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JOÃO CLÍMACO — A ESCADA DO CÉU
VIGÉSIMO SEXTO GRAU: Do Discernimento nos pensamentos, vícios e virtudes.
- O discernimento é uma luz interior que permite conhecer com certeza a santa vontade de Deus em todo tempo, lugar e ação, sendo concedida apenas àqueles que são puros em suas afeições, ações e palavras.
- Aquele que venceu três inimigos da salvação pelo espírito de Deus facilmente derrota os outros cinco, enquanto quem negligencia atacá-los não pode contar com nenhuma outra vitória, sendo o discernimento uma consciência sem mancha que habita apenas em almas puras.
- Ninguém deve duvidar das coisas extraordinárias e sobrenaturais que ocorrem no estado religioso, pois onde Deus habita, que está acima da natureza, podem certamente existir coisas acima da natureza e de suas leis ordinárias.
- A preguiça, o orgulho e a inveja dos demônios são as três principais armas usadas contra os homens, sendo que a primeira deve causar confusão, a segunda precipita na miséria e a terceira representa verdadeira felicidade e perfeita bem-aventurança.
- Depois de Deus, deve-se recorrer à consciência como regra a seguir, pois é ela que faz conhecer de onde vêm os ventos impetuosos das tentações, avisa quando é preciso içar as velas e dirige para evitar um triste naufrágio.
- Os demônios armam ciladas para fazer cair em três fossas, esforçando-se primeiro para afastar do bem fazer, depois para corromper o coração com más intenções e finalmente para esconder-se na alma tranquila inspirando que se é feliz por agir segundo a vontade de Deus, sendo que se resiste à primeira tentação com diligência e meditação da morte, à segunda com obediência e desprezo de si mesmo, e à terceira com o conhecimento da própria imperfeição.
- Os demônios fazem exatamente o contrário, pois assim que tornam a alma sua escrava triste, extinguem toda espécie de luz e reduzem a tamanha pobreza que não resta prudência, discernimento, conhecimento ou respeito, restando apenas indolência, estupor, endurecimento, indiscrição e cegueira.
- Aqueles que tiveram a felicidade de sair do abismo da impureza através de jejuns e penitências, de renunciar à confiança insensata nas próprias forças para seguir a modéstia, e de abandonar a impudência vergonhosa para observar as leis do pudor, conhecem por experiência própria tudo o que foi dito.
- A menos que a luz divina se obscureça numa alma e ela caia nas trevas de uma noite funesta, os demônios são impotentes para lhe tirar a santidade e a inocência, imolá-la à sua fúria e perdê-la, sendo que eles lhe roubam o tesouro da inocência submetendo-a ao seu cativeiro sem que ela perceba, imolam-na à sua fúria quando extinguem nela todas as luzes da consciência precipitando-a em crimes vergonhosos, e terminam de perdê-la quando, depois de fazê-la cair em pecado, a entregam aos horrores do desespero.
- Ninguém pode alegar a própria fraqueza como desculpa nem dizer que os mandamentos de Deus são impossíveis, pois há quem vá além do que o Evangelho manda em muitas coisas, como aquele que amou o próximo mais do que a si mesmo.
- Os humildes devem ter coragem mesmo quando são perturbados por suas paixões, pois se Deus lhes concede finalmente a cura, ainda que tenham caído em toda espécie de pecados e armadilhas do demônio, poderão servir aos outros como médicos, faróis, lâmpadas e pilotos, fazendo conhecer os sintomas das doenças da alma.
- Embora pessoas tiranizadas por suas paixões possam dar lições úteis e simples aos irmãos, não podem se meter a governar nem a conduzir os outros, e aqueles que voluntariamente se submetem ao jugo tirânico das paixões devem apenas guardar silêncio para poder dar lições, lembrando-se de que Jesus começou primeiro a fazer e depois a ensinar.
- Ó religiosos humildes, o mar a atravessar é terrível e furioso, cheio de recifes que são a cólera, abismos que são o desespero, bancos de areia que são as trevas do espírito, monstros que são o próprio corpo pesado, piratas que são os ministros da vã glória, ondas que são os excessos da intemperança e redemoinhos que são o orgulho.
- Os que são consumados nas ciências conhecem as coisas convenientes para os principiantes, para os que progrediram e para os que são capazes de dar lições, sendo necessário ter cuidado para que, depois de longo estudo, não se seja encontrado ainda nos primeiros elementos da ciência espiritual, cujo verdadeiro alfabeto para os principiantes inclui obediência, jejum, cilício, cinza, lágrimas, confissão, silêncio, humildade, vigílias, generosidade, frio, trabalho, aflições, desprezos, contrição, esquecimento das injúrias, caridade fraterna, doçura, fé santa, indiferença para o mundo, santa aversão para os parentes, desapego perfeito e grande simplicidade com inocência.
- Quando se sente atingido por uma doença grave, é preciso redobrar o cuidado e a vigilância, pois nesses momentos os demônios costumam fazer os últimos esforços para vencer, sendo que os doentes do mundo estão expostos à cólera e blasfêmias, os monges às tentações de intemperança e luxúria, e os solitários privados de auxílio à negligência, ao tédio e à tristeza.
- Viu-se que o demônio da incontinência aumentava as dores de certos doentes a ponto de lhes dar movimentos que perturbavam a consciência, mas depois, visitando-os novamente, encontrou-se que foram tão aliviados pelos socorros espirituais e pela compunção que a consolação lhes tirava o sentimento das dores e fazia desejar nunca delas ser libertado.
- Há no fundo da alma um sentimento todo espiritual que leva a buscá-lo dentro de si mesmo, mesmo quando não se encontra, e quando se tem a felicidade de encontrá-lo, as trevas produzidas pelas paixões desregradas se dissipam e desaparecem do espírito.
- A vida monástica deve preencher todos os sentimentos do coração, regular todas as ações, velar sobre as palavras, formar os pensamentos e presidir a todos os movimentos, pois do contrário não seria vida monástica, muito menos vida angélica.
- É preciso conceber a diferença entre a providência de Deus, que brilha em todas as obras do universo, o socorro da sua graça, que se vê apenas entre os fiéis, a proteção que ele concede, que se observa entre os verdadeiramente fiéis, a misericórdia que usa para conosco, que se vê em seus servidores devotados, e as consolações que nos faz gozar, que se encontram entre aqueles que o amam sinceramente.
- O que costuma ser um bom remédio para certas pessoas torna-se um veneno verdadeiro para outras, e o mesmo remédio dado à mesma pessoa em circunstâncias diferentes pode ser-lhe salutar num tempo e funesto noutro.
- Viu-se um médico espiritual ignorante e indiscreto que, ao repreender inoportunamente um pobre doente languido sob o peso dos pecados, o empurrou para os horrores do desespero, enquanto outro, cheio de ciência e sabedoria, fez com repreensões humilhantes uma incisão num coração inchado de orgulho e fez sair felizmente toda a corrupção que o sujava.
- Viu-se o mesmo doente espiritual ora engolir como bebida salutar toda a amargura da obediência para curar-se das paixões, tornando-se vigoroso, ardente, laborioso e vigilante, ora permanecer em perfeita imobilidade e silêncio para recuperar a vista do olho da alma.
- Há pessoas naturalmente inclinadas à continência, ao repouso da alma, à modéstia, à doçura e à compunção do coração, enquanto outras têm inclinações opostas e combatem com todo o poder essa má natureza, sendo que estas últimas, mesmo que nem sempre triunfem de seus pendores, são preferíveis às primeiras porque triunfam da própria natureza.
- Quem goza sem trabalho nem pena desses dons e favores da natureza não deve se glorificar, mas confessar com humildade que o soberano Dispensador dos dons o favoreceu apenas porque conhecia sua extrema fraqueza, previa que sem essas graças gratuitas se perderia e, em sua bondade infinita, queria salvá-lo.
- Os anjos são uma luz para os monges, e os monges devem ser a luz dos outros homens, sendo obrigados especialmente a se esforçar para tornar-se homens exemplares e nunca dar ocasião para alguém se escandalizar, pois se a luz se transforma em trevas, o que serão as próprias trevas, isto é, aqueles que vivem no meio do mundo.
- Se se deseja seguir os avisos, não se deve esquecer que é muito importante não ser leve nem inconstante e não dividir as forças da alma, já tão pobre e fraca, se se quer combater com alguma vantagem os milhares de inimigos que atacam.
- É preciso munir-se dos socorros oferecidos pela santíssima Trindade e empregar três virtudes para fazer a guerra a três vícios diferentes, pois se não se fizer isso, expõe-se evidentemente a males e inquietações incontáveis.
- Se Deus, que outrora mudou o mar em terra firme, está conosco, seremos como os israelitas, iluminados e protegidos por sua presença, passaremos sem perigo através das ondas mugidoras e veremos nossos egípcios sepultados sob as águas; mas se Deus não nos assiste, quem poderá sequer ouvir sem tremer o barulho confuso das vagas e quem será capaz de se sustentar diante dos esforços furiosos da própria carne.
- Se Deus se mostra em nosso coração pelas boas obras que sua graça faz praticar, todos os nossos inimigos, que são os seus, serão dissipados e postos em derrota, e se o chamamos em nosso auxílio pela santidade e fervor de nossas orações, todos aqueles que, segundo a expressão de Davi, odeiam o Senhor, fugirão em sua presença e na nossa.
- Não se deve esquecer que não será com palavras vãs e estéreis que se aprenderão as coisas celestes, mas pelos trabalhos, esforços e suores, pois no fim da vida não se apresentará ao soberano Juiz palavras, mas obras.
- Quando alguém sabe que um tesouro está escondido em algum lugar, apressa-se a cavar para encontrá-lo, e se o encontra, guarda-o com grande cuidado, enquanto aqueles que são ricos sem ter trabalhado para isso dissipam ordinariamente sua fortuna.
- Os hábitos viciosos e inveterados não se corrigem sem grandes dificuldades nem grandes esforços, e os monges que os fortificaram ainda mais por más ações continuamente repetidas ou caem miseravelmente no desespero ou, por sua cegueira, não obtêm nenhum proveito de sua profissão religiosa e de sua consagração à obediência, mas não se deve desesperar completamente dessas pessoas porque Deus é todo-poderoso e pode tirá-las desse abismo.
- A intemperança é a mãe da luxúria, a vã glória da preguiça, a tristeza e a cólera são mães do orgulho, da inveja e da avareza, e a vã glória é ainda mãe do orgulho, sendo que não se deve procurar ordem e razão entre paixões folles e impetuosas onde só se encontra desordem e confusão.
- É preciso aprender a temer o Senhor pelo temor que inspiram a autoridade e a potência dos príncipes e magistrados e a presença dos animais ferozes, e aprender a amá-lo e a desejar possuí-lo pelo exemplo dos mundanos que se entregam ao amor das criaturas pelas belezas que percebem nelas.
- O século em que se vive é horrivelmente corrompido, só se vê orgulho e dissimulação por toda parte, e ainda que se pratiquem talvez algumas virtudes exteriores, não se veem mais aqueles dons e favores extraordinários com que Deus se agradava em recompensar o fervor e a sinceridade da devoção, mas não são precisamente os trabalhos exteriores que fazem encontrar e possuir Deus, e sim a simplicidade e a humildade do coração.
- Quando se vir alguns dos irmãos que servem a Deus cair em alguma doença corporal, não se deve ser tão mau a ponto de crer que esse acidente lhes chegou por um secreto juízo de Deus que os pune por algumas faltas cometidas, mas na simplicidade do coração e sem más pensamentos, deve-se cuidar deles como membros do corpo a que todos pertencem e como companheiros de armas na guerra contra um inimigo comum.
- Deus envia às vezes doenças para purificar a alma das manchas que os pecados lhe fizeram, e às vezes para ajudar a expulsar a vaidade do espírito.
- Deus, cuja bondade e misericórdia são infinitas, ao ver os homens covardes e preguiçosos nos santos exercícios da piedade, serve-se da doença como uma mortificação salutar e mais fácil para humilhar e enfraquecer os corpos rebeldes, para purificar o espírito das más pensamentos e para livrar o coração das paixões desregradas.
- Para todas as coisas que acontecem, visíveis ou invisíveis, recebem-se de três maneiras diferentes: primeiro, com um espírito de doçura e humildade; segundo, com sentimentos de cólera e repugnância; terceiro, com uma fria indiferença.
- Viu-se agricultores semear os mesmos grãos propondo-se fins diferentes: uns para pagar credores, outros para aumentar riquezas, uns para fazer presentes a seus mestres, outros para merecer louvores dos passantes sobre sua excelente maneira de cultivar, uns para contentar a inveja e vexar rivais, outros apenas para afastar a vergonha de serem vistos como negligentes e preguiçosos.
- Que seja diante do Senhor e com as mesmas precauções daqueles que vão tirar água de uma fonte, pois às vezes, querendo tirar apenas água, pegam-se também rãs, misturando assim defeitos com as virtudes.
- Não é preciso afligir-se se Deus não atender as preces e súplicas tão logo se desejaria, pois ele mesmo deseja ardentemente que todos os homens sejam logo libertos das paixões que os perturbam e tiranizam.
- Todos aqueles que pedem a Deus alguma graça não são ouvidos, acredita-se, por alguma das seguintes razões: porque não solicitam esse favor no tempo conveniente, porque não o pedem com as disposições requeridas, porque estão possuídos de algum sentimento de vã glória e orgulho, ou porque, se fossem atendidos, cairiam na tibieza e na negligência.
- Ninguém duvida que os demônios e as paixões se retirem da alma ora por um tempo, ora para sempre, mas há muito poucas pessoas que sabem por que uns e outros abandonam desse modo.
- As paixões deixam não apenas aqueles que têm a fé, mas também aqueles que não a têm, excetuando-se, todavia, uma paixão tão funesta e terrível que expulsou os anjos do céu, que é o orgulho.
- O fogo celeste e divino da caridade consome inteiramente a matéria dos pecados quando os demônios se retiram voluntariamente e não tentam mais por meio das paixões.
- Os demônios não se retiram voluntariamente a não ser para enganar com uma falsa segurança que esse calma e tranquilidade inspiram, e para apoderar-se mais facilmente e de uma só vez do pobre coração, envenenando-o com os vícios de tal sorte que ele mesmo venha a armar ciladas a si próprio e fazer-se uma guerra cruel.
- Conhece-se ainda outra astúcia dos demônios quando cessam de cansar e atacar: é que, tendo já habituado ao vício, não precisam tentar, pois ao tentar temeriam despertar a consciência que adormeceram.
- A simplicidade, a inocência e a integridade da vida são principalmente capazes de livrar a alma das perturbações e agitações das paixões e de lhe procurar uma paz deliciosa, segundo a palavra de Davi.
- Os vícios e a maldade não estão originariamente na natureza do homem, pois Deus não é o autor das paixões, havendo nele muitas boas inclinações naturais que Deus lhe deu, como a ternura e compaixão, a afeição e benevolência, a fé, a esperança e o amor fraterno.
- A castidade, a doçura, a humildade, a oração, as vigílias, os jejuns e a compunção não são virtudes que se possam praticar só com as forças da natureza.
- Encontrando-se na indispensável necessidade de sofrer alguns males, a prudência dita que se deve sempre escolher o menor e o mais leve, sendo que a caridade é mais excelente do que a oração porque esta é uma virtude particular enquanto aquela encerra todas as virtudes.
- Deus permite às vezes que pessoas espirituais permaneçam sujeitas a certos pequenos defeitos que não são capazes de sujar nem ofender o Senhor, a fim de que, forçadas a fazer-se contínuas recriminações, possam adquirir um grande tesouro de humildade sólida que seja impossível aos inimigos tirar-lhes.
- Aqueles que não viveram sob o jugo salutar da obediência não são capazes de atingir uma humildade sincera e verdadeira, como se pode julgar por aqueles que aprendem alguma arte ou ofício e, tendo apenas a si mesmos por mestres, não fazem outra coisa senão seguir os jogos de sua imaginação.
- Não é sem razão que os pais fazem consistir a santidade da vida na prática da humildade e da temperança, virtudes que aos olhos dos homens parecem bem ordinárias e comuns, pois a temperança priva dos prazeres dos sentidos e a humildade conserva nessa privação e impede que as volupcias carnais lancem novos brotos.
- Em geral, os homens piedosos sentem-se inclinados a dar àqueles que lhes fazem pedidos e expõem suas necessidades, mas as pessoas que possuem essa preciosa qualidade num grau mais perfeito consultam apenas as necessidades dos irmãos e, para fazer liberalidades, não esperam que lhes peçam.
- Não se deve nunca cessar de considerar os vícios e as virtudes para que se possa saber onde se está em relação à piedade: está-se começando, avançando ou aperfeiçoando-se.
- Os combates que os demônios travam vêm de três causas diferentes: do amor aos prazeres, do orgulho e da inveja que têm aos homens, sendo felizes aqueles que são objetos da inveja dos demônios, infelizes aqueles que se entregam ao orgulho, e inúteis e vãos aqueles que são escravos dos sentidos e presos aos prazeres da carne.
- Há um certo sentimento, ou antes certa hábito, que se deve chamar força e paciência, pela qual não se teme nem se recusa nenhum trabalho nem nenhuma pena, sendo esse o espírito de força, generosidade e paciência que inflamava o coração dos mártires a ponto de desprezar os tormentos mais horríveis.
- Deve-se colocar uma grande diferença entre velar sobre os pensamentos do espírito e velar sobre as afeições do coração, pois a vigilância sobre as afeições do coração supera em dignidade e excelência a vigilância sobre os pensamentos do espírito tanto quanto o oriente está distante do ocidente.
- Servir-se da oração para combater os maus pensamentos, repeli-los com horror, desprezá-los e triunfar inteiramente não são coisas que não se distinguem entre si, sendo que aquele que possui a segunda disposição precisa muitas vezes recorrer à oração, o que se serve da oração sem querer excitar o horror dos maus pensamentos nunca poderá expulsá-los, e aquele que possui a terceira rejeita com desdém e desencoraja inteiramente os demônios.
- Naturalmente falando, não se pode apreender nem limitar o que é simples e espiritual, sendo apenas Deus, que tudo criou, capaz disso.
- Assim como aqueles que têm o olfato excelente sentem facilmente os perfumes na aproximação de uma pessoa que os tem sobre si, mesmo que ela os mantenha escondidos, do mesmo modo uma alma pura sente facilmente em si mesma, por um dom particular de Deus, o bom odor da virtude que dele recebeu.
- Se é verdade que nem todos podem pretender gozar da impassibilidade que livra de todas as paixões, é igualmente verdade que todos podem reconciliar-se com Deus e obter a salvação eterna.
- Guarda-se bem de estimar e querer imitar certas pessoas curiosas que querem penetrar temerariamente os segredos da divina Providência, aprofundar as iluminações que Deus derrama em algumas almas privilegiadas e pronunciar em si mesmas que Deus faz acepção das pessoas, pois todas essas pessoas mostram bem que são realmente os tristes filhos e as infelizes escravas do orgulho.
- A avareza, para se esconder, cobre-se às vezes do manto da humildade, enquanto a vã glória e a incontinência levam a grandes esmolas, sendo necessário fazer todos os esforços para se libertar dessas duas paixões detestáveis e não cessar de ter sentimentos de benevolência para com os pobres e de lhes fazer bem.
- Alguns disseram que havia demônios inimigos de outros demônios e que faziam guerra uns aos outros, mas tudo o que se sabe é que todos eles querem a perda das almas.
- Os exercícios espirituais, seja exteriores e visíveis, seja interiores e invisíveis, são ordinariamente precedidos de uma boa resolução e um bom propósito, uma santa afeição e um piedoso desejo, mas todas essas felizes disposições devem ser atribuídas à graça de Deus que age em nós e conosco.
- Sem o bom propósito não se fariam boas obras, pois no santo estado, que é uma república celeste, é essencialmente obrigatório considerar com a maior atenção quais são as coisas convenientes às circunstâncias em que nos encontramos e de que maneira convêm.
- Há pessoas que, por uma disposição secreta e impenetrável da divina Providência, recebem a recompensa de seus trabalhos antes mesmo de se entregarem a eles, outros durante, outros depois de terminados, e outros só a recebem após a morte.
- Há uma espécie de desespero que vem da multidão dos pecados cometidos, das recriminações pungentes da consciência e da tristeza cruel e insuportável que a visão de sua enormidade inspira à alma, e há outra espécie de desespero que nasce do orgulho e da louca estima de si mesmo.
- É uma coisa muito extraordinária e surpreendente, mas que não deve espantar ninguém, ouvir as pessoas fazer os discursos mais edificantes e vê-las cair nas faltas mais assustadoras, pois o orgulho no céu descaracterizou e perdeu os anjos.
- Em todas as ações e exercícios, a regra deve ser examinar se as démarches e operações corporais, assim como as puramente espirituais, são conformes à lei de Deus, sendo que, se desde o começo da carreira religiosa se entrega a algum exercício e depois de aplicado a ele não se tornou mais humilde, é muito de temer que esse exercício não tenha sido feito de maneira a poder ser agradável a Deus e conforme à sua santa vontade.
- Às vezes as almas elevadas estimam pouco as coisas que na verdade são de bem pouca importância, mas muitas vezes os espíritos leves e superficiais consideram de grande importância o que não é bom nem perfeito sob todas as relações.
- Quando o ar é puro, vê-se brilhar os raios do sol; assim também uma alma que Deus purificou por sua graça vê em si mesma brilhar os raios da luz celeste.
- Fazer uma falta, levar uma vida ociosa, deixar-se ir à negligência, sentir inclinações desregradas e contentá-las são coisas que devem se distinguir umas das outras.
- Muitos elevam até o céu e consideram como a felicidade da vida a graça e a potência de fazer milagres e ser grande diante dos homens por favores e graças extraordinárias e sobrenaturais, mas se enganam e ignoram que os dons do céu que menos expõem a fazer quedas são as mais preciosas favores que se pode receber de Deus.
- Um homem perfeitamente purificado de seus pecados conhece o estado e as disposições interiores do próximo, pelo menos de maneira imperfeita, enquanto o que progride julga o estado da alma a partir do corpo.
- Um pequeno fogo pode incendiar toda uma floresta, e uma pequena falta é capaz de fazer perder todo o fruto dos trabalhos espirituais.
- Existe um pequeno alívio que se pode conceder à carne rebelde e inimiga, o qual dá força à alma sem excitar as ardor da concupiscência, mas há também grandes fadigas que a fazem revoltar-se contra o espírito, permitindo Deus isso para que, não colocando a confiança em nós mesmos, a coloquemos apenas em Deus.
- Vendo-se pessoas que nos amam segundo Deus e por Deus, deve-se conservar em relação a elas a retenção conveniente e guardar-se bem de usar certas familiaridades, pois nada é mais capaz de prejudicar a amizade e de mudar mais facilmente as afeições de ternura em sentimentos de ódio e aversão do que uma liberdade excessiva.
- É sutil e penetrante o olho da alma, pois, excetuando-se os anjos, ele supera em luz e finura todas as outras criaturas, de modo que mesmo aqueles que ainda são agitados por suas paixões, contanto que não estejam sepultados na lama do pecado, em virtude da grande afeição que têm por seus irmãos, conhecem os pensamentos e sentimentos que estão em suas almas.
- Se nada é mais oposto a um ser simples e espiritual do que a matéria e um corpo, aquele que ler estas palavras compreenderá.
- As observações que as pessoas do mundo com seu espírito mundano e carnal fazem sobre o curso da divina Providência só podem produzir neles e nos monges trevas espessas e funestas.
- As pessoas pouco firmes e pouco constantes na prática da virtude não devem ignorar que é porque Deus toma um cuidado particular de sua salvação que ele permite que se encontrem expostas a indisposições corporais, a perigos e a acidentes funestos.
- Deve-se desconfiar de um demônio que, quando se está prestes a adormecer, procura encher o espírito de maus pensamentos, esperando que, pela negligência em os expulsar e armar-se da oração, se entregará ao sono com esses pensamentos e eles ocasionarão maus sonhos durante a noite.
- Há um espírito, que se pode chamar precursor, que se apresenta ao despertar para tentar e corromper a pureza da alma por pensamentos infames que tenta inspirar, sendo por isso necessário empregar o maior cuidado para consagrar fielmente a Deus as primícias de cada dia.
- Há muitas vias que conduzem as almas à piedade, mas há também muitos caminhos que podem levá-las ao mal eterno, e entre essas vias que levam à salvação, algumas que não convêm a certas pessoas convêm muito bem a outras, sendo a conduta de uns e outros agradável a Deus.
- Em todas as tentações a que se está exposto, os demônios fazem todos os esforços para fazer dizer ou fazer coisas que não convêm, e se não podem obter o que desejavam, procuram muito habilmente fazer render a Deus ações de graças da vitória que se obteve com espírito e sentimentos orgulhosos.
- Aqueles que têm gosto pelas coisas celestes, seja porque renunciaram voluntariamente às coisas da terra, seja porque a morte os delas felizmente livrou, sobem gloriosamente ao céu, enquanto aqueles que só amam as coisas da terra descem, após a morte, para baixo, não havendo meio termo.
- Não é uma coisa surpreendente que a alma, que foi criada no corpo e que nele recebeu sua natureza e existência, possa no entanto existir fora do corpo quando a morte a dele separou.
- As mães piedosas dão à luz filhas piedosas, e é o Senhor quem criou suas mães, não havendo absurdo em aplicar essa regra no sentido contrário.
- Aquele que não se sente com a coragem necessária não deve ir à guerra, como Moisés, ou antes o Senhor, outrora havia defendido aos israelitas, pois há o temor de que o último extravio de uma alma seja pior do que sua primeira queda.
- Assim como os olhos iluminam todos os membros do corpo, a discrição é a luz de todas as virtudes, sendo que um cervo pressionado pela sede não procura com mais ardor as águas refrescantes de uma fonte do que as almas verdadeiramente religiosas procuram conhecer e compreender qual é a Vontade do Senhor sobre elas.
- Todos aqueles que são animados pelo desejo sincero de conhecer qual é a vontade de Deus sobre eles são primeiro obrigados a imolar sua própria vontade, renunciar generosamente a si mesmos e orar com fé viva e ardente e grande simplicidade, e depois consultar com humildade e confiança seu superior e até seus irmãos e receber seus avisos e conselhos como da própria boca de Deus.
- Há um número bastante grande que se recusa a usar desse meio seguro e fácil porque têm uma secreta complacência e uma confiança presunçosa em suas próprias luzes, vendo-se por isso empregar mil meios diferentes que não são senão puras invenções e vãs opiniões para conhecer a Vontade de Deus.
- Há outros que, desejando saber sinceramente qual é a Vontade de Deus sobre eles, renunciam a toda afeição por si mesmos, voltam-se humildemente para o Senhor por preces muito fervorosas, oferecem-lhe e sacrificam-lhe seus pensamentos e projetos, submetem-lhe inteiramente seu espírito e suas luzes, e despojam-se perfeitamente de sua própria vontade, até que finalmente conhecem o que Deus lhes pedia.
- Há outros ainda que, com base nos transtornos e agitações a que foram expostos, tomaram sua decisão e julgaram depois que ela era conforme à Vontade de Deus, fundados nas palavras do Apóstolo.
- Outros, ao contrário, concluíram que o que tinham resolvido fazer era agradável a Deus porque foram socorridos por sua graça para executá-lo, pensando na sentença de que Deus vem em auxílio daquele que se propõe a fazer o bem.
- Aquele que tem a felicidade de possuir Deus em seu coração recebe dele e sem demora, por meio das luzes abundantes que ele lhe comunica, a segurança de que o que faz é conforme à sua santa Vontade.
- Permanecer longo tempo indeciso e irresoluto sobre o partido a tomar não é ordinariamente uma marca de que se é iluminado por Deus, mas bem antes de que se é escravo da vã glória.
- Deus não é injusto, portanto aqueles que batem com humildade à porta de suas Misericórdias não são repelidos nem rejeitados.
- É essencial considerar diante de Deus o fim que se propõe nas coisas que é preciso fazer imediatamente e naquelas que se pode diferir, pois tudo o que se faz com uma intenção reta e pura, sendo uma coisa boa em si mesma, se o faz realmente e unicamente por Deus, Deus o levará em conta.
- Os juízos de Deus sobre os homens são inexplicáveis e incompreensíveis, e muitas vezes, por uma disposição particular de sua Providência, ele não faz conhecer o que desejaria que fizéssemos porque prevê com certeza que, mesmo que o soubéssemos, não o faríamos.
- Um coração reto na diversidade das coisas que deve fazer preserva-se de toda curiosidade e caminha com segurança nas vias da inocência.
- Há almas generosas que, pelo amor ardente de que queimam por Deus, vivendo sempre na prática de uma humildade profunda, fazem esforços extraordinários para fazer ações que estão acima de suas forças, mas há também almas orgulhosas que agem do mesmo modo, sendo que o fim ordinário que os demônios se propõem é nos engajar a fazer o que não podemos para nos fazer omitir o que podemos.
- Viu-se pessoas que, por causa da fraqueza de sua alma e de seu corpo, tinham empreendido praticar austeridades acima de suas forças na vista de expiar as faltas numerosas que tinham a se reprovar, mas foi preciso fazê-las compreender que Deus não julga tanto o mérito e o valor dos trabalhos e da penitência pela grandeza das austeridades quanto pela medida e sinceridade da humildade.
- Ora é a má educação recebida, ora é a frequência com os pecadores que precipitam no abismo, mas muitas vezes a só perversidade do coração é capaz de perder, pois aquele que vive na solidão está ordinariamente abrigado das duas primeiras causas, mas aquele que é perverso em si mesmo e cujo coração está estragado é em toda parte e sempre vicioso.
- Depois de ter respondido uma ou duas vezes com doçura e caridade àqueles que atacam, devem-se abandonar essas pessoas, sejam hereges ou pagãos, mas se se percebe que não é com más intenções e sim no desejo de se instruir, não se deve cansar de dar as instruções santas e salutares que pedem.
- Aquele que, ouvindo contar as belas ações que os Santos praticaram, por serem superiores às forças da natureza, se deixa ir ao abatimento e ao desespero, é um homem sem juízo e sem razão, pois elas são úteis sob dois aspectos: excitam a fazer todos os esforços para marchar sobre as pegadas dessas almas santas e generosas, e levam pela humildade a conhecer-se a si mesmo e a sentir a miserável fraqueza.
- Entre os demônios há uns que são mais maus do que outros, mas aqueles são incontestavelmente os mais maus que encorajam não apenas a pecar, mas a ajuntar cúmplices das próprias prevaricações, a fim de atrair sobre si castigos mais temíveis.
- A malícia do demônio é variada quase ao infinito, sendo grande e muito difícil de conhecer, havendo poucas pessoas que a podem penetrar, e ousar-se-ia dizer que nunca é inteiramente conhecida.
- Para saber por que princípio esses efeitos contrários têm lugar, coisa muito difícil de saber, não há outro meio senão dirigir-se a Deus por preces sinceras feitas com grande humildade.
- Os juízos de Deus são um abismo impenetrável, e aqueles que pretenderam sondá-lo só o fizeram por uma curiosidade e um orgulho insuportáveis.
- Alguém tendo perguntado um dia a um homem muito experimentado nas vias de Deus por que o Senhor, que prevê com ciência infalível as faltas de certas pessoas, não deixa no entanto de favorecer essas pessoas com os dons mais raros e mais preciosos, até mesmo a virtude de fazer milagres, respondeu-lhe que é para tornar os outros homens mais sábios e mais vigilantes, para fazer conhecer a liberdade de que goza a vontade, e para tornar inexcusáveis no juízo final aqueles que tiverem caído em pecado depois de receber favores tão extraordinários.
- A lei, por causa de suas imperfeições, contentava-se em dizer aos homens: Vigia sobre ti mesmo, mas o Senhor, autor e consumador da lei, não encarrega apenas de vigiar sobre si, mas ainda de corrigir os irmãos.
- Se se vê os melhores amigos tornarem-se os mais cruéis inimigos, não é preciso espantar-se, mas lembrar-se que os demônios se servem da perfídia e da inconstância dessas espécies de pessoas como instrumentos necessários para fazer guerra aos homens.
- A coisa que deve causar um espanto extraordinário é ver Deus, que pode tudo, ajudar com sua graça, os anjos e os santos socorrer com sua proteção na prática da virtude, e o demônio, que nada pode, estar sozinho para engajar no vício, e no entanto deixar-se arrastar mais facilmente ao mal do que ao bem.
- Se todas as criaturas são dispostas e arranjadas conformemente à sua natureza, como se faz que alguém que é a imagem de Deus esteja misturado com lama e formado dessa matéria ignóbil, sendo certo que um ser que não se encontra no estado conveniente à natureza faz todos os esforços para lá chegar.
- O exemplo e o relato das ações admiráveis que os pais fizeram para lá chegar devem tocar e animar de generosa emulação.
- A doutrina celeste de que se nutrem as almas é uma luz capaz de dissipar as trevas, de trazer de volta ao caminho quando se teve a desgraça de o deixar, e de iluminar sem cessar no meio mesmo da obscuridade.
- Tem-se o costume de admirar nos outros as menores coisas por duas razões principais: por uma grande ignorância, ou por uma profunda humildade para fazer conhecer e realçar suas belas ações.
- É preciso empregar todas as forças não apenas para se defender dos inimigos espirituais, mas para atacá-los e fazer-lhes uma guerra aberta, pois aquele que se contenta em resistir aos demônios ora os fere ora é ferido, enquanto aquele que lhes faz guerra aberta os persegue a toda desmesura.
- Não se deve esquecer que se faz tantas feridas ao demônio quantas vitórias se obtêm sobre os maus pendores, e que agindo sempre como se estivesse exposto à sua violência, usa-se de uma piedosa astúcia que desconcerta o inimigo e torna invencível.
- Se alguém pensa e deseja oferecer a Deus um corpo casto e apresentar-lhe um coração puro, aplique-se a praticar a paciência e a doçura, a temperança e a mortificação, pois sem essas virtudes suas penas e trabalhos não lhe servirão de grande coisa.
- O sol da inteligência derrama na alma luzes mais ou menos abundantes e mais ou menos vivas para que ela distinga os objetos espirituais como os olhos distinguem os objetos materiais, iluminando ora pelas lágrimas da penitência, ora pelos gemidos interiores do coração, ora por uma santa alegria, ora pelo repouso e obediência, havendo ainda uma maneira toda particular, secreta e inexplicável.
- Deve-se considerar as virtudes sob dois aspectos, como filhas e como mães, sendo que todos aqueles que são dotados de sabedoria e prudência fazem todos os esforços para adquirir e conservar as virtudes-mães, enquanto das virtudes-filhas não faltarão mestres para ensiná-las.
- É preciso ainda tomar muito cuidado para não substituir pelas doçuras do sono as delícias de que se priva jejuando e mortificando-se, pois conduzir-se dessa maneira seria conduzir-se como insensatos, enquanto a conduta contrária é uma prova de sabedoria.
- Encontraram-se alguns servos de Deus que por algumas razões se tinham um pouco relaxado da mortificação nas refeições, mas tomaram a generosa resolução de passar as noites em vigílias e sem tomar repouso nem mesmo sentando-se, punindo-se tão bem de sua intemperança que se abstiveram em seguida de todo excesso na comida não apenas com facilidade mas ainda com uma alegria e um contentamento delicioso.
- O demônio da avareza faz muitas vezes uma guerra cruel àqueles que nada têm, e se não pode fazê-los abandonar a pobreza por si mesmos, procura afastá-los dela inspirando sentimentos de comiseração em favor dos indigentes, sendo que por essa tentação delicada e esse pretexto convidativo muitas pessoas felizmente livres de toda afeição pelas coisas da terra a que tinham renunciado se reengajaram miseravelmente nos negócios tumultuosos do século.
- A vista das faltas inspira o pensamento de desespero, então é preciso apressar-se a considerar a ordem que o Senhor deu outrora a Pedro de perdoar até setenta e sete vezes; se, ao contrário, é a lembrança e o pensamento das boas obras que incham o coração e sugerem sentimentos de orgulho, opõe-se a essa tentação a palavra de que aquele que cumpriu toda a lei espiritual e faltou num só ponto, por exemplo deixando-se ir à vaidade, será punido como se tivesse faltado a todos.
- Acontece que os demônios, tão maus quanto invejosos, se retiram de perto das almas santas apenas para que, cessando de lhes fazer guerra, as privem das ocasiões de obter sobre eles novas vitórias e de aumentar seus méritos e seu tesouro.
- Ninguém duvida que aqueles que são pacíficos merecem ser chamados felizes, mas viu-se pessoas a quem se dava esse título embora tivessem posto a desunião e a discórdia entre os irmãos, como um pai virtuoso e esclarecido que conseguiu separar dois homens que se amavam com amor criminoso inspirando-lhes uma aversão mútua.
- Há pessoas que, para serem fiéis a certos pontos da lei, parecem violar outros, como se notou em jovens que se amavam muito com afeição pura e casta os quais, para não dar escândalo aos irmãos e não ferir sua consciência, não deixavam de interromper o comércio de sua santa amizade.
- Assim como o casamento difere do enterro, assim o orgulho é contrário ao desespero, ainda que esses dois vícios, pela malícia dos demônios, se encontrem às vezes reunidos na mesma pessoa.
- Há espíritos impuros que, à entrada na religião, se apressam a interpretar eles mesmos as santas Escrituras, especialmente com relação àqueles que são escravos da vã glória e mais ainda com relação àqueles que no mundo fizeram profissão de estudar as ciências humanas e de viver segundo a prudência do século.
- Há certas criaturas das quais Deus regulou a ordem e o princípio, e outras das quais Deus igualmente ordenou e regulou o termo e o fim, mas a virtude tem um fim que é sem fim, e o amor de Deus é sem limites e sem fim, podendo-se sempre fazer novos progressos seja neste mundo seja no outro.
- Não é preciso espantar-se se os demônios inspiram primeiro alguns bons pensamentos e em seguida os combatem de certa maneira, pois querem com isso fazer entender que conhecem perfeitamente o que há de mais escondido no coração.
- É preciso ser prudente e discreto nas censuras e juízos que se fizerem sobre as pessoas que dão aos outros numerosas, belas e sublimes lições e as põem elas mesmas muito pouco em prática, pois pode acontecer que as vantagens que procurarem aos irmãos substituam as boas obras que não fazem.
- Deus não é o autor nem o criador do mal, enganam-se aqueles que pretendem que certas paixões são naturais à alma, ignorando que se mudaram em paixões as qualidades constitutivas da natureza.
- Uma alma generosa excita os demônios contra si, mas quando os combates aumentam, as coroas se multiplicam, e aquele que nunca foi ferido pelo inimigo certamente nunca será coroado.
- Aquele que permaneceu três dias no sepulcro ressuscitou para não mais morrer, portanto aquele que em três horas diferentes tiver vencido as tentações não estará exposto a morrer.
- Se Deus permite que o Sol da justiça, depois de se ter levantado na alma, conheça o momento em que deve se pôr e desaparecer, causando por sua ausência profundas trevas, e se durante essa noite desoladora os leões furiosos e as outras feras, isto é, as paixões, voltam contra o homem fazendo novos esforços para lhe tirar a bela esperança da vitória, e se finalmente a humildade profunda faz de novo levantar sobre ele o sol da luz, então os demônios serão obrigados a confessar que o Senhor lhe fez essas grandes coisas.
- Se Cristo não hesitou em fugir na presença de Herodes, não foi para ensinar que os temerários e imprudentes não devem se jogar eles mesmos no meio dos perigos, pois expondo-se temerariamente tornam-se indignos de que o Senhor vele sobre eles para impedir que seus pés sejam abalados pelos esforços de seus inimigos.
- O orgulho se mistura com a magnanimidade mais ou menos como a erva daninha se entrelaça com o cipreste, sendo preciso velar sobre si com o maior cuidado e não negligenciar nada para não deixar entrar no espírito nenhum pensamento, por mais leve que pareça, capaz de fazer crer que se possui a menor virtude e que se fez uma só boa obra de algum valor.
- Ignoram-se as paixões precisamente porque se está sob sua funesta dominação, elas já reduziram a uma deplorável fraqueza e lançaram no coração raízes profundas.
- Nas coisas que superam absolutamente as forças, Deus se contenta com a boa vontade de as fazer, mas não é o mesmo naquelas que são possíveis, pois sua Bondade exige imperiosamente que se façam.
- Deve-se desconfiar dos demônios, pois muitas vezes afastam das coisas fáceis que se é obrigado a fazer para levar a coisas maiores e mais difíceis.
- Vê-se na santa Escritura que Deus dá louvores ao santo patriarca José não por ter preservado seu coração de toda afeição desregrada, mas por ter fugido da ocasião de pecar, havendo uma grande diferença entre evitar até a sombra do pecado e correr após o Sol da Justiça.
- Quem tem a desgraça de viver no meio das trevas de suas paixões está terrivelmente exposto a tropeçar, sendo que esses tropeços e as quedas que ocasionarão acabarão por lhe dar a morte.
- Deixar-se ir a faltas contra a continência, entregar-se à dissipação e comprazer-se nas trevas são três coisas que têm grande diferença entre si, sendo que a abstinência, a mortificação e os jejuns podem purificar dos pecados cometidos contra a castidade, a solidão e o retiro são capazes de curar da dissipação, e uma exata obediência e uma humilde submissão são muito próprias para fazer odiar as trevas e fazer sair delas.
- Pode-se usar do exemplo de duas espécies de operários que trabalham para limpar e preparar os tecidos necessários para fazer roupas a fim de fazer compreender que há duas espécies de maneiras de que devem se servir aqueles que desejam ardentemente preparar-se para merecer e receber os dons celestes.
- Há quem diga que as recaídas no pecado costumam acontecer porque não se fez uma penitência conveniente dos pecados e proporcionada à grandeza e ao número das faltas cometidas, mas pode-se dizer que fizeram uma verdadeira penitência todos aqueles que não fazem mais recaídas.
- As pessoas que fazem recaídas no pecado é, por um lado, porque esqueceram muito e muito cedo as faltas que tinham feito, por outro lado porque sua preguiça e covardia as levaram a crer Deus muito bom e muito misericordioso, e finalmente porque desesperaram de vencer suas paixões e de resistir a seus maus pendores.
- Poder-se-ia examinar por que a alma, que é um puro espírito, não pode ver os espíritos que são da mesma natureza que ela nem conhecer de que maneira eles recebem as impressões dos objetos, podendo-se pronunciar que ela não vê os outros espíritos por causa de sua união com o corpo que lhe serve de véu.
- Um homem dos mais esclarecidos fez um dia a questão sobre quais são os demônios que, ao fazer cair em pecado, abatem a coragem das pessoas que seduziram, e quais são os demônios que, depois de ter feito cometer faltas, incham o coração daquelas que corromperam, respondendo-se que os demônios que levam à luxúria, à cólera, à intemperança, à preguiça e à moleza não costumam levar ao orgulho as pessoas que se entregam a esses vícios desonrantes, mas os demônios que levam à avareza, à dominação, às honras, à loquacidade têm o hábito de fazer ajuntar pecado sobre pecado enchendo o coração de orgulho e vaidade.
- Um monge que visita estrangeiros ou os recebe em sua cela e que, depois de ter-se entretido horas inteiras e talvez todo um dia com eles, sente tristeza quando precisa separar-se, em vez de experimentar um sentimento interior de alegria como quem está livre de uma companhia que o impede de cumprir seus deveres, mostra evidentemente que é o triste joguete do demônio da vaidade ou do demônio da incontinência.
- Deve-se antes de toda coisa prestar atenção de que lado vem o vento da tentação a fim de não inchar as velas da nau espiritual da alma de uma maneira que lhe seja nociva e contrária.
- Não há dúvida que a caridade deve levar a procurar alguma consolação e algum abrandamento aos velhos verdadeiros que passaram longos anos nos exercícios da vida religiosa e que usaram seu corpo nos jejuns e austeridades, mas essa mesma caridade deve engajar fortemente a levar à prática da continência por todos os meios possíveis os jovens que tiveram a desgraça de maltratar suas pobres almas pelos pecados inumeráveis de sua jovem vida.
- É impossível, como já se disse, que logo após a conversão e a entrada na religião se seja perfeitamente livre dos movimentos da intemperança e dos sentimentos da vã glória, sendo preciso guardar-se bem de querer combater a vaidade com o luxo e as delícias.
- Não são as mesmas paixões que fazem guerra aos jovens e aos velhos que acabam de se converter e consagrar ao Senhor na religião, sendo frequentemente paixões contrárias que atacam uns e outros.
- Não se deve perturbar com o que se vai dizer: encontra-se dificilmente e raramente almas retas e puras isentas de toda malícia, dissimulação e hipocrisia, que tenham verdadeiro horror da sociedade e das conversas mundanas, que sigam com constante e exata fidelidade os avisos e conselhos de um bom diretor, que mereçam passar da paz e tranquilidade da vida solitária e religiosa à felicidade celeste, e que possam preservar-se das manchas, agitações e escândalos que se encontram em toda parte, mesmo nas comunidades religiosas.
- Deus, para converter os homens voluptuosos, serve-se ordinariamente de outros homens; emprega o ministério dos anjos para a conversão das pessoas cheias de astúcia e malícia; mas ele só pode operar a conversão dos orgulhosos.
- Empregue-se em favor das pessoas que se retiram para junto de si essa espécie de caridade que consiste em deixá-las agir, permitindo-lhes fazer o que querem, e durante esse tempo mostrando-lhes sempre benevolência e um rosto alegre e jocoso.
- É necessário examinar e conhecer de que maneira se deve usar dessa indulgência, até que tempo e em que circunstâncias se deve e pode fazer uso dela, enfim saber e poder contar que a penitência feita dessa maneira, estabelecida apenas para destruir e aniquilar o pecado, não será capaz de destruir ela mesma as virtudes e a disciplina religiosas.
- Há necessidade de um grande discernimento e uma rara prudência para discernir e bem conhecer quando se pode cessar ou se deve continuar os diferentes combates contra a matéria e o foco do pecado, pois pode acontecer que, vista a miserável fraqueza, seja necessário evitar o combate tomando sabiamente a fuga.
- É preciso dar nesses momentos críticos um cuidado e uma atenção particulares, examinando seriamente quais são os demônios que incham de orgulho, que abatem e desencorajam, que endurecem e tornam insensível, que consolam e acariciam, que precipitam nas trevas e depois fingem iluminar, que tornam estúpido e espiritual e astuto, que lançam num humor sombrio e triste e que restabelecem no contentamento e na alegria.
- Se nos começos do retiro e da carreira na vida religiosa nos sentimos mais agitados e atormentados pelas paixões do que quando se estava no meio do século, não é preciso perturbar-se nem mesmo espantar-se, pois é preciso que haja uma grande comoção nos humores que ocasionaram doenças para poder chegar a uma cura perfeita.
- Se os demônios conseguiram fazer cometer uma falta, uma fraqueza, às pessoas que não estavam afastadas da perfeição, elas devem se levantar corajosamente e com vantagem por meio da penitência e, pela prática das boas obras, reparar ao cêntuplo a perda que fizeram.
- Vê-se às vezes que os ventos fazem apenas ondear o mar, e outras vezes que o revolvem até em seus abismos, observando-se os mesmos efeitos nas paixões em relação aos homens.
- Não pertence senão àqueles que chegaram à perfeição conhecer e discernir sempre quais são os pensamentos que vêm da própria consciência, quais os que vêm de Deus e quais os que vêm dos demônios, pois esses espíritos malignos e astutos nem sempre inspiram pensamentos contrários à piedade.
- Conclui-se que, assim como os corpos são iluminados pelos olhos, do mesmo modo a alma é iluminada pelos olhos subtis e penetrantes da discrição.
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