O número uno sensível (μονὰς αἰσθητή) é a unidade principal (ἀρχή) de toda quantidade numérica (πλῆθος), e o Um transcendente (μονὰς ὑπερκόσμιος) é o princípio (ἀρχή) de toda quantidade (πλῆθος) perceptível e inteligível, e de tudo o que existe, de modo que, assim como a unidade principal (ἀρχή) de todo número é um, assim também tudo o que existe jorra do Um transcendente em um modo de causação, seja sendo causado naturalmente ou sendo criado.
- O número uno sensível é “μονὰς αἰσθητή”, a unidade principal “ἀρχή”, a quantidade “πλῆθος”, e o Um transcendente “μονὰς ὑπερκόσμιος”.
- O valor posicional (θέσις) do número um, porque é sensível, é ditado por sua natureza: uma vez que é a unidade principal (ἀρχή) de todo o sistema numérico, deve vir primeiro ao contar coisas sensíveis (ἡ αἴσθησις ἀριθμοῦσα). Mas no caso do Um transcendente, que está além do intelecto, o oposto é verdadeiro, pois enquanto Ele naturalmente está diante de todas as coisas como o Um, o intelecto O coloca depois de todas as coisas, porque nenhum intelecto jamais foi capaz de começar com o Um como um começo (ἀρχή) e proceder Dele para os muitos [como em uma sequência], mas, pelo contrário, começa sua ascensão a partir dos muitos e é reunido ao Um.
- Toda realidade (πάντα τὰ ὄντα) é dividida em realidades criadas sensíveis, realidades criadas inteligíveis, realidades incriadas inteligíveis e o Um incriado além do intelecto e da realidade (ὑπερούσιον), e, ao contemplá-las, o intelecto é ele próprio elevado (αἴρεται) da prática correta do recolhimento como se subisse os degraus de uma escada para o ato de contemplação, a fim de atingir a verdadeira Realidade (τὸ ὄντως Ὄν) e deleitar-se nas coisas celestiais, circundar os raios da verdade, exultar e tornar-se infinitamente rico em coisas eternas, experimentar um prazer e doçura maravilhosos, e talvez até ser arrebatado da terra através da sinergia da graça e, com o tempo, através da manifestação da luz noética, tornar-se impermeável às coisas presentes pela inspiração do Um além do intelecto e pela manifestação (φαντασία) do Um incomparavelmente além de todo bem.
- A realidade é “πάντα τὰ ὄντα”, o Um incriado além do intelecto e da realidade é “ὑπερούσιον”, a verdadeira Realidade é “τὸ ὄντως Ὄν”, e a manifestação é “φαντασία”.
- Esta escada sagrada é dividida em cinco segmentos e assim seus degraus nos conduzem ao objetivo final; não há distância espacial entre esses degraus, mas sua diferença e distância um do outro é uma ordem de qualidade ou tipo, não de grau. Por exemplo, tanto as coisas criadas sensíveis quanto as coisas criadas inteligíveis são realidades, mas estas últimas são tão superiores às primeiras quanto a beleza peculiar do intelecto é superior à sensação. Novamente, as realidades inteligíveis incriadas superam em muito as inteligíveis criadas, enquanto ambos os conjuntos pertencem à categoria “realidades” (ὄντα). No entanto, as realidades inteligíveis incriadas são dependentes (ὑποβεβήκασι) do Um incriado acima do intelecto.
- Três coisas dentro da alma exigem prática ascética (πρᾶξις): as partes racional, apetitiva e irascível; da mesma forma, três coisas fora dela: o desejo por glória, prazer e ganho (τὸ πλείον), sendo que, quando a alma considera sabiamente essas duas tríades [à luz da] vida de Cristo na carne, o intelecto é curado pela graça do Senhor Jesus através das quatro virtudes cardeais correspondentes, a saber, prudência, justiça, temperança e coragem, permitindo assim que a alma possibilite que o intelecto seja elevado sem impedimentos para perceber coisas divinas e contemplar Deus.
- A prática ascética é “πρᾶξις”, e o desejo de ganho “τὸ πλείον”.
- Quando o Senhor Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto para derrotar o diabo (Mateus 4:1-11), Ele curou a parte apetitiva pelo jejum, a parte racional pela vigilância e oração silenciosa, e a parte irascível repreendendo o diabo. Em relação ao amor ao prazer, Ele passou fome e não procurou que as pedras se transformassem em pão, como o diabo sugeriu; em relação ao amor à glória, Ele se recusou a lançar-se do pináculo do Templo para ser glorificado pelas multidões por não sofrer nada com a queda; em relação ao amor ao dinheiro, Ele não pôde ser persuadido a adorar o diabo com a promessa de receber a riqueza de todos os reinos, mas com contradição espirituosa (θυμοειδής) repreendeu Satanás; Ele fez isso por meio da prudência, justiça, temperança e coragem, ensinando-nos assim como frustrar todos os ataques do diabo.
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