Antonio Orbe — Parábolas Evangélicas em São Irineu
** Capítulo 17 — O mordomo infiel (Lc 16,9) **
A produção literária de
Irineu de Lyon menciona exclusivamente a sentença final da parábola sobre o uso das riquezas injustas.
O texto evangélico recebido traz a variante única sobre a recepção nos tabernáculos eternos por ocasião da fuga dos fiéis.
A instrução assegura ao cristão a legitimidade do uso dos bens materiais em benefício próprio e para a assistência aos necessitados.
** Expólio dos egípcios **
A resposta de
Irineu classifica os ataques dos oponentes de Yahvé como uma demonstração de grave ignorância a respeito dos mistérios divinos.
O desespero interpretativo decorre do desconhecimento das justificações de Deus e das reais disposições que regem a economia.
A dimensão figurativa do Êxodo estruturava-se para prefigurar o real êxodo da Igreja para fora da comunidade dos povos gentios.
O estabelecimento da
tipologia bíblica define o povo de Israel como o tipo do qual os cristãos constituem o cumprimento verdadeiro.
A nação do Egito com suas riquezas acumuladas figurava a totalidade da gentilidade da qual sairiam os membros da Igreja.
A permanência dos cristãos na posse de bens materiais adquiridos no período do paganismo justifica a aplicação do princípio do expólio.
A salvação humana far-se-ia impossível caso a entrada na fé exigisse o despojamento absoluto de todas as posses terrenas.
A teologia de
Irineu resguarda a legitimidade do direito de propriedade privada sobre casas, vestes e objetos de conveniência.
A absolvição aplica-se mesmo às riquezas angariadas por ganância pessoal antes do recebimento do batismo na fé.
A execução normal do comércio dificilmente realiza-se com total isenção de faltas ou de interesses de lucro entre as partes.
A obrigação do cristão consiste em administrar os bens materiais como propriedade alheia, exercendo a virtude da esmola.
A remissão de pecados na era evangélica realiza-se pelo batismo, pelo martírio e pela prática constante da misericórdia aos pobres.
A recepção das teses de Filon manifestou-se explicitamente na obra de
Clemente de Alexandria e nos comentários de Procópio de Gaza.
A lei de guerra outorga aos vencedores o domínio sobre os bens possuídos pelos vencidos após o término do conflito.
A soberania absoluta de Deus sobre o ouro e a prata autoriza a transferência das riquezas para quem for de sua vontade.
A alegoria dos despojos em
Orígenes modificou o foco ao identificar as riquezas do Egito com o uso das ciências em suporte à teologia.
A concordância de
Irineu com a paráidosis filoniana ocorre em linhas gerais, mas preserva independência na organização do argumento do salário.
O Egito possuía dívida histórica com os patriarcas desde o período em que a sabedoria de José salvou a população da morte.
O trabalho servil imposto aos israelitas na fabricação de tijolos e na edificação de cidades gerou o enriquecimento dos egípcios.
A ingratidão da nação manifestou-se na tentativa de extermínio total do povo que lhe prestava os serviços de escravidão.
A retirada de uma quantidade mínima de ouro e prata não constitui ato de injustiça perante a magnitude do trabalho executado.
O julgamento reto condena o senhor que retém o homem livre em servidão e absolve o escravo que se retira com um auxílio módico.
A hipocrisia dos críticos manifesta-se no porte de moedas com a inscrição do César enquanto condenam o recebimento de vasos sem marca por Israel.
A formulação das Antíteses de Marcion contrapunha o mandato do Êxodo sobre o expólio ao preceito de
Jesus sobre a pobreza dos discípulos.
A aparente contradição é superada pela exposição do real sentido do conselho evangélico a respeito da distribuição das vestes.
O mandamento sobre o despojamento da túnica sobressalente visa orientar a conduta do fiel no trato com os bens vindos de fora.
O resgate das almas realiza-se por meio da liberalidade que transforma os bens terrenos em instrumentos de justificação.
A afirmação de que vivemos de coisas alheias não valida a tese heterodoxa sobre a origem maligna do universo material.
A matéria permanece sob a propriedade de Deus, mas os objetos necessários à conservação humana são recebidos através dos gentios.
O contraste entre a conduta de Israel e a ação da Igreja confirma o caráter preparatório de todos os eventos do
Antigo Testamento.
A totalidade da saída do Egito prefigurava a futura constituição da Igreja por meio da aglutinação dos povos gentios.
A condução da herança final realiza-se sob a autoridade de
Jesus,
Filho de Deus, que assume o lugar ocupado por Moisés.
A análise das profecias e das visões do Apocalipse indica a extensão universal das pragas que outrora atingiram o Egito de forma parcial.
A justificação do cristão cumpre-se na conversão dos bens adquiridos na injustiça do paganismo para a utilidade do Senhor.
** «Mammona» **
A leitura de
Irineu sobre o destino dos justos após o escape do mundo incorpora a variante textual sobre a fuga.
A recepção nas moradas eternas realiza-se no evento da ressurreição final e do juízo, e não no momento da morte individual.
A identificação do acolhedor aponta para a pessoa de Cristo, que assume como feito a si mesmo o serviço prestado aos desvalidos.
As mansões da casa do
Pai abrem-se para abrigar os corpos dos fiéis que foram edificados como templos de imortalidade.
A conversão das posses materiais para o serviço do Senhor opera o batismo dos bens e a consequente justificação do homem.
A exegese do
Tertuliano montanista afasta-se do modelo de
Irineu ao afirmar que a parábola do mordomo direcionava-se aos judeus.
A igualdade entre Mammón e Yahvé foi utilizada por Marcion e pelos gnósticos para fundamentar a oposição entre o
Pai e o Deus criador.
A refutação de
Irineu esclarece que o Salvador não conferiu a dignidade de senhor legítimo à figura de Mammón no texto evangélico.
O ensinamento de
Jesus visa alertar os discípulos sobre a impossibilidade de submissão simultânea a Deus e às exigências de Mammón.
O senhorio exercido por Mammón constitui uma condição falsa que se estabelece pela entrega voluntária dos homens ao pecado.
A analogia com o escravo demonstra que o indivíduo que comete o pecado assume a condição de servo da própria transgressão.
A definição verbal fornecida por
Irineu decompõe o significado de Mammón em conformidade com as tradições linguísticas antigas.
O idioma aramaico utilizado por samaritanos e judeus traduz o termo como a condição do codicioso que busca reter além do necessário.
A tradição hebraica com a adição do sufixo divino interpreta a palavra sob o sentido de glotão ou incapaz de conter os impulsos da gula.
A posterior herança filológica de
Jerônimo e
Agostinho fixou o significado de Mammón como sinônimo direto de riquezas ou de lucro.
A erudição de
Irineu detém a primazia histórica, embora seus conhecimentos linguísticos particulares não tenham sido adotados pelos Padres.