2.3 Diversidade crítica

CAPUTO, John D. Heidegger and Aquinas: an essay on overcoming metaphysics. New York: Fordham University Press, 1982.

A PERSPECTIVA MUTÁVEL DA CRÍTICA DE HEIDEGGER

1. Há duas diferenças significativas entre o tratamento que Heidegger dá à metafísica escolástica nos Problemas Básicos e nas conferências sobre Nietzsche, pois, para começar, Heidegger vê uma distância muito maior entre os gregos e os escolásticos em 1941 do que via em 1928, tendo um sentido mais forte da primordialidade dos gregos e considerando a dispensação medieval do Ser como um encobrimento fatídico da experiência grega original.

2. Nos Problemas Básicos os pensadores medievais são tidos como a continuação da ontologia grega, nas conferências sobre Nietzsche são uma distorção dela, e em 1928 os gregos significam primariamente Platão e Aristóteles, não parecendo ainda atribuir-se importância especial a Parmênides, Heráclito e Anaximandro.

3. Esses pensadores são tidos como tendo projetado o significado do Ser em termos de fazer e produzir (Herstellen), que se diz ter sido feito sob medida para as necessidades da metafísica criacionista da Idade Média, mas em 1941 Platão e Aristóteles são lidos em termos primariamente aleciológicos, e nessa leitura ideia e energeia ocupam algo de uma casa de meio caminho entre a experiência primordial do presenciar como physis e aletheia e logos nos primeiros gregos e a compreensão endurecida e congelada da presença na escolástica, na qual a medida do Ser é a permanência e firmeza da aderência de um ente ao Ser.

4. Assim, se ouvirmos cuidadosamente a energeia, e não a traduzirmos por actualitas, ouviremos a experiência grega de expor uma coisa à manifestabilidade na forma da obra, mas a actualitas fala apenas de fazer e produzir efeitos, sendo assim os traços principais da história do Ser de Heidegger muito mais nitidamente esculpidos em 1941 e, por isso, ele vê uma divisão muito mais nítida entre as várias épocas da história ocidental, sendo suas sensibilidades históricas mais aguçadas e os primeiros gregos agora tidos como o grande origen do Ocidente, origem que antecede o começo (Beginn) da metafísica em Platão e Aristóteles.

5. Em Ser e Tempo os grandes começos eram tidos como idênticos a Platão e Aristóteles, e em 1941 ele vê os escolásticos como constituindo a ponte crucial para a metafísica moderna da atualidade (Wirklichkeit), que representa uma remoção ainda maior da experiência grega original do Ser, sendo a escolástica vista como transitiva para a tecnologia moderna, enquanto Platão e Aristóteles são o último eco da origem primordial do pensamento ocidental.

6. O forte sentido de história que Heidegger exibe em 1941 é ele mesmo o resultado de sua convicção, desenvolvida pela primeira vez no fim dos anos 30, de que a história do Ocidente é a história do próprio Ser, já tendo aludido a isso nas observações introdutórias às conferências sobre Nietzsche, devendo-se acrescentar aqui, porém, que esse deslocamento constitui uma crítica da posição anterior.

7. Assim, Heidegger escreve que essa destruição, como a fenomenologia e todas as questões transcendentais hermenêuticas, ainda não foi pensada em termos da história do Ser, sendo em 1941 a concepção escolástica medieval do Ser entendida como um endereço que é enviado ao pensamento medieval pelo próprio Ser, sendo a grandeza de um pensador como Tomás de Aquino que ele ouviu o que o Ser lhe endereça e diz o que está contido nesse endereço.

8. Mas em 1928 Heidegger sustentava uma visão bastante diferente, tomando a concepção escolástica do Ser como uma projeção do Ser em termos de um certo horizonte de compreensão, e é por isso que a visão é no sentido amplo transcendental, e sua crítica é que essa projeção é realizada ingenuamente, que, embora seja tirada do Dasein e de seu modo de ser, o modo único de ser do homem jaz no esquecimento.

9. Assim, as categorias da metafísica medieval são demasiado estreitas, bastam para explicar as coisas mas não para explicar o Ser do homem, isto é, do próprio Dasein, carecendo a escolástica de uma apreciação do Ser da Existenz, apesar de toda a sua fala de essentia e existentia, sendo essa uma crítica bastante diferente daquela apresentada em 1941.

10. Nos Problemas Básicos a crítica não é que essas categorias sejam demasiado estreitas, que se apliquem só às coisas e não ao Dasein, mas que são uma forma degenerada da experiência original do presenciar, que não bastam para uma compreensão nem do homem nem das coisas, representando uma queda fora da essência original do presenciar a ser encontrada nos primeiros gregos.

11. Em 1928 a crítica não é que a ontologia medieval seja tão equivocada, mas que é objetivista, orientada para as coisas, ingênua, alheia ao papel transcendental e projetivo que o Dasein desempenha ao dar significado às coisas e ao modo único de Ser do próprio Dasein, não estando assim em posição de reivindicar uma ontologia universal, tendo conseguido apenas elaborar uma ontologia regional mais ou menos adequada.

12. Carecia de uma ontologia fundamental do modo fundante de Ser do Dasein e era portanto incapaz de dizer o que o Ser em geral significa, e, embora Heidegger não traga isso explicitamente nos Problemas Básicos, §§ 10-12, é óbvio que qualquer concepção do Ser em geral apresentada na ontologia medieval teria de falhar em tematizar a pista transcendental do tempo, porque nunca firmou seu rumo por uma análise do modo de ser do Dasein como temporalidade, caindo a metafísica escolástica vítima do preconceito do mundo.

13. Mas a crítica de 1941 é mais radical, pois essentia e existentia não são ditas ter validade limitada, na esfera das coisas, são tidas como máscaras ou encobrimentos (Verbergungen) que ocultam a experiência grega inicial do Ser, não capturando a essência flutuante do presenciar como elevar-se e recair, como uma permanência na junção entre presença e ausência.

14. Antes transformam o que está presente (das Anwesende) numa coisa permanente, substantia, que perdura permanentemente (das Beständige), uma coisa que é posta adiante e feita para durar por um fazedor duradouro, tendo a coisa que presencia se tornado um pedaço de bens duráveis, feita para durar.

15. É em grande parte fútil argumentar contra a crítica transcendental que Heidegger lança contra a escolástica, na medida em que ele mesmo abdicou dessa posição e, ao que se sabe, não repete essa crítica em outro lugar, e, além disso, a possibilidade de articular a escolástica de um ponto de vista transcendental tem sido amplamente experimentada hoje.

16. De fato, como se notou no primeiro capítulo, o trabalho de Maréchal em Lovaina já estava em andamento em 1928, mas Heidegger ou não sabe disso ou por alguma razão escolhe não lhe dar atenção, talvez considerando-o imaterial para seus propósitos presentes, tendo Rahner, Lotz e Coreth todos tentado desenvolver um tomismo transcendental que remonta não só a Kant mas especificamente a Ser e Tempo.

17. Eles tentaram enraizar a noção tomista de esse num dinamismo inerente do intelecto, e num estudo breve mas bastante iluminador da filosofia existencial de Heidegger, escrito em 1940, Karl Rahner argumenta, em consonância com Heidegger, pela importância de assumir a questão do Ser de um ponto de vista transcendental.

18. O Ser não pode ser alcançado de frente, diz ele, um acesso ao Ser através do sujeito humano deve primeiro ser estabelecido, pois o Ser não é um ente, não é apenas algo que jaz por aí que possamos agarrar, e, como mostram as proposições universais a priori e necessárias, a noção de ser preexiste, subjazendo a toda cognição individual, não havendo modo de defini-la apelando a tal e tal característica de algum ente particular, temos de voltar até aquela noção inicial que a mente humana possui dela, em outras palavras, temos de voltar ao próprio homem, tornando-se o sujeito inquiridor o sujeito da inquirição, sendo agora o retorno ao sujeito precisamente a essência de uma abordagem transcendental.

19. E em sua Metafísica Coreth argumenta que o ponto de partida da metafísica é a questão do Ser, levando Coreth em conta a necessidade de uma ontologia fundamental, a ideia de hermenêutica do Dasein e a importância da compreensão pré-ontológica do Ser.

20. Embora não se queira decidir a questão aqui, e apesar do fato de que um estudo realmente completo dessa questão ainda está por ser feito, pareceria que é possível para a escolástica enfrentar a acusação heideggeriana de ingenuidade transcendental, e que o tomismo transcendental é um passo considerável nessa direção.

21. Não se prosseguirá, portanto, com a crítica transcendental da escolástica neste estudo, voltando-se antes a atenção para outro ponto em torno do qual parece girar a essência da crítica genuína de Heidegger à escolástica como espécie de Seinsvergessenheit.

22. Heidegger sempre considerou a concepção escolástica do Ser como articulada em termos de fazer e produção, Herstellen, sendo em sua visão o esse significando ser atual, wirk-lich, e pertencendo assim ao horizonte do efetuar, wirken, e, como tal, sendo uma queda fora da experiência grega primordial do presenciar.

23. Seguir esse ponto levará à questão central, a relação entre a metafísica do esse e a tentativa de Heidegger de pensar o Ser em termos do movimento histórico do Ser através do Ocidente, o que levará diretamente à questão do Ereignis e do esse.

24. Mas por ora o problema deve ser posto do seguinte modo, pois Heidegger toma a escolástica como tendo ficado aquém de uma concepção genuína do Ser como tal, como estando em esquecimento do significado genuíno do Ser e como tendo pensado o Ser somente em termos de produzir (Herstellen) e atualidade (Wirklichkeit), havendo na escolástica uma concepção genuína não do Ser, mas da entidade (Seiendheit).

25. O pensador escolástico, ou ao menos os estudantes de Santo Tomás, por outro lado, insiste resolutamente que a única concepção genuína do Ser como Ser, a única concepção que não reduz o Ser a alguma propriedade ôntica, é encontrada na metafísica do esse, havendo em toda parte o esquecimento do Ser, do esse, e em toda parte apenas alguma variação do essencialismo, sendo essas reivindicações concorrentes que se deve agora tentar adjudicar.