Antonio Orbe — Parábolas Evangélicas em São Irineu
** Exegese fora de San Ireneo **
** Parte Primeira — Exegese fora de San Ireneo **
** b) Exegeses heterodoxas **
Os pensadores heréticos antigos demonstraram inicialmente pouco interesse pela narrativa, tendo
Marcion cortado a parábola inteira dos dois filhos de seu texto evangélico.
Os manuscritos de Nag Hammadi, como os
Evangelhos de Tomás e de Filipe e o Apócrifo de João, não preservaram vestígios ou comentários diretos a respeito de Lucas 15,11—32.
O fragmento dos Excertos de Teódoto que alude ao texto possui características que se aproximam mais do pensamento de
Clemente de Alexandria do que das correntes
valentinianas.
O exame do binômio eclesiástico entre chamados e escolhidos serve de base para desvelar a leitura
valentiniana oculta sobre os dois irmãos da parábola.
A heresia medieval dos bogomilas aplicou as passagens lucanas à estrutura de seu próprio mito cosmológico sobre os dois filhos do
Pai.
As fontes medievais dividem-se entre considerar Cristo como o filho maior e o
diabo como o menor, ou inverter os papéis com base na queda de Satanael e na posterior atribuição do direito de primogenitura ao
Filho celeste.
Certos grupos de cátaros dotados de um dualismo mitigado contrapunham o príncipe deste mundo, como o filho maior, ao espírito de Adão, identificado como o filho pródigo.
** c) Tertuliano **
O Diatessaron de
Taciano acolheu diversos versículos da narrativa e propiciou uma estranha contaminação com o texto de Mateus 11,11.
O fragmento preservado afirmava que o menor que despilfarrou suas riquezas assume uma posição maior do que João Batista no reino dos céus.
A leitura sugere o problema exegético de elevar os pecadores arrependidos do tempo evangélico acima dos maiores justos pertencentes à Antiga Lei.
Tertuliano inaugura a grande tradição exegética latina da parábola em seu tratado Sobre a penitência, definindo o pai como Deus e o pródigo como o pecador arrependido.
O pródigo representa a condição de cada um dos mortos que, despindo-se das riquezas originais e da primeira túnica na casa paterna, retorna nu devido ao pecado.
O autor africano elenca as marcas indispensáveis ao verdadeiro penitente: o sentimento do coração, a consciência da miséria, a mudança de conduta, o regresso ao
Pai e a confissão das culpas.
A obra Sobre a paciência utiliza a mesma narrativa para ressaltar que a penitência humana necessita encontrar amparo na paciência de Deus para manter sua eficácia.
A mudança de postura teológica de
Tertuliano reflete-se no tratado montanista Sobre a pudicícia, onde ele ataca a interpretação alegórica que dividia os dois filhos entre o povo judeu e o cristão.
O papa Dámaso e o historiador
Jerônimo retomaram os mesmos impasses hermenêuticos a respeito da fidelidade oficial atribuída ao irmão mais velho.
Jerônimo responde que Israel representava a justiça legal e externa da Lei Mosaica, assemelhando-se ao fariseo e ao jovem rico que se julgavam justos sem haver cumprido os mandatos divinos na intimidade.
Os bens apontados pelo
Pai na resposta ao filho mais velho significavam a posse da lei, dos profetas e dos oráculos sagrados concedidos prioritariamente aos hebreus.
** d) Clemente Alejandrino **
** d) Orígenes **
Orígenes aborda a trajetória do filho pródigo a partir de um comentário crítico às teorias gnósticas de
Heracleon sobre a perdição da substância espiritual na matéria.
O mestre eclesiástico adota os parâmetros locais para definir o pródigo como a natureza racional que abandona de forma voluntária a região celeste para viver na irracionalidade.
A queda representa o descenso da inteligência ou mente que se transforma em alma ao dispersar suas potências no ambiente corpóreo e material.
As Homilias sobre o Gênesis e o Levítico conectam o novilho cevado sacrificado pelo pai ao simbolismo da imolação e do sacrifício de Cristo.
O
Filho unigênito inmaculado foi enviado pelo
Pai para conceder vida ao mundo por intermédio de sua humilhação e da morte na cruz.
Sob a perspectiva moral, o pontífice que sacrifica figura o intelecto religioso do indivíduo, cujas faltas exigem a aplicação dos méritos da mortificação de Cristo para reaver a saúde do povo interno de boas ações.
A infusão do
Espírito Santo funciona como o óleo da graça que possibilita ao convertido purificar-se, receber o anel e restabelecer sua antiga condição de filho junto ao
Pai.
O comentário sobre o Livro dos Números identifica na comarca e na cidade da parábola o símbolo do cosmos e do mundo presente.
O cidadão primário daquela região a quem o pródigo se sujeita representa o príncipe deste mundo ou o
diabo.
O Salvador opera a libertação do homem ao retirá-lo do império diabólico por meio de uma perda proveitosa da vida anterior de vícios.
A música e a sinfonia escutadas pelo irmão mais velho significam a harmonia e a concórdia restabelecidas entre a alma penitente e Deus.
** Parte Segunda — Irineu **