8 Orígenes

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

8 “Eu vos suplico: transformai-vos”: Orígenes

1. Entre maio de 200 e meados de 203, Leto, o augusto Prefeito do Egito, recolheu um grupo de cristãos de Alexandria e do Egito propriamente dito, e o pai de Orígenes estava entre eles, pois Orígenes tinha, na época, dezesseis ou dezessete anos, sendo o filho mais velho de uma família de sete irmãos, e sua mãe escondeu suas roupas por medo de que ele corresse ao encontro do pai apresentando-se às autoridades.

2. Era, escreveu Eusébio de Cesareia um século depois, uma extraordinária ambição em alguém tão jovem, pois Orígenes entrou na idade adulta endurecido pela proximidade da morte.

3. Para ele, a tensa antítese entre a paternidade verdadeira e a falsa, o contraste entre continuidades criadas pela orientação espiritual e pela mera reprodução física, tão corriqueiro nos círculos de ensino cristãos do século II, tornou-se uma dura realidade da vida, pois a lealdade do rapaz a um pai que tanto esperara dele foi arrancada de seu curso normal pelo golpe brutal da execução.

4. Toda a continuidade, toda a fidelidade que Orígenes passou então a desejar encontrava-se nos vínculos mais sutis e mais duradouros de alma para alma, criados entre um mestre e seus discípulos dentro da igreja cristã, pois estabelecido em Alexandria, Orígenes tornou-se guia espiritual em idade sumamente precoce.

5. Um núcleo de jovens cristãos comprometidos e de convertidos recentes gravitava em torno do brilhante jovem mestre e filho de mártir, pois, quando a perseguição tornou a ser deflagrada entre 206 e 210, o grupo ao redor de Orígenes mostrou uma surpreendente capacidade de recuperação.

6. O clero alexandrino desapareceu discretamente, deixando a Orígenes a tarefa de manter o moral de seus pupilos espirituais, pois, enfrentando a turba hostil — um ato de coragem nada insignificante numa cidade famosa por sua lei de linchamento —, o jovem professor se adiantou para depositar em seus filhos espirituais o beijo solene que declarava que eles se haviam tornado dignos da morte de seu mártir.

7. Sabe-se surpreendentemente pouco, a partir das obras do próprio Orígenes, sobre a tessitura dos demais quarenta anos de sua vida em Alexandria e em outras regiões, pois sua carreira de professor em Alexandria encerrou-se em 234, com o virtual exílio e transferência de sua escola para Cesareia, na costa marítima da Palestina.

8. Ali ele lecionou e pregou regularmente como sacerdote, expondo as Escrituras Sagradas na igreja, até vir a falecer aproximadamente em 253-254, em decorrência das torturas que lhe tinham sido infligidas no ano anterior na prisão de Cesareia.

9. Com Clemente, tinha-se sido estimulado a examinar à volta todos os detalhes da vida dos cristãos numa grande cidade; com Orígenes, esse mundo atarefado desaparece: já se respira o ar imutável do deserto, pois o tempo se detém num Sinai espiritual em que, por quarenta anos, Orígenes, o exegeta, extrai das Escrituras o doce alimento dos anjos.

10. Orígenes se considerava acima de tudo um exegeta, pois, voltando-se para a imutável Palavra de Deus, empenhou-se em alcançar uma tranquilidade de ícone, em manter seu semblante firme diante do povo.

11. Sendo um homem cujo coração ardia com o fogo oculto das Sagradas Escrituras, a erudição pausada e atemporal de Orígenes trouxe um sopro de imutabilidade às comunidades cristãs de Alexandria e Cesareia, no exato momento em que essas comunidades começavam a avançar precipitadamente para uma nova era de prosperidade, repleta de oportunidades de contemporização com o mundo e marcada pela recriminação intelectual e pela busca flagrante de poder em meio ao clero.

12. O que lhe granjeou a admiração dos intelectuais cristãos de todos os séculos posteriores não foi tanto o que Orígenes ensinou, por mais excitante e amiúde perturbador que isso pudesse ter sido, pois foi a maneira como, na qualidade de exegeta e guia espiritual, Orígenes apresentou a vida de um mestre cristão como algo suspenso acima do tempo e do espaço, e foi isso que o tornou um modelo de papel, um santo da cultura cristã, um homem passível de ser aclamado, um século depois, como o estímulo de todos nós.

13. Desde o princípio, a mensagem de Orígenes foi clara e confiante: eu vos suplico, portanto, que vos transformeis, decidi-vos a saber que há em vós uma capacidade de vos transformardes, pois nessa frase pode-se efetivamente ouvir a fala de Orígenes, extraída do registro taquigrafado de uma discussão entre Orígenes e um grupo de bispos meio perplexos, que sobreviveu num papiro descoberto em Tura, ao sul do Cairo, em 1941.

14. Em torno do ano de 229/230, Orígenes sentiu-se livre para se dedicar a seu livro mais notável, o Peri Archôn, Dos Princípios, pois estava então no final da casa dos quarenta, idade em que um filósofo sério era considerado suficientemente ancorado em décadas de meditação e de experiência direta da orientação espiritual oral, além de haver suscitado críticas suficientes entre seus colegas, para que valesse a pena investir seu tempo em colocar seus pensamentos no papel.

15. Nesse livro, ele aproveitou a oportunidade para explicitar seus pressupostos sobre a posição dos seres humanos no universo, que tinham estado subjacentes a sua alquimia pessoal como exegeta e norteador de almas, pois o problema levantado por Orígenes foi simples: como foi que passou a haver uma multiplicidade tão grande e diversificada entre as criaturas?

16. Era o velho problema platônico — como tinha a diversidade observada no mundo material emergido da unidade originária do mundo das Ideias? —, pois sua resposta à pergunta, entretanto, foi magnificamente idiossincrática.

17. Em sua opinião, cada criatura escolhera livremente ser diferente de seus semelhantes, e cada diferença refletia um grau exato de declínio de uma perfeição comum originária ou de progresso rumo a ela, pois criados originalmente idênticos como espíritos angelicais, todos os espíritos haviam decaído ao escolher, por sua livre vontade, negligenciar, ainda que infimamente — e também, no caso dos demônios, rejeitar —, o calor vivificador da presença de Deus.

18. O que hoje se chama alma, o eu subjetivo, foi meramente o resultado de um esfriamento sutil do ardor original do eu primevo e mais profundo: o espírito, pois, como assinalou Orígenes, a palavra psyché, alma, derivava de psychros, frio.

19. Comparado ao espírito flamejante que se elevava num lampejo, sempre se esforçando por reentrar no fogo primevo de Deus, o eu consciente era uma coisa embotada, entorpecida pela fria ausência do amor, pois a estarrecedora diversidade do universo atual, dividido entre fileiras de anjos e demônios invisíveis e marcado na terra por uma variedade aparentemente infinita de destinos humanos, era o produto final de incontáveis escolhas particulares pelas quais todos os espíritos haviam optado livremente por ser o que eram agora.

20. O aspecto mais evidente dessa concepção era um sentimento monótono de divina insatisfação com as limitações atuais da pessoa humana, pois uma vasta impaciência perpassava o universo.

21. Cada ser — angelical, humano ou demoníaco — se havia de algum modo afastado de Deus, através do pecado insidioso e fatal da presunção, pois cada um dos poderosos espíritos tinha feito, e ainda poderia fazer, uma terrível opção por continuar contente com seu estado atual e por desprezar a oportunidade de se expor ao fogo ardente do amor divino.

22. Para Orígenes, Cristo fora o único ser cujo eu originário mais profundo havia permanecido não esfriado pela inércia, pois somente o poderoso espírito de Cristo permanecera inseparavelmente unido a Deus, tal como o alvo calor do ferro se fundia com as chamas da fornalha em que ele se apoiava.

23. Todos os outros seres tinham de vivenciar um sentido implacável de tristeza e frustração: a definição primária, mais verdadeira e mais expansiva de seu eu se estendia inevitavelmente para além das condições estreitas de seu modo de vida presente, pois uma sombra de pesar sempre recaía sobre o corpo.

24. Quer esse corpo fosse o contorno etéreo de um anjo ou a carne sólida de um ser humano, o corpo era sempre um limite e uma fonte de frustração, mas era também um desafio; era uma fronteira que pedia para ser transposta, pois as tendas, assinalou Orígenes, eram invariavelmente mencionadas de maneira favorável no Velho Testamento, representando os horizontes ilimitados de cada espírito criado, sempre prontas a ser desarmadas e novamente erigidas, indefinidamente.

25. As casas, ao contrário, eram símbolos da terrível sociedade, enraizadas, firmadas e definidas por limites fixos, pois até os seres mais resplandecentes eram afetados por essa tristeza: Orígenes acreditava que a imensa alma do sol se comprimia incessantemente contra seu disco radiante, e que seu espírito suspirava como havia suspirado S. Paulo: quisera eu ser dissolvido e estar com Cristo, pois isso é muito melhor.

26. Se a tensão para transcender os limites atuais do eu era o aspecto mais vívido da concepção de Orígenes sobre a pessoa humana, foi o menos original, pois o que mais lhe interessava era como conciliar o impulso de transformação — compartilhado por muitos platonistas e gnósticos cristãos da escola de Valentino, com quem ele travava um diálogo constante — com o sentimento da incomensurável sutileza da justiça divina ao colocar o espírito decaído dentro dos limites temporários de um corpo material particular.

27. O universo material como um todo, na opinião dele, fora submetido à frustração, não por vontade própria, mas fora submetido na esperança, pois, para Orígenes, a queda de cada espírito num corpo particular não fora de modo algum um cataclismo; ser colocado num corpo era vivenciar um ato positivo da misericórdia divina.

28. Orígenes se distanciou de muitos de seus contemporâneos ao insistir em que o corpo era necessário para a lenta cura da alma, pois somente fazendo pressão contra as limitações impostas por um ambiente material específico é que o espírito aprenderia a recuperar seu anseio mais primitivo de se estender para além de si mesmo, de se abrir de maneira cada vez mais plena e mais calorosa para o amor divino.

29. O corpo constituía um desafio que contrabalançava o pecado entorpecedor da presunção, pois por isso o mundo ante nossos olhos tornou-se um mundo material, em benefício dos espíritos necessitados de uma vida transcorrida na matéria física.

30. Quando muito, pensava Orígenes, os demônios é que eram dignos de pena: afastados por sua imensa presunção do amor divino, seus corpos tinham ficado perfeitamente sob o controle de sua vontade soberba, pois sua carne sinistra era tão maleável quanto o frio vento do Norte, e eles são considerados indignos da instrução e do treinamento mediante os quais, através da carne, a raça humana, auxiliada pelos poderes divinos, é instruída e treinada.

31. Daí a profunda ambivalência de Orígenes em relação ao corpo humano, pois, examinando o corpo de perto, como fonte de tentação e frustração, Orígenes ofereceu um escasso consolo a seus leitores: tendes carvões em brasa; sobre eles vos sentareis e eles vos serão úteis.

32. Todavia, aos olhos de Deus, a cada espírito humano em particular fora destinada uma dada constituição física como seu contendor apropriado, pois o corpo material de cada um era específico dessa pessoa e fora delicadamente dimensionado por Deus, o único perscrutador de corações, para desafiar o espírito potencialmente poderoso de cada um a se estender para além de si mesmo.

33. Assim, longe de encarar o corpo como uma prisão da alma, Orígenes chegou a uma inesperada familiaridade com ele, pois sempre lhe pareceu que o espírito de cada pessoa devia ser tão vivamente distintivo quanto o eram os traços de seu rosto.

34. A doce precisão da misericórdia divina assegurava que cada corpo se adaptasse às necessidades peculiares de sua alma, até os mais ínfimos detalhes, exatamente como as linhas da grafia de cada um eram-lhe inconfundivelmente próprias, pois as relações de cada um com o corpo, portanto, tinham sua própria história insondavelmente particular: aos olhos de Deus, a castidade de Pedro era tão diferente da castidade de Paulo quanto o era a assinatura de cada Apóstolo.

35. Confrontados com sua própria natureza humana irredutivelmente particular, todos os fiéis lutavam por manter em si o imenso ímpeto do anseio de seu espírito por Deus, pois a visão de luta espiritual de Orígenes penetrou na corrente de todas as futuras tradições de orientação ascética dos mundos da Grécia e do Oriente Próximo.

36. Ela envolveu o ser humano num diálogo solene e contínuo com os poderes intangíveis que roçavam a mente, pois, se somos dotados do livre arbítrio, é muito provável que alguns seres espirituais sejam capazes de nos exortar ao pecado, e outros, de nos assistir rumo à salvação.

37. Os anjos e demônios eram tão próximos dos cristãos do século III quanto o são os aposentos contíguos, pois a alma livre se expandia no amor ou resvalava de novo para uma saciedade entorpecida, conforme sua opção de buscar conselheiros nos espíritos invisíveis e poderosos que se achavam tão perto de todas as pessoas.

38. Nos momentos de intensa oração, por exemplo, o fiel podia sentir, na serenidade imperturbável da mente, o toque do silêncio tranquilo dos espíritos angelicais que estavam ao lado de todos os cristãos, amorosamente interessados em que todos os seres humanos se unissem a eles em sua irrestrita adoração de Deus.

39. Cercado por todos os lados por ajudantes invisíveis e sedutores invisíveis, o fluxo de pensamento dos cristãos raramente podia ser considerado neutro, pois a devoção e as resoluções firmes irrompiam na consciência através da disposição da alma de cooperar com seus guias angelicais.

40. Essas presenças protetoras traziam à tona as propriedades sadias da pessoa, tão misteriosa e intimamente quanto o contato com os cataplasmas curativos mobilizava as energias de humores situados muito abaixo da pele, pois os temas das meditações dos cristãos despontavam no coração com um poder que muitas vezes revelava recursos mais profundos que os da mente consciente e isolada: abençoado é o homem cuja aceitação está em Ti, Senhor: Tua ascendência está em seu coração.

41. O mesmo acontecia com a tentação, pois consentir nos maus pensamentos, muitos dos quais eram ocasionados, em primeiro lugar, pelos ruídos surdos do corpo — sua necessidade de alimento e seus impulsos sexuais orgânicos — implicava a decisão de colaborar com outros espíritos invisíveis, os demônios, cuja presença penetrante e próxima do ser humano se registrava no coração sob a forma de imagens, fantasias e obsessões impróprias.

42. É que essas incitações demoníacas também tinham um dinamismo que não podia ser explicado pelo fluxo normal do pensamento consciente, pois, por conseguinte, para Orígenes, assim como para todos os autores ascéticos posteriores, o coração era um lugar em que opções momentosas, de feições ignoradas, condensavam-se misericordiosamente sob a forma de fluxos conscientes de pensamento — os logismoi.

43. Não era de surpreender, portanto, que o sábio Salomão tivesse dito: guarda teu coração com toda a diligência, pois consentir nesses logismoi era consagrar-se a parceiros demoníacos.

44. Era entregar-se, em muitos outros níveis do eu além da pessoa consciente, a uma identidade alternativa: era perder-se para os poderes de entorpecimento que ainda espreitavam nos recônditos obscuros do universo, e assumir o caráter dos frios espíritos demoníacos que se haviam contentado em existir sem a busca ardorosa de Deus.

45. Orígenes legou a seus sucessores uma visão da pessoa humana que continuou a inspirar, fascinar e desanimar todas as gerações subsequentes, pois transmitiu, acima de tudo, um profundo sentimento da fluidez do corpo.

46. Certos aspectos básicos dos seres humanos, como a sexualidade, as diferenças sexuais e outros atributos aparentemente indestrutíveis da pessoa, associados com o corpo físico, afiguraram-se a Orígenes meramente provisórios, pois o corpo humano atual refletia as necessidades de um momento isolado e um tanto restrito do progresso do espírito de volta a uma identidade anterior ilimitada.

47. O corpo, no sentido de uma moldura limitadora do espírito, permaneceria com todas as criaturas durante todo o seu prolongado período de cura, mas Orígenes teve o cuidado de assinalar que esse corpo não teria necessariamente uma continuidade com o organismo físico atual, pois seria igualmente transformado, junto com o espírito, ao longo de eras diversificadas e incomensuráveis, das quais a vida atual era um breve interlúdio.

48. A transformação do corpo nas eras futuras de sua existência implicaria um longo e misterioso processo, tão esplêndido em seu efeito final quanto a matéria pura e curada que emergia do cadinho dos alquimistas como ouro, pois o corpo em si se tornaria menos espesso, menos coagulado, menos endurecido, à medida que a inércia entorpecedora do espírito derretesse sob o calor crescente de seu anseio pela Sabedoria Divina.

49. Como ocorria sob o delicioso efeito do vinho novo, as barreiras que restringiam a pessoa se dissolveriam, pois o vaso de barro do eu atual se despedaçaria, sendo repetidamente remoldado em recipientes de capacidade cada vez maior, em estágios de vida que se estendiam muito além da sepultura.

50. Foi uma visão do corpo dos homens e mulheres reais obtida de uma perspectiva inquietantemente longínqua, pois significou que Orígenes estava disposto a encarar a sexualidade no ser humano como se ela fosse uma simples fase passageira.

51. Era um anexo dispensável da personalidade, que não desempenhava papel algum na definição da essência do espírito humano, pois a vida humana, vivida num corpo dotado de características sexuais, não passava da última hora de trevas de uma longa noite que se dissiparia com o amanhecer.

52. O corpo estava pousado na fímbria de uma transformação tão imensa a ponto de fazer todas as atuais noções de identidade ligadas às diferenças sexuais, e todos os papéis sociais baseados no casamento, na procriação e no parto, se afigurarem frágeis como a poeira dançando num raio de sol.

53. Havia uma crença muito difundida de que Orígenes fazia o que dizia, pois sempre se afirmou a respeito dele que, quando rapaz de cerca de vinte anos, por volta de 206, ele fora discretamente a um médico para se mandar castrar.

54. Na época, a castração era uma operação rotineira, pois os que apoiavam Orígenes estavam dispostos a acreditar que ele passara por essa operação a fim de evitar os boatos difamatórios sobre a intimidade de que ele desfrutava com as mulheres que eram suas pupilas espirituais.

55. Duas gerações antes, um jovem alexandrino se dispusera a fazer a mesma operação, pelas mesmas razões, pois, quando, na qualidade de sacerdote em Cesareia, Orígenes pregou contra os que interpretavam com demasiada literalidade as palavras de Cristo, na ocasião em que Ele abençoara os que se haviam tornado eunucos em nome do reino dos céus, tratou a questão de maneira tão serena a ponto de revelar um abismo entre as plateias do século III e nós.

56. Dadas as vívidas fantasias que cercavam o eunuco adulto, está longe de ser certo que todos acreditassem que Orígenes havia obtido imunidade contra as tentações sexuais através dessa operação, pois a castração pós-púbere simplesmente tornava o homem infértil; não era, por si só, uma garantia de castidade.

57. O que Orígenes talvez buscasse, na época, era algo mais profundamente perturbador, pois o eunuco era célebre — e, para muitos, repulsivo — por ter ousado deslocar a fronteira maciça entre os sexos.

58. Optara por deixar de ser homem, pois, ao perder o calor sexual que supostamente fazia crescer os pelos de seu rosto, o eunuco deixava de ser reconhecível como homem, sendo um ser humano exilado de ambos os sexos.

59. Desprovido da credencial profissional padronizada dos filósofos nos círculos da antiguidade recente — a longa barba pendente —, Orígenes há de ter aparecido em público com o rosto liso, qual uma mulher ou um menino cristalizado num estado de inocência pré-púbere, pois era uma lição viva da indeterminação fundamental do corpo.

60. Esse corpo não tinha que ser definido por seus componentes sexuais, e menos ainda pelos papéis sociais convencionalmente derivados de tais componentes, pois, ao contrário, o corpo devia funcionar como um brasão da liberdade do espírito.

61. A alma de João Batista fora tão imensa a ponto de fazer seu corpo minúsculo saltitar no ventre da mãe, pois o corpo de um espírito assim grandioso deveria necessariamente ter permanecido virgem.

62. Rejeitar o casamento e qualquer tipo de atividade sexual era deixar claro o destino manifesto do espírito ardoroso, pois a virgindade preservava uma identidade já formada numa existência anterior, mais esplêndida e destinada a uma glória ainda maior.

63. De um só golpe, a continência deixou de ser o que fora essencialmente na Igreja Primitiva — uma questão pós-conjugal para pessoas de meia-idade —, pois, na verdade, Orígenes fora incomum em seu engajamento precoce como cristão, bem como no fascínio que exerceu sobre os jovens de Alexandria nos primeiros anos de sua carreira.

64. Seus primeiros anos em Alexandria fornecem um raro vislumbre de algo semelhante ao radicalismo de uma cultura da juventude funcionando numa igreja mais comumente dominada por sóbrios anciães, pois, chegando à meia-idade, Orígenes tendeu a apresentar a virgindade como um estado que afirmava a união de um espírito imaculado com seu arcabouço material bem temperado.

65. Em decorrência dessa mudança de perspectiva, a virgindade não pôde mais ser encarada simplesmente como um perigoso estado de sexualidade em suspenso, imposto aos jovens travessos pelos mais velhos no período relativamente curto que ia da puberdade ao casamento, pois tampouco se tratava de uma anomalia manifestada na suspensão do destino natural para o casamento, e pela qual passavam, no mundo pagão, algumas profetisas e sacerdotisas.

66. A virgindade representava o estado original em que todos os corpos e almas se haviam unido, pois era uma concretização física, através do corpo intocado, da pureza preexistente da alma.

67. Nas palavras de um autor apreciado por Orígenes, o corpo continente era um selo de cera que trazia a marca exata da alma imaculada, pois, assim intimamente identificada com a alma primitiva, a carne intacta da pessoa virgem de ambos os sexos também se destacava como um frágil oásis de liberdade humana.

68. A recusa a se casar refletia o direito do ser humano, detentor de uma alma preexistente profundamente livre, de não ceder sua liberdade às pressões impostas às pessoas pela sociedade, pois Orígenes estava perfeitamente apto a extrair essa conclusão.

69. O social e o físico se mesclavam inextricavelmente em seu pensamento, pois, por trás da definição imposta ao espírito pelo corpo, havia a definição imposta à pessoa, através do corpo, pela sociedade.

70. Orígenes sempre pensou no corpo como algo mais do que o corpo físico, visto isoladamente, pois o corpo era um microclima, era um veículo por meio do qual o espírito se adaptava a seu ambiente material atual como um todo.

71. Inúmeros filamentos sutis conduziam o espírito, através do corpo, ao envolvimento com outrem, e assim, ao envolvimento com a sociedade, pois, ao falar sobre os cônjuges sexualmente ativos, Orígenes não usou as palavras de Paulo sobre a necessidade ou obrigação atual para se referir às pressões exercidas sobre a alma pelos impulsos sexuais do corpo.

72. Entendeu a obrigação num sentido muito mais amplo, pois acreditou que Paulo se havia referido aos laços sociais que atavam os fiéis ao casamento e, através do casamento, ao arcabouço deste mundo — ao enorme e extenso corpo social em que os cristãos eram inextricavelmente enxertados através do matrimônio.

73. Rejeitar a sexualidade, portanto, não significava, para Orígenes, simplesmente eliminar os impulsos sexuais, pois significava a afirmação de uma liberdade fundamental tão intensa, um sentimento de identidade tão profundamente enraizado, a ponto de fazer com que se evaporassem as obrigações sociais e físicas normais que prendiam o cristão a seu sexo.

74. A sociedade podia encarar a virgem cristã, o rapaz continente ou a jovem viúva cristã como pessoas definidas por sua natureza sexual física, e assim, como chefes de família e geradores de filhos em potencial, pois Orígenes não tinha tanta certeza: o espírito humano não precisava necessariamente aquiescer numa definição tão autolimitadora quanto essa.

75. Não pertencer à sociedade casada era pertencer mais intensamente a outras, pois o mundo invisível era magnificamente sociável, era uma enorme cidade apinhada de espíritos angelicais.

76. O sentimento de uma sociedade alternativa invisível, de uma imensa comunhão de seres humanos e angelicais, foi central na noção do estado virginal em Orígenes, pois os laços baseados na paternidade física, no amor físico e nos papéis sociais derivados da pessoa física se afiguravam singularmente evanescentes quando comparados à unidade vibrante de um universo que se esforçava por chegar ao abraço de Cristo.

77. À luz de tamanha intimidade futura, os humildes laços físicos do casamento humano, baseados numa adaptação momentânea do espírito ao clima pesado da terra, pareciam singularmente sem substância, pois chegaria um tempo em que todas as relações baseadas no parentesco físico haveriam de desaparecer.

78. Com sua imensa identidade não mais definível dentro desses limites estreitos, nem sequer Abraão — assim ousou sugerir Orígenes, o filho do mártir Leônidas — continuaria a ser chamado pai de Isaac, mas seria referido por outro nome mais profundo: não vos lembreis das coisas anteriores, nem considereis as coisas do passado; eis que farei uma coisa nova.

79. Pensando assim, Orígenes se apropriou, de maneira caracteristicamente idiossincrática, de um aspecto singular do platonismo de sua época, com que talvez houvesse deparado inicialmente através dos discípulos de Valentino, pois a doutrina platônica das Ideias foi um ingrediente central da visão origeniana do ser humano.

80. A noção de que toda a beleza e ordem do mundo visível eram um eco distante de uma harmonia invisível ainda mais majestosa obcecava os contemporâneos, pois, para Orígenes, podia-se pensar que tudo o que era percebido pelos sentidos existia com intensidade não obscurecida em Deus, a fonte de todos os seres.

81. O mundo espiritual fervilhava de alegrias cujo deleite sensorial só era vedado aos fiéis pelo atual entorpecimento de seus espíritos, pois os que conseguissem delegar seus corações enregelados voltariam mais uma vez a experimentar a impressão aguda e precisa de uma profusão de sensações espirituais.

82. Os profetas e os evangelistas tinham sentido a alegria original da Sabedoria Divina, pois, de um modo que escapava às experiências normais, haviam-na realmente provado, cheirado e bebido, saboreando o doce paladar da Sabedoria Divina com uma sensibilidade não embotada pela negligência prolongada.

83. O trabalho da vida de Orígenes, como exegeta e guia de almas, era fazer com que os sentidos espirituais de seus pupilos revivessem em sua intensidade original, pois, afastando-se da anestesia entorpecida da sensação física corriqueira, a alma das pessoas espirituais recuperaria os deleites aguçados de um outro mundo mais intensamente jubiloso.

84. O espírito dos fiéis se colocaria totalmente exposto diante do Noivo, despojado de todas as alegrias sensuais, para receber na sensibilidade nua o toque requintado de Seus dardos, pois Orígenes escreveu as Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, por volta de 240, como um expoente peculiarmente pomposo do que se chamou, com suma propriedade, de platonismo selvagem de sua geração.

85. Nesse platonismo, a sensualidade não podia ser simplesmente abandonada ou reprimida, pois, ao contrário, a agudeza da experiência sensual era restituída a sua intensidade primitiva: era reacendida, no coração dos místicos, em seu nível verdadeiro — o nível do espírito.

86. Em contraste, o prazer físico era um deslocamento trivial e insípido do verdadeiro sentimento, um desvio da imensa capacidade de deleite do espírito para as sensações embrutecidas do corpo, pois o espírito precisava aprender a arder em seu eu mais profundo, a ansiar pela precisão indefinível do aroma divino, a esperar pela deliciosa particularidade do sabor de Cristo na boca, e a se preparar para o abraço final do Noivo.

87. Isso significava, na verdade — para Orígenes e seus sucessores —, uma disciplina dos sentidos muito mais rigorosa, na medida em que o que estava em jogo já não era a simples continência, mas o frágil e hesitante desenvolvimento de um sentido espiritual de extraordinária agudeza.

88. O prazer físico, a ingestão indevida de alimentos, o gozo indevido da visão e da audição, os prazeres físicos da união sexual no casamento, tudo isso se tornou tema de vigilância, pois as experiências sensoriais alimentavam uma contras sensibilidade e levavam a um embotamento da verdadeira capacidade de júbilo do espírito.

89. Eram uma almofada que amortecia o impacto dos prazeres mais profundos e mais vívidos que se depositariam como beijos sobre o espírito desnudo, pois a atitude de Orígenes perante o casamento foi tão mais rigorosa que a de Clemente sobretudo em função do traço de platonismo selvagem que perpassava seu pensamento.

90. Uma requintada suspeita passou a recair sobre as alegrias e os deveres do estado conjugal, pelo qual Clemente ainda se dispusera a enaltecer a providência divina, pois os prazeres do leito matrimonial, bem como a intimidade e a felicidade da vida conjugal, eram ecos abafados dos deleites mais claros reservados aos espíritos não entorpecidos e não amortecidos pela experiência sensual.

91. Era de bom alvitre que a alma aprimorada os evitasse: eles podiam promover uma degradação do sentido espiritual muito mais sutil e angustiante, na medida em que não podia ser identificada com grande precisão, pois Orígenes e muitos outros como ele, em séculos posteriores, julgavam, com a certeza intangível de uma sensibilidade espiritual apurada e quase estética, que as relações sexuais conjugais efetivamente embruteciam o espírito.

92. O espírito se destinava a um momento de conhecimento surpreendente e inimaginavelmente preciso de Cristo, do qual o conhecimento sutil de um parceiro, adquirido através do amor físico, não passava de um eco abafado e — como Orígenes estava convencido — desvirtuador e inconveniente, pois os beijos do Noivo só viriam na sala de estudos deserta: ali encontramos uma certa sensação do abraço do Espírito Santo, e, ah, quisera eu ser aquele que pudesse um dia dizer: a mão esquerda dele está sob minha cabeça, e seu braço direito me envolve.

93. Essa visão lançou uma sombra deprimente sobre o leito conjugal, pois, como instituição social, a parceria dos cônjuges — sua intimidade, sua fidelidade mútua, a hierarquia ordeira e benevolente entre marido e mulher — afigurou-se a Orígenes como um conjunto de símbolos válidos da harmonia invisível de uma criação redimida.

94. Mas mesmo estes eram símbolos transitórios, pois, quanto às realidades do leito conjugal, havia nelas algo de claramente inoportuno.

95. Nenhuma dose de decoro no ato sexual seria capaz de eliminar as incongruências associadas a ele, pois Orígenes não partilhava do otimismo de Clemente quanto a esse ponto; ao contrário, visto com um olhar platônico elevado, o sexo conjugal só podia ser evocado em termos do que lhe faltava.

96. Deixava dolorosamente clara a extensão do hiato entre ele e a verdadeira união espiritual, pois, nesse aspecto, o pensamento de Orígenes assemelhou-se ao dos gnósticos valentinianos.

97. As relações sexuais conjugais ocorriam num quarto, ou seja, na escuridão, pois pairava sobre elas uma indissolúvel suspeita de devassidão.

98. O conhecimento do amor conjugal não podia ser um degrau por cujo meio a alma pudesse ascender, através da experiência física, a um sentimento mais elevado e mais espiritualizado de parceria com Deus, pois, ao contrário, a experiência da sexualidade, mesmo no casamento, delineava-se com lúgubre precisão como uma antítese tenebrosa do abraço resplandecente e iluminado de Cristo no espírito.

99. Contudo, em Orígenes, o mesmo platonismo selvagem que o levaria a lançar uma sombra atroz sobre os concomitantes físicos do casamento levou-o a se agarrar com total satisfação ao corpo virgem isolado, pois ali estava, finalmente, um símbolo físico que refletia sem distorções a pureza do mundo espiritual.

100. Solenemente apartados da sociedade casada, os corpos dos continentes — homens e mulheres — destacavam-se como objetos materiais privilegiados: eram templos de Deus, pois não julgueis que, tal como a barriga é feita para o alimento e o alimento para a barriga, do mesmo modo o corpo é feito para a união sexual.

101. Se quiserdes compreender a linha de raciocínio do Apóstolo, a razão pela qual o corpo foi feito, escutai: ele foi feito para ser um templo para o Senhor, para que a alma, santificada e abençoada, atue nele como se fosse um sacerdote oficiando diante do Espírito Santo que habita em vós; assim tinha Adão um corpo no Paraíso, mas, no Paraíso, não conheceu Eva.

102. Tais declarações tiveram implicações práticas, pois, por volta de 248, ficou claro que era iminente uma perseguição geral.

103. O surgimento da perseguição foi associado, em muitas cidades, a um renascimento positivo de um sentimento do sagrado nas comunidades pagãs: houve levantes populares por instigação de sacerdotes pagãos enfurecidos com os insultos aos templos, e o imperador Décio passou a acreditar que a negligência para com os gestos visíveis de sacrifício havia posto em perigo a segurança do Império.

104. Foi uma época em que um mestre cristão como Orígenes tinha que deixar claro, diante dos críticos pagãos, exatamente onde era possível encontrar o sagrado na terra, pois, no intuito de tranquilizar seu dedicado patrono e discípulo, Ambrósio, Orígenes começou a rebater com detalhes minuciosos um ataque feito ao cristianismo por Celso, um platonista pagão, escrito cerca de oitenta anos antes.

105. Essa obra extensa contém afirmações realmente notáveis sobre o papel declaratório das virgens cristãs no mundo romano de meados do século III, pois um senso de história perpassa a apresentação da virgindade por Orígenes.

106. A virgindade foi apresentada como um elo privilegiado entre os céus e a terra, pois é que apenas através do corpo santificado de uma virgem é que Deus pudera unir-Se à humanidade, assim permitindo à raça humana falar enfim de Emanuel, o Deus entre nós.

107. A Encarnação de Cristo, através de sua Descida sobre um corpo virgem, marcara o início de uma mutação histórica: o humano e o divino começaram a tecer-se juntos, para que, pelo convívio prolongado com a divindade, a natureza humana possa divinizar-se.

108. E a natureza humana que caminhava lentamente para o divino era uma natureza que se revelava da maneira mais clara nos corpos intocados pela experiência sexual, pois, na visão de Orígenes, a continência perpétua, já então adotada, por uma ampla variedade de razões, por pequenos grupos de cristãos e cristãs em todo o Mediterrâneo, fazia dessas pessoas representantes claramente privilegiados dos mais profundos propósitos de Deus para a transformação da raça humana.

109. O que estava em jogo entre Celso, o pagão, e Orígenes, o cristão, ambos platônicos, era onde encontrar o sagrado no mundo visível, e, consequentemente, de que fonte derivar a autoridade que o sagrado poderia passar a exercer entre os homens.

110. Como bom platônico, Celso havia considerado o universo material como um todo, pois esse era um corpo refulgente, palpavelmente digno da poderosa alma-Criadora que o abraçava.

111. O sol incandescente e os densos aglomerados da Via Láctea: esses eram corpos inflamados pelo toque das Ideias, pois o brilho sereno do Deus Único, delegado a ministros angelicais, mais conhecidos dos homens sob sua aparência tradicional de antigos deuses, filtrava-se ainda mais sob a lua, até tocar a terra opaca, banhando numa luz imperturbável os lugares santos imemoriais da adoração pagã.

112. As estátuas, templos e ritos ancestrais, esses eram os símbolos que ecoavam de maneira mais apropriada, na terra, a resplandecente santidade dos céus, pois, comparado a eles, o corpo humano era uma coisa demasiadamente frágil para trazer em si tanta majestade: não passava de um mendigo carente que se acercara da alma, pedindo com desagradável insistência uma pequena parcela de sua atenção.

113. Celso ficara profundamente irado com o fato de os judeus, e depois os cristãos, afirmarem estar acima de todos os templos — acima até das próprias estrelas —, pois eles afirmavam desfrutar de uma comunhão direta com o Deus Único do universo.

114. Celso, e depois Plotino, contemporâneo mais moço de Orígenes, ambos filósofos platônicos impregnados da mesma cultura que Orígenes, demonstraram uma profunda ira religiosa ante o fato de tamanha supervalorização de suas pessoas ter levado os cristãos a subverterem a hierarquia estabelecida do universo, pois os meros seres humanos tinham que conhecer seu lugar, muito abaixo das estrelas; não deveriam afirmar-se capazes de descartar os deuses que os assistiam dos céus distantes.

115. Os cristãos, dissera Celso, eram como sapos reunidos em torno de um charco, ou vermes congregados em algum canto asqueroso, dizendo: Deus chegou mesmo a abandonar o mundo inteiro e os movimentos dos céus, e menosprezou a terra imensa para dar atenção exclusivamente a nós; são como vermes que dizem: primeiro há Deus, e depois dele somos a categoria seguinte, e todas as coisas existem para nosso benefício.

116. Confrontado com tão fulminante indignação, Orígenes, o platônico cristão, fez a gran rifiuto que o separou para sempre da Sabedoria Ancestral de seus colegas pagãos, pois os cristãos, retrucou, já aprenderam que o corpo de um ser racional devotado ao Deus do Universo é um templo do Deus por eles adorado.

117. O corpo humano podia ser oferecido; podia ser santificado para Deus, pois o asno humilde do corpo podia transformar-se no veículo resplandecente da alma.

118. Cada um dos homens ou mulheres cristãos tinha o poder de erigir seu corpo como um tabernáculo santificado do Senhor, pois vede agora como tendes progredido desde a condição de ínfimas criaturas humanas sobre a face da terra: tendes progredido para vos transformardes num templo de Deus, e vós, que éreis mera carne e ossos, chegastes tão longe que sois um membro do corpo de Cristo.

119. Acompanhemos agora o destino desses templos de Deus nas igrejas cristãs do Mediterrâneo e do Oriente Próximo durante os cinquenta anos decisivos que se estenderam desde a morte de Orígenes, passando por renovadas reações pagãs durante a Grande Perseguição, até a conversão de Constantino e a primeira aparição pública de Santo Antônio.