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CALISTO TELIKOUDES – PRÁTICA HESICASTA

Sobre a prática hesicasta

Não há arrependimento sem quietude, nem é possível alcançar a pureza sem o retiro do mundo, pois, associando-se e vendo pessoas, não se pode ser feito digno da associação com Deus e da visão dele.

  • Aqueles que diligentemente se arrependeram, purificaram-se das paixões e alcançaram a associação com Deus e a contemplação dele, buscam a quietude por todos os meios, considerando necessário e utilíssimo fugir das pessoas com todo o desejo da alma.
  • Na quietude, começam com disciplinas como o pranto, a autocensura, as vigílias, o autocontrole e o trabalho corporal, cujo objetivo é o choro com lágrimas na compunção do coração, dedicando-se assim à purificação.
  • O objetivo destas virtudes práticas é a paz de espírito, e então o intelecto começa a examinar as naturezas dos seres, a entender a obra de Deus e a contemplar os seus atributos, penetrando nos segredos da Escritura.
  • A pessoa é então tomada pelo eros divino, alegrando-se ao atingir o amor do Criador de todas as coisas, evitando qualquer ilusão espiritual, embora sujeita a quedas e impulsos pecaminosos.
  • Tal pessoa se corrige repetidamente, afastando-se do desespero, e, tomando asas da esperança no amor de Deus pela humanidade, dedica-se às lágrimas e à oração, deleitando-se no paraíso divino do amor, sem ver forma, matéria ou figura alguma, mas apenas lágrimas, paz nos pensamentos e amor de Deus.

Enquanto estiver sentado em sua cela, o intelecto deve ter ousadia diante de Deus em toda a humildade: humildade por causa da própria indignidade e nulidade, e ousadia por causa do insuperável amor e paciência de Deus para com o homem.

  • Paulo nos exorta a nos aproximarmos com ousadia do trono da graça, e esta ousadia diante de Deus é verdadeiramente o olho da oração, ou as suas asas, desde que alguém não seja ousado por pensar que é bom – fuja de tal pensamento –, mas antes tome asas da inefável compaixão, amor e paciência de Deus numa ascensão às esperanças divinas.
  • Ore, portanto, com um espírito ousado e uma mente humilde, acalentando boas esperanças em Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Deve-se buscar diligentemente as coisas que acalmam o corpo e libertam o intelecto das perturbações: moderação na comida e bebida, sono curto, prostrações conforme a força, vestes pobres, discurso raro, dormir no chão e outras práticas que domam o corpo.

  • Juntamente com estas, deve-se buscar as disciplinas que despertam o intelecto e o ajudam a se apegar a Deus: leitura das Escrituras e dos Santos (com moderação), salmodia com entendimento, meditação das palavras das Escrituras e das maravilhas da criação, e oração com a boca até que a graça do Espírito manifestamente cause a oração no coração.
  • Esforce-se para fazer o seguinte: prostre-se quanto puder, e sente-se e ore; quando se cansar de orar, leia e depois retorne à oração; se ficar desanimado novamente, levante-se e salmodie por um tempo e depois volte à oração; se o desânimo persistir, envolva-se moderadamente na meditação e depois continue a oração.
  • Faça uso de um pequeno artesanato como obstáculo ao desânimo, e, em todo trabalho que agrada a Deus, de dia para dia, deixe a oração assumir a precedência, pois as outras práticas são feitas para se livrar do desânimo, tudo por causa da oração.
  • Quando a misericórdia visitar a alma e a graça do Espírito fizer jorrar a oração do coração como uma fonte, a partir desse momento o intelecto se envolverá apenas na oração e contemplação, deleitando-se apenas na oração e contemplação no Paraíso do amor divino.

A oração é superior a todas as boas obras, pois gera lágrimas de arrependimento, contribui grandemente para a paz nos pensamentos, leva a pensar apenas em Deus e traz o amor de Deus.

  • A oração sozinha purifica a parte racional da alma através da visão de Deus; preserva a parte desejante da alma em pureza diante de Deus, unindo todo desejo a Deus; e aquieta a irascibilidade, humilhando a alma pela dependência de Deus, pois ninguém que suplica a Deus pode ter um espírito altivo ou irascível.
  • Assim, todas as potências da alma e todas as suas energias, tanto práticas quanto noéticas, são purificadas e restauradas pela oração pura, especialmente quando acompanhada pela contemplação de Deus e o subsequente eros divino dentro da vida e prática da quietude.
  • Volte o pensamento e o olhar para dentro, para o lugar do coração de onde brota o pranto enquanto respira calmamente durante a oração, e permaneça lá o quanto puder, pois isso é grandemente benéfico, induz choro constante e abundante, abole o cativeiro do intelecto, traz paz noética, torna-se um incentivo à oração e ajuda a encontrar a oração do coração.

Assim como correspondem à natureza divina, por um lado, e à natureza humana, por outro, duas espécies diferentes de pranto, e consequentemente duas espécies de lágrimas, que diferem em gênero ou forma.

  • Ambas são boas e dadas por Deus, mas as primeiras têm sua origem no temor divino e causas de tristeza, não trazem tanta alegria e são próprias dos principiantes, enquanto as últimas têm sua origem no amor divino e em Deus, trazem alegria abundante e maravilhosa e são próprias daqueles que atingiram a perfeição através da graça.

Há cinco obras da quietude: a oração (lembrança constante de Jesus introduzida no coração enquanto respira, sem qualquer tipo de pensamento, através de completo autocontrole no comer, dormir e outros sentidos, dentro da cela com humildade); salmodia em intervalos; leitura dos Santos Evangelhos, dos Padres divinos e de capítulos sobre a oração (especialmente de Simeão, o Novo Teólogo, Hesíquio e Nicéforo); meditação do juízo de Deus ou lembrança da morte; e, finalmente, algum artesanato.

  • Depois de fazer estas, retorne à oração, mesmo que a tarefa exija esforço, até que o intelecto se acostume a cessar o vaguear pela lembrança do Senhor e a contínua descida ao trabalho do coração.
  • Esta é a obra dos monges noviços que desejam praticar a hesiquia; tal pessoa não deve sair frequentemente da cela, devendo evitar ver ou conversar com alguém, a menos que por grande necessidade, e mesmo assim raramente, com cuidado e cautela, pois este tipo de envolvimento causa distração não apenas a principiantes, mas até mesmo àqueles que já progrediram espiritualmente.

A oração com atenção, isto é, sem qualquer pensamento, é realizada assim: através da frase “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, o intelecto se eleva ao Senhor em lembrança dele, e então, através da frase “tem misericórdia de mim”, volta a si mesmo, pois não pode deixar de orar por si mesmo.

  • Quando atingiu o amor pela experiência, o intelecto é simples e totalmente elevado ao Senhor Jesus Cristo, tendo recebido a certeza sobre a segunda parte da oração, e por isso os Santos Padres não descreveram a Oração de Jesus como sendo sempre dita na sua totalidade: Crisóstomo menciona a oração inteira, Paulo menciona apenas o “Senhor Jesus” (acrescentando “pelo Espírito Santo”), e João Clímaco diz apenas o nome “Jesus”.
  • Os principiantes podem às vezes orar com todas as palavras da oração, e às vezes com uma parte dela, mas não devem mudar continuamente as palavras para que o intelecto não se distraia.
  • Persistindo no método da oração pura do coração (mesmo que não seja totalmente pura porque ainda é impedida por preocupações e pensamentos), quem luta adquirirá o hábito de orar sem esforço, mantendo o intelecto no coração – não descendo à força com a respiração e depois subindo descuidadamente, mas deixando o intelecto habitar ali por sua própria vontade – e isso é propriamente chamado de “oração do coração”.
  • Esta oração é precedida por um certo calor no coração, que remove os obstáculos que antes impediam a oração de ser realizada de maneira totalmente pura, e então o intelecto permanece no coração e ora sem impedimentos.
  • Deste calor e oração nasce no coração o amor pelo Senhor Jesus, e deste amor fluem lágrimas doces em abundância por anseio por Jesus enquanto ele é lembrado.

Para alguém ser feito digno destas coisas e do que se segue, deve esforçar-se para manter o temor de Deus diante dos olhos, com a lembrança de Jesus no coração (não apenas superficialmente) para evitar não só más ações, mas também pensamentos passionais, progredir espiritualmente e receber a plena certeza do amor de Deus ainda nesta vida.

  • Que ele não busque a manifestação de Deus, para não aceitar erroneamente o diabo que se disfarça de luz; quando seu intelecto vir luz sem buscá-la, não a aceite nem a rejeite, mas consulte alguém com poder de Deus para explicá-lo, aprendendo o que é genuíno.
  • Se encontrou um guia espiritual que ensina não apenas pela Escritura, mas porque ele mesmo sofreu a bem-aventurada iluminação divina, graças a Deus; se não, é melhor não aceitar a luz vista, mas refugiar-se em Deus em humildade, chamando-se indigno de tal visão, conforme ensinado pelos Padres.
  • Neste momento, deve-se entender que, assim como quem quer aprender a atirar com arco não estica o arco antes de ter alvos para prática, quem deseja aprender a viver em quietude deve ter a constante mansidão de coração como seu alvo, pois a pessoa mansa nunca perturba ninguém, nem é perturbada, a menos que por razões de piedade.

Esta mansidão pode ser facilmente alcançada afastando-se de todas as coisas e mantendo silêncio o máximo possível.

  • Se o hesicasta alguma vez for perturbado por algo, deve arrepender-se imediatamente e culpar a si mesmo, e a partir de então ser mais cuidadoso, para que possa fazer um novo começo na invocação de Jesus com quietude e consciência limpa, e então terá a graça divina repousando em sua alma à medida que avança neste caminho.
  • A graça proporcionará à alma perfeito descanso dos demônios e paixões que antes a molestavam, e alegrará a alma com alegria inefável; e mesmo se ainda a incomodarem, não poderão influenciá-la, pois ela não tem associação com eles, nem deseja o prazer que eles oferecem, pois todo o seu desejo foi elevado ao Senhor que lhe deu a sua graça.
  • Deus então permite que ele seja atacado, mas não porque o abandonou, e sim para evitar que seu intelecto se encha de orgulho pelo bem que alcançou, e para que, sendo sujeito à guerra espiritual, ele sempre assuma a humildade; por esta humildade somente, não só é capaz de conquistar os demônios que lhe fazem guerra soberbamente, mas também é feito digno de dons continuamente maiores.
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