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Gnose

Salvatore Lilla — Clemente de Alexandria

  • A gnosis indica uma compreensão mais profunda das doutrinas cristãs, alcançada por meio de uma interpretação ou “demonstração” específica da Escritura.
  • A gnosis representa a contemplação da divindade suprema, que é o objetivo final da filosofia cristã de Clemente.
  • Dois estágios da gnosis são distinguidos: um alcançável na terra e outro após a morte do corpo, quando a alma ascende e se torna como um deus.
  • A concepção de gnosis de Clemente é influenciada pela tradição platônica, pela filosofia judaico-alexandrina e pelo gnosticismo cristão.

O caráter esotérico da gnosis

  • A gnosis superior possui um caráter esotérico, sendo reservada a poucos que se provaram dignos de apreendê-la.
  • Clemente enfatiza a distinção entre a fé simples e a gnosis, comparando os não iniciados aos que assistem a ritos sagrados sem preparação.
  • Para apoiar essa visão, Clemente cita passagens de Platão e de uma carta falsamente atribuída a Lises, argumentando que verdades superiores não podem ser comunicadas aos indignos.
  • Clemente interpreta passagens evangélicas, como “muitos são chamados, poucos os escolhidos”, como referências a esse esoterismo.
  • As doutrinas da gnosis são frequentemente chamadas de “mistérios”, e seu estudo é descrito como um processo de iniciação, com os iniciados sendo os mystae.

O papel do Logos como fonte da gnosis

  • O conhecimento esotérico da divindade suprema só pode ser revelado pelo Filho (Logos).
  • Clemente afirma que Deus, sendo não demonstrado, não é objeto de ciência, enquanto o Filho é a sabedoria, a ciência e a verdade.
  • O Logos é chamado de “mestre” e sua atividade na gnosis é descrita como um “ensinamento”.
  • Como mestre, o Logos é também o “grande sumo sacerdote”, que possui o pleno conhecimento do primeiro princípio.
  • O Logos, como espírito ou logos spermatikos, é a fonte tanto da filosofia grega quanto da profecia do Antigo Testamento, preparando para a gnosis cristã.
  • Após tornar-se homem, o Logos revela completamente a gnosis a poucos eleitos, explicando a interpretação correta da Escritura.
  • A ideia do Logos como fonte da gnosis é presente em Filon e, de forma particularmente relevante, no gnosticismo, que via Jesus como o revelador da gnosis do Pai desconhecido.

A gnosis como vida contemplativa

  • Do ponto de vista teórico, a gnosis consiste principalmente no ideal da vida contemplativa, ou seja, na theoria do mundo inteligível.
  • O caminho para alcançar essa contemplação é a separação das coisas sensíveis e, primeiramente, do corpo, que é visto como uma prisão.
  • O processo de libertação da alma é uma “purificação” que permite ao gnóstico contemplar as ideias transcendentes.
  • As realidades inteligíveis só podem ser contempladas pelo elemento divino no homem, o nous.
  • Essa identificação da gnosis com a contemplação, o afastamento do mundo sensível e o papel do nous conectam Clemente à tradição platônica e a Filon.
  • A eudaimonia do homem perfeito consiste na theoria (contemplação), que é fruto da fé que o eleva acima das coisas terrenas.

O papel das disciplinas encíclicas na gnosis

  • As disciplinas encíclicas, como a dialética, a astronomia e a geometria, desempenham um papel importante na edificação da gnosis.
  • A dialética conduz o gnóstico ao conhecimento das coisas inteligíveis.
  • A astronomia ajuda o gnóstico a se separar das coisas materiais e a passar da contemplação do mundo sensível para o que está além dele.
  • A geometria afasta o homem das coisas sensíveis, pois lida com objetos imutáveis.
  • A apreciação de Clemente por essas disciplinas está em perfeito acordo com a tradição platônica, especialmente o papel da dialética e da astronomia na República.
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