5 Valentino

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

5 “Quando de dois fizerdes um”: Valentino e a orientação espiritual gnóstica

1. Em algum ponto entre os anos de 161 e 168, o apologista cristão Justino viu-se em julgamento diante de Rusticus, prefeito da cidade de Roma, pois em Rusticus e Justino defrontaram-se dois representantes muito diferentes da vasta classe dos guias espirituais, e Justino foi apenas um dos muitos sábios excêntricos que se estabeleceram como professores na extensa e absorvente capital do Império.

2. É difícil, para um leitor moderno, penetrar na intensidade da didascália, do pequeno círculo estudantil de discípulos de ambos os sexos que se reuniam por anos a fio em torno de um único guia espiritual, pois os cristãos abastados do século II presumiam que seu desenvolvimento espiritual dependia da consulta íntima, frente a frente, aos mestres amados.

3. Um bispo cristão percorria regularmente todo o trajeto da Capadócia até a Palestina a fim de aprofundar sua vida espiritual sentando-se aos pés do grande Orígenes, pois havia muitos cristãos convencidos de que só através de um contato íntimo e prolongado com um guia espiritual, e não através da pregação insípida do clero na igreja, é que as brasas extintas da aprendizagem sagrada voltam a se acender no coração.

4. Os pequenos círculos de estudos foram as fontes de energia da cultura cristã dos séculos II e III, pois a extraordinária efervescência intelectual desse período é impensável sem eles, e o lado sombrio dessa criatividade foi um sentimento crescente de polarização.

5. A noção de heresia desenvolveu-se precocemente entre os cristãos, pois é bem possível que tenha sido Justino, um homem acostumado às batalhas intelectuais entre as escolas pagãs de filosofia, o primeiro a introduzir essa noção na literatura cristã, com seu modelo de fonte da heresia presumindo que ela era um desvio das verdades originais do cristianismo promovido por um processo de degeneração e proliferação.

6. O espírito competitivo dos diferentes mestres se aliava às seitas pagãs e judaicas preexistentes na introdução de doutrinas estranhas na Igreja, pois o leitor moderno não se deve deixar enganar por esse poderoso estereótipo, elaborado de modo a fornecer uma explicação aceitável para o doloroso fato de que os cristãos discordavam profundamente entre si desde os tempos de S. Paulo.

7. A aceitação desse estereótipo por muitos cristãos do século II refletiu uma solidificação das fronteiras entre as tradições rivais do ensino cristão, pois um dos grupos, ligado aos bispos e ao clero, queria apresentar-se como representante da Grande Igreja, alegando não apenas ter sido o único a preservar os ensinamentos autênticos de Cristo, mas também representar a visão de uma maioria esmagadora de fiéis bem orientados.

8. Coube às didascálias, como pequenos grupos de estudo conduzidos por professores isolados, suportar o impacto da pretensão do clero a representar a corrente principal da fé cristã, pois eles foram a minoria que tinha de sofrer para que a Grande Igreja pudesse se considerar porta-voz da maioria, e poucos foram os grupos de estudos cristãos cujos líderes não se viram, num ou noutro momento, condenados como hereges pelo clero local.

9. Não obstante, os guias e mestres espirituais continuaram a ser indispensáveis, pois, no início do século III, um bispo de Alexandria teve que decretar que não se podia dizer que os que freqüentavam grupos de estudo houvessem rompido com a igreja, visto que ainda eram encarados como membros da congregação, mesmo ao serem apontados como alunos regulares de professores heterodoxos.

10. Valentino chegou a Roma, proveniente de Alexandria, em 138, e ali lecionou até 166, pois emergiu como um dos maiores guias espirituais da comunidade cristã numa geração que produziu mestres do calibre de Márcio, Justino e Taciano, e acreditava-se que fosse considerado um possível candidato ao cargo de Bispo de Roma.

11. Como muitos de seus contemporâneos cristãos, Valentino orgulhava-se do título de gnóstico, pois na época esse termo não tinha as implicações estranhas que nele vieram a se acumular, referindo-se aos que possuíam a gnose, o conhecimento verdadeiro, e que conheciam melhor do que os outros cristãos os ensinamentos que Jesus originalmente sugerira ao círculo mais íntimo de seus discípulos.

12. O círculo estudantil gnóstico do século II era um grupo de homens e mulheres que reviviam, aos pés de seu guia, o momento inicial de exatidão libertária em que o próprio Salvador falara a uns poucos eleitos, pois, como almas circunspectas, eles se agrupavam por estar inquietos diante de um mundo que havia perdido o contato com Deus, e o mestre revivia entre eles o papel de Cristo com Seus discípulos.

13. O que distinguia os gnósticos, aos olhos de seus inimigos, era o emprego que faziam do mito como veículo privilegiado da instrução religiosa, pois seu ensino consistia no que um leitor moderno encararia como explicações míticas das origens do universo material e dos processos pelos quais as figuras míticas haviam encontrado a redenção.

14. Os polemizadores da Grande Igreja se compraziam em revelar os mitos gnósticos como especulações aparatosas e pseudocientíficas, totalmente sem relação com a severa simplicidade do Evangelho, pois apresentavam os gnósticos como criaturas de um bestiário mítico cujos ensinamentos representavam desvios bizarros e amiúde imorais da verdade ortodoxa, arrancando deliberadamente os mitos gnósticos do contexto original que lhes dava um sentido especificamente cristão.

15. Os mitos gnósticos, na verdade, seguiam o mesmo ritmo dos Evangelhos e dos ensinamentos de Paulo, pois a redenção trazida ao mundo por Cristo era central neles, e o ponto em que divergiam era quanto ao alcance dessa redenção, que apresentavam em termos cósmicos: toda a pessoa humana e o universo inteiro tinham sido transformados pela vinda de Cristo.

16. Isso não era de surpreender, considerando-se o clima intelectual da época, pois os pensadores do século II invariavelmente encaravam a pessoa humana como um microcosmo do universo, e somente uma doutrina da redenção que explicasse a salvação da alma humana em termos da origem e finalidade do mundo criado do qual ela fazia parte poderia satisfazê-los.

17. Valentino foi o menos esotérico dos muitos guias religiosos gnósticos surgidos no século II, pois afirmou ser um exegeta privilegiado da tradição cristã existente, tendo as cartas de S. Paulo e o Evangelho de S. João como centrais em seu ensino e no de seus seguidores.

18. Valentino afirmava que apenas ele e seus discípulos haviam compreendido a extensão da transformação invisível da criação inteira, que fora anunciada à humanidade pelo breve ministério de Cristo na terra, pois os fiéis comuns contentavam-se em viver de acordo com as historietas enganadoramente simples, as parábolas caseiras e as ordens éticas banais contidas nos Evangelhos, enquanto os iniciados valentinianos tinham ouvidos para ouvir, nesses sinais humildes, o eco tênue mas inconfundível da notícia de um universo libertado.

19. Para muitos gnósticos, o bispo e seu clero eram canais sem água, pois sob a orientação deles os fiéis mourejavam conscienciosamente em círculos, sem chegar a parte alguma, qual asnos de olhos vendados atrelados à roda de um moinho, e Valentino e seus discípulos não faziam segredo do fato de acreditarem que o fiel comprometido tinha direito a mais do que isso.

20. A didascália de Valentino dirigia-se a homens e mulheres ressentidos com a ferocidade metafísica que era um traço de todos os intelectuais do século II, pois, para eles, a dúvida e a incerteza moral eram perigos espirituais, e a falta de conhecimento do mundo divino e do destino da alma era apresentada como fonte de vergonha e de intensa inquietação, querendo essas pessoas de um guia religioso cristão o que qualquer pagão culto podia esperar — o fim das dores da dúvida e a esperança de transformação pessoal.

21. Isso explica a escolha deliberada do mito como veículo preferido dos ensinamentos de Valentino, pois o movimento gnóstico foi aclamado como um dos grandes momentos de recuperação do poder do mito no mundo antigo, e, por mais profundamente alienadas que possam parecer essas narrativas míticas, os mitos gnósticos abordavam uma dor e expressavam uma urgência intensas demais para as palavras já batidas da demonstração filosófica.

22. Ao expor com majestosa precisão o relato das origens distantes do mundo físico e da medonha seqüência de acontecimentos que levara à miséria atual da alma dentro dele, os mestres gnósticos permitiam a seus discípulos passarem pelo equivalente a uma sessão de tratamento, pois, como num ritual de cura, seus mitos apresentavam um sistema de interpretações que estruturava as fases da doença, desde o diagnóstico até a cura, em termos da fabulação de uma realidade desconhecida em si mesma.

23. O mito gnóstico mapeava a trajetória futura de um processo que traria a saúde espiritual para quantos o ouvissem, pois sua história era a história de uma cura.

24. Por essa razão, o mito da queda, do arrependimento e do retorno de Sofia foi central no sistema valentiniano, pois nesse mito o princípio poderoso e universal da Sabedoria Divina, personificado na criativa, íntima e sempre fértil Sofia, postara-se um dia diante de Deus no Lugar da Plenitude, o Pleroma, sendo uma dentre uma multidão de forças eternas e inabaláveis que impunham ordem num universo puramente espiritual, sem divisão, onde não se tinha notícia da vil matéria.

25. Sofia tinha desejado conhecer Deus como Ele conhecia a Si mesmo e substituí-lo como criadora ela própria de outros seres, pois, como resultado, a desenvolta abundância anterior com que um dia transmitira a glória da sabedoria divina a todos os outros seres transformou-se numa falsa criatividade, e a Sabedoria rebelde converteu-se num poder frenético de mera proliferação.

26. Impelida a criar pelo desespero diante de sua separação de Deus, Sofia formou um universo redundante, pois a matéria ganhou vida e, com a matéria, o amargo sentimento, que muitos pensadores do século II partilhavam com Valentino, de que o mundo material era uma tentativa abortada de imitar um modelo infinitamente distante, invisível e sempre fugidio.

27. O mundo criado por Sofia só falava no abismo que separava o que era do que deveria ser, pois o mundo físico era, na melhor das hipóteses, um espelho grotescamente distorcido da riqueza espiritual do Lugar da Plenitude; na pior, era uma excrecência insignificante que deveria ser expulsa do espírito.

28. A pessoa humana atual espelhava com terrível precisão a confusão existente na base do universo físico, pois o corpo era profundamente estranho ao verdadeiro eu, não sendo simplesmente um outro inferior passível de ser trazido à ordem pela alma vigorosa, mas vindo da matéria, da hylé, substância que nunca teria existido se não fosse a trágica extravagância de Sofia.

29. Até mesmo a alma, a psyché, o eu consciente, havia ocorrido como uma consideração posterior, pois envolvera o espírito lúcido numa densa neblina de dúvidas, angústia e paixão, e os não-redimidos viviam como que num pesadelo desperto, com todo o pensamento humano, até mesmo a mais profunda investigação religiosa, estilhaçado pela incerteza e pela ambição inoportuna.

30. Somente o espírito tinha o direito de existir, pois ele se agitava nas profundezas do iniciado com uma efervescência cega e insistente que traía sua origem remota no Lugar da Plenitude, e o pneuma era a pessoa verdadeira, o esqueleto resistente em torno do qual se haviam agregado o corpo e a alma como carne lábil e tragicamente vulnerável, condenada a se desgastar com a passagem do tempo.

31. O processo de desintegração fora detido pela vinda de Cristo, pois Sofia se arrependera, voltara para Deus, submetendo-se ao abraço de seu Salvador, e, seguindo seu exemplo, o ser humano seria progressivamente curado das dolorosas divisões entre o espírito e a alma, e entre a alma e o corpo.

32. O fiel cujo espírito, como Sofia, fosse reinstaurado em sua primazia legítima entraria no Reino que está em Cristo, liberto de toda a multiplicidade de estados de ânimo, e da desarmonia e da mudança.

33. Precisamente por ser tão lúgubre sua visão do mundo físico, Valentino ofereceu a seu rebanho cristão uma esperança de redenção mais drástica do que a de qualquer de seus contemporâneos pagãos, pois o universo físico não permaneceria eternamente harmonioso, instruído pela ação delicada do espírito, e esse era um erro que cabia retificar.

34. Algumas partes do universo, entre elas o corpo humano, acabariam por ser jogadas fora como criações abortivas e mal concebidas, pois tudo o que restasse imergiria novamente no espírito, e o mundo visível voltaria a ser tragado pela perfeita ordem espiritual de que havia prorrompido tumultuadamente num breve momento de confusão.

35. A pessoa redimida era um minúsculo microcosmo de um universo que começara a passar por uma gigantesca mutação, pois, já não estando divididos entre camadas conflitantes do eu, os iniciados gnósticos desfrutavam, na vida atual, de um toque da Anapausis, da paz divina que ultrapassa todo o entendimento.

36. Seus espíritos tornavam a se ligar à sua verdadeira fonte e suas almas angustiadas se asserenavam, pois até seus corpos eram aquietados, devendo em breve desprender-se deles para sempre, e os redimidos tinham passado para dentro da Plenitude do Ser, havendo recuado para o momento inicial de êxtase equilibrado, quando a Sabedoria se regozijava, imperturbável, na presença de Deus.

37. Do mesmo modo havia Cristo insuflado Seus discípulos, tal como um homem sopra as brasas semimortas de uma fogueira, pois dispersara de seus espíritos as cinzas soltas da confusão, fazendo com que todo o eu reluzisse com um só brilho.

38. A drástica noção de redenção de Valentino acrescentou mais uma variedade à prática da renúncia sexual entre os cristãos, pois os adeptos de Valentino não viviam num mundo isolado dos demais expoentes do consenso radical do cristianismo do século II e tinham ampla oportunidade de contrastar sua própria experiência de continência com as que vigoravam entre seus semelhantes.

39. A continência decidida por ocasião do batismo, como acontecia entre os encratitas, parecia-lhes uma questão um tanto externa, pois era perfeitamente possível imergir na água sem receber coisa alguma.

40. Faltava aos círculos valentinianos o acirrado sentimento de identidade grupal, visivelmente declarado pela renúncia ao casamento, que levantara os marcionitas e os encratitas contra os tempos atuais, pois o redimido valentiniano não parecia mover-se num grupo santificado, protegido do mundo externo por fronteiras sólidas como o celibato e a abstinência de alguns alimentos proibidos específicos.

41. A tragédia da sujeição humana aos tempos atuais não era tão fácil de concretizar, pois a libertação não podia evidenciar-se exclusivamente pela negação peremptória de laços sociais convencionais como o casamento, e a imensa agonia do universo apequenava esses gestos apressados.

42. O corpo, na verdade, tinha pouco valor como agente proclamatório, pois, como capa desnecessária e enganadora se comparada ao espírito oculto em suas profundezas, a aparência visível do corpo perante a sociedade era de escassa importância, não tendo que assumir o ônus de uma renúncia pública ao casamento nem tampouco suportar a agonia pública do martírio.

43. O próprio universo sofrera uma queda e tinha que ser restaurado através de um trabalho complexo nas raízes profundas da alma, pois daí a tendência gnóstica a vincular a redenção a nada menos do que uma modificação definitiva do impulso sexual.

44. Os homens e mulheres redimidos pelos ensinamentos e pela iniciação valentinianos encaravam a atenuação dos sentimentos sexuais como o sinal externo visível de um poderoso abrandamento que se dera primeiro na esfera espiritual do universo, pois o indivíduo poderia ressuscitar dos mortos, como Cristo, à medida que as profundezas ocultas do eu fossem inundadas pelo poder de seu espírito: enquanto ainda estamos no mundo, convém conquistarmos essa ressurreição para nós.

45. Os mestres gnósticos do século II ofereceram a seus pupilos uma ampla variedade de sistemas míticos em que as imagens extraídas das relações entre os sexos e as percepções do impulso sexual sempre desempenharam um papel importante, pois as imagens variavam enormemente de um grupo para outro.

46. As imagens mais freqüentemente usadas na tradição valentiniana têm um toque muito característico, pois Valentino recorreu à polaridade entre o macho e a fêmea para pregar um processo de redenção que ocorria em duas etapas: os princípios espirituais cuja confusão havia acarretado tudo o que era desnecessário no universo recuperariam sua estabilidade, sendo a fêmea fluida a que o macho dominante daria forma, e tudo o que era diferente do espírito deveria ser reabsorvido nele, com a própria polaridade entre macho e fêmea abolida e o feminino tornado masculino.

47. Começamos por ecos diretos de temas do século II — a hierarquia e o controle dentro do casamento ideal —, pois Plutarco exortara os maridos a exercerem uma vigilância incessante na formação da mente e das ações das mulheres, afirmando que é preciso tomar grande cuidado para que produtos uterinos carnais disformes não ocorram na mente das mulheres, que, quando não recebem a semente das boas doutrinas e não compartilham com seus maridos o avanço intelectual, concebem, entregues a si mesmas, muitas idéias impróprias e estratagemas e emoções vis.

48. Para Valentino, assim como para Plutarco, a mulher representava tudo o que era vago, sem objetivo, desprovido de forma e de direção, pois representava tudo o que precisava ser formado, assujeitando-se aos contornos firmes e claros do homem, e no próprio ato da concepção era o sêmen masculino que conferia forma e solidez à emissão lábil e desestruturada da mulher.

49. Assim, tanto os mitos eruditos da medicina contemporânea quanto as atitudes contemporâneas perante o casamento forneceram a Valentino uma linguagem inteiramente adequada a seu mito da origem e da eventual redenção da desordem do universo, pois o universo como um todo era um produto carnal disforme que se desenvolvera na Sabedoria quando ela se privou, por sua própria voluntariedade, do sêmen divino formador.

50. As relações entre o homem e a mulher evocavam intensas associações com a introdução de forma e disciplina no desordenado e no inferior, mas isso não era tudo, pois as imagens conjugais também falavam aos contemporâneos de um raro acontecimento — a concórdia alcançada entre dois seres potencialmente estranhos e mal entrosados: o homem e a mulher.

51. Para Valentino, o universo seria redimido quando a Sabedoria recuperasse a harmonia conjugal de suas próprias relações originais com Deus, pois ela repousaria no abraço formador do Cristo, seu Redentor masculino, e a alma de qualquer fiel poderia fazer o mesmo, tornando a reunir-se a seu verdadeiro amor e verdadeiro senhor.

52. Todavia, as imagens da união conjugal assumiram um caráter mais premente no pensamento de Valentino, pois, para Plutarco, fora suficiente que a matéria potencialmente intratável se apegasse amorosamente ao marido, o espírito formador, que tem um amor inato pela primeira e mais dominante de todas as coisas e se inclina para o melhor.

53. Para Valentino, ao contrário, o próprio elemento de alteridade condensado na polaridade entre o masculino e o feminino, tal como na existente entre o espírito e seus opostos, a matéria e a simples alma, devia desaparecer, pois a alteridade da matéria não era um aspecto eterno do universo, como tendiam a pensar os filósofos pagãos, mas um acidente efêmero resultante de um trágico desvio do mundo espiritual.

54. A alteridade de tudo o que não era o espírito puro seria curada, pois o feminino seria tragado pelo masculino, não sendo simplesmente disciplinado pelo masculino, mas se masculinizando.

55. No pensamento pagão, a intimidade entre marido e mulher sempre fora valorizada como um relacionamento através do qual duas pessoas originalmente desiguais podiam chegar pouco a pouco a partilhar de uma excelência comum, pois se considerava bom uma mulher sonhar que tinha barba, caso em que ela terá um marido muito solidário, de modo que seus rostos parecerão fundir-se num só.

56. Os círculos gnósticos valorizaram imensamente os incidentes dos Evangelhos que descreviam as relações íntimas de Cristo com as mulheres de Seu círculo, em particular com Maria Madalena, pois, para um autor do século II, tais relatos eram a imagem da doce e irresistível absorção da mulher, esse perpétuo outro inferior, em seu princípio norteador, o homem.

57. Nada menos do que a esperança de redenção dependia desse momento, pois, uma vez reunido a seus princípios formadores masculinos e não mais excluído da pureza intocável do mundo do espírito, o universo desfrutaria da estabilidade disciplinada de um elo conjugal restaurado.

58. Mais do que isso, o universo tornar-se-ia transparente para o espírito, pois o último vestígio de alteridade implicado na noção do feminino se esvaeceria, e o Pleroma voltaria a se unificar, depois de masculinizar o feminino, absorvendo-o em sua ordem perfeita, com Eva, a alma atormentada, voltando a mergulhar na estrutura sólida e segura de Adão, o espírito.

59. Em última análise, os gnósticos valentinianos, diversamente de seus contemporâneos pagãos, não queriam ser confrontados por nenhum outro inferior a quem fosse preciso persuadir e disciplinar, pois a separação é o problema, a reunificação é a solução, a separação é a morte, a reunificação é a vida.

60. Idealmente, todas as coisas voltariam a ascender ao mundo espiritual de onde haviam caído, pois só restaria a hylé, o último e mais inquieto inimigo do espírito, que, como um equívoco desde o começo, desapareceria de vista, e o espírito e a alma, macho e fêmea, seriam reunidos num só todo radioso.

61. Todos os fenômenos que a noção de mulher evocava na mente dos pensadores masculinos do mundo antigo — a labilidade feminina associada ao tempo e ao procedimento, a fraqueza de vontade feminina, o amorfismo feminino que levava à dúvida e à ignorância — chegaria ao fim, pois terminaria a tragédia de um universo decaído.

62. A ânsia de superar todo e qualquer tipo de alteridade perpassou o pensamento de Valentino, pois a própria existência de dois sexos distintos e opostos condensava, com uma intensidade basicamente ausente do pensamento pagão e judaico contemporâneo, o sentimento de que uma divisão trágica e desnecessária fora a causa da miséria em que padecia toda a humanidade.

63. A consciência daquele momento primevo de divisão é que fizera Cristo bradar na Cruz — Deus, ó Deus, porque me abandonaste? —, pois foi na Cruz que ele proferiu essas palavras, ali é que foi dividido.

64. A transcendência de todas as divisões, inclusive de uma divisão aparentemente tão imutável quanto a existente entre o homem e a mulher, era o sinal mais certeiro de que a redenção oferecida por Cristo fora concedida ao fiel, pois eles Lhe disseram: haveremos então, como crianças, de penetrar no Reino? E Jesus lhes disse: quando de dois fizerdes um e quando do homem e da mulher fizerdes um só, de modo que o homem não seja homem nem a mulher seja mulher, então entrareis no Reino.

65. Daí a importância de sua doutrina das sizígias para a idéia que Valentino fazia da redenção de cada indivíduo, pois, em seu atual estado irredento, o eu era um cosmos decaído em miniatura, separara-se em camadas que tinham sido originalmente inerentes a uma série de pares conjugais, e o espírito de cada indivíduo era masculino para a alma errante feminina, mas até o espírito era feminino perante o anjo da guarda dominante que pairava junto dele, ainda indescoberto.

66. A redenção assumia a forma de uma reunião com esse anjo da guarda, pois o batismo gnóstico restabelecia o elo rompido entre a pessoa consciente e seu anjo, um ser que representava o eu latente e mais verdadeiro, e, uma vez ocorrido isso, as divisões dentro da alma cediam lugar a uma nova unidade.

67. As muitas camadas do eu já não entravam em conflito como nos irredentos, pois até a carne pesada passava a se apoiar com mais leveza sobre a pessoa espiritual, e, como um casaco desabotoado, o corpo passava a pender docemente do espírito, prestes a escorregar para sempre na morte.

68. Para Valentino e seus seguidores, o único batismo decisivo era o batismo nos anjos, pois ele religava o indivíduo a uma identidade inabalável e oculta por muito tempo, e com ele diz-se que a mulher se transformara em homem, e a igreja na terra torna-se uma congregação de anjos.

69. Com seu costumeiro humor cáustico, Tertuliano divertiu-se à larga com a noção valentiniana de redenção, pois escreveu, pensem em Marco e Caio, homens sólidos e de barba espessa, entrando no Quarto Nupcial para receber o ardoroso abraço desses anjos masculiníssimos, mas o que Tertuliano ignorou deliberadamente foi que, para Valentino, o batismo nos anjos era tido como a marca do desaparecimento último de toda a alteridade.

70. O doloroso sentimento de divisão que teria separado o espírito de seu eu angelical e a alma do espírito desaparecia, tal como uma sombra se desfaz ao sol nascente, pois era um processo passível de ocorrer em qualquer homem ou mulher.

71. Não é fácil saber o que significou a idéia gnóstica de redenção para a percepção que os iniciados tinham de seus impulsos sexuais, pois muitas camadas de atitudes se superpõem nos textos gnósticos.

72. A literatura gnóstica de exortação, por exemplo, pedia que os fiéis libertassem seu espírito, em primeiro lugar, de um universo decaído, pois o homem era um microcosmo num sentido realmente pavoroso: corpo e alma compartilhavam das qualidades de um universo mantido pelas energias frenéticas de poderes decaídos.

73. O fogo vívido que um dia Cícero experimentara com prazer, vibrando pelas veias dos apaixonados tal como reluzia nas estrelas distantes, era apresentado pelos gnósticos como uma chama sinistra, devoradora e irracional, pois manter relações sexuais era abrir o corpo humano à tempestade de fogo que devastava todo o universo.

74. O desejo sexual foi nitidamente destacado como uma característica permanente do ser humano não redimido, pois representava a energia impetuosa de um universo que se opunha à serena tranqüilidade do reino do espírito inabalável, e os que se entregavam à paixão sexual mostravam estar ajudando o mundo.

75. Nenhum processo podia ser mais antitético aos laços etéreos que ligavam o espírito ao espírito do que a procriação física, pois o sexo era o roçar imundo vindo do fogo temível que proveio da parte carnal.

76. Mas os gnósticos, e muito particularmente os valentinianos, costumavam escrever para os redimidos, pois, nos textos que versam sobre o estado dos redimidos, a dissipação do ardor do desejo sexual foi tratada como o sinal de uma mudança profunda que podia operar-se lentamente nos fiéis.

77. Ao apresentar a tentação sexual como um mero símbolo de males mais arraigados, e ao aclamar a transcendência do desejo sexual como nada menos do que uma ressurreição do eu, a orientação espiritual gnóstica da escola de Valentino antecipou diretamente a sabedoria dos Padres do Deserto, pois a ascensão e queda do desejo sexual permitiam ao guia espiritual perscrutar os vastos espaços internos da alma dos iniciados.

78. Para Valentino, a alma humana era povoada por uma multidão de espíritos desregrados, os pneumata, pois estes eram criaturas incompletas e carentes que usavam a pessoa para buscar sua própria satisfação, à maneira de um estado permanente e semiconsciente de possessão.

79. Os pneumata eram, por assim dizer, sizígias falsas, pois, como as sizígias, também se empenhavam na busca de uma unicidade primária, mas essa era uma união conquistada não pela ligação íntima com o espírito, mas pelo inverso: eles ligavam a alma cada vez mais estreitamente à carne.

80. A presença irrequieta desses pneumata, cada qual buscando perpetuamente a realização num parceiro invisível, explicava a força do impulso inverso para a unidade que buscava expressão no amor sexual, pois o desejo sexual traía o anseio de completude de partes da própria alma.

81. Nem todos os ouvintes de Valentino podiam ter a esperança de conseguir levar unidade às voragens que rodopiavam pelas lábeis regiões da alma, pois os valentinianos parecem ter aceito o fato de que muitos fiéis ainda viviam aprisionados na vida inferior da alma, sendo chamados psychikoi, distinguindo-se dos pneumatikoi, pessoas já firmemente regidas por seu espírito imponente.

82. A simples renúncia à atividade sexual não bastava, por si só, para promover a transformação que gerava o ser espiritual, pois o problema era mais profundo: que cada um de nós vasculhe a raiz do mal que está dentro de si, e que cada um arranque o mal do coração pela raiz.

83. Nos Atos apócrifos de S. João, um rapaz castrou-se dramaticamente com uma foice, declarando: eis aí o modelo e a causa de tudo isso!, pois foi advertido pelo apóstolo de que deveria ter descido ainda mais fundo para erradicar a causa invisível pela qual todas as emoções vergonhosas são movidas e vêm à luz.

84. Julgava-se prudente respeitar o trabalho prolongado e semiconsciente do espírito na alma, em vez de assumir um compromisso com uma continência prematura, pois os fiéis casados eram tolerados pelos valentinianos, que proporcionavam a continuidade física necessária para que a raça humana oferecesse a Cristo a colheita completa de sua semente espiritual, sob a forma de muitas gerações de fiéis que se congregariam, no devido momento, no lugar da Plenitude.

85. Longe de serem um grupo combativo de abstinentes batizados, como eram até os mais discretos e sedentários dos encratitas, os valentinianos eram uma pálida imagem da igreja urbana normal do final do século II, pois os casados recebiam orientação apropriada.

86. Num grupo gnóstico contemporâneo temos um vislumbre das realidades da situação em que deviam ficar muitos cristãos iniciados, pois, quando um rapaz era pobre demais, jovem demais ou tinha a saúde fraca, e por essa razão não tinha meios de conseguir uma esposa, era aconselhado a buscar seu guia espiritual e dizer: irmão, ponde vossas mãos sobre mim para que eu não peque.

87. Os valentinianos resolveram o problema dos membros casados, e daqueles que desejavam muito se casar, permitindo que se desenvolvesse em sua comunidade uma hierarquia de pessoas espirituais e psíquicas, pois, não obstante, dentro desse grupo solto e diferenciado, a autoridade do núcleo interno de líderes continuava inabalável, enraizando-se em nada menos do que a estabilidade de um universo restituído à sua ordem inicial.

88. Os gnósticos redimidos irradiavam uma ampla serenidade em que o desejo sexual fora tragado, juntamente com todos os outros sinais de divisão interna, pois até seus corpos se apoiavam neles suavemente: a carne não precisava ser temida nem amada, logo cairia deles.

89. Essas pessoas podiam reencenar, indiferentes aos discípulos de sexo masculino e feminino, a envolvente intimidade com que Cristo havia possuído a alma de Maria Madalena, pois as acusações de imoralidade sexual feitas contra quase todos os mestres gnósticos deixaram claro que esse foi um assunto de importância nada insignificante na igreja cristã do século II.

90. Os círculos de estudos valentinianos destacam-se como reuniões íntimas em que homens e mulheres religiosos podiam misturar-se aos pés de um sábio, à maneira antiga e autoritária do círculo estudantil dos filósofos, pois, no judaísmo, convinha lembrar que os rabinos declaravam que as mulheres não tinham lugar na atmosfera intensa e íntima em que os alunos de sexo masculino estudavam a Lei, e em Cartago Tertuliano se dispusera a discorrer sobre os perigos das jovens sem véu nas igrejas.

91. Os valentinianos foram contemporâneos exatos de Tertuliano e dos rabinos, mas, ao afirmar que os redimidos tinham superado o desejo sexual, os gnósticos puderam aceitar as mulheres como parceiras iguais na intensa vida grupal da intelectualidade cristã.

92. Os círculos de estudo valentinianos levantaram de forma aguda as questões da amizade e da continuidade religiosas que tinham sido abordadas em outros grupos cristãos, pois, para seus iniciados, os filamentos da relação professor-aluno e o elo invisível entre as almas com propósitos idênticos, estabelecido pela orientação espiritual comum, constituíam a verdadeira unidade da igreja, e todos os outros laços lhes pareciam frouxos.

93. Havia entre eles uma inquebrantável unidade de pensamento perfeito, tão leve mas tão penetrante quanto os aromas mesclados de um jardim de rosas, pois as pessoas espirituais moviam-se com desenvoltura num sistema de pensamento em que tudo do mundo material remetia internamente à vívida realidade do Lugar de Plenitude espiritual.

94. Para os redimidos, o corpo já não era um lugar de perigo onde espreitasse o ardor irrequieto, mas antes uma tela translúcida em que as sombras brincavam, pois as relações mais intensas deste mundo — o casamento, o amor e o parentesco — não lhes eram chocantes ou repugnantes, sendo meros nomes vazios que os fiéis interpretavam como sinais misericordiosamente distribuídos por todo o mundo visível.

95. Tais coisas remontavam a processos e sensações que aconteciam com verdadeira intensidade em sua raiz, na vida vibrante de um mundo puramente espiritual, pois o amor eternamente cálido e ainda por desfrutar, a jubilosa fusão de dois seres e a fertilidade exuberante não eram renegados pelos fiéis, mas buscados no núcleo indiviso do universo, no Lugar da Plenitude, não podendo ser encontrados através do corpo nem nos rebordos despedaçados do mundo físico.

96. Essa mentalidade intensamente simbólica tornou o mundo físico transparente para os grandiosos eventos espirituais, pois, por causa disso, os valentinianos contribuíram diretamente para a textura de um fio delicado na sensibilidade dos cristãos continentes de todas as correntes de opinião.

97. Juntamente com os cristãos da Grande Igreja, apresentaram a transmissão íntima de uma sabedoria insubstituível e salvadora como a forma mais verdadeira de procriação, pois o ensino e o batismo, e não a geração de filhos, criavam a melhor provisão para o futuro.

98. O homem social natural adquiria continuidade pelas relações físicas, mas essas relações só produziam alimento para a morte, pois a continuidade verdadeiramente duradoura vinha através do nascimento espiritual, graças às relações espirituais.

99. Para renascer, os iniciados dependiam dos lábios de um guia inspirado, pois quem beber de minha boca, dissera Cristo, se tornará como eu, e daí as abundantes associações do ato de beijar nos círculos de ensino cristãos.

100. Os valentinianos deram uma interpretação própria ao tradicional beijo cristão de camaradagem, pois era pelo toque suave dos lábios e da respiração, e não pelos órgãos genitais ardorosos, que se formavam os vínculos mais sólidos da cadeia da verdadeira humanidade: pois é pelo beijo que os perfeitos concebem e dão à luz.

101. Precisamente por essa razão, as relações sexuais podiam ser abandonadas, pois o casamento físico, o gámos, teve sua significação esvaziada por seu poderoso arquétipo espiritual, e o pastos, a tenda nupcial secreta, recoberta de tapeçarias e profusamente iluminada, passou a eclipsar a união social e física do simples casamento.

102. O casamento era algo de sombrio e obscuro, se comparado ao momento íntimo e insubstancial em que, através da iniciação após ensinamentos prolongados, o iniciado unia seu espírito ao anjo-guia no leito nupcial religioso do batismo, pois, através do ensino e da iniciação batismal solene, a igreja cristã como um todo encontrou um modo estranho e rebuscado de continuidade, capaz de desconhecer tanto o casamento quanto a sepultura.

103. A Igreja descobriu as fontes de sua própria continuidade, pois, ao contrário das antigas cidades, em que as gerações se iam substituindo através das relações sexuais, a Igreja passou a desfrutar de uma continuidade que não era própria do desejo, mas da vontade.

104. Havia uma certa verdade simbólica na curiosa censura pagã aos cristãos que dizia que, na verdade, eles reverenciam a genitália de seu mentor e adoram-lhe os órgãos sexuais como pais de seu ser, pois, pelos esforços de uma geração de grandes mestres, a igreja cristã se tornara, de fato, uma instituição detentora do etéreo segredo da autorreprodução perpétua.

105. Esse segredo ficou ainda mais claro quando os líderes públicos da igreja, os bispos e o clero, passaram a abandonar os deveres demográficos normais próprios dos chefes de família, pois a continência do clero e dos guias religiosos anunciou ao mundo romano do final do século II que a igreja era uma nova forma de corpo público, certa de possuir meios próprios de assegurar uma existência perpétua.

106. Canta alegremente, oh estéril, tu que não deste à luz: põe-te a cantar e a exclamar bem alto, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da solteira do que os filhos da mulher casada, diz o Senhor, pois é para uma geração mais nova de professores que nos devemos voltar agora, primeiro para Clemente de Alexandria e, depois, passada uma geração, para o grande Orígenes, em cujas obras podemos ver quais foram as alternativas que os outros segmentos da igreja cristã se dispuseram a contrapor às opiniões examinadas pelos encratitas e pelos discípulos de Valentino.