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Hesychia
- Há dois modos de união ou, antes, dois modos de entrada na oração noética que o Espírito ativa no coração: ou o intelecto, unindo-se ao Senhor (1 Coríntios 6:17), está presente no coração antes da ação da oração, ou a própria oração, progressivamente avivada no fogo da alegria espiritual, arrasta consigo o intelecto ou o solda à invocação do Senhor Jesus e à união com Ele.
- O Espírito age em cada pessoa como quer (1 Coríntios 12:11), de modo que um desses dois modos terá precedência em algumas pessoas e o outro em outras.
- Às vezes, à medida que as paixões diminuem pela invocação incessante de Jesus Cristo, uma energia divina brota no coração e um calor divino se acende, pois as Escrituras dizem que nosso Deus é um fogo que consome as paixões (Deuteronômio 4:24; Hebreus 12:29).
- Outras vezes o Espírito atrai o intelecto para si, confinando-o nas profundezas do coração e refreando-o de suas distrações habituais, de modo que ele não será mais levado cativo de Jerusalém para os assírios, mas uma mudança para melhor o traz de volta da Babilônia para Sião.
- Os nomes Jacó e Israel referem-se respectivamente ao intelecto asceticamente ativo e ao intelecto contemplativo, que por meio do labor ascético e com a ajuda de Deus supera as paixões e por meio da contemplação vê a Deus tanto quanto possível.
- O Salmista canta: “Tu preparaste uma mesa diante de mim face aos demônios e paixões que me afligem” (Salmo 23:5).
- Sentado desde o alvorecer numa cadeira de cerca de vinte e dois centímetros de altura, deve-se compelir o intelecto a descer da cabeça para o coração e retê-lo ali, mantendo a cabeça forçosamente inclinada para baixo e suportando uma dor aguda no peito, nos ombros e no pescoço, perseverando em repetir noeticamente ou na alma “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim”.
- Salomão diz: “De manhã semeia a tua semente” — e por “semente” deve-se entender a semente da oração — “e à tarde não retenhas a tua mão” (Eclesiastes 11:6), para que não haja interrupção na continuidade da oração.
- Quando a repetição se tornar constritiva e fatigante, o intelecto pode se concentrar na segunda metade da oração e repetir as palavras “Filho de Deus, tem misericórdia”, pois as plantas frequentemente transplantadas não criam raízes.
- Deve-se refrear a respiração para não respirar sem impedimento, pois quando se expira o ar, subindo do coração, nubla o intelecto e perturba o pensamento, mantendo o intelecto afastado do coração.
- Se imagens de boas coisas aparecerem, não se deve prestar atenção a elas, mas refrear a respiração tanto quanto possível e encerrar o intelecto no coração, invocando o Senhor Jesus de modo contínuo e diligente.
- São João Clímaco diz: “Com o nome de Jesus açoita os teus inimigos, pois não há arma mais poderosa no céu ou na terra.”
- Isaías o Solitário é um dos muitos que afirmam que ao orar é preciso refrear a respiração, e outro autor diz que se deve controlar o intelecto incontrolável, impelido e disperso como é pelo poder satânico que se apodera da alma lassa por causa da negligência após o batismo, trazendo consigo outros espíritos ainda mais maus e tornando o estado da alma pior do que era originalmente (Mateus 12:45).
- Outro escritor diz que num monge a lembrança de Deus deveria tomar o lugar da respiração, enquanto outro declara que o amor de Deus age como freio em sua expiração.
- São Simeão o Novo Teólogo diz: “Refreia a inalação do ar pelas narinas, para não respirar facilmente.”
- São João Clímaco diz: “Que a lembrança de Jesus seja unida à tua respiração, e então conhecerás as bênçãos da quietude.”
- São Paulo afirma que não é ele quem vive, mas Cristo nele (Gálatas 2:20), ativando-o e inspirando-o com vida divina.
- O Senhor diz: “O Espírito sopra onde quer” (João 3:8), pois quando fomos purificados pelo batismo recebemos em forma de semente o antegosto do Espírito (2 Coríntios 1:22) e o que São Tiago chama de “Logos implantado” (Tiago 1:21).
- O Senhor diz: “Não sois vós que falais, mas o Espírito de Meu Pai que fala em vós” (Mateus 10:20).
- São João Clímaco diz: “Quando o vigia se cansa, ele se levanta e ora; depois volta a sentar e retoma corajosamente a mesma tarefa”, e embora São João esteja aqui se referindo ao intelecto, o que diz pode aplicar-se igualmente à salmodia.
- O grande Varsanúfio, quando interrogado sobre como se deve salmodiar, respondeu: “As Horas e as Odes litúrgicas são tradições da Igreja, corretamente estabelecidas para que haja concórdia quando muitos oram juntos. Mas os monges de Esquete não recitam as Horas nem cantam Odes. Sozinhos praticam o trabalho manual, a meditação e uma pouca oração.”
- Varsanúfio ainda disse: “Quando estiveres de pé em oração, deves repetir o Trissagion e a Oração do Senhor. Deves também pedir a Deus que te liberte do teu eu caído. Não te tornes negligente nisso; tua mente deve estar concentrada em oração o dia todo.”
- São João Clímaco diz explicitamente que alcançar o estado de quietude implica primeiro o total desapego, depois a oração resoluta — o que significa ficar de pé e salmodiar — e terceiro o labor ininterrupto do coração, isto é, sentar-se para orar em quietude.
- Alguns ensinam que se deve salmodiar muito, outros pouco, e outros que não se deve salmodiar de modo algum, mas devotar-se somente à oração e ao esforço físico, pois os que encontraram a graça por meio de uma longa e árdua prática da vida ascética ensinam outros a encontrá-la do mesmo modo, sem crer que alguns possam por misericórdia de Deus alcançar o estado de graça em pouco tempo.
- São Isaac reconhece que é fácil para Deus enriquecer um pobre subitamente (Eclesiastes 11:21).
- Provérbios diz: “A sabedoria é a coisa principal; portanto adquire sabedoria” (4:7), referindo-se à graça.
- São Paulo repreende os discípulos de seu tempo ignorantes da graça ao dizer: “Não percebeis que Jesus Cristo habita em vós, a menos que sejais indignos?” (2 Coríntios 13:5).
- Se uma pessoa jejua, pratica o autocontrole, mantém vigílias, fica de pé, faz prosternações, se entristece interiormente e vive na pobreza, isso é ascetismo ativo, mas se orar com os lábios e a mente vaguear, não haverá benefício, pois “quando um constrói e outro destrói, o que ganham senão trabalho?” (Eclesiastes 34:23).
- São Paulo diz: “Orarei com o meu espírito, e também orarei com o meu intelecto” (1 Coríntios 14:15), e acrescenta: “Prefiro falar cinco palavras com o meu intelecto a dez mil com a língua” (1 Coríntios 14:19).
- São João Clímaco cita são Paulo em seu capítulo sobre a oração: “O grande praticante da oração sublime e perfeita diz: 'Prefiro falar cinco palavras com o meu intelecto.'”
- São Máximo diz: “Não há nada mais temível do que o pensamento da morte, nem mais maravilhoso do que a lembrança de Deus”, indicando a supremacia dessa atividade.
- Os que não salmodiam muito agem corretamente, pois estimam a moderação — e segundo os sábios a moderação é o melhor em todas as coisas —, não esgotando assim toda a energia da alma no labor ascético, o que tornaria o intelecto negligente e frouxo em relação à oração, podendo pelo contrário, devotando pouco tempo à salmodia, dar a maior parte do tempo à oração.
- Quando o intelecto é esgotado pela invocação noética contínua e pela concentração intensa, pode ser dado algum descanso liberando-o da constrição da oração silenciosa e permitindo-lhe relaxar na amplitude da salmodia.
- Os que não salmodiam de modo algum também agem corretamente, desde que estejam bem avançados no caminho espiritual, pois se alcançaram o estado de iluminação devem cultivar o silêncio, a oração ininterrupta e a contemplação, estando unidos a Deus e não precisando arrancar o intelecto dEle.
- São João Clímaco diz: “Quem está sob obediência monástica cai quando segue sua própria vontade, enquanto o hesicasta cai quando é interrompido em sua oração.”
- Transmitir essa disciplina a outros nem sempre é possível, podendo ser ensinada a pessoas simples e incultas que estão sob obediência a um pai espiritual, pois tal obediência, graças à humildade que a acompanha, pode participar de toda virtude.
- São Isaac diz que as pessoas que são uma lei para si mesmas não conseguem evitar a presunção, e o resultado natural da presunção é a ilusão.
- Quem pratica essa disciplina sem estar sob direção espiritual experimentará uma de duas coisas: ou se forçará a persistir, caindo na ilusão e fracassando em alcançar a cura, ou se tornará negligente e não fará progresso algum durante toda a vida.
- Quando sentado em quietude, de dia ou de noite, livre de pensamentos aleatórios e orando continuamente a Deus com humildade, pode-se constatar que o intelecto se esgota ao invocar a Deus e que o corpo e o coração começam a sentir dor por causa da intensa concentração com que se invoca incessantemente o nome de Jesus, de modo que não se experimenta mais o calor e a alegria que engendram ardor e paciência no aspirante espiritual.
- Nesse caso, deve-se levantar e salmodiar, seja sozinho seja com um discípulo, ou se ocupar com a meditação de alguma passagem das Escrituras, com a lembrança da morte, com o trabalho manual ou com a leitura, de preferência de pé para envolver também o corpo na tarefa.
- São Marcos diz que “o sofrimento do coração suportado num espírito de devoção” é suficiente para produzir alegria nos que estão nesse estágio de desenvolvimento espiritual, e o calor do Espírito lhes é dado como fonte de graça e exultação.
- Se ao estar empenhado em trabalho espiritual se ver uma luz ou fogo fora de si, ou uma forma supostamente de Cristo, de um anjo ou de alguém mais, deve-se rejeitá-la para não sofrer dano, pois todas essas coisas que externamente e inoportunamente assumem várias formas o fazem para enganar a alma.
- O verdadeiro começo da oração é o calor do coração que escorifica as paixões, enche a alma de alegria e deleite, e estabelece o coração no amor inabalável e na certeza sem hesitação.
- Os santos pais ensinam que se o coração duvida sobre se deve aceitar algo — seja sensorial ou conceptual — que entra na alma, essa coisa não é de Deus, mas foi enviada pelo diabo.
- São Isaac diz que o que é de Deus vem por si mesmo, sem que se saiba quando virá, e que o demônio natural inimigo que opera na sede do nosso poder desiderativo dá às forças espirituais várias aparências em nossa imaginação.
- Deve-se concentrar-se unicamente na lembrança pura, simples e sem forma de Jesus, e então Deus, vendo o intelecto tão rigoroso em se guardar de todo modo contra o inimigo, Ele mesmo conferirá visão pura e infalível ao intelecto e o fará participar de Deus e de todas as outras bênçãos.
- Assim como o palato discrimina entre diferentes tipos de alimento (Eclesiastes 36:18-19), o sentido espiritual do gosto revela clara e infalivelmente tudo como realmente é.
- São João Clímaco diz: “Como estás empenhado na guerra espiritual, deves ler textos relacionados com a prática ascética. Traduzir tais textos em ação torna supérflua outra leitura”, e devem-se ler obras dos pais relacionadas com a quietude e a oração, como as de São João Clímaco, São Isaac, São Máximo, São Nilo, São Hesíquio, Filoteo do Sinai, São Simeão o Novo Teólogo e seu discípulo Estítato.
- Deve-se ler em silêncio, não com voz pomposa, nem com eloquência pretensiosa, nem com enunciação afetada, nem com deleite melódico, nem — arrastado insensivelmente pela paixão — como se se quisesse agradar a uma audiência.
- Deve-se ler com reverência, suavidade, regularidade, compreensão e ritmo uniforme, com o intelecto, a alma e a razão todos empenhados, pois quando o intelecto é revigorado por tal leitura adquire a força de orar com mais fervor.
- Deve-se continuamente observar com cuidado a intenção interior: vigiar atentamente para que lado ela se inclina, e descobrir se é por Deus e pelo bem em si mesmo e pelo benefício da alma que se pratica a quietude, a salmodia, a leitura, a oração ou o cultivo de alguma virtude, para não ser enredado inconscientemente e provar ser um asceta apenas na aparência exterior.
- As armadilhas do diabo são muitas, e ele persistentemente e secretamente observa o viés de nossa intenção, esforçando-se imperceptivelmente para corromper nosso labor de modo que o que fazemos não seja feito de acordo com a vontade de Deus.
- Há uma paixão — a presunção — que não permite ao monge crescer em virtude, de modo que embora se empenhe em labores ascéticos acaba permanecendo estéril, insinuando-se sempre seja o iniciante, seja o que está no meio do caminho, seja o que alcançou o estágio de perfeição.
- A menos que um monge cultive as seguintes virtudes nunca fará progresso: jejum, autocontrole, vigília, paciência, coragem, quietude, oração, silêncio, luto interior e humildade, pois essas virtudes se geram e se protegem mutuamente.
- O jejum constante murcha a luxúria e gera o autocontrole; o autocontrole permite manter as vigílias; as vigílias geram a paciência; a paciência a coragem; a coragem a quietude; a quietude a oração; a oração o silêncio; o silêncio o luto interior; e o luto gera a humildade.
- Na ordem inversa, a humildade gera o luto interior, e assim por diante, pois no domínio das virtudes não há nada mais importante do que essa forma de geração mútua.
- Ninguém pode aprender a arte da virtude por si mesmo por meio de labor do coração e do esforço corporal é que o trabalho pode ser adequadamente realizado, pois por meio deles a graça do Espírito Santo é revelada, e essa é a graça com que nós e todos os cristãos somos dotados no batismo, mas que pela negligência em relação aos mandamentos foi sufocada pelas paixões.
- São João Clímaco diz: “Por mais elevado que seja nosso modo de vida, é inútil e falso se o nosso coração não sofre.”
- São Efrém diz: “Suporta persistentemente as dificuldades para evitar o sofrimento de vãos sofrimentos.”
- O Senhor diz: “O reino dos céus é alcançado pela força, e os que se forçam o tomam posse” (Mateus 11:12).
- Isaías diz que, a menos que nossos lombos sejam esgotados pela fraqueza induzida pelos esforços do jejum e que como uma mulher em trabalho de parto sejamos afligidos com dores provenientes da constrição do coração, não conceberemos o Espírito da salvação na terra do nosso coração (Isaías 21:3; 26:18).
- Ninguém pode aprender a arte da virtude por si mesmo, e agir por conta própria e não segundo o conselho dos que nos precederam é presunção excessiva ou, antes, engendra tal presunção, pois se o Filho não faz nada por conta própria, mas apenas o que o Pai lhe ensinou (João 5:19-20), e o Espírito não falará por conta própria (João 16:13), quem pode pensar que alcançou tais alturas de virtude que não precisa de ninguém que o inicie nos mistérios?
- Deve-se ouvir os que experimentaram as dificuldades envolvidas no cultivo das virtudes e cultivá-las como eles fizeram — por meio de jejum severo, autocontrole doloroso, vigílias firmes, genuflexões laboriosas, permanência em pé inabalável, oração constante, humildade sem fingimento, contrição incessante e tristeza compunctiva, silêncio eloquente, como que temperado com sal (Colossenses 4:6), e paciência em todas as coisas.
- As Escrituras dizem: “Nutrirás a ti mesmo com as dificuldades da tua prática das virtudes” (Salmo 128:2 LXX).
- Os que diligentemente se esforçam dia a dia para praticar as virtudes mencionadas colherão com a ajuda de Deus a colheita no momento apropriado.
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