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primal:conselho:12
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- A questão sobre como discernir se o desejo crescente pela contemplação é uma vocação especial de Deus ou apenas sustento da graça ordinária recebe como resposta a existência de dois tipos de testemunho — um interno e outro externo — que, tomados juntos e em concordância, constituem evidência suficiente do chamado divino.
- O testemunho interno é o desejo crescente sentido na prática espiritual cotidiana, e quando a visão espiritual que acompanha esse desejo cego origina-se de meditações comuns — como a recordação dos pecados ou a Paixão de Cristo —, isso indica que o desejo apenas nutre a alma na graça ordinária, sem constituir chamado a uma graça mais especial.
- O testemunho externo é o estímulo agradável sentido ao ler ou ouvir sobre contemplação, e quando esse estímulo dura apenas enquanto dura a leitura e não persegue a alma em sua prática diária, trata-se de simples alegria natural de todo cristão ante a verdade espiritual, e não de um toque de graça ou vocação divina a algo mais elevado.
- Quando o estímulo externo se torna tão abundante que acompanha a alma ao dormir e ao acordar, entremeia-se em tudo que faz, modifica gestos e comportamento, impele ao silêncio fecundo, à solidão amorosa e à busca de outros contemplativos, e quando testemunho interno e externo convergem em um único desejo, há sinal verdadeiro de vocação à contemplação.
- Se ambos os testemunhos cessam por um tempo, deixando a alma sem o fervor novo nem as meditações antigas — como quem cai entre dois bancos —, não há razão para desânimo excessivo, pois a alma encontra-se na travessia espiritual do mar, entre a corporalidade e a espiritualidade, devendo aguardar com humildade e confiança amorosa a vontade do Senhor.
- As tempestades e tentações dessa travessia não devem provocar temor, pois o Senhor retorna com um toque de graça mais fervoroso do que o anterior, e essa alternância de presença e ausência sensível tem por fim tornar a alma tão dócil à vontade divina quanto uma luva de cabrito à mão, moldando-a por dupla prova de paciência e sustento.
- A graça em si é tão elevada, pura e espiritual que não pode ser percebida pelos sentidos; o que se percebe são apenas os sinais da graça — o fervor, os sentimentos ardentes e os desejos inflamados —, e esses sinais são retirados tanto para provar a paciência quanto para beneficiar a alma espiritualmente de modos que ultrapassam a própria compreensão.
- Quando o amor se torna puro e perfeito pela alternância entre presença e ausência dos sinais da graça, a alma vê e sente a Deus nudamente pela união espiritual no nível mais alto do espírito, despida de si mesma e revestida apenas d'Ele, livre de toda ilusão sensível, percebendo-o em pureza de espírito tal como ele é em si mesmo.
- Nessa visão e sentimento de Deus tal como ele é em si mesmo, a alma não pode ser distinguida do que vê e sente, assim como Deus não pode ser distinguido do seu próprio ser, pois ambos são um em essência e natureza — e assim a alma e Deus tornam-se uno pela graça, como Deus é uno consigo mesmo pela natureza.
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