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PAI NOSSO
Escrito por volta de 630, esta carta de Máximo a um amigo em Cristo, se apresenta como uma interpretação da oração do Pai Nosso. Apresentamos excertos traduzidos da tradução inglesa da Philokalia.
- O destinatário desta carta, sempre presente ao espírito de quem escreve e que, à imitação de Deus, em sua condescendência não recusa tratar com seus servos, suscitou neste último, da admiração por essa grandeza, um único sentimento de caridade formado de temor e amor, reverência e afeto, para que o temor sem amor não se tornasse ódio, nem o amor sem o sábio temor se tornasse desrespeito, mas a caridade fosse lei interior de afeto que submete o ódio ao afeto e afasta a falta de respeito pela reverência.
- O bem-aventurado Davi, sabendo que sobretudo o temor assegura a caridade divina, disse que o temor do Senhor é puro e permanece para sempre, distinguindo-o do temor que nasce do medo do castigo pelas culpas — este expulso pela caridade, segundo o evangelista João, enquanto aquele outro, próprio da lei do verdadeiro afeto, guarda para sempre nos santos, com reverência, o vínculo incorrupto da caridade tanto para com Deus quanto para com o próximo.
- Tendo assim temperado, em relação ao destinatário, o temor com o amor, e mantida até hoje essa lei de caridade, a reverência continha a escrita por temor de desrespeito, enquanto o afeto impelia a escrever para que o silêncio não fosse tomado por ódio.
- Agora, porém, por ordem recebida, escreve-se não o que se pensa, mas o que Deus, por graça, faz conhecer como útil, sendo o “conselho do Senhor” de Davi talvez o inefável aniquilamento do Filho Unigênito para a deificação de nossa natureza, pelo qual ele fixou termo a todos os séculos, e os “pensamentos de seu coração” as razões de sua providência e julgamento, com que governa sabiamente a vida presente e a futura, atribuindo a cada uma seu modo próprio de operação.
- Sendo a deificação de nossa natureza obra do divino conselho, e sendo o fim dos divinos pensamentos levar a termo aquilo que nossa vida busca, convém conhecer e praticar a oração do Senhor para depois escrever convenientemente sobre seu significado.
- Tendo sido movido por Deus a tratar particularmente desta oração, também aqui ela se torna objeto do discurso, pedindo-se ao Senhor, que a ensinou, que abra o intelecto à compreensão dos mistérios nela contidos e conceda discurso capaz de explicar o que se compreendeu, pois em todas as suas expressões encontra-se definido, ainda que misticamente oculto, o propósito integral já mencionado, propósito aberto a quem tem intelecto suficientemente robusto para entendê-lo.
- O texto da oração faz pedir tudo o que o Verbo divino realizou com sua carne após aniquilar-se, ensinando a participar dos bens que só Deus Pai, pela mediação natural do Filho, no Espírito Santo, pode verdadeiramente conceder, sendo o Senhor Jesus, segundo o divino Apóstolo, mediador entre Deus e os homens, que pela carne revela aos homens o Pai que não conheciam e a ele os reconcilia pelo Espírito, sendo autor e mestre, sem mudança, ao fazer-se homem, de muitos mistérios novos cuja quantidade e grandeza a razão ainda não pôde medir, dos quais sete aparecem como mais universais: a teologia, a filiação divina pela graça, a igualdade com os anjos, a participação na vida eterna, a restauração da natureza renovada em si mesma na impassibilidade, a dissolução da lei do pecado e a destruição da tirania do Maligno que com engano se apoderou de nós, sendo destes que o sentido da oração misticamente encerra o propósito.
- O Verbo de Deus feito carne ensina a teologia ao mostrar em si o Pai e o Espírito Santo, pois todo o Pai e todo o Espírito Santo estavam essencial e perfeitamente em todo o Filho incarnado, não por se terem encarnado, mas um aprouvendo-se e o outro cooperando com o Filho que realizava sua incarnação, permanecendo o Verbo dotado de mente e vida, incompreensível segundo a essência absolutamente a ninguém senão ao Pai e ao Espírito, sendo segundo a hipóstase que ele, por amor aos homens, efetuou a união com a carne.
- Concede-nos depois a filiação divina, dando-nos a geração e a condeificação sobrenatural do alto pelo Espírito, na graça, dependendo a defesa e guarda desse estado em Deus da determinação voluntária dos gerados, que amem com sincera disposição a graça recebida e, pela prática dos mandamentos, façam resplandecer mais a beleza dada por graça, apropriando-se da divindade na medida em que, esvaziando-se das paixões, imitam o Verbo que, esvaziando-se voluntariamente de sua gloria purissima, conforme a economia, verdadeiramente se tornou e foi chamado homem.
- Tornou os homens iguais aos anjos não apenas pacificando, pelo sangue de sua cruz, as coisas do céu e da terra, aniquilando as potências adversas que ocupavam o espaço entre céu e terra e unindo as potências celestes e terrestres numa única assembleia festiva, fazendo a natureza humana ressoar a louvação da gloria de Deus em uma só vontade com as potências do alto, mas também ascendendo, ao concluir sua economia, com o corpo assumido, unindo céu e terra, ligando as realidades inteligíveis e sensíveis, e revelando a natureza criada como una em suas partes extremas, toda conectada em si pela virtude e pelo conhecimento da Causa primeira, mostrando assim que o Logos é a união do que está dividido, e a falta de logos a divisão das coisas unidas, devendo aprender-se a apropriar-se do Logos pela prática para unir-se não só aos anjos pela virtude, mas também a Deus pelo conhecimento, desligando-se dos seres.
- Concede-nos participar da vida divina, fazendo-se ele mesmo alimento, de modo que, ao gostarem desse alimento, os que receberam essa percepção intelectual conhecem por verdadeiro conhecimento que o Senhor é bom, fazendo participar os que comem de uma qualidade divina para sua deificação, pois ele verdadeiramente é e é chamado pão de vida e de potência.
- A restauração da natureza em si mesma opera-se não só porque, feito homem, manteve a vontade impassível e tranquila em relação à natureza, de modo que ela não se abalou nem contra os que o crucificavam — antes ele escolheu por eles a morte em vez da vida, mostrando a voluntariedade de sua paixão fundada no amor pelo homem daquele que padecia —, mas também porque aniquilou a inimizade, pregando na cruz a sentença escrita do pecado que provocava na natureza uma guerra implacável contra si mesma, e, chamando os distantes e os próximos — os que estavam sob a lei e os que estavam fora dela — derrubou o muro divisório, isto é, explicou a lei dos mandamentos com seus decretos, criando dos dois um só homem novo, fazendo a paz e reconciliando-nos por si mesmo ao Pai e entre nós, de modo que nossa vontade não mais se oponha à razão da natureza, tornando-nos imutáveis quanto à natureza e à vontade.
- Torna a natureza pura da lei do pecado ao não permitir que o prazer presidisse à sua encarnação por nós, tendo sua concepção ocorrido extraordinariamente sem semente e seu nascimento sobrenaturalmente sem corrupção, pois Deus, ao ser gerado, estreitou ainda mais, além da natureza, o vínculo da virgindade de sua mãe com o nascimento, libertando toda a natureza do poder da lei que a dominava, naqueles que o querem e que, na percepção sensível, mortificam seus membros terrestres à imitação de sua morte voluntária, sendo o mistério da salvação coisa de quem o quer, e não algo imposto como tirania.
- Destrói a tirania do Maligno que com engano se apoderou de nós, lançando-lhe como arma a própria carne vencida em Adão, vencendo-o assim: a carne que antes fora capturada pela morte captura o que a capturou e, com a morte da natureza, destrói a vida daquele, sendo a carne para o Maligno como veneno que o fez vomitar todos os que conseguira engolir, e para o gênero humano vida, como fermento que conduziu toda a massa da natureza humana à ressurreição da vida, sendo admirável que, por isso, o Verbo, sendo Deus, se faça homem e voluntariamente aceite a morte da carne.
- O texto da oração apresenta o pedido de todas essas coisas: fala do Pai, do seu nome e do seu reino, apresenta o filho na graça desse Pai — quem ora —, pede que os do céu e os da terra se tornem de uma só vontade, ordena pedir o pão sobressubstancial, estabelece como lei a reconciliação entre os homens reunificando a natureza consigo mesma pelo perdão dado e recebido, ensina a pedir ser preservado de entrar em tentação, que é a lei do pecado, e exorta a pedir libertação do Maligno.
- Era necessário que o mesmo autor e dador dos bens fosse também o mestre, apresentando as palavras desta oração como normas de vida aos discípulos que nele creem e imitam sua conduta na carne, revelando assim os tesouros ocultos da sabedoria e do conhecimento que há nele, cada um em seu gênero, e impulsionando o desejo dos que oram para a fruição deles.
- Por isso a Escritura chama “oração” a este ensino, pois contém o pedido dos dons que Deus dá aos homens por graça, sendo a oração, segundo os padres, o pedido daquilo que Deus convenientemente costuma dar aos homens, enquanto o voto é a promessa do que os homens oferecem a Deus em verdadeiro culto, podendo o voto ser a observância dos mandamentos confirmada pela vontade de quem o fez, e a oração o pedido, por quem os observou, dos bens que guardou — ou ainda, o voto o combate da virtude que Deus aceita com agrado, e a oração o premio da virtude que Deus dá com alegria em troca.
- Mostrado que a oração é o pedido dos bens concedidos pelo Verbo incarnado, coloca-se à frente do texto da oração o próprio Mestre e procede-se com a contemplação a descobrir o sentido de cada expressão, começando pelo “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu reino.”
- Com essas palavras o Senhor ensina os que oram a começar pela teologia, iniciando-os, na medida do possível, na existência da Causa criadora dos seres, pois as palavras da oração contêm a manifestação do Pai, do nome do Pai e do reino do Pai, para que desde o início se aprenda a venerar, invocar e adorar a Trindade una, sendo nome de Deus Pai, essencialmente subsistente, o Filho Unigênito, e reino de Deus Pai, essencialmente subsistente, o Espírito Santo — Mateus falando de “reino” onde outro evangelista mencionou o Espírito Santo (“venha o teu Espírito Santo e nos purifique”) — não tendo o Pai nome adquirido nem o reino como dignidade posterior a ele, pois, não tendo tido princípio de ser, sempre sendo, sempre é Pai e rei, e, sendo desde sempre Pai e rei, desde sempre também o Filho e o Espírito Santo subsistem essencialmente com o Pai, dele e nele por natureza, além de toda causa e razão, não sendo posteriores a ele, indicando a relação entre as hipóstases simultaneamente os termos pelos quais ela é e se diz relação, sem permitir que sejam considerados um depois do outro.
- Ao começar esta oração somos conduzidos a venerar a Trindade consubstancial e sobressubstancial como Causa criadora de nosso nascimento, e a proclamar a graça da filiação a nós concedida, por sermos feitos dignos de chamar Pai por graça a quem é nosso criador por natureza, devendo, com reverência por esse título, mostrar em nossa vida os caracteres de quem nos gerou, santificando seu nome na terra, imitando-o como pai, mostrando-nos filhos por nossas ações e magnificando, pelo que pensamos e fazemos, o Filho natural do Pai, autor desta filiação.
- Santificamos o nome de nosso Pai celeste por graça quando mortificamos a concupiscência ligada à matéria e nos purificamos das paixões corruptoras, sendo “santificação” a total cessação e mortificação da concupiscência da percepção sensível; alcançado isso, calam-se os latidos inconvenientes da ira, pois já não há concupiscência a excitá-la em defesa de seus prazeres, sendo a ira por natureza indicador da concupiscência e cessando de enfurecer-se quando a vê morta pela santidade segundo a razão; é justo, pois, que, rejeitadas ira e concupiscência, sobrevenha a força do reino de Deus Pai — isto é, o Espírito Santo — sobre os que, removidas essas paixões, são dignos de dizer “venha o teu reino”, pois, pela razão e pela mansidão nos costumes, tornam-se templos de Deus pelo Espírito Santo, sendo dito que Deus repousa sobre quem é manso e humilde e teme suas palavras, e sendo claro que o reino de Deus Pai pertence aos humildes e mansos, pois “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” — não esta terra que ocupa o centro do universo, segundo a promessa de que os ressuscitados não se casarão, mas serão como anjos no céu, herdando o reino preparado desde a fundação do mundo, entrando na alegria do Senhor, sendo arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor.
- Se tais são as promessas do Senhor aos que o amam, quem, atendo-se ao texto da Escritura, poderá dizer ser a mesma “terra” o reino preparado desde a fundação do mundo, a alegria misticamente oculta do Senhor e a morada contínua e ininterrupta dos que dela são dignos com o Senhor? Pensa-se antes que por “terra” se indique o estado sólido e inamovível de estabilidade no bem e a força dos mansos, que, estando sempre com o Senhor, possuem alegria inexaurível, alcançaram o reino preparado desde o princípio e foram feitos dignos da permanência nos coros celestes; e a razão da virtude é dita “terra” por ocupar a posição central no universo, pois o manso, situado entre a boa e a má fama, permanece impassível, não se inflando com a boa nem se entristecendo com a má, sendo sua razão livre por natureza, por ter rejeitado o desejo, não percebendo os assaltos que a atormentariam, e tendo transferido toda a potência da alma para a divina e intacta liberdade — sendo essa a liberdade que o Senhor quis dar aos discípulos ao dizer “tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para vossas almas”, definindo “repouso” como a força do reino divino que procura para quem dele é digno uma soberania livre de toda escravidão.
- Se aos humildes e mansos é dada a força indestrutível do reino incontaminado, quem será tão privado de amor e de atração pelos bens divinos a ponto de não desejar ao máximo a humildade e a mansidão, para revestir-se da marca do reino divino, na medida do possível ao homem, e trazer em si a imagem espiritual, imutável pela graça de Cristo que, por natureza, segundo a essência, é verdadeiramente o grande rei — em quem, diz o divino Apóstolo, não há macho nem fêmea, isto é, ira e concupiscência: aquela que tiranicamente perverte o pensamento e faz a mente saltar fora da lei da natureza, e esta que torna mais amável que a única, só desejável e impassível Causa e Natureza aquilo que vem depois dela, fazendo a carne preferível ao espírito e o gozo das aparências mais agradável que a gloria das realidades inteligíveis, desviando o intelecto, pela moleza sensível do prazer, da percepção divina das realidades inteligíveis, que lhe é conatural.
- Resta apenas a razão que, despida ao máximo pela virtude sobreabundante até do próprio afeto e propensão não passionais — mas ainda naturais — pelo corpo, pois o Espírito vence perfeitamente a natureza, leva o intelecto a cessar da filosofia moral, devendo já unir-se ao Verbo sobressencial por contemplação simples e indivisa, podendo desligar-se com facilidade das coisas sujeitas ao tempo, não sendo razoável, depois disso, sobrecarregar com normas morais, como com um manto, quem se mostrou livre do apego às coisas sensíveis, conforme indica o grande Elias, que, ao ser arrebatado, dá a Eliseu o manto — a mortificação da carne, que fixa o esplendor do decoro moral — para que Eliseu goze da aliança do Espírito contra toda potência adversa e possa golpear a natureza instável e fluida figurada pelo Jordão, não sendo impedido em sua passagem à terra santa nem permanecendo imerso no apego turvo às coisas materiais, indo-se livre a Deus, sem retenção alguma por relação com os seres, simples em seu desejo e com vontade não composta, dirigindo-se a Aquele que é simples por natureza, levado pelas virtudes universais conectadas entre si como cavalos de fogo.
- Elias sabia que o discípulo de Cristo deve afastar-se de disposições desiguais, pois tal desigualdade revela alienação: a paixão da concupiscência provoca afluxo de sangue ao coração, e a potência irascível, em movimento, produz ebulição de sangue, mas quem chegou a viver, mover-se e ser em Cristo afastou de si o que produz essas coisas discordantes e desequilibradas, não trazendo mais em si, como macho e fêmea, as disposições opostas das paixões, de modo que a razão já não é escravizada pelas paixões nem sujeita à sua instabilidade, pois com a razão está intimamente unida por natureza a imagem divina, que impele a alma a conformar-se, por escolha voluntária, à semelhança divina, e a tornar-se participante do grande reino que essencialmente subsiste em Deus Pai de todos, como morada resplandecente de Espírito Santo, recebendo, na medida do possível, toda a potência do conhecimento da natureza divina.
- Por essa potência elimina-se a produção do mal e realiza-se a do bem, pois, como Deus, a alma, em razão de sua vocação, guarda inviolada em si a substância dos bens que lhe foram dados, sendo nessa alma que Cristo sempre quer ser misticamente gerado, encarnando-se mediante os salvos e tornando virgem-mãe a alma que o gera, alma que não tem, em suma, condição definida pela oposição macho-fêmea, característica da natureza sujeita à corrupção e à geração.
- Não cause espanto indicar a corrupção antes da geração, pois, examinada sem paixão e com recta razão a natureza do que nasce e morre, ver-se-á claramente que a geração começa pela corrupção e nela termina; mas Cristo — isto é, a vida e a razão de Cristo e segundo Cristo — não possui as paixões próprias dessa natureza, sendo verdadeiro quem diz que em Cristo Jesus não há macho nem fêmea, indicando-se com isso as características e paixões da natureza sujeita à corrupção e à geração, havendo apenas uma razão deiforme qualificada pelo conhecimento divino e um único movimento de vontade que escolhe somente a virtude.
- “Nem grego nem judeu” indica os dois discursos opostos sobre a noção de Deus: um introduz múltiplos princípios e subdivide o princípio único em operações e potências opostas entre si, configurando uma divindade politeísta contraditória e ridícula pelos vários modos de culto; o outro introduz um único princípio, mas estreito, imperfeito e quase inexistente por privado de razão e vida, caindo, por via oposta, no mesmo mal do primeiro — a negação de Deus —, ao limitar o princípio único a uma Pessoa subsistente sem o Verbo e o Espírito, ou tendo Verbo e Espírito apenas como qualidades, sem perceber que Deus não seria Deus se não participasse destes ou se fosse como que repartido pela participação de elementos sujeitos à geração, racionais, como seus acidentes.
- Em Cristo não há nenhum desses dois discursos, mas uma única razão de verdadeira piedade e uma sólida lei de mística teologia, que rejeita tanto a ampliação da divindade quanto sua contração, de modo que o ser divino não está em contradição pela multiplicidade natural, como entre os gregos, nem é passível pela unicidade da hipóstase, como entre os judeus, privado do Verbo e do Espírito ou tendo-os como qualidades, sendo a divindade professada como Intelecto, Verbo e Espírito.
- Essa concepção ensina a reconhecer como única a natureza e a potência da divindade — um só Deus considerado no Pai, no Filho e no Espírito Santo —, a conhecer Deus como um único Intelecto não causado, essencialmente subsistente, que gera o único Verbo essencialmente subsistente e sem princípio, e que é fonte da única vida eterna essencialmente subsistente, o Espírito Santo: Trindade na Unidade e Unidade na Trindade, sem que uma esteja na outra como acidente em substância, nem se distingam por natureza, potência, ou como algo geral em relação a partes, nem uma derive da outra, sendo Unidade e Trindade a mesma e única realidade, dita e pensada segundo a essência de um lado e o modo de existência de outro, sendo integralmente Unidade não subdividida pelas hipóstases, e integralmente Trindade não confundida pela Unidade, para que não se introduza o politeísmo pela divisão nem o ateísmo pela confusão.
- O discurso relativo a Cristo resplandece por evitar ambos esses extremos: nele não há “macho nem fêmea” — os sinais e paixões da natureza sujeita à corrupção e geração —, nem “grego nem judeu” — os discursos opostos sobre a divindade —, nem circuncisão e incircuncisão — os cultos correspondentes, um dos quais, pelos símbolos da lei, considera má a criação visível e acusa o Criador, o outro, pelas paixões, diviniza a criação visível e a levanta contra o Criador, resultando ambos na mesma ofensa a Deus.
- Não há “bárbaro nem cita” — a divisão, segundo a vontade, da única natureza contra si mesma, divisão pela qual se insinuou entre os homens a lei contra a natureza do matar-se mutuamente; nem “escravo nem livre” — a divisão da mesma natureza contra a vontade, que considera indigno de honra quem por natureza tem direito à mesma honra, sustentada pela disposição dos dominantes que tiraniza a dignidade da imagem.
- Em vez disso, “tudo e em todos Cristo”, que, no Espírito, por aquilo que supera a natureza e a lei, dá forma ao reino sem princípio caracterizado por humildade de coração e mansidão, cujo encontro indica o homem perfeito segundo Cristo: quem é humilde de sentir é também manso, e quem é manso é também humilde de sentir, sendo humilde por saber que o que possui é como um empréstimo, e manso por reconhecer o uso das potências naturais recebidas e entregá-las à razão para gerar as virtudes, retirando perfeitamente sua operação da percepção sensível, movendo-se assim continuamente com o intelecto para Deus, enquanto, quanto à percepção sensível, permanece imóvel mesmo experimentando todas as penas do corpo, sem imprimir na alma traço de tristeza no lugar da disposição que traz alegria, conhecendo um único prazer — a comunhão de vida da alma com o Verbo — cuja privação é castigo sem fim, abrangendo por natureza todos os séculos, voltando-se assim, deixado o corpo e tudo o que lhe pertence, com todo o vigor para essa comunhão divina, não considerando outro dano possível, ainda que senhor de tudo na terra, senão o de fracassar na deificação por graça que o espera.
- Purifiquemo-nos, pois, de toda contaminação da carne e do espírito para santificar o nome divino, extinta a concupiscência que indignamente nos tormenta com as paixões e contida pela razão a ira que se enfurece desordenadamente com os prazeres, podendo assim, pela mansidão, acolher a vinda do reino de Deus Pai.
- Liga-se a isso a frase seguinte da oração, “seja feita a tua vontade assim na terra como no céu”: quem, com a só potência racional livre de concupiscência e ira, presta culto místico a Deus, cumpriu na terra a vontade divina como as hostes angélicas no céu, tornando-se em tudo semelhante aos anjos no culto e na vida, conforme o “nossa cidadania está nos céus” do grande Apóstolo, não havendo nos anjos concupiscência que paralise pelo prazer o vigor das operações do intelecto, nem ira que ladre vergonhosamente contra o semelhante, mas só a razão que, conforme à natureza, conduz os seres racionais à primeira razão, sendo isso o único de que Deus se alegra e o único que pede de nós, conforme “que tenho eu no céu, e que quis de ti na terra?”, não havendo nos céus outra oferenda dos santos anjos a Deus senão o culto racional, sendo isso também o que se nos pede ao ensinar a orar “seja feita a tua vontade, como no céu também na terra.”
- Mova-se então também nossa razão em busca de Deus, e a potência concupiscível ao desejo dele, e combata a potência irascível para guardá-lo — ou, mais propriamente, esteja o intelecto todo ordenado a Deus, fortalecido pela tensão própria da potência irascível e inflamado pelo desejo da potência concupiscível levado ao máximo, de modo que, imitando os anjos dos céus, adoremos continuamente a Deus, conduzindo-nos na terra como anjos, pois, como o deles, nosso intelecto não se moverá em absoluto para nada que vem depois de Deus.
- Vivendo assim tal cidadania, receberemos, como pão sobressubstancial e vital para o alimento de nossas almas e a manutenção do bom estado dos bens que nos foram dados, o próprio Verbo que disse “eu sou o pão que desceu do céu e dá vida ao mundo”, tornando-se ele tudo para nós na medida em que, por virtude e sabedoria, dele nos alimentamos, tomando corpo de modo diverso, do modo que só ele sabe, em cada um dos que são salvos enquanto ainda vivemos neste século — sendo este o sentido de “dá-nos hoje o nosso pão sobressubstancial.”
- Pela palavra “hoje” entende-se o século presente, como se alguém, compreendendo bem este ponto da oração, dissesse “dá-nos hoje, a nós que vivemos a presente vida mortal, o nosso pão que preparaste no princípio para a imortalidade da natureza”, sendo esse alimento, pão de vida e de conhecimento, o que vence a morte do pecado, pão de que o primeiro homem não pôde participar por causa da transgressão do mandamento divino, pois, se dele se tivesse saciado, não teria sido tomado pela morte, consequência do pecado.
- Quem ora para receber esse pão sobressubstancial não o recebe inteiro tal como é em si, mas na medida em que pode recebê-lo, pois o pão da vida, em seu amor pelos homens, dá-se a todos os que o pedem, mas não a todos do mesmo modo: mais a quem fez obras maiores, menos a quem fez menores, segundo o que a dignidade do intelecto de cada um pode receber.
- A esta compreensão conduz o próprio Salvador, quando ordena explicitamente aos discípulos que não se preocupem com o sustento sensível, dizendo “não vos preocupeis com vossa vida, sobre o que comereis ou bebereis, nem com vosso corpo, sobre o que vestireis, pois são os gentios que buscam essas coisas; buscai antes o reino de Deus e sua justiça, e essas coisas vos serão dadas por acréscimo” — sendo evidente que não se ordena pedir na oração o que antes se proíbe buscar, devendo a oração pedir somente o que o mandamento ordena buscar, de modo que, tendo o Salvador ordenado buscar somente o reino de Deus e a justiça, é natural que se peça isso na oração, unindo assim a vontade dos que pedem à vontade de quem oferece a graça.
- Se, porém, somos ordenados a pedir na oração o pão de cada dia, com que costuma sustentar-se nossa vida presente, não devemos ultrapassar os limites da oração buscando avidamente abraçar o ciclo de muitos anos, esquecendo que somos mortais e que nossa vida passa como uma sombra, devendo antes pedir, sem preocupação, apenas o pão daquele dia, fazendo da vida um exercício de morte segundo a filosofia de Cristo, antecipando pela vontade a natureza e, antes que a morte sobrevenha, desligando a alma da preocupação pelas coisas do corpo, para que ela não se prenda às coisas corruptíveis nem aprenda a cobiça que priva da abundância dos bens divinos.
- Fujamos com todas as forças do afeto pela matéria e lavemo-nos de toda relação com ela como de pó nos olhos espirituais, contentando-nos apenas com o que sustenta a vida, e não com o que lhe traz prazer, pedindo a Deus, como nos foi ensinado, que possamos guardar a alma livre de escravidão, em nada dominada pelo que se ama por causa do corpo, mostrando comer para viver e não viver para comer, sendo o primeiro próprio da natureza racional e o segundo da irracional.
- Sejamos observadores rigorosos da oração, mostrando por obras que preferimos com firmeza a única vida no Espírito, que nos servimos da vida presente para alcançar aquela, e que, por causa dela, cuidamos desta apenas o suficiente para não recusar sustentá-la com o simples pão, guardando seu bom estado natural íntegro, não simplesmente para viver, mas para viver para Deus, fazendo do corpo, racionalizado pelas virtudes, mensageiro da alma, e da alma um arauto de Deus, qualificada pela firmeza no bem; assim limitamos naturalmente o pedido a um só dia, não nos atrevendo a estendê-lo ao segundo, por respeito a quem nos deu a oração, podendo então passar com pureza, conformadas as disposições segundo o sentido da oração, à expressão seguinte: “e perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós as perdoamos aos nossos devedores.”
- Quem busca na oração aquele pão incorruptível da sabedoria, do qual a transgressão original nos privou no século presente — simbolizado pelo “hoje” — sabe que o único prazer consiste em alcançar os bens divinos cujo dador por natureza é Deus e cujo guardião é a livre vontade de quem os recebeu, sabendo também que a única dor consiste em não alcançá-los — sendo o diabo quem sugere esse fracasso, mas autor dele quem, por fraqueza da vontade, não guarda o valor amado.
- Se alguém não direciona sua escolha às coisas visíveis e não se deixa arrastar por nenhuma pena que sobrevenha ao corpo, este verdadeiramente perdoa aos que pecam contra ele, pois ninguém pode tocar o bem ao qual se estende seu desejo, devendo crer-se inalienável por natureza, propondo-se tal homem como exemplo a Deus — se lícito dizê-lo — ao pedir “perdoa-nos as nossas dívidas como também nós as perdoamos aos nossos devedores”, exortando Deus a ser, para com ele, o que ele se tornou para o próximo: se quer que Deus o perdoe como ele perdoou as dívidas de quem pecou contra ele, é porque, permanecendo impassível diante do que lhe acontece, perdoa aos culpados sem permitir que se imprima no intelecto qualquer memória das penas sofridas, para não ser acusado de cortar a natureza pela vontade ao separar-se de outro homem, unindo-se assim a vontade à razão da natureza e realizando-se a reconciliação de Deus com a natureza.
- Se a natureza, pela vontade, se rebela contra si mesma, é impossível que acolha a divina e inefável condescendência; talvez por isso Deus queira que primeiro nos reconciliemos entre nós, não porque ele precise aprender de nós a reconciliar-se com os pecadores, mas para nos purificar das paixões e mostrar que a disposição dos perdoados está de acordo com a condição da graça, ficando claro que, unida a vontade à razão da natureza, a faculdade de escolha dos que a alcançarem não estará mais em rebelião contra Deus, pois nada de contrário à razão pode existir na razão da natureza — que é também lei natural e divina — quando assume o movimento da vontade conforme a essa razão, sendo então a operação da vontade inteiramente conforme a Deus, disposição ativa caracterizada pela graça daquele que por natureza é bom, voltada a dar vida à virtude.
- Estas são as disposições de quem pede na oração o pão espiritual; e mesmo quem, constrangido pela natureza, pede apenas o pão daquele dia deve ter as mesmas disposições, perdoando primeiro aos seus devedores, por saber-se mortal por natureza, e, esperando a cada dia, na incerteza, o que sucede por natureza, antecipa pela vontade a natureza, tornando-se voluntariamente morto para o mundo, conforme “por causa de ti somos entregues à morte todo o dia, fomos considerados como ovelhas para o matadouro”, oferecendo-se assim em libação por todos, para que não reste nele traço da perversidade do século presente, e, passado à vida que não envelhece, receba do juiz do universo a recompensa devida pelo que fez aqui.
- A ambos é necessária uma disposição pura para com os que os entristeceram, especialmente em vista do sentido das expressões seguintes: “e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do Maligno.”
- A Escritura revela que quem não perdoou perfeitamente a quem caiu, e não apresentou a Deus um coração puro de tristeza, iluminado pela reconciliação com o próximo, não obterá a graça dos bens pedidos, e, por justo julgamento, será entregue à tentação e ao Maligno, aprendendo assim a purificar-se das culpas eliminando suas queixas contra os outros; aqui “tentação” designa a lei do pecado, da qual o primeiro homem era livre quando criado, e “Maligno” designa o diabo que misturou essa lei à natureza dos homens e, com engano, persuadiu o homem a transferir o desejo de sua alma das coisas lícitas para as proibidas, desviando-o à transgressão do divino mandamento, o que provocou a perda da incorruptibilidade dada por graça; ainda, “tentação” designa a disposição voluntária da alma para as paixões da carne, e “Maligno” o modo de realização atual dessa disposição passional.
- O justo juiz não libertará de nenhuma dessas coisas quem não perdoou as dívidas a seus devedores, nem mesmo se simplesmente o pedir na oração, permitindo Deus que tal pessoa seja maculada pela lei do pecado e dominada pelo Maligno, por ter preferido, com vontade dura e rígida, as paixões da ignomínia — de que o diabo é semeador — à natureza, da qual Deus é criador.
- A quem voluntariamente se inclina às paixões da carne, Deus não impede de realizá-las de fato, nem o liberta dessa inclinação, porque ele, considerando a natureza inferior às inconsistentes paixões, por seu zelo por estas ignorou a razão daquela, quando deveria, movido por essa razão, conhecer a lei da natureza e a tirania das paixões surgida por livre escolha da vontade, não segundo a natureza, conservando a natureza pelas operações naturais, repelindo a tirania das paixões longe da vontade, protegendo pela razão a natureza que em si permanece pura e imaculada, e tornando de novo a vontade conforme à natureza, irrepreensível, livre de odio e divisão, para nunca voltar-se ao que a razão da natureza não permite, afastando assim todo odio e divisão de quem lhe é afim por natureza, de modo a ser atendido nesta oração e obter de Deus dupla graça em vez de uma só: o perdão das culpas passadas e a proteção e libertação quanto às futuras, pois Deus não o deixa entrar em tentação nem o abandona à escravidão do Maligno por este único motivo: estar disposto a perdoar as dívidas ao próximo.
- Voltando, pois, e resumindo o que foi dito, se queremos ser libertados do Maligno e não entrar em tentação, devemos crer em Deus e perdoar as dívidas a nossos devedores, pois “se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai celeste vos perdoará”, recebendo assim não só o perdão das culpas cometidas, mas também vencendo a lei do pecado, de modo que não nos seja permitido experimentá-la, e pisando a maligna serpente, pai dessa lei, da qual pedimos ser libertados, pois Cristo, que venceu o mundo, combaterá conosco e, armando-nos com as leis dos mandamentos, pela remoção das paixões conforme essas leis, unirá a natureza a si mesma pelo amor, e, sendo ele pão de vida, sabedoria, conhecimento e justiça, moverá insaciavelmente nosso apetite para ele e, pelo cumprimento da vontade do Pai, nos fará adoradores juntamente com os anjos, mostrando em nossa conduta, por boa imitação, o agrado celeste.
- Daí nos conduzirá à suprema ascensão das realidades divinas, ao Pai das luzes, tornando-nos participantes da natureza divina pela participação por graça do Espírito Santo, sendo por essa participação chamados filhos de Deus e, puros de toda mácula, íntegros, portando inteiramente em torno de nós — sem limitá-lo — o próprio autor desta graça, o Filho do Pai por natureza, do qual, por quem e em quem temos e teremos o ser, o movimento e a vida.
- O propósito de nossa oração deve então tender a este mistério da deificação, para que conheçamos de que condição fomos tirados e o que de nós fez o aniquilamento na carne do Unigênito, e de onde e para onde, com a potência de sua mão amorosa, ele nos fez subir, a nós que tínhamos tocado o ponto mais baixo de tudo a que o peso do pecado nos havia afundado, amando assim mais a quem sabiamente preparou para nós tal salvação, mostrando com nossas ações o cumprimento da oração e aparecendo como anunciadores de Deus, nosso verdadeiro Pai por graça, mostrando claramente que não temos como pai de nossa vida o Maligno, que pelas paixões da ignomínia sempre tenta dominar tiranicamente a natureza, e que não trocamos, sem perceber, a vida pela morte.
- Cada um destes dois, Deus e o Maligno, naturalmente comunica o que lhe é próprio aos que a eles se aproximam: Deus concede a vida eterna aos que o amam, enquanto o Maligno, pela sugestão das tentações voluntárias, procura a morte para os que dele se aproximam, sendo as tentações, segundo a Escritura, de duas espécies, uma agradável e outra dolorosa, uma dependente de escolha voluntária e outra não — a primeira gerando o pecado, contra a qual o Senhor ordenou orar para que nela não se caia (“não nos deixes cair em tentação”; “vigiai e orai para não entrardes em tentação”), e a segunda sendo vingadora do pecado, castigando a disposição ao pecado com penas não desejadas, devendo quem as suportar, sobretudo se não estiver ferido pelos cravos do vício, ouvir o grande Tiago proclamar que se considere grande alegria cair em várias tentações, pois a prova da fé produz a perseverança, e a perseverança a virtude provada, e esta leva à obra perfeita.
- De ambas as tentações, a voluntária e a involuntária, o Maligno perfidamente se ocupa: semeando a voluntária, excita a alma com os prazeres do corpo para desviar seu desejo do amor divino, e, pelo engano, busca também a involuntária, querendo destruir a natureza pela dor, para forçar a alma, abatida pelo sofrimento, a voltar seus pensamentos contra o Criador em calúnia.
- Mas, conhecidos os pensamentos do Maligno, suplica-se que se afaste a tentação voluntária, para que o desejo não se desvie do amor divino, e que, quanto à involuntária, quando sobrevier por permissão de Deus, seja suportada generosamente, para mostrar que se prefere ao próprio bem da natureza o Criador da natureza.
- Que todos os que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo sejam agora resgatados das lisonjas do Maligno e libertados dos sofrimentos futuros pela participação na substância de todos os bens futuros, já mostrada no próprio Cristo Senhor nosso, que só, com o Pai e o Espírito Santo, é glorificado por toda a criação. Amém.
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