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- Todo batizado em Cristo deve passar progressivamente por todos os estágios da própria vida de Cristo, pois no batismo recebe o poder de tal progressão e pelos mandamentos pode descobrir e aprender como realizá-la, correspondendo à concepção de Cristo o antegosto do dom do Espírito Santo, ao seu nascimento a experiência real da alegria, ao seu batismo a força purificadora do fogo do Espírito, à sua transfiguração a contemplação da luz divina, à sua crucificação o morrer a todas as coisas, ao seu sepultamento a habitação do amor divino no coração, à sua ressurreição a ressurreição vivificante da alma e à sua ascensão o êxtase divino e o transporte do intelecto em Deus.
- Quem não passa conscientemente por esses estágios ainda é imaturo em corpo e espírito, mesmo que seja considerado por todos como maduro e realizado na prática da virtude.
- A Paixão de Cristo é uma morte vivificante para os que experimentaram todas as suas fases, pois ao experimentar o que Ele experimentou somos glorificados como Ele é (Romanos 8:17), enquanto a entrega às paixões sensuais induz uma morte verdadeiramente letal, sendo experimentar voluntariamente o que Cristo experimentou crucificar a crucificação e pôr a morte à morte.
- Sofrer por amor a Cristo é suportar pacientemente tudo o que nos acontece, pois a inveja que os inocentes provocam é para seu benefício, enquanto a disciplina do Senhor nos testa para provocar nossa conversão, uma vez que abre nossos ouvidos quando somos culpados, sendo por isso que o Senhor prometeu uma coroa eterna aos que resistem dessa maneira (Tiago 1:12).
- A indolência — a paixão mais difícil de superar — torna o corpo preguiçoso, e quando o corpo se torna preguiçoso a alma também se torna preguiçosa, e quando ambos relaxam completamente a devassidão induz uma mudança no temperamento do corpo, que incita o apetite, que gera o desejo pernicioso, que gera o espírito de revolta, que gera recordações adormecidas, que gera imaginações, que gera a provocação mental, que gera a união com o pensamento provocado, e essa união gera o assentimento, e tal assentimento a uma provocação diabólica leva ao pecado real, seja pelo corpo, seja de outras formas.
- Em qualquer trabalho que se empreenda a paciência gera a coragem, a coragem o compromisso, o compromisso a perseverança, e a perseverança um aumento no trabalho realizado, e esse esforço adicional aquieta os impulsos dissolutos do corpo e refreia o desejo de indulgência sensual, e o desejo assim refreado gera o anseio espiritual, o anseio o amor, o amor a aspiração, a aspiração o ardor, o ardor a auto-galvanização, a auto-galvanização a assiduidade, a assiduidade a oração, e a oração a quietude.
- A quietude gera a contemplação, a contemplação o conhecimento espiritual, e o conhecimento a apreensão dos mistérios.
- A consumação dos mistérios é a teologia, o fruto da teologia o amor perfeito, do amor a humildade, da humildade a desapaixonação, e da desapaixonação a previsão, a profecia e o pré-conhecimento.
- Ninguém possui as virtudes perfeitamente nesta vida, nem corta o mal de uma só vez, mas pelo contrário, por pequenos aumentos de virtude o mal gradualmente deixa de existir.
- As defluxões mórbidas pecaminosas acontecem de três maneiras: por fornicação, por autoabuso e por consentimento com pensamentos perniciosos, enquanto as defluxões sinless acontecem de sete maneiras: pela urina, pela ingestão de alimentos sólidos ou estimulantes, por beber água fria em excesso, pela indolência do corpo, pelo cansaço excessivo e por todo tipo de fantasia demoníaca.
- Nos veteranos da vida ascética elas geralmente ocorrem pelas primeiras cinco maneiras mencionadas, e nos que alcançaram o estado de desapaixonação o fluido apenas flui misturado com a urina, pois em razão de seus labores ascéticos seus ductos internos tornaram-se de alguma forma porosos e receberam a graça de uma energia divina purificatória e santificadora.
- A última forma de defluxão — a provocada por fantasia demoníaca durante o sono — pertence tanto aos que ainda estão sob o domínio das paixões quanto aos que sofrem de fraqueza, mas como é involuntária está livre de pecado, conforme nos dizem os santos pais.
- Nos que alcançaram o estado de desapaixonação, a propulsão e a descarga corporal constituem uma única ação pela qual o fluido excedente é expelido pela urina enquanto o restante é consumido pelo fogo divino.
- Nos que percorrem o caminho ascético intermediário dizem-se existir seis maneiras gerais de defluxão inocente, provocadas por alimentos sólidos ou estimulantes, por beber água fria, pela indolência do corpo, pelo torpor resultante do trabalho excessivo e pela malícia dos demônios.
- Nos fracos e nos recém-iniciados na vida ascética há igualmente seis maneiras, todas embrenhadas nas paixões, provocadas pela gula, pela maledicência, pela censura, pela presunção, pela fantasia demoníaca durante o sono e pelo assentimento a ela enquanto acordado, e finalmente pela malícia agressiva dos demônios.
- Mesmo estas têm na providência de Deus um duplo propósito: primeiro, purificam a natureza humana da corrupção, da matéria excedente que absorveu e dos apetites movidos pelos impulsos; e segundo, treinam a pessoa empenhada na luta espiritual a ser humilde e atenta, e a se refrear em todas as coisas e de todas as coisas.
- Quem vive em solidão e depende da caridade para sua alimentação deve aceitar a esmola de sete maneiras: pedindo apenas o que é necessário, tomando apenas o que é necessário, recebendo o que quer que lhe seja oferecido como se viesse de Deus, confiando em Deus e crendo que Ele recompensará o doador, dedicando-se a guardar os mandamentos, não fazendo mau uso do que lhe é dado e não sendo avarento mas dando aos outros e sendo compassivo, experimentando assim a alegria de ter suas necessidades supridas não pelo homem mas por Deus.
- São João Crisóstomo afirma que se deve estar em posição de dizer que não se precisa de ajuda das Escrituras nem da assistência de outras pessoas, mas que se é instruído por Deus, pois “todos serão ensinados por Deus” (Isaías 54:13; João 6:45), e isso se aplica não apenas aos monges mas a cada um dos fiéis, sendo todos chamados a carregar a lei do Espírito escrita nas tábuas de nossos corações (2 Coríntios 3:3) e a alcançar como os Querubins o privilégio supremo de conversar por meio de oração pura no coração diretamente com Jesus.
- Por sermos infantes no momento de nossa renovação pelo batismo não compreendemos a graça e a nova vida que nos são conferidas, e desconhecendo a grandeza surpassante da honra e da glória em que participamos a maioria de nós cai por indiferença e servidão às paixões num estado de obduridade tenebrosa.
- Ao arrependermo-nos, compreendemos e praticamos os mandamentos apenas de modo corporal e não espiritualmente, e se após muitos labores uma revelação da graça nos é concedida pela compaixão de Deus, a tomamos por ilusão.
- Segundo as Escrituras, até o que possuímos nos será tomado no momento de nossa morte ou de nosso julgamento por causa de nossa falta de fé e de nosso desespero (Mateus 25:29).
- “O que nasce do Espírito é espírito” (João 3:6), mas somos não regenerados, de modo que o Espírito de Deus não habita em nós (Gênesis 6:3).
- A energia do Espírito Santo, que já recebemos misticamente no batismo, se realiza de dois modos: primeiro, esse dom é revelado, como diz são Marcos, por meio de uma prática árdua e prolongada dos mandamentos, manifestando-se sua radiância cada vez mais à medida que os praticamos efetivamente; e segundo, manifesta-se aos que estão sob orientação espiritual por meio da invocação contínua do Senhor Jesus, repetida com consciência plena, isto é, por meio da lembrança de Deus.
- No primeiro modo se revela mais lentamente, no segundo mais rapidamente, se se aprende com diligência e persistência a cavar o solo e localizar o ouro.
- O objetivo deve ser tornar ativa somente a energia da oração em nossos corações, de modo totalmente sem forma ou figura, sem tentar contemplar na imaginação o que se toma por figura ou semelhança de coisas santas ou ver cores ou luzes, pois o espírito da ilusão engana o intelecto por meio de tais fantasias espúrias, especialmente nos estágios iniciais.
- A oração nos iniciantes é a incessante atividade noética do Espírito Santo: no início se eleva como um fogo de alegria do coração; ao final é como luz perfumada pela energia divina.
- Há vários sinais de que a energia do Espírito Santo começa a ser ativa naqueles que genuinamente aspiram a isso, pois segundo a Sabedoria de Salomão “ela é encontrada pelos que não a põem à prova e se manifesta aos que não desconfiam dela” (Sabedoria 1:2): em alguns aparece como reverência que surge no coração, em outros como um sentido trêmulo de júbilo, em outros como alegria, em outros como alegria misturada com reverência, ou como tremulência misturada com alegria, e às vezes se manifesta como lágrimas e reverência.
- Em alguns a alma experimenta no início um sentido inefável de contrição e uma dor indescritível, como a mulher das Escrituras que labora para dar à luz (Apocalipse 12:2), pois o Logos vivo e ativo — isto é, Jesus — penetra, como diz o apóstolo, até o ponto em que a alma se separa do corpo, as juntas da medula (Hebreus 4:12), para expulsar pela força todo vestígio de paixão tanto da alma quanto do corpo.
- Em outros se manifesta como um amor inconquistável e paz mostrada para com todos, ou como uma alegria que os pais muitas vezes chamaram de exultação — uma força espiritual e um impulso do coração vivo descrito também como vibração e suspiro do Espírito que faz intercessão sem palavras por nós a Deus (Romanos 8:26).
- Isaías chamou isso de “ondas” da justiça de Deus (Isaías 48:18), e o grande Efrém o chama de “esporão”.
- O próprio Senhor o descreve como “uma fonte de água que brota para a vida eterna” (João 4:14), referindo-se ao Espírito como água.
- Há dois tipos de exultação ou júbilo: a variedade calma — chamada de vibração ou suspiro ou intercessão do Espírito — e a grande exultação do coração — um salto, um pulo ou um impulso, o voo soar do coração vivo em direção à esfera do divino, também conhecido como um mexer do espírito —, pois quando a alma foi elevada nas asas do amor divino pelo Espírito Santo e libertada dos laços das paixões, ela se esforça para voar para esse reino superior mesmo antes da morte, buscando separar-se de seu fardo.
- O Evangelista descreve: “Jesus foi movido no espírito e, profundamente comovido, disse: 'Onde o pusestes?'” (João 11:34).
- Davi o Salmista indica a diferença entre a exultação maior e a menor ao declarar que os montes saltam como carneiros e as pequenas colinas como cordeiros (Salmo 114:6), referindo-se aos que são perfeitos e aos iniciantes.
- O temor divino nada tem a ver com a trepidação induzida pela ira ou pelo castigo ou pelo sentimento de abandono por Deus, sendo pelo contrário acompanhado de um sentido trêmulo de júbilo que surge da oração de fogo que se oferece quando cheio de temor, sendo essa reverência inspirada pela sabedoria e descrita também como “o princípio da sabedoria” (Salmo 111:10), podendo-se dividi-la em três tipos: o temor dos iniciantes, o dos perfeitos e o provocado pela ira, que deve ser chamado propriamente de trepidação, agitação ou contrição.
- Há vários tipos de tremor: o da ira, o da alegria, o do poder incensivo da alma quando o sangue do coração está superaquecido, o da velhice, o do pecado ou da ilusão e o da maldição que foi imposta ao gênero humano por causa de Caim (Gênesis 4:11-15), mas nos estágios iniciais da guerra espiritual acontece às vezes que o tremor induzido pela alegria e o induzido pelo pecado contêm entre si.
- O primeiro é o sentido trêmulo de júbilo, quando a graça refresca a alma com grande alegria acompanhada de lágrimas.
- O segundo é caracterizado por um fervor desordenado, estupor e obduridade que consomem a alma, inflamam os órgãos sexuais e impelem ao assentimento por meio da imaginação a obscenidades físicas eróticas.
- Em todo iniciante duas formas de energia estão em ação, cada uma afetando o coração de modo distinto: a primeira vem da graça e a segunda da ilusão, confirmando são Marcos o Asceta que há uma energia espiritual e uma energia satânica e que o iniciante não consegue distinguir entre elas, gerando essas energias por sua vez três tipos de fervor: o primeiro provocado pela graça, o segundo pela ilusão ou pelo pecado, e o terceiro por um excesso de sangue.
- São Talássio o Líbio chama esse último de temperamento do corpo, cuja equilíbrio e concórdia podem ser alcançados por uma temperança apropriada.
- A energia da graça é o poder do fogo espiritual que enche o coração de alegria e júbilo, estabiliza, aquece e purifica a alma, aquieta temporariamente nossos pensamentos provocadores e suspende por um tempo os impulsos do corpo, sendo seus sinais e frutos que testemunham sua autenticidade as lágrimas, a contrição, a humildade, o autocontrole, o silêncio, a paciência, o autoesquecimento e qualidades semelhantes, todas as quais constituem evidência inegável de sua presença.
- A energia da ilusão é a paixão pelo pecado, que inflama a alma com pensamentos de prazer sensual e desperta o desejo frenético no corpo pelo intercurso com outros corpos, sendo segundo são Diadoco inteiramente amorfa e desordenada, induzindo uma alegria sem discernimento, presunção e confusão acompanhadas de um humor de leveza estéril indefinida, e fomentando acima de tudo o poder apetitivo da alma com sua sensualidade, nutrindo-se do prazer com a ajuda do ventre insaciável, pelo qual não apenas impregna e acende todo o temperamento corporal, mas também age sobre e inflama a alma, atraindo-a a si de tal modo que pouco a pouco a disposição para a devassidão expele toda graça da pessoa assim possuída.
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