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Pistis
Salvatore Lilla — Clemente de Alexandria
- A análise da gnosis em Clemente requer um exame preliminar de sua teoria da pistis, devido à estreita conexão entre ambos os conceitos.
- A teoria da pistis representa uma tentativa de explicar cientificamente o termo “fé” encontrado nos Evangelhos, respondendo à dupla oposição dos filósofos gregos e dos gnósticos valentinianos.
- Os filósofos gregos criticavam os cristãos por acreditarem nos ensinamentos de Jesus sem uma explicação racional.
- Os gnósticos valentinianos distinguiam a pistis dos crentes comuns da gnosis superior, considerada um dom natural para poucos.
Os três significados principais da pistis segundo Clemente
- A pistis representa, primeiramente, a atitude da mente humana ao acreditar nos primeiros princípios não demonstrados da demonstração.
- A pistis também designa a convicção firme da mente após alcançar o conhecimento de algo por meio da demonstração científica.
- Por fim, a pistis pode indicar a tendência dos crentes em aceitar as verdades das Escrituras sem buscar uma compreensão mais profunda.
A pistis como crença em princípios não demonstrados
- A pistis é entendida como a aceitação de princípios primeiros e não demonstrados, fundamentais para evitar um regresso infinito nas cadeias de demonstração.
- Afirma-se que toda demonstração deve ser traçada a partir de uma crença não demonstrada, que é denominada “primária” e confiável por si mesma.
- Essa concepção tem origem em Platão e, especialmente, em Aristóteles, que defende a necessidade de princípios absolutos e não demonstrados.
- O estoicismo e o médio platonismo, como visto em Albinus, também incorporaram esta doutrina dos princípios não demonstrados em seu sincretismo filosófico.
- Clemente, dependente de manuais escolares, aproxima esses princípios do que é evidente tanto para a sensação quanto para a mente, como a sensação como fonte da fé.
A pistis como sínkatathesis (assentimento)
- A pistis é definida como uma sínkatathesis, ou seja, um assentimento voluntário, um conceito que conecta Clemente ao estoicismo e ao médio platonismo de Antiochus de Ascalon.
- Clemente afirma que tanto os platônicos quanto os estoicos consideravam os assentimentos como dependentes de nós.
- Acredita-se que Clemente foi influenciado por Antiochus, que buscava demonstrar a concordância entre a Academia e o Pórtico.
A pistis como prolepsis (preconcepção)
- Clemente aprova a definição de Epicuro, segundo a qual a pistis é uma prolepsis, ou preconcepção da mente, baseada na clareza das percepções sensoriais.
- Apesar de criticar Epicuro por sua defesa do prazer, Clemente aceita essa doutrina por sua concordância com as visões estoicas e de Antiochus sobre as percepções sensoriais.
- Acredita-se que Clemente tenha adotado essa noção não diretamente de Epicuro, mas de manuais escolares que reproduziam o ensino epistemológico de Antiochus.
A pistis como resultado da demonstração científica
- A pistis também designa a crença firme da razão na verdade da conclusão de uma demonstração científica.
- Distingue-se entre a pistis científica, produzida por demonstração a partir de premissas verdadeiras e primeiras, e a pistis baseada na opinião.
- Essa distinção reflete a visão aristotélica entre silogismo científico, dialético e retórico, presente também no médio platonismo de Albinus.
- Para Clemente, a pistis científica é superior ao conhecimento científico, pois a convicção firme da razão é o critério para a verdade.
A pistis religiosa como base para a gnosis
- A pistis em sentido religioso é a atitude dos cristãos que aceitam a Escritura como verdadeira sem investigação, sendo suficiente para a salvação, mas imperfeita.
- Clemente enfatiza a necessidade de desenvolver essa pistis simples em uma forma superior de conhecimento, a gnosis, por meio da pesquisa e interpretação da Escritura.
- A aceitação da verdade da Escritura torna-se a arché (princípio) da demonstração, e a interpretação, a demonstração que leva à gnosis.
- Essa abordagem permite a Clemente responder aos filósofos gregos (fundamento do conhecimento), aos valentinianos (conexão entre pistis e gnosis) e aos simpliciores (caminho para melhor compreensão).
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