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3ª CENTÚRIA

Resumo dos parágrafos

  1. O uso racional dos conceitos e das coisas produz temperança e conhecimento, enquanto o uso irracional produz desenfreada, ódio e ignorância.
  2. Diante de mim preparaste uma mesa, onde a mesa significa a virtude prática preparada por Cristo diante dos que nos afligem, o óleo que unge o intelecto é a contemplação das criaturas, o cálice de Deus é o conhecimento de Deus, a sua misericórdia é o seu Verbo e Deus, a casa é o reino onde todos os santos serão reintegrados, e a longura dos dias significa a vida eterna.
  3. Os vícios sobrevêm em nós na medida em que abusamos das potências da alma (concupiscível, irascível e racional), sendo que o abuso da potência racional gera ignorância e estultícia, o da parte irascível e concupiscível gera ódio e desenfreada, enquanto o uso adequado delas gera conhecimento, prudência, amor e temperança, de modo que nenhuma das coisas criadas por Deus é má.
  4. Não são maus os alimentos, mas a gula; nem a procriação de filhos, mas a fornicação; nem as riquezas, mas o amor ao dinheiro; nem a glória, mas a vanglória; portanto, nada nos seres é mau senão o abuso, que ocorre por negligência do intelecto em cultivar a natureza.
  5. O bem-aventurado Dionísio afirma que o mal nos demônios consiste em ira irracional, concupiscência estulta e fantasia desconsiderada, sendo que a irracionalidade, estultícia e desconsideração são privação de razão, intelecto e circunspecção nos seres racionais, e como a privação é posterior à posse, houve um momento em que neles havia razão, intelecto e piedosa circunspecção; portanto, nem os demônios são maus por natureza, mas tornaram-se maus por abuso das potências naturais.
  6. Entre as paixões, umas produzem desenfreada, outras produzem ódio, e outras produzem tanto desenfreada quanto ódio.
  7. A loquacidade e o comer coisas gostosas são motivo de desenfreada; o amor ao dinheiro e a vanglória geram ódio ao próximo; e o amor próprio, pai desses males, é causa tanto da desenfreada quanto do ódio.
  8. Amor próprio é o afeto passional e irracional para com o corpo, ao qual se opõem o amor e a continência, e quem tem amor próprio claramente possui todas as paixões.
  9. Ninguém odeia a própria carne, diz o Apóstolo, mas ele a trata duramente e a reduz à escravidão, concedendo-lhe apenas o necessário para viver, amando a carne sem paixões, nutrindo-a como serva das coisas divinas e confortando-a somente no que supre sua indigência.
  10. Quando se ama alguém, também se é solícito em servi-lo em tudo; portanto, se alguém ama a Deus, é solícito em fazer tudo o que lhe é agradável, mas se ama a carne, faz o que a deleita.
  11. A Deus agradam o amor, a temperança, a contemplação e a oração; à carne agradam a gula, a desenfreada e o que lhe aumenta; por isso, os que estão na carne não podem agradar a Deus, mas os que são de Cristo crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências.
  12. Se o intelecto se volta para Deus, mantém o corpo como escravo e não lhe concede nada além do necessário à vida; mas se se volta para a carne, torna-se escravo das paixões, cuidando sempre dela por causa das concupiscências.
  13. Se queres vencer os pensamentos, presta atenção às paixões e facilmente os expulsarás do intelecto: para a fornicação, jejua, vigia, afadiga-te e vive solitário; para a ira e tristeza, despreza a glória, a desonra e as coisas materiais; para o rancor, ora por quem te entristeceu e serás liberto.
  14. Não te compares com os homens mais fracos, mas tende antes para o mandamento do amor, pois se te comparares com aqueles caís no abismo da presunção, enquanto se tenderes para aquele mandamento progrides até o cume da humildade.
  15. Se observas integralmente o mandamento do amor ao próximo, por nenhuma coisa mostrarás a amargura da tristeza contra ele; caso contrário, é claro que, preferindo ao amor as coisas temporais e fazendo valer teus direitos, combates o irmão.
  16. O dinheiro tornou-se objeto de inveja para os homens não tanto por sua utilidade, mas porque muitos se servem dele para cultivar seus prazeres.
  17. Três são as causas do amor às riquezas: amor ao prazer, vanglória e falta de fé, sendo a falta de fé mais terrível do que as outras duas.
  18. O amante do prazer ama o dinheiro pelos gozos que pode lhe dar; o vanglorioso ama-o para obter glória; o que falta à fé ama-o para escondê-lo e conservá-lo por medo da fome, velhice, doença ou exílio, esperando mais nele do que em Deus, cuja providência se estende até ao mais pequeno dos viventes.
  19. Quatro são os que guardam riquezas: os três mencionados e o administrador, sendo que somente este último o faz de modo reto, para nunca faltar no que cada um necessita.
  20. Todos os pensamentos passionais ou excitam a parte concupiscível da alma, ou agitam a parte irascível ou racional, causando cegueira do intelecto para a contemplação espiritual e para o êxtase na oração; por isso o monge, especialmente o hesicasta, deve rigorosamente atentar aos pensamentos, reconhecer suas causas e cortá-las, como quando os pensamentos passionais de mulheres são cortados por fome, sede, vigília e solidão, e os da cólera são cortados pelo desprezo e não-cuidado das coisas materiais por amor de Deus.
  21. Deus conhece a si mesmo e conhece as coisas por ele feitas; também as santas Potências conhecem a Deus e as coisas por ele feitas, mas não da mesma forma como ele mesmo se conhece e conhece suas obras.
  22. Deus conhece a si mesmo pela sua bem-aventurada essência e conhece as coisas feitas por ele pela sua sabedoria, enquanto as santas Potências conhecem a Deus por participação (ele que está além da participação) e conhecem as coisas porque recebem seus princípios.
  23. As coisas criadas estão fora do intelecto, mas dentro dele ele recebe a contemplação delas; não assim com Deus, o eterno, infinito, imenso, que dá aos seres o ser, o ser-bem e o ser-sempre.
  24. Participa do Deus santo a essência racional e inteligente pelo próprio ser, pela aptidão para o ser-bem (bondade e sabedoria) e pela graça do ser-sempre; assim, ela conhece a Deus, e conhece as coisas criadas por ele recebendo a sabedoria criadora contemplada nas criaturas, que está simples e não substancialmente no intelecto.
  25. Deus, por sua suma bondade, ao produzir a essência racional e inteligente comunicou-lhe quatro propriedades divinas: o ser, o ser-sempre, a bondade e a sabedoria, atribuindo as duas primeiras à essência e as duas últimas à faculdade volitiva, para que a criatura se tornasse por participação o que Deus é por essência, sendo criada à imagem e semelhança de Deus: à imagem quanto ao ser e ao ser-sempre (sem princípio mas sem fim), e à semelhança quanto a ser boa e sábia (Deus por natureza, a criatura por graça), sendo que toda natureza racional é feita à imagem de Deus, mas apenas os bons e sábios são feitos à sua semelhança.
  26. Toda a essência racional e inteligente divide-se em natureza angélica e humana; a natureza angélica divide-se em santas Potências e demônios impuros; e toda a natureza humana divide-se em pios e ímpios.
  27. Deus, sendo existência em si mesma, bondade em si mesma, sabedoria em si mesma, ou melhor, estando além de tudo isso, não tem absolutamente nenhuma qualidade contrária; as criaturas, porém, tendo a existência por participação e graça, e as racionais também a aptidão para a bondade e sabedoria, possuem também o contrário (não-existência, malícia e ignorância), sendo que o existir sempre ou não depende do poder de Deus, enquanto o participar ou não da bondade e sabedoria depende do ato de vontade das criaturas racionais.
  28. Os gregos afirmam que a essência dos seres coexiste eternamente com Deus e só recebe dele as qualidades relativas, não havendo contrário na essência; nós, porém, dizemos que só a divina essência não tem contrário, enquanto na essência dos seres encontra-se o não-ser como contrário, e o seu ser-sempre ou não-ser está no poder daquele que propriamente é, embora seus dons sejam sem arrependimento e ela sempre seja e será sustentada pela potência onipotente.
  29. Assim como o mal é privação de bem e a ignorância é privação de conhecimento, também o não-ser é privação do ser (não do ser que propriamente é, pois este não tem contrário, mas do ser por participação), sendo que a privação de bem e conhecimento depende da vontade das criaturas, enquanto a privação de ser depende da vontade do Criador, que por sua bondade quer que os seres sempre sejam e sempre sejam por ele beneficiados.
  30. Entre as criaturas, umas são racionais e inteligentes (suscetíveis dos contrários virtude/vício, conhecimento/ignorância), outras são corpos diversos compostos de elementos contrários (terra, ar, fogo, água); aquelas são inteiramente incorpóreas e imateriais (embora algumas unidas a corpos), enquanto os corpos consistem apenas de matéria e forma.
  31. Todos os corpos são por natureza imóveis e são movidos pela alma: uns por uma alma racional, outros por uma irracional, outros por uma insensível.
  32. Das potências da alma, uma é nutritiva, uma é imaginativa e apetitiva, e uma é racional e intelectual: os vegetais têm só a primeira, os animais irracionais têm também a segunda, os homens acrescentam a terceira; as primeiras duas são corruptíveis, a terceira é incorruptível e imortal.
  33. As santas Potências, comunicando entre si a iluminação, transmitem à natureza humana ou a virtude (bondade imitadora de Deus, pela qual beneficiam a si mesmas, reciprocamente e às potências inferiores) ou o conhecimento (de algo mais alto sobre Deus, mais profundo sobre os seres incorpóreos, mais preciso sobre os corpos, mais penetrante sobre a providência, ou mais claro sobre o juízo).
  34. A impureza do intelecto é: primeiro, ter um conhecimento falso; segundo, ignorar algo do universal (no caso do intelecto humano, pois é próprio do anjo não ignorar nada do particular); terceiro, ter pensamentos passionais; quarto, consentir ao pecado.
  35. A impureza da alma é não operar segundo a natureza, donde nascem para o intelecto os pensamentos passionais, pois a alma age segundo a natureza quando suas potências passionais (ira e concupiscência) permanecem impassíveis no assalto das coisas e dos conceitos que estão nelas.
  36. A impureza do corpo é o pecado de obra.
  37. Ama a hesíquia quem não é afetado por paixão pelas coisas do mundo; ama todos os homens quem não ama nada de humano; tem conhecimento de Deus e das coisas divinas quem não se escandaliza com ninguém, nem por culpas nem por pensamentos provenientes de suspeita.
  38. É grande coisa não ser afetado por paixão pelas coisas, mas muito maior é permanecer impassível em relação aos conceitos delas.
  39. O amor e a continência mantêm o intelecto impassível, tanto em relação às coisas quanto em relação aos conceitos das coisas.
  40. O intelecto de quem ama a Deus não combate contra as coisas nem contra seus conceitos, mas contra as paixões conjugadas aos conceitos; por exemplo, não combate contra a mulher, nem contra quem o entristeceu, nem contra as representações mentais deles, mas contra as paixões que estão unidas às representações.
  41. Toda a luta do monge contra os demônios é para separar as paixões dos conceitos, porque senão ele não pode olhar as coisas sem paixão.
  42. Outra coisa é a coisa, outro é o conceito e outro é a paixão: por exemplo, a coisa é um homem, mulher, ouro etc.; o conceito é a simples lembrança dessas coisas; a paixão é um afeto irracional ou um ódio sem discernimento por alguma delas; portanto, a luta do monge é contra a paixão.
  43. Um conceito passional é um pensamento composto de paixão e conceito; se separarmos a paixão do conceito, resta o pensamento simples; e podemos separá-la, se quisermos, mediante o amor espiritual e a continência.
  44. As virtudes separam o intelecto das paixões; as contemplações espirituais separam-no dos conceitos simples; a prece pura coloca-o diante do próprio Deus.
  45. As virtudes são ordenadas ao conhecimento das criaturas; o conhecimento é ordenado ao sujeito que conhece; e o sujeito que conhece é ordenado àquele que é conhecido incognoscivelmente e que conhece além do conhecimento.
  46. O Deus que transcende toda plenitude trouxe as criaturas à existência não porque precisasse de algo, mas para que elas gozassem participando analogicamente dele e ele se alegrasse com suas obras vendo-as alegrar-se e saciar-se insaciavelmente daquele de quem nunca se cansa.
  47. O mundo tem muitos pobres de espírito, mas não como deveriam; muitos que choram, mas pela perda de riquezas ou privação de filhos; muitos mansos, mas em relação às paixões impuras; muitos famintos e sedentos, mas para roubar bens alheios e ganhar com injustiça; muitos misericordiosos, mas para com o corpo e as coisas do corpo; muitos puros de coração, mas por vanglória; muitos pacificadores, mas submetendo a alma à carne; muitos perseguidos, mas por rebeldes à disciplina; muitos ultrajados, mas por pecados torpes; mas bem-aventurados são somente aqueles que fazem e sofrem essas coisas por Cristo, porque deles é o reino dos céus.
  48. Em tudo o que fazemos, a intenção é o que Deus busca, ou seja, se agimos por ele ou por outro motivo; quando quisermos fazer algo bom, devemos ter como objetivo não agradar aos homens, mas a Deus, mantendo sempre o olhar fixo nele para não perdermos a recompensa.
  49. No tempo da oração, repele do intelecto até os conceitos simples das coisas humanas e qualquer representação de criaturas, para que, ao te figurares objetos inferiores, não percas aquele que é incomparavelmente superior a todos os seres.
  50. Se amamos a Deus sinceramente, expulsaremos as paixões pelo próprio amor; e o amor por ele consiste em preferi-lo ao mundo e a alma à carne, desprezando as coisas do mundo e atendendo sempre a ele mediante a continência, a caridade, a oração, a salmodia etc.
  51. Se, atendendo por muito tempo a Deus, nos ocuparmos da parte passional da alma, não toparemos mais com os assaltos dos pensamentos, mas, compreendendo com mais precisão suas causas e cortando-os, tornar-nos-emos mais clarividentes, cumprindo-se a palavra: “Meu olho viu meus inimigos e entre os malvados que se insurgem contra mim meu ouvido estará à escuta”.
  52. Quando vires que teu intelecto se move com piedade e justiça entre os conceitos do mundo, sabe que também teu corpo permanece puro e sem pecado; mas quando o vires entregar-se aos pecados de pensamento sem os cortar, sabe que também teu corpo não tardará a cair nesses mesmos pecados.
  53. Assim como o corpo tem por mundo as coisas, o intelecto tem por mundo os conceitos; e assim como o corpo comete fornicação com o corpo da mulher, o intelecto a comete com o conceito da mulher mediante a representação do próprio corpo, unindo a sua forma com a forma dela; do mesmo modo, ele se vinga no pensamento de quem o entristeceu, e assim com os outros pecados: o que o corpo realiza com ações em relação ao mundo das coisas, o intelecto realiza em relação ao mundo dos conceitos.
  54. Não há que tremer, ficar atônito e estarrecido porque Deus Pai não julga ninguém, mas deu o juízo ao Filho, e o Filho clama “Não julgueis para não serdes julgados”, e o Apóstolo diz “Não julgueis nada antes do tempo”, enquanto os homens, em vez de chorar por seus próprios pecados, tiraram o juízo do Filho e se julgam e condenam mutuamente como se fossem sem pecado.
  55. Quem é curioso para investigar os pecados alheios ou julga o irmão por suspeita ainda não deu início à própria conversão, nem escuta para conhecer os próprios pecados (mais pesados que muitos talentos de chumbo), nem sabe donde nasce o homem de coração pesado que ama a vaidade e busca a mentira, pois, deixando os próprios pecados, fantasia sobre os alheios, sejam reais ou imaginados por suspeita.
  56. O amor próprio é causa de todos os pensamentos passionais: dele nascem os três pensamentos capitais da concupiscência (gula, amor ao dinheiro e vanglória); da gula nasce a fornicação; da vanglória nasce a soberba; e todos os outros (cólera, tristeza, rancor, inveja, maledicência etc.) seguem cada um desses três, ligando o intelecto às coisas materiais e arrastando-o para a terra.
  57. Princípio de todas as paixões é o amor próprio, e término é a soberba; o amor próprio é o afeto irracional pelo corpo, e quem o cortou cortou com ele todas as paixões que dele derivam.
  58. Assim como os pais que geraram os corpos são apegados aos seus filhos, assim o intelecto é naturalmente inclinado para os seus próprios raciocínios; e assim como para os pais mais passionais seus filhos (mesmo os mais ridículos) parecem os mais amáveis e belos, assim para o intelecto estulto seus próprios raciocínios (mesmo os piores) parecem mais sábios de todos; mas o sábio, quando tem certeza de que são verdadeiros e bons, não confia no próprio juízo, constituindo outros sábios como juízes para não correr em vão.
  59. Quando tiveres vencido alguma das paixões mais ignominiosas (gula, fornicação, cólera, cupidez), imediatamente te sobrevirá o pensamento da vanglória; e se venceres este, seguir-se-á o da soberba.
  60. Quando todas as paixões ignominiosas dominam a alma, elas repelem o pensamento da vanglória; mas quando são vencidas, o desencadeiam contra a alma.
  61. A vanglória, tanto destruída como presente, gera a soberba: quando destruída, produz a presunção; quando presente, produz a arrogância.
  62. A vanglória é destruída pela atividade oculta; a soberba, por atribuir a Deus o bem realizado.
  63. Quem obteve o conhecimento de Deus e realmente gozou do deleite que dele provém despreza todos os prazeres gerados pela potência concupiscível.
  64. Quem tem concupiscência pelas coisas terrenas deseja ou alimentos, ou o que serve aos prazeres sexuais, ou a glória humana, ou as riquezas, ou algo conexo; e se o intelecto não encontrasse algo melhor para onde transferir a concupiscência, nunca se resolveria a desprezá-las completamente; ora, incomparavelmente melhor do que essas coisas é o conhecimento de Deus e das coisas divinas.
  65. Aqueles que desprezam os prazeres os desprezam ou por temor, ou por esperança, ou por conhecimento, ou também por amor de Deus.
  66. O conhecimento sem paixão das coisas divinas não persuade o intelecto a desprezar completamente as realidades materiais, pois assemelha-se ao pensamento simples de uma coisa material; por isso é possível encontrar muitos homens de grande ciência que se revoluteiam nas paixões da carne como porcos na lama, pois depois de se purificarem um pouco e obterem o conhecimento, tornaram-se negligentes como Saul, que foi expulso do reino com ira tremenda.
  67. Assim como o pensamento simples das coisas humanas não obriga o intelecto a desprezar as coisas divinas, também o conhecimento simples das coisas divinas não persuade a desprezar completamente as coisas humanas; por isso a verdade subsiste em sombras e figuras, e é necessária a bem-aventurada paixão do santo amor, que liga o intelecto às contemplações espirituais e o persuade a preferir as coisas imateriais às materiais e as inteligíveis e divinas às sensíveis.
  68. Quem cortou as paixões e tornou os pensamentos simples ainda não os voltou totalmente para as coisas divinas: pode não ter paixão nem pelas coisas humanas nem pelas divinas, como acontece com quem se exercita apenas na prática e ainda não foi dignificado com o conhecimento, abstendo-se das paixões por temor do castigo ou esperança do reino.
  69. Pela fé caminhamos, não por visão, e temos o conhecimento em espelhos e enigmas; por isso precisamos de muito exercício nessas coisas, para que, pela prolongada meditação e continuidade, tornemos inalienável a posse das contemplações.
  70. Se, depois de ter um pouco estroncado as causas das paixões, nos dedicarmos às contemplações espirituais, mas sem nos dedicarmos a elas para sempre, facilmente nos voltaremos de novo às paixões da carne, não colhendo outro fruto senão um simples conhecimento unido à presunção, cujo término será o progressivo escurecimento do conhecimento e o completo desvio do intelecto para as coisas materiais.
  71. A paixão censurável do amor ocupa o intelecto nas coisas materiais; a paixão louvável do amor liga-o às coisas divinas, pois o intelecto costuma espairecer naquelas coisas entre as quais se detém e para aquelas entre as quais espairece costuma voltar sua concupiscência e seu amor, seja para as realidades divinas, próprias e inteligíveis, seja para as coisas e paixões da carne.
  72. Deus criou o mundo invisível e o visível, e por isso fez também a alma e o corpo; se o mundo visível é tão belo, quanto mais belo será o invisível? E se este é melhor do que aquele, quanto melhor será Deus, que os criou? Portanto, por que o intelecto, deixando o que é melhor que tudo, se ocupa do que é pior que tudo (as paixões da carne)? Isso acontece porque o intelecto, tendo comércio e costume com as paixões desde o nascimento, ainda não teve perfeita experiência daquele que é melhor e superior a todas as coisas; mas se, com longo exercício de continência e meditação das realidades divinas, o arrancarmos pouco a pouco desse estado, ele se dilatará nas realidades divinas e reconhecerá sua própria dignidade, voltando finalmente todo o seu desejo para o divino.
  73. Quem diz sem paixão os pecados de um irmão pode fazê-lo por dois motivos: para corrigi-lo ou para fazer bem a outro; mas se os diz sem esses dois motivos, seja a ele ou a outros, fá-lo para ofendê-lo ou escarnecer, e então não escapará do abandono de Deus, caindo totalmente nesse mesmo pecado ou em outro, sendo acusado e ofendido por outros e envergonhado.
  74. Não é único o motivo pelo qual se comete em ato um mesmo pecado: por exemplo, uma coisa é pecar por hábito contraído, outra é ser como que surpreendido; quem peca deste segundo modo não tem antes nem depois o pensamento do pecado em si, ao contrário do que peca por hábito.
  75. Quem busca as virtudes por vanglória busca também o conhecimento por vanglória; é claro que tal pessoa não faz nem diz nada por edificação, mas anda à caça de glória dos que veem ou ouvem; a paixão manifesta-se quando alguém censura suas obras ou palavras e ele se entristece grandemente, não porque não houve edificação (pois esse não era seu objetivo), mas por ter sido desprezado.
  76. A paixão do amor ao dinheiro manifesta-se em receber com alegria e dar com tristeza, e quem é assim não pode ser bom administrador.
  77. Por estes motivos se suporta o sofrimento: ou por amor de Deus, ou pela esperança da recompensa, ou pelo temor do castigo, ou pelo respeito humano, ou por natureza, ou por prazer, ou por ganho, ou por vanglória, ou por necessidade.
  78. Outra coisa é desfazer-se dos pensamentos, outra é libertar-se das paixões: muitas vezes alguém se desfaz dos pensamentos porque não dispõe das coisas pelas quais tem paixões, mas as paixões estão escondidas no fundo da alma e manifestam-se com o aparecimento das coisas; é preciso, pois, custodiar o intelecto diante das coisas e conhecer por qual delas se tem paixão.
  79. É amigo sincero aquele que, no tempo da tentação, sem se agitar nem perturbar, sustenta junto com o próximo, como próprias, as tribulações, necessidades e desgraças que sobrevêm.
  80. Não desonres a consciência, que sempre te aconselha coisas ótimas, pois ela te sugere o sentir divino e angélico, liberta-te das manchas secretas do coração e te concede confiança diante de Deus no momento da partida.
  81. Se queres tornar-te experiente e modesto e não ser servido à paixão da presunção, busca sempre nos seres o que está oculto ao teu conhecimento; assim, encontrando muitíssimas e variadas coisas que te estavam ocultas, te admirarás da tua ignorância e reduzirás tua boria, pois o crer saber impede de progredir no saber.
  82. Deseja seriamente salvar-se quem não se opõe aos cuidados médicos (as dores e penas que provêm de eventos variados); quem se opõe não sabe o que está em jogo aqui nem com que ganho sairá daqui.
  83. A vanglória e o amor ao dinheiro geram-se mutuamente: os vangloriosos enriquecem e os ricos ensoberbecem-se (falando dos mundanos); quanto ao monge, se é pobre é mais vanglorioso e se tem dinheiro esconde-o envergonhando-se por possuir algo que não convém ao seu hábito.
  84. É próprio da vanglória do monge vangloriar-se da virtude e do que lhe é conexo; é próprio da sua soberba exaltar-se por suas obras boas, desprezando os outros e atribuindo-as a si mesmo em vez de a Deus; ao passo que é próprio da vanglória e soberba do mundano vangloriar-se e exaltar-se pela beleza, riqueza, potência e inteligência.
  85. Os sucessos dos mundanos são fracassos para os monges, e os sucessos dos monges são fracassos para os mundanos: para os mundanos, riqueza, glória, potência, luxo, fecundidade etc. são sucessos, mas para o monge são perdição; para o monge, pobreza, falta de honra, glória, potência, continência, padecimentos etc. são sucessos, e quando o amante do mundo incorre neles contra sua vontade, considera-os uma grande ruína.
  86. Os alimentos foram criados por dois motivos: para nutrir e para curar; portanto, aqueles que os tomam fora desses dois motivos são condenados como gozadores porque abusam do que é dado em uso por Deus, e em todas as coisas o pecado é o abuso.
  87. A humildade é oração contínua com lágrimas e penas, pois invocando continuamente o auxílio de Deus, a oração não permite confiar estultamente na própria força e sabedoria nem elevar-se acima dos outros, coisas que são graves doenças provenientes da paixão da soberba.
  88. Outra coisa é combater o pensamento simples para que não mova a paixão, e outra é combater o pensamento passional para que não se realize o consentimento; mas ambos os tipos de luta não permitem que os pensamentos permaneçam por muito tempo.
  89. A tristeza está conjungada ao rancor: quando o intelecto representa com tristeza o rosto do irmão, é claro que tem rancor contra ele, pois as vias de quem guarda rancor conduzem à morte, já que quem guarda rancor viola a lei.
  90. Se guardas rancor por alguém, ora por ele e assim deterás o movimento da paixão, separando pela oração a tristeza da recordação do mal que te fez; depois, tornando-te caritativo e capaz de amar os homens, cancelarás totalmente a paixão da alma. Se é outro que guarda rancor a ti, sê generoso e humilde para com ele, comporta-te bem na convivência, e o libertarás da paixão.
  91. A custo poderás fazer cessar a tristeza do invejoso, pois ele considera desgraça o que inveja em ti, e não é possível deter sua tristeza senão escondendo-lhe algo; se, porém, essa coisa é útil a muitos e só entristece a ele, é necessário beneficiar a muitos e, na medida do possível, não descuidar daquele, sem se deixar desviar pela malícia da paixão a ponto de combater a pessoa que sofre a paixão; antes, por humildade, deves considerá-lo superior a ti e dar-lhe preferência. Quanto à tua inveja, poderás detê-la alegrando-te com o que alegra aquele que invejas e entristecendo-te com o que o entristece, cumprindo o dito do Apóstolo: “Alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram”.
  92. Nosso intelecto está no meio entre dois, cada um dos quais opera o que lhe é próprio (um a virtude, outro a malícia), isto é, entre o anjo e o demônio, e tem poder e capacidade de seguir ou resistir ao que quiser.
  93. As santas Potências nos impulsionam para o bem, e os germes naturais e a boa determinação nos ajudam; enquanto as paixões e a determinação má favorecem os assaltos dos demônios.
  94. O intelecto puro, por vezes, é o próprio Deus quem o instrui vindo nele; outras vezes, são as santas Potências que lhe sugerem o bem ou a natureza das coisas que ele contempla.
  95. O intelecto que foi dignificado com o conhecimento deve conservar puros de paixão os conceitos das coisas, estáveis as contemplações e límpido o estado da sua oração, mas não pode conservar tudo isso sempre livre da insurreição da carne quando é obscurecido pelo fumo da insídia dos demônios.
  96. Nem sempre o que nos entristece nos move à cólera, pois as coisas que provocam tristeza são mais numerosas do que as que provocam cólera (por exemplo, uma coisa quebrada, perdida, alguém que morreu: por isso só nos entristecemos); pelas demais, entristecemo-nos e iriamo-nos se nos falta íntima sabedoria.
  97. Quando o intelecto acolhe os conceitos das coisas, transforma-se conforme cada conceito; quando os contempla espiritualmente, transfigura-se em vários modos conforme o objeto contemplado; mas uma vez em Deus, torna-se totalmente sem forma e sem figura, pois contemplando aquele que é simples, torna-se também simples e todo luminoso.
  98. Perfeita é a alma cuja potência passional está inteiramente voltada para Deus.
  99. Perfeito é o intelecto que, por meio de uma fé verdadeira, conhece além do conhecer, no supremo não-conhecer, aquele que é sumamente incognoscível, contempla o que é universal das coisas por ele criadas e recebeu de Deus (na medida do possível aos homens) o conhecimento que compreende a providência e o juízo acerca das criaturas.
  100. O tempo é dividido em três períodos: a fé se estende a todos os três; a esperança a um; e o amor a dois. A fé e a esperança duram até certo tempo, enquanto o amor permanece nos séculos infinitos, em suprema união com aquele que é supremamente infinito e sempre aumentando além da medida; por isso, maior que todas é o amor.
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