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2ª CENTÚRIA

Resumo dos parágrafos

  1. Quem ama sinceramente Deus também ora sem distração alguma, e quem ora sem distração também ama sinceramente Deus, mas não ora sem distração quem tem o intelecto preso a alguma coisa terrena.
  2. O intelecto que se demora em alguma coisa sensível tem certamente paixão por ela, seja concupiscência, tristeza, ira ou rancor, e, se não a despreza, não pode libertar-se dessa paixão.
  3. As paixões, apoderando-se do intelecto, prendem-no às coisas materiais e, separando-o de Deus, fazem com que delas se ocupe; já o amor de Deus, apoderando-se do intelecto, desata-o desses laços, levando-o a desprezar não só as coisas sensíveis mas também a própria vida temporal.
  4. É obra dos mandamentos tornar simples os conceitos das coisas; da leitura e da contemplação, libertar o intelecto da matéria e das formas, de onde deriva orar sem distrações.
  5. Não basta a via prática para que o intelecto se liberte completamente das paixões a ponto de orar sem distração, se a ela não se seguirem também diversas contemplações espirituais, pois a prática liberta apenas da incontinência e do ódio, enquanto as contemplações espirituais libertam também do esquecimento e da ignorância.
  6. São dois os estados supremos da oração pura: um próprio dos que se dedicam à prática, nascido do temor de Deus e da boa esperança, cujo sinal é recolher o intelecto de todos os conceitos provenientes do mundo e orar sem distração nem perturbação, como se Deus estivesse presente, como de fato está; outro próprio dos contemplativos, nascido do eros divino e da máxima purificação, cujo sinal é, no próprio ímpeto da oração, o intelecto ser arrebatado pela luz divina infinita, sem percepção de si nem de qualquer outro ser, senão daquele que pelo amor opera nele tal esplendor, recebendo então, puras e límpidas, as imagens relativas a Deus.
  7. Adere-se totalmente ao que se ama e despreza-se o que faz obstáculo ao objeto amado para não dele ser privado; assim, quem ama Deus dedica-se com solicitude à oração pura e rejeita de si toda paixão que lhe faça obstáculo nisso.
  8. Quem rejeita o pai das paixões, que é o amor próprio, afasta com a ajuda de Deus facilmente também as outras, como a ira, a tristeza, o rancor e o resto; quem, porém, é dominado pela primeira, é ferido pelas demais ainda sem o querer, sendo o amor próprio a paixão pelo corpo.
  9. Os homens amam-se reciprocamente por cinco motivos, alguns louváveis e outros censuráveis: por Deus, como o virtuoso que ama a todos e o ainda não virtuoso que ama o virtuoso; por natureza, como os pais amam os filhos e deles são amados; por vaidade, como quem é honrado ama quem o honra; por amor ao dinheiro, como quem ama o rico por interesse; ou por amor ao prazer, como quem é servo do ventre e dos prazeres sexuais — sendo o primeiro motivo louvável, o segundo indiferente, e os demais passionais.
  10. Se a alguns se odeia, por outros não se tem amor nem odio, a outros se ama com medida e a outros ardentemente, deve-se reconhecer, por essa desigualdade, estar-se longe da caridade perfeita, que supõe amar igualmente a todo homem.
  11. Afastar-se do mal e fazer o bem significa combater os inimigos para moderar as paixões e depois manter-se sóbrio para que não aumentem, assim como combater para adquirir as virtudes e depois manter-se sóbrio para guardá-las, sendo isso o “trabalhar e guardar”.
  12. Os que, por permissão de Deus, nos tentam, inflamam a parte concupiscível da alma, ou perturbam a irascível, ou obscurecem a racional, ou enchem o corpo de dores, ou subtraem os bens do corpo.
  13. Os demônios ou nos tentam diretamente, ou armam contra nós aqueles que não temem o Senhor: diretamente, quando nos separamos dos homens, como fizeram com o Senhor no deserto; por meio dos homens, quando vivemos com eles, como fizeram com o Senhor por meio dos fariseus, devendo nós, olhando para esse modelo, repeli-los em ambos os casos.
  14. Quando o intelecto começa a progredir no amor de Deus, o demônio da blasfêmia começa a tentá-lo com pensamentos que só o diabo, seu autor, poderia conceber, na esperança de que, levado ao desespero por tê-los tido, não mais se eleve a Deus pela oração habitual; mas disso nenhum proveito tira o maldito, antes nos torna mais firmes e sinceros no amor de Deus, devendo entrar sua espada no próprio coração e quebrar-se suas flechas.
  15. O intelecto que se aplica às coisas visíveis entende-as segundo a natureza mediante a percepção sensível, não sendo mau nem o intelecto, nem o entender segundo a natureza, nem as coisas, nem tal percepção, pois são obras de Deus; o mal é a paixão unida ao conceito segundo a natureza, a qual, todavia, pode não se encontrar no uso dos conceitos, se o intelecto vigia.
  16. A paixão é um movimento contra a natureza da alma, seja como afeto irracional seja como ódio sem discernimento por alguém ou por causa de algum objeto sensível, tal como amor irracional por alimentos, pela mulher, pelas riquezas, pela gloria passageira ou por outra coisa sensível, ou ódio sem discernimento pelas mesmas coisas ou contra alguém por causa delas.
  17. É também mal a avaliação errada dos conceitos, da qual se segue o mau uso das coisas, como no caso da união conjugal, cuja recta avaliação destina-a à procriação dos filhos, de modo que quem visa ao prazer erra no julgamento e, unindo-se à mulher, comete abuso, valendo o mesmo para as demais coisas e conceitos.
  18. Quando os demônios lançam o intelecto fora da temperança, envolvendo-o em pensamentos de fornicação, deve-se dizer com lágrimas ao Soberano: “depois de me expulsarem, me cercaram; ó minha exultação, resgata-me dos que me cercaram”, e se estará salvo.
  19. O demônio da fornicação é pesado e ataca violentamente os que lutam contra essa paixão, sobretudo quando negligentes em seu modo de vida ou nos encontros com mulheres, enganando primeiro o intelecto com a doçura do prazer e depois assaltando o hesicasta pela memória, inflamando o corpo e apresentando formas variadas para induzi-lo ao consentimento, devendo-se, para evitar isso, dedicar-se ao jejum, ao trabalho, à vigília e à boa hesiquia unida à oração assídua.
  20. Os que continuamente buscam a nossa alma buscam-na por meio dos pensamentos passionais, para impeli-la ao pecado de pensamento ou de obra, mas, quando encontram o intelecto que não os acolhe, ficam envergonhados e confusos, e mais ainda quando o encontram ocupado na contemplação espiritual.
  21. Corresponde ao diácono quem unge o intelecto para os sagrados combates e expulsa os pensamentos passionais; ao presbítero, quem o ilumina com o conhecimento dos seres e faz desaparecer o falso conhecimento; ao bispo, quem o consagra com o santo óleo do conhecimento e da adoração da Santíssima Trindade.
  22. Os demônios perdem vigor quando, pelos mandamentos, as paixões diminuem em nós, e perecem quando, pela impassibilidade, elas são totalmente eliminadas, não encontrando mais na alma as paixões com que faziam guerra, sentido que parece corresponder a “perderão vigor e perecerão diante da tua face”.
  23. Alguns se mantêm afastados das paixões por respeito humano, outros por vaidade, outros por continência, e outros ainda são libertados das paixões pelos divinos juízos.
  24. Todas as palavras do Senhor contêm estas quatro coisas: os mandamentos, as doutrinas, as ameaças e as promessas, sendo por elas que se suporta toda dureza de vida, como jejuns, vigílias, dormir no chão, fadigas, afãs nos diversos serviços, insultos, desonra, tormentos e morte, conforme está escrito: “pelas palavras dos teus lábios segui caminhos duros.”
  25. A recompensa da continência é a impassibilidade, e a da fé é o conhecimento; a impassibilidade gera o discernimento, e o conhecimento gera o amor a Deus.
  26. Ao pôr em prática a vida ativa, o intelecto progride na prudência; ao pôr em prática a contemplação, no conhecimento, conduzindo a primeira ao discernimento da virtude e do vício, e a segunda às razões das realidades corpóreas e incorpóreas, sendo o intelecto feito digno da graça teológica somente quando, transcendidas todas essas coisas pelas alas do amor e alcançada a contemplação, examina pelo Espírito, na medida do possível ao intelecto humano, o que se refere a Deus.
  27. Ao teologizar, não se devem buscar as razões próprias a Deus em si mesmo, pois nenhum intelecto humano, nem qualquer outro depois de Deus, as encontrará; deve-se, na medida do possível, observar as razões em torno dele, como as relativas à eternidade, à infinitude, à imensidão, à bondade, à sabedoria e à potência que cria, provê e julga os seres, sendo grande teólogo quem, em alguma medida, descobre as razões dessas coisas.
  28. Poderoso é o homem que une o conhecimento à ação: com um extingue a concupiscência e aplaca a cólera, com a outra dá alas ao intelecto e o conduz a Deus.
  29. Quando o Senhor diz “eu e o Pai somos um”, indica a identidade da essência, e quando diz “eu no Pai e o Pai em mim”, manifesta a indivisibilidade das hipóstases, caindo em precipício os triteístas que, separando o Filho do Pai, são levados a negar sua coeternidade ou sua geração, sendo necessário conservar o Deus uno e confessar as três hipóstases, segundo o grande Gregório, cada uma com sua propriedade, distintas mas indivisivelmente unidas, sendo extraordinária tanto a distinção quanto a união.
  30. Quem é perfeito na caridade e alcançou o cume da impassibilidade não conhece mais diferença entre próprio e estranho, fiel e infiel, escravo e livre, ou mesmo macho e fêmea, mas, tornado superior à tirania das paixões e olhando para a única natureza dos homens, considera a todos do mesmo modo, pois nele não há grego nem judeu, nem macho nem fêmea, nem escravo nem livre, mas Cristo é tudo em todos.
  31. Das paixões ocultas na alma os demônios extraem ocasião para suscitar pensamentos passionais, com os quais fazem guerra ao intelecto e o forçam a consentir no pecado, primeiro de pensamento e depois de obra, retirando-se em seguida e deixando no intelecto apenas o simulacro do pecado, do qual fala o Senhor ao mencionar “a abominação da desolação no lugar santo”, sendo esse lugar santo o próprio intelecto do homem, fato já ilustrado pela história de José e que alguns dizem repetir-se também nos tempos do Anticristo.
  32. Três coisas nos movem ao bem: os germes naturais, quando fazemos aos outros o que queremos que nos façam ou sentimos piedade natural pela angústia de alguém; as santas Potências, quando movidos a uma coisa boa encontramos bom auxílio para realizá-la; e a boa vontade, quando, discernindo o bem do mal, escolhemos o bem.
  33. Três coisas também nos movem ao mal: as paixões, como a concupiscência contra a razão por alimentos fora de hora ou por mulher fora do fim da procriação, ou a ira e tristeza irracionais contra quem nos desonrou; os demônios, que, espreitando nossa negligência, nos assaltam de súbito excitando essas paixões; e a vontade má, quando, conhecendo o bem, escolhemos o mal.
  34. São recompensa dos trabalhos da virtude a impassibilidade e o conhecimento, que conduzem ao reino dos céus, assim como as paixões e a ignorância conduzem ao castigo eterno, sendo a quem busca essa recompensa pela gloria humana e não pelo bem em si que se aplica a Escritura: “pedis e não recebeis porque pedis mal.”
  35. Há muitas obras dos homens boas por natureza que deixam de sê-lo por alguma causa: jejum, vigília, oração, salmodia, esmola e hospitalidade são por natureza boas, mas não o são quando feitas por vaidade.
  36. De tudo o que fazemos, Deus busca a intenção: se é feito por ele ou por outro motivo.
  37. Quando se ouve a Escritura dizer “retribuirás a cada um segundo as suas obras”, não significa que Deus retribui obras feitas sem recta intenção mesmo que pareçam boas, mas sim aquelas feitas com recta intenção, pois o juízo de Deus não atenta para o que se faz, mas para a intenção.
  38. O demônio da soberba tem dupla malícia: ou convence o monge a atribuir a si mesmo, e não a Deus, as próprias boas obras, ou, não conseguindo isso, leva-o a desprezar os irmãos ainda imperfeitos, ignorando este que aquele busca convencê-lo a negar o auxílio de Deus, pois desprezar os outros como incapazes do bem implica apresentar-se como tendo conseguido por suas próprias forças, o que é impossível, já que sem Deus nada se pode fazer.
  39. Quem conheceu a debilidade da natureza humana experimentou também a divina potência, e, tendo por meio dela realizado o bem em algumas coisas e esforçando-se nas demais, não despreza ninguém, sabendo que Deus, que o socorreu e libertou de muitas e terríveis paixões, tem poder para socorrer a todos quando quiser, ainda que, segundo certos juízos seus, não liberte a todos de uma só vez, curando a seu tempo, como bom médico e amigo dos homens, todos os que se esforçam.
  40. Quando as paixões estão inativas, sobrevém a soberba, seja porque suas causas foram eliminadas, seja porque os demônios se retiraram sub-repticiamente.
  41. Quase todo pecado se comete pelo prazer e se destrói pelo padecimento e pela tristeza, voluntariamente pela penitência ou por algum evento providencial, pois, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados, mas, sendo julgados pelo Senhor, somos castigados para não sermos condenados com o mundo.
  42. Quando sobrevém inesperadamente uma tentação, não se deve acusar aquele por meio de quem ela ocorre, mas buscar o motivo pelo qual ocorre, e nisso se encontrará correção, pois, por causa dele ou de outro, era preciso beber o absinto dos juízos de Deus.
  43. Sendo inclinado ao mal, não se deve recusar padecer, para que, humilhado por isso, se vomite a soberba.
  44. Algumas tentações trazem aos homens prazeres, outras tristezas, outras dores corporais, pois o Médico das almas aplica, por seus juízos, o remédio correspondente à causa das paixões presente na alma.
  45. Os assaltos das tentações trazem, para alguns, a destruição dos pecados já cometidos; para outros, a destruição dos pecados que estão cometendo; para outros ainda, o impedimento dos pecados que estão por cometer, exceto as tentações que sobrevêm como prova, como no caso de Job.
  46. O sábio, considerando o valor curativo dos juízos divinos, suporta com gratidão as desgraças que lhe sobrevêm por meio deles, atribuindo a causa apenas aos próprios pecados, enquanto o tolo, ignorando a sapientíssima providência de Deus, ao ser corrigido por pecar, responsabiliza por seus males a Deus ou aos homens.
  47. Há coisas que detêm as paixões em seu movimento e impedem que aumentem, e outras que as diminuem até destruí-las completamente: assim o jejum, o trabalho e a vigília impedem o crescimento da concupiscência, enquanto a solidão, a contemplação, a oração e o eros divino a diminuem até a destruição; do mesmo modo, a longanimidade, a ausência de rancor e a mansidão detêm a ira, enquanto o amor, a esmola, a bondade e o amor aos homens a diminuem.
  48. Para aquele cujo intelecto está sempre voltado a Deus, até a concupiscência cresce sem medida no eros divino, e toda a potência irascível se volta ao amor divino, pois, pela longa participação no fulgor divino, tornado todo luminoso e tendo constrangida em si a parte passional, volta-se completamente, das coisas terrenas para as divinas, ao incompreensível eros e ao amor incessante.
  49. Quem não inveja, não se ira nem guarda rancor contra quem o entristeceu, ainda não possui totalmente o amor por ele, pois, embora ainda não o ame, pode, pelo mandamento, não retribuir mal com mal, mas não pode livremente retribuir bem com mal, sendo isso próprio apenas do amor espiritual perfeito.
  50. Quem não ama alguém ainda não chegou a odiá-lo, e quem não o odeia não por isso já o ama, podendo encontrar-se numa situação intermediária de nem amar nem odiar, sendo apenas os cinco modos expostos anteriormente capazes de fazer crescer em nós a disposição de amor.
  51. Quando se percebe que o intelecto se ocupa com prazer das coisas materiais e se demora de bom grado em conceitos que as representam, deve-se saber que se ama tais coisas mais que a Deus, pois, como diz o Senhor, onde está o tesouro, ali estará também o coração.
  52. O intelecto unido a Deus e que com ele se ocupa pela oração e pelo amor torna-se sábio, bom, poderoso, amante dos homens, misericordioso e longânimo, trazendo em si quase todas as propriedades divinas; mas, separado dele, torna-se animalesco, por amar o prazer, ou ferino, por combater os homens devido a isso.
  53. A Escritura chama “mundo” às coisas materiais, sendo “mundanos” os que nelas ocupam o intelecto, aos quais diz com severidade que não amem o mundo nem as coisas do mundo, pois a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a arrogância da vida não vêm de Deus, mas do mundo.
  54. Monge é aquele que separou o intelecto das coisas materiais e permanece constantemente voltado a Deus pela continência, pela caridade, pela salmodia e pela oração.
  55. “Criador de gado” designa espiritualmente quem se dedica à prática, sendo os “rebanhos” as boas ações morais, conforme dizia Jacó: “criadores de gado são os teus servos”; já “pastor de ovelhas” designa o gnóstico, sendo as “ovelhas” os pensamentos que o intelecto leva a pastar nos montes das contemplações, razão pela qual todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios, isto é, para as potências adversas.
  56. O intelecto vicioso, quando o corpo é movido pelos sentidos às suas concupiscências e prazeres, segue-o e consente em suas fantasias e impulsos, enquanto o intelecto virtuoso é continente, abstém-se das fantasias e impulsos passionais e procura sabiamente aperfeiçoar esses movimentos do corpo.
  57. Algumas virtudes são do corpo e outras da alma: do corpo são o jejum, a vigília, dormir no chão, o serviço e o trabalho manual; da alma são o amor, a longanimidade, a mansidão, a continência e a oração, sendo desculpado pelo Senhor quem, por necessidade ou estado do corpo, não pratica as virtudes corporais, mas sem justificativa quem não pratica as da alma, que não estão sujeitas a tal necessidade.
  58. O amor a Deus leva quem dele participa a desprezar todo prazer passageiro, toda fadiga e tristeza, como atestam todos os santos que tanto padeceram por Cristo.
  59. Deve-se guardar do amor próprio, pai de todo mal, que é o amor irracional do corpo, do qual nascem os três pensamentos passionais e insensatos fundamentais — o da gula, o do amor ao dinheiro e o da vaidade —, que se servem das necessidades do corpo como pretexto e geram toda a série de males, devendo-se, eliminado o amor próprio com toda atenção e sobriedade, eliminar com ele todos os pensamentos que dele derivam.
  60. A paixão do amor próprio sugere ao monge ter compaixão pelo corpo e tomar mais alimento do que o devido no governo de si mesmo, para que, escorregando pouco a pouco, caia na cova do amor ao prazer, enquanto ao homem do mundo insinua cuidar de si por concupiscência.
  61. Dizem que o estado mais alto da oração é quando o intelecto sai da carne e do mundo, totalmente imaterial e livre de formas durante a oração, e quem guarda intacto esse estado ora verdadeiramente sem cessar.
  62. Assim como o corpo, ao morrer, se separa de todas as coisas do mundo, também a alma, exercitando-se nesse supremo estado de oração e morrendo, separa-se de todo conceito das realidades mundanas, pois, se não morre dessa morte, não pode estar com Deus nem com ele viver.
  63. Que ninguém engane o monge fazendo-o crer que pode salvar-se servindo ao prazer e à vaidade.
  64. Assim como o corpo peca por meio das coisas e tem as virtudes corporais para se educar na temperança, também o intelecto peca por meio dos conceitos passionais e tem igualmente as virtudes da alma para se educar na temperança, olhando as coisas com pureza e sem paixão.
  65. Assim como as noites sucedem aos dias e os invernos aos verões, também tristezas e dores seguem a vaidade e o prazer, tanto no tempo presente como no futuro.
  66. Quem pecou não poderá escapar do juízo futuro sem ter aqui penas voluntárias ou desgraças não procuradas.
  67. Por cinco motivos Deus permite que sejamos combatidos pelos demônios: para que, combatidos e combatendo, alcancemos o discernimento entre virtude e vício; para que, adquirida a virtude com luta e fadiga, a mantenhamos firme; para que, progredindo na virtude, não nos exaltemos mas aprendamos a humildade; para que, tendo experimentado o mal, o odiemos com odio perfeito; e, sobretudo, para que, tornados impassíveis, não esqueçamos nossa debilidade nem o poder daquele que nos ajudou.
  68. Assim como o intelecto do que tem fome representa-se o pão, e o do sedento a água, também o do glutão representa-se variedades de alimentos, o do amante do prazer figuras de mulheres, o do vaidoso as honras humanas, o do amante do dinheiro os ganhos, o do rancoroso a vingança contra quem o entristeceu, e o do invejoso o mal de quem inveja, recebendo o intelecto, agitado pelas paixões, esses conceitos passionais tanto em vigília quanto durante o sono.
  69. Quando cresce a concupiscência, o intelecto representa-se no sono objetos que produzem prazeres; quando cresce a irascibilidade, vê coisas que causam temor, sendo os demônios impuros que fazem crescer as paixões, tomando por colaboradora a nossa negligência, enquanto os santos anjos as fazem diminuir, movendo-nos à prática das virtudes.
  70. Quando a parte concupiscível da alma é excitada com demasiada frequência, estabelece nela um hábito invencível de amor ao prazer, e a parte irascível, continuamente perturbada, torna o intelecto medroso e covarde, curando-se a primeira pelo exercício assíduo do jejum, da vigília e da oração, e a segunda pela bondade, pelo amor aos homens, pela caridade e pela misericórdia.
  71. Os demônios combatem-nos ou por meio das coisas, ou por meio dos conceitos passionais relativos às coisas: pelas coisas combatem os que entre elas vivem, pelos conceitos os que delas se separaram.
  72. Quanto mais fácil é pecar pelo pensamento, tanto mais grave é a luta com os conceitos do que com as coisas.
  73. As coisas estão fora do intelecto, enquanto seus conceitos estão dentro, cabendo ao intelecto usá-los bem ou mal, pois o abuso das coisas decorre do uso errado dos conceitos.
  74. O intelecto recebe os conceitos passionais por três vias: a percepção sensível, quando as coisas pelas quais temos paixões, aproximando-se, movem o intelecto a pensamentos passionais; a constituição do corpo, quando alterada por modo de vida desregrado, ação demoníaca ou doença, move igualmente o intelecto a pensamentos passionais ou contra a providência; e a memória, quando reapresenta os conceitos das coisas que foram objeto de paixão, movendo também o intelecto a pensamentos passionais.
  75. Das coisas que Deus nos deu para usar, algumas estão na alma, outras no corpo, outras em torno do corpo — na alma suas potências, no corpo os órgãos dos sentidos e demais membros, em torno do corpo alimentos, posses e riquezas —, sendo o bom ou mau uso dessas coisas e de suas qualidades acidentais o que revela se somos virtuosos ou viciosos.
  76. As qualidades acidentais das coisas pertencem ao que está na alma, como conhecimento e ignorância, esquecimento e memória, amor e ódio, tristeza e alegria; ao que está no corpo, como prazer e dor, sensibilidade e insensibilidade, saúde e doença, vida e morte; ou ao que está em torno do corpo, como fecundidade e esterilidade, riqueza e pobreza, gloria e desonra, sendo algumas tidas pelos homens como bens e outras como males, sem que nenhuma seja em si mesma má, tornando-se boa ou má conforme o uso.
  77. O conhecimento é por natureza bom, assim como a saúde, e contudo a muitos aproveitou mais o seu contrário, pois aos viciosos não contribui para o bem nem o conhecimento, nem a saúde, a riqueza ou a alegria, por não saberem usar com proveito, convindo-lhes antes o oposto, sem que isso torne tais coisas más em si mesmas, ainda que pareça.
  78. Não se deve abusar dos conceitos, sob pena de necessariamente abusar das coisas, pois quem não peca primeiro pelo pensamento jamais pecará em obras.
  79. Imagem do homem terreno são os vícios capitais — insensatez, covardia, desenfreio, injustiça —, e imagem do homem celeste são as virtudes capitais — prudência, fortaleza, temperança, justiça —, devendo-se, como se trouxe a imagem do terreno, trazer também a do celeste.
  80. Para encontrar o caminho que conduz à vida, deve-se buscá-lo, e ali se encontrará, naquele que disse “eu sou o caminho, a porta, a verdade e a vida”, buscando-o porém com grande esforço, pois poucos são os que o encontram, para que, excluído dos poucos, não se esteja entre os muitos.
  81. Por cinco motivos a alma se contém de pecar: por temor dos homens, por temor do juízo, pela retribuição futura, pelo amor de Deus, ou ainda pelo remorso da consciência.
  82. Alguns dizem que não haveria mal nos seres se não houvesse outra potência que a ele nos arrastasse, a qual não é senão a negligência nas operações do intelecto segundo a natureza, de modo que os que dela cuidam fazem sempre o bem e nunca o mal, bastando afastar a negligência para fazer desaparecer também a malícia, que é o uso errado dos conceitos do qual se segue o abuso das coisas.
  83. Pertence à natureza de nossa parte racional tanto submeter-se à divina Palavra quanto governar nossa parte irracional, devendo essa ordem ser respeitada em tudo, para que nem o mal esteja nos seres nem se encontre o que a ele arrasta.
  84. Os pensamentos são simples ou compostos: simples, os que carecem de paixão; compostos, os passionais, formados de paixão e conceito, sendo possível ver como muitos pensamentos simples seguem outros compostos quando se começa a mover-se para o pecado de pensamento, como no exemplo do dinheiro, em que ao pensamento passional sobre o dinheiro seguem-se os pensamentos simples sobre a bolsa, o cofre, o quarto, e assim por diante, permitindo distinguir os conceitos passionais dos demais.
  85. Alguns dizem que os demônios, atacando no sono as partes genitais do corpo, movem a paixão da fornicação, que então traz ao intelecto, pela memória, a forma da mulher; outros dizem que eles se apresentam ao intelecto com aspecto de mulher e, atacando as partes genitais, movem o apetite, surgindo assim as fantasias; outros ainda dizem que a paixão dominante no demônio que se aproxima move a paixão correspondente na alma, que então se entrega aos pensamentos evocando as formas pela memória — mas em nenhum desses modos os demônios podem mover qualquer paixão, em vigília ou em sono, se na alma estiverem presentes o amor e a continência.
  86. Os mandamentos da lei devem ser observados, alguns com o corpo e o espírito, outros somente com o espírito: não cometer adultério, não matar, não roubar e semelhantes observam-se com o corpo e o espírito, este de modo triplo; já a circuncisão, a observância do sábado, a imolação do cordeiro, o comer pães ázimos com ervas amargas e semelhantes observam-se apenas espiritualmente.
  87. São três os estados morais mais comuns entre os monges: o primeiro consiste em nada pecar por obra, o segundo em não reter na alma pensamentos passionais, e o terceiro em ver mentalmente, sem paixão, as formas das mulheres e daqueles que os ofenderam.
  88. Pobre é aquele que renunciou a todos os seus bens e nada possui na terra além do corpo, tendo rompido com ele toda relação e confiado o cuidado de si a Deus e aos homens pios.
  89. Entre os que possuem bens, alguns possuem sem paixão e por isso, privados deles, não se entristecem, como os que aceitaram com alegria serem despojados; outros possuem de modo passional e tornam-se tristíssimos só com a perspectiva de perdê-los, como o rico do evangelho que se foi entristecido, entristecendo-se até a morte se efetivamente privados — sendo a privação o que revela a disposição de quem está ou não na paixão.
  90. Os demônios combatem os que alcançaram o ápice da oração para que não recebam de modo simples os conceitos das coisas sensíveis, os dedicados ao conhecimento para que retenham pensamentos passionais, e os que lutam na prática para induzi-los a pecar nas obras, combatendo todos de todo modo, na tentativa de separar os homens de Deus.
  91. Os que a divina providência exercita nesta vida para a piedade são provados por três tentações: pelo dom de coisas agradáveis, como saúde, beleza, fecundidade, riquezas e gloria; pela chegada de coisas penosas, como privação de filhos, riquezas ou gloria; ou por coisas que fazem sofrer o corpo, como doenças e tormentos — dizendo o Senhor aos primeiros que quem não renuncia a tudo o que possui não pode ser seu discípulo, e aos segundos e terceiros que pela paciência se ganham as próprias almas.
  92. Dizem ser quatro as coisas que alteram a constituição do corpo e, com isso, trazem ao intelecto pensamentos passionais ou livres de paixão: os anjos, os demônios, o clima e o modo de vida — os anjos operando pelo pensamento, os demônios pelo tato, o clima por sua variação, e o modo de vida pela qualidade e quantidade dos alimentos —, sem contar as alterações que a alma sofre primeiro pela memória, pela audição e pela visão, que depois alteram a constituição do corpo e esta, por sua vez, traz pensamentos ao intelecto.
  93. Morte, propriamente, é a separação de Deus, e o aguilhão da morte é o pecado, pelo qual Adão foi banido tanto da árvore da vida quanto do paraíso, seguindo-se necessariamente também a morte do corpo, enquanto Vida, propriamente, é aquele que disse “eu sou a vida”, o qual, morrendo, devolveu à vida o que estava morto.
  94. Quem escreve algo o faz para guardar memória, ou por algum proveito, ou por ambos, ou em prejuízo de alguém, ou por ostentação, ou por necessidade.
  95. “Lugar de pastagem verde” é a virtude prática, e “água de descanso” é o conhecimento das criaturas.
  96. “Sombra da morte” é a vida humana, podendo aquele que está com Deus e com quem Deus está dizer claramente: “ainda que andasse pelo meio da sombra da morte, não temerei mal alguma, porque tu estás comigo.”
  97. O intelecto puro vê as coisas corretamente, uma palavra experiente as representa vivamente e um ouvido nítido as acolhe, mas quem é privado dessas três faculdades culpa quem falou.
  98. Está com Deus quem conhece a Santíssima Trindade, sua criação e providência, e adquiriu a impassibilidade da parte passional da alma.
  99. Dizem que a “vara” significa o juízo de Deus e o “cajado” sua providência, podendo quem teve conhecimento disso dizer: “a tua vara e o teu cajado me deram conforto.”
  100. Quando o intelecto se despojou das paixões e resplandece pela contemplação dos seres, pode então também chegar a estar em Deus e orar como convém.
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