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Taxis

ROQUES, René. L’ Univers dionysien: structure hiérarchique du monde selon le Pseudo-Denys. Paris: Éditions du Cerf, 1983.

I. Taxis e seus Derivados

  • De todos os termos que exprimem a ideia de ordem, taxis — transliteração do grego taxis — e seus derivados são certamente os que as diversas filosofias menos marcaram, encontrando suas aplicações mais típicas na linguagem militar ou política — no primeiro caso designando a disposição das tropas, o corpo de tropa, o posto atribuído a cada soldado; no segundo, a constituição política de uma cidade ou de um estado —, e passando da acepção estritamente material de arranjo exterior à de disposições jurídicas e de ordem no sentido imperativo do termo.
    • O vocabulário cristão herdou esses termos — a Igreja, sociedade organizada por Deus e para Deus, devia necessariamente adotar e conservar uma constituição própria e uma ordem interior, como o povo hebreu do qual é herdeira, e à imitação da Sabedoria divina que faz toda coisa na ordem; e textos canônicos e litúrgicos a impuseram definitivamente ao espírito e à vida dos fiéis
    • O único título de Constituições Apostólicas — diatagai em transliteração — já é muito significativo a esse respeito, pois o objetivo desse conjunto de tratados é fixar as regras segundo as quais são constituídas — diatassomai em transliteração — as diversas classes de fiéis e as prescrições às quais devem se dobrar
    • Essas constatações iluminam o emprego do termo taxis em Dionísio — ele designa ao mesmo tempo uma disposição santa de Deus (taxis iera em transliteração) e uma lei divina (thesmos em transliteração)
  • Toda hierarquia é uma constituição e tudo nela se faz na ordem — na Hierarquia Celeste as inteligências são dispostas segundo um belo arranjo (eutaxia — transliteração —, eutaxias aggelikhes — transliteração), e Deus, harmonia suresessencial de toda coisa, exerceu sua providência sobre cada um dos seres racionais e inteligentes de modo que fossem santamente dispostos e dirigidos com ordem, tendo estabelecido para cada uma das hierarquias ordens santas com potências primeiras, médias e últimas; e tanto na hierarquia celeste quanto na eclesiástica não há desordem (atakton — transliteração), nem falta de harmonia (akosmiton — transliteração), nem confusão (sumpeformenon — transliteração), mas harmonia (kosmion — transliteração), ordem (tetagmenon — transliteração) e equilíbrio feliz (eustathhes — transliteração).
    • Esse arranjo-ordenação é também um ordenamento-mandamento — um thesmos de Deus; Deus é ordem e princípio de ordem, e não pode portanto senão querer a ordem nas hierarquias
    • As leis divinas constituem uma excelente ordem (ton theion thesmon he ariste diataxis — transliteração); Deus é o princípio suresessencial de toda ordem hierárquica (ten huperousian apases hierarchias taxiarkhian — transliteração); Ele exclui toda dissonância dos seres e os conduz à ordem de sua identidade própria e de sua retidão (eis ten eutakton tautoteta kai orthotheta — transliteração)
    • De Deus procedem toda constituição e toda disposição feliz (ex autes [theothetos]… pasa he ton onton diataxis te kai diakosmesis — transliteração); e é em função de Deus, Bem único, que todos os seres são coordenados (panta… pros hen agathon suntetagnmena — transliteração)
  • Se a ordem é inseparável das disposições divinas e Deus mesmo é ordem e princípio de ordem, a ordem realizada nas hierarquias não será apenas um acidente feliz e facultativo, mas a expressão mesma do querer divino — e pode-se estabelecer a priori que taxis e thesmos são coisas sempre ligadas de direito; aceitar e querer a ordem hierárquica é executar a lei divina, viver no bem e, na medida do possível, ser divino em si mesmo; ao passo que transgredir a ordem hierárquica ou simplesmente se furtar a ela é romper com a lei divina, viver no mal e excluir-se do divino.
    • O mal, para Dionísio, reside essencialmente em uma desordem (ataxia — transliteração) — não vem da matéria, mas de um movimento desordenado e contrário às regras que Deus impõe (ouk ex hyles en psykhais to kakon, all' ex ataktou kai plemmmelous khineseos — transliteração); ele é essencialmente desordem (atakton — transliteração), mistura desordenada de elementos dissemelhantes (mixis ton anomoion asymmetros — transliteração); o mal pode portanto se definir como uma ruptura da ordem-arranjo que é também uma ordem-mandamento vindo de Deus
    • Para a ilustração prática dessa doutrina, a Carta VIII — destinada ao monge Demófilo — apresenta um monge que usurpou funções que não eram as suas e assim saiu de seu grau hierárquico (taxis — transliteração); tal atitude se opõe aos mandamentos de Deus — pois se a desordem e a confusão violam as prescrições e as leis mais divinas, é contraditório perturbar em nome de Deus a ordem que nos vem de Deus; e a taxis é uma forma do thesmos: violar a primeira é inevitavelmente violar o segundo
    • A noção de ordem (taxis — transliteração) aparece assim em sua verdadeira perspectiva — ela é, na hierarquia como na alma individual, uma imagem da ordem que reina na divindade, e é a própria lei de Deus (thesmos — transliteração) que esse ordem seja respeitada
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