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CASSIANO — CONFERÊNCIAS

A SEGUNDA CONFERÊNCIA DO ABADE MOISÉS — DA DISCRIÇÃO

I. Proêmio do abade Moisés sobre a graça da discrição.

Saboreado aquele Sono da madrugada, ao percebermos o raiar do dia, começamos, com alegria, a reclamar a palestra prometida. O bem-aventurado Moisés assim principiou:

Vejo-vos inflamados de tão grande desejo, que nem mesmo acreditaria ter servido a refazer o vosso corpo a brevíssima fração de repouso que eu subtraí à conferência espiritual. Mas, ao considerar vosso fervor, maior solicitude recai sobre mim. Ao pagar minha dívida, devo empregar tanto maior zelo, quanto é maior a diligência com que a reclamais. Assim reza aquela sentença: “Se te assentas à mesa dum grande, procura reconhecer sabiamente o que te servem; e usa a tua mão, sabendo que igual festim deverás preparar” (Provérbios 23,1-2).

Dispondo-nos, pois, a falar da discrição e da sua virtude, da qual principiávamos a tratar quando interrompemos a conferência da noite, cremos oportuno assinalar a sua excelência, começando pelas sentenças dos pais.

Depois de mostrar o que dela pensaram ou disseram os nossos maiores, e de citar a queda de diversas pessoas, antigas e recentes, que caíram em erro funesto porque a tiveram de menos, trataremos, conforme pudermos, das suas utilidades e benefícios. Depois disto, considerando o valor dos seus méritos e graça, poderemos instruir-nos com maior fruto sobre a maneira de obter e aperfeiçoar a discrição.

Ela não é, com efeito, uma virtude medíocre, nem pode ser alcançada ao acaso pela humana indústria, a não ser como um dom da largueza divina. O Apóstolo, alias, a enumera entre os mais nobres dons do Espírito Santo: “A um é dado pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro uma palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro a fé, no mesmo Espírito; a outro a graça das curas, num só e mesmo Espírito” ( 1 Cor 12,8-9). E pouco adiante: “A outro, o discernimento dos espíritos” (id 10). Depois, completada a lista dos carismas espirituais, ele acrescenta: “Tudo isto é um só e mesmo Espírito que o produz, distribuindo seus dons a cada um, como ele quer” (id 11).

Vedes, pois, que não é terrestre nem pequeno o dom da discrição, mas uma dádiva muito grande da graça divina. Se o monge não procura obtê-la com toda a força da sua vontade nem em si com seguro tino a discrição dos espíritos, ele inevitavelmente, como alguém que anda errante numa noite cega e trevas fechadas, não só cairá em funestos buracos e precipícios, mas também, mesmo em caminhos planos e retos, tropeçará com frequência.

II. O que é que só a discrição aproveita ao monge. Exposição do abade Antão sobre isto.

Lembro-me de que, outrora, nos anos da minha infância na região de Tebaida, onde morava o bem-aventurado Antão, alguns dos antigos o procuravam para inquerir da perfeição.

A conferência durou desde a hora das Vésperas até ao amanhecer, e essa questão consumiu a maior parte da noite. Longamente se queria saber qual a virtude ou observância capaz de guardar o monge sempre ao abrigo dos laços e ilusões do demônio e de fazê-lo galgar em linha reta e de passo firme as alturas da perfeição.

Cada um dava a sua opinião, conforme o seu próprio entendimento. Alguns colocavam isto na aplicação dos jejuns e das vigílias, achando que assim a alma liberada, conquistando a pureza do coração e o corpo, pode mais facilmente unir-se a Deus.

Outros o punham na renúncia de todas as coisas, porque uma alma, se inteiramente se despojasse de tudo, livre doravante de quaisquer laços, chegaria mais desembaraçada até a Deus. Outros julgavam de necessidade de anacorese, isto é, o retiro nas profundezas do deserto, onde se possa falar a Deus mais familiarmente e unir-se a ele de maneira mais particular.

Alguns, finalmente, se definiam pela prática da caridade, isto é, os serviços da hospitalidade, aos quais o Senhor no Evangelho prometeria, de modo como que mais especial, dar o reino dos céus: “Vinde, abençoados do meu Pai, possuí o reino que vos foi preparado desde a Origem do Mundo. Pois tive fome e me deste de comer, tive sede e me destes de beber” (Mateus 25:34-35).

E assim, enquanto eles atribuíam a virtudes diversas o poder de abrir o caminho mais certo para Deus, e gastavam nessa indagação a maior parte da noite, afinal rematou o bem-aventurado Antão: Tudo que dissestes é necessário e útil a quem tem sede de Deus e arde por chegar até a ele. Mas atribuir a essas práticas o dom principal, nem as experiências nem as quedas de muitos o permitem dizer.

Quantas vezes, com efeito, vimos alguns entregar-se aos mais duros jejuns e vigílias, retirar-se à solidão a modo de causar pasmo, lançar-se a tal despojamento de bens que não toleravam guardar para si nem os víveres de um dia, e até mesmo uma só moeda, ministrar os serviços de hospitalidade com a maior dedicação, e, no entanto, de repente, ei-los de tal modo enganados, que não puderam levar a termo, com o êxito esperado, a obra empreendida, concluindo por um fim detestável o seu grande fervor e vida tão louvável.

Por este modo, se indagarmos com exatidão a causa do seu engano e da sua queda, poderemos descobrir com clareza o que é capaz principalmente de nos levar a Deus. Na verdade, apesar de superabundarem neles as obras das citadas virtudes, bastou que lhes faltasse a discrição, para que não pudessem perseverar até ao fim.

Não se consegue descobrir outra causa para as suas quedas, senão que, à míngua de formação recebida dos antigos, não puderam adquirir a regra da discrição. É ela que, deixando de lado os dois excessos contrários, ensina o monge a andar na estrada real. Nem o deixa desviar-se à direita, num fervor excessivo de virtudes com que presume tolamente ir além dos limites da justa temperança; nem lhe permite, quando seduzido pelo relaxamento, dobrar à esquerda e descer para os vícios, afrouxando-se na tibieza da alma, sob pretexto de governar o corpo.

É esta a discrição, que o Evangelho chama de olho e lâmpada do corpo, conforme a palavra do Salvador: “A lâmpada do teu corpo é o teu olho; se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso. Se, porém, teu olho é mau, todo o teu corpo será tenebroso” (Mateus 6:22-23). Isto porque, discernindo todos os pensamentos e atos do homem, ela examina atentamente e percorre com cuidado o que devemos fazer.

Se, pois, esse olho for mau, isto é, desprovido de ciência e de juízo seguro, ou iludido pelo erro e a presunção, ele fará tenebroso todo o nosso corpo, quer dizer, escurecerá em nós a ponta aguda do espírito e os nossos atos, na cegueira dos vícios e nas trevas das paixões. “Se a luz que está em ti são trevas, quão grandes serão estas!” diz o Senhor (id 23). A ninguém, sem dúvida, escapará que, se o nosso coração julga em erro e está envolto na noite da ignorância, os nossos pensamentos e obras, que derivam de tal deliberação, serão cobertos de trevas dos pecados.

III. O erro de Saul e de Acab, em que caíram por ignorância da discrição.

Aquele que, por juízo de Deus, foi o primeiro a merecer o reino de Israel, não teve esse olho da discrição, de certo modo envolto em trevas no corpo inteiro, foi também derrubado do trono. Iludido pelas trevas e erros da sua lâmpada, julgou que seus sacrifícios seriam mais agradáveis a Deus do que a obediência ao mandamento de Samuel. E aquilo mesmo com que esperara aplacar a majestade divina, foi-lhe antes causa de revés (cf. 1 R 15).

A ignorância dessa discrição levou Acab, rei de Israel, depois do magnífico triunfo que obteve por favor Divino, a JULGAR ser melhor a sua misericórdia do que a execução severíssima da ordem divina, a seus olhos cruel.

Amolecido por esta ideia, ao preferir temperar pela clemência a cruenta vitoria, sua misericórdia indiscreta como que o torna inteiramente em trevas e ele e condenado a uma morte irrevogável.

IV. Referências ao bem da discrição nas Sagradas Escrituras.

É esta a discrição que, depois de Chamada lâmpada do nosso corpo, recebe do Apóstolo o título de sol, segundo aquela palavra: “O sol não se ponha sobre a vossa cólera” (Efésios 4:26).

É também ela que é denominada leme da nossa vida, conforme esta palavra: “Os que não tem leme, caem como folhas” (Prov 11,14). Outro nome que ela muito justamente recebe e o de conselho, pois sem conselho não nos e permitido pela Escritura fazer absolutamente nada, a ponto de nem mesmo o vinho espiritual “que alegra o coração do homem” (SI 103,15) podemos beber sem a sua direção, consoante esta palavra:“Faze tudo com conselho, bebe o vinho com conselho” (Prov 31,3), e ainda: “Como uma cidade' de muros abatidos e sem defesa, assim é o homem que não age com conselho” (Prov 25,28). Quão prejudicial ao monge é a sua privação, bem o mostra a figura usada por esse testemunho, ao compará-lo a uma cidade destruída e sem muros.

Nela consiste a sabedoria, nela a inteligência e o julgamento, sem os quais e impossível edificar a nossa casa interior e acumular as riquezas espirituais, segundo a Escritura: “Com sabedoria se edifica a casa, e com inteligência ela é levantada; com o julgamento enchem-se os celeiros de todos os bens preciosos e bons ” (Prov 24,3-4).

Ela é também o alimento sólido que só pode ser recebido pelos perfeitos e robustos, na forma da Escritura : “O alimento sólido é para os perfeitos, aqueles que tem os sentidos exercitados pelo habito para a discrição do bem e do mal” (Hebreus 5:14).

Ela se nos comprova tão útil e necessária, que é até comparada a palavra de Deus e a suas virtudes: “É viva a palavra de Deus e eficiente, mais penetrante do que uma espada de dois gumes, alcançando até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e capaz de discernir os pensamentos e as intenções do coração” (Hebreus 4:12).

Tudo isso mostra claramente que nenhuma virtude, sem a graça da discrição, pode ser perfeitamente consumada ou subsistir.

Assim foi definido pela sentença tanto do bem-aventurado Antão, como de todos, que é a discrição que conduz o monge, de passo firme e sem medo, até a Deus. E que graças a ela que se conservam ilesas as virtudes antes citadas, e se podem galgar com menor dificuldade os mais altos cumes da perfeição, e que sem ela muitos, apesar de trabalharem com empenho maior, não puderam chegar até lá. Porque a mãe, a guardiã e a moderadora de todas as virtudes é a discrição.

V. A morte do velho Heron.

Para confirmar por um exemplo recente, conforme prometemos, esta definição outrora promulgada por Santo Antão e outros pais, lembrai-vos do que recentemente aconteceu sob os vossos próprios olhos com o velho Heron.

Não faz muitos dias que, vitima de uma ilusão diabólica, ele foi precipitado das alturas ao fundo, ele que, bem me lembro, morou neste eremo cinquenta anos, guardando com singular fidelidade o rigor da abstinência e amando, mais do que todos, o segredo da solidão, com um fervor admirável.

Como, por que motivo, depois de tão grandes trabalhos, deixou-se ele apanhar nas ciladas do salteador, rolando em gravíssima queda que feriu de dor e de luto os que habitam neste deserto? Não foi, acaso, porque lhe faltou a virtude da discrição e ele preferiu reger-se por seus próprios juízos, em vez de obedecer aos conselhos e conferências dos irmãos e aos ensinamentos dos maiores?

Na verdade, ele sempre guardou com tanto rigor uma imutável disciplina de jejum e foi invariavelmente tão cioso do segredo da solidão, e da cela, que nem mesmo em honra do dia da Páscoa se pode jamais obter dele que tomasse parte no repasto dos irmãos. Nesta festa anual, enquanto todos os irmãos ficavam na Igreja, só ele faltava, a fim de que não parecesse que, tomando com eles uma porção mínima que fosse de legume, estivesse a relaxar do seu propósito.

Iludido por esta presunção, recebendo com suma veneração o anjo de Satanás como se fosse um anjo de luz, e obediente a seus preceitos com todo o servilismo, jogou-se, de cabeça para baixo, num poço tão fundo que a vista não pode atingir. Não duvidava, como se depreende, da promessa do seu anjo que o convencera da sua plena imunidade de qualquer perigo, por causa do mérito dos seus trabalhos e virtudes (cf. 2 Cor 11,14).

Para atestar a sua fé com a prova do livramento, no meio da noite ele se lançou, iludido, naquele poço, certo de que provaria o grande mérito da sua própria virtude, ao sair ileso dali. Retirado quase morto à custa de ingente trabalho dos irmãos, veio a morrer dois dias depois. O pior de tudo isso e que permaneceu obstinado em sua ilusão, a ponto de nem mesmo a experiência da sua morte ter conseguido persuadi-lo de que fora enganado pela esperteza dos demônios.

Por este motivo, a suma comiseração e piedade dos que se compadeciam da sua ruína, mesmo invocando o mérito dos seus tantos trabalhos e numerosos anos passados no eremo, a custo obteve do padre, que era o abade Pafúncio, que ele não fosse considerado entre os suicidas e, assim, julgado indigno do memento e da oblação pelos mortos.

VI. A ruína de dois irmãos por ignorância da discrição.

Que direi daquele dois irmãos que habitavam para lá do deserto de Tebaida, onde outrora vivera o bem-aventurado Antão, e que, movidos por uma discrição menos cauta, indo por essas extensas vastidões da solidão, decidiram não tomar nenhum alimento, senão o que o Senhor por si mesmo lhes concedesse?

Eles erravam pelos desertos, já quase mortos de fome, quando o viram os Mázicos. Esse povo é mais selvagem e cruel do que a maioria dos bárbaros: não é pelo desejo de saque, como é o caso de muitas nações, que os leva a derramar sangue, mas simplesmente a sua ferocidade.

Ora, ao contrário da sua fereza natural, eles vão ao seu encontro com pães.

Um dos dois, sobrevindo-lhe a discrição, recebeu com ação de graças e alegria esses pães, como se fossem trazidos pelo Senhor. Achava que tal alimento lhe era servido por uma intervenção divina, e que sem Deus essa gente, sempre dada a alegrar-se com o sangue dos homens, não iria prodigalizar os meios de vida a homens já desfalecentes e moribundos.

O outro, porém, recusou o alimento como oferecido por homem. Morreu de inanição.

Embora os seus inícios os dois partissem de uma segurança censurável, um, no entanto, sobrevinda a discrição, corrigiu o que temerária e incautamente concebera. O outro, porém, perseverando em sua louca presunção, e inteiramente esquecido da discrição, causou a si mesmo a morte que o Senhor quis afastar, não crendo ser obra da inspiração divina que bárbaros cruéis, olvidando a própria ferocidade, oferecessem pães e não espadas.

VII. Um outro é iludido por ignorância da discrição.

Que dizer também daquele outro cujo nome calarei, porque ainda vive? Por muito tempo ele recebeu um demônio em forma de anjo de luz. Enganado muitas vezes por suas inúmeras revelações, acreditou que fosse um mensageiro de justiça, já que além delas também lhe iluminava a cela todas as noites, sem nenhuma lâmpada.

Afinal, um dia o demônio lhe ordena que imole a Deus o seu próprio Filho, que morava com ele no mosteiro, para igualar-se esse sacrifício aos méritos do patriarca Abraão.

E ficou tão seduzido por esta convicção, que teria consumado efetivamente o parricídio, se o menino, ao velo amolar a faca de um modo diferente e procurar as cordas com que se dispunha a amarrá-lo para a imolação, não tivesse fugido de pavor, ao pressentir o crime em preparo.

VIII. A queda e o engano de um monge da Mesopotâmia.

Seria longo narrar em pormenores como se deixou enganar um célebre monge da Mesopotâmia. Escondido e sozinho por muitos anos na cela, guardava uma abstinência que bem poucos naquela província poderiam igualar.

No fim, entretanto, foi de tal modo ludibriado por sonhos e revelações diabólicas, que, depois de tantos trabalhos e virtudes em que sobrepujara todos os monges lá residentes, rolou em uma queda deplorável até ao judaísmo e a circuncisão. Querendo levá-lo, através do costume das visões, a cair na fraude futura, o demônio, por muito tempo, como se fosse mensageiro da verdade, lhe revelava só coisas verdadeiras. No fim, mostra-lhe, de um lado, o povo cristão com os príncipes da nossa fé e religião — os apóstolos e os mártires — coberto de trevas, e feio, macilento e disforme; e, de outro lado, o povo dos Judeus com Moisés, os patriarcas e os profetas a dançar com toda a alegria e rutilante da luz mais esplendida. Ao mesmo tempo, o aconselhava a apressar-se em receber também a circuncisão, se quisesse participar do seu mérito e beatitude.

Ora, nenhum desses monges teria sido tão dolorosamente iludido, se tivessem trabalhado para conseguir o senso desta discrição. Por isto, quão pernicioso é não ter a graça da discrição, bem se vê por essas quedas e experiências de muitos.

IX. Pergunta sobre a aquisição da verdadeira discrição.

Depois destas palavras, perguntou Germano: Tanto pelos exemplos recentes como pelos ensinamentos dos antigos ficou bastante claro que a discrição é de algum modo a fonte e a raiz de todas as virtudes. Agora, pois, muito desejamos aprender como adquirir e como reconhecer se ela é verdadeira e de Deus, ou falsa e diabólica.

Só assim, segundo a parábola evangélica que explicaste no tratado precedente e que nos convida a tornar-nos cambistas peritos, poderemos, ao ver a efígie do rei verdadeiro impressa numa moeda, perceber que ela não foi gravada numa peça legal, e, assim, rejeitá-la como falsa. Mas, para isto, temos de estar munidos daquela perícia que expuseste com bastante abundância e de forma integral e assinalaste como qualidade necessária do cambista espiritual segundo o Evangelho.

Que vantagem teríamos em conhecer os méritos desta virtude e da sua graça, se ignoramos como buscar e adquirir?

X. Resposta sobre o modo de adquirir a verdadeira discrição.

Disse então Moisés: A verdadeira discrição não se adquire senão por uma verdadeira humildade.

Desta humildade a primeira prova consiste em reservar ao exame dos antigos todas as ações e todos os pensamentos, de tal maneira que nada confiemos ao nosso próprio juízo, mas que em todas as coisas acatemos as suas decisões e conheçamos pelo que eles transmitem o que se deve JULGAR bom ou mau.

Esta disciplina não só ensinará o jovem a caminhar em linha reta pela estrada verdadeira da discrição, mas também o guardará ileso contra todas as fraudes e insídias do inimigo.

É de todo impossível enganar a quem vive não do seu próprio juízo, mas do exemplo dos maiores. O esperto inimigo não conseguirá iludir-se a ignorância, pois, ele é incapaz de esconder por uma funesta vergonha todos os pensamentos que lhe nascem no coração, os quais rejeita ou admite de acordo com o maduro juízo dos antigos. Logo que se revela um pensamento maligno, ele desvanece. E antes mesmo que o juízo da discrição seja proferido, a maldita serpente, arrancada, por assim dizer, ao seu antro tenebroso e subterrâneo pela força da confissão, é exposta à luz e, envergonhada, se retira. Suas sugestões perniciosas só nos dominam, enquanto escondidas no coração.

Para que possais entender mais eficazmente o valor desta sentença, vou contar-vos um fato que o abade Serapião com muita frequência propunha aos mais jovens, para sua instrução.

XI. Palavras do abade Serapião sobre a perda de força dos pensamentos quando confessados e sobre o perigo da auto-confiança.

Quando eu era menino, disse ele, e morava com o abade Theon, o inimigo, por investidas que se repetiam, me levou a este hábito: depois da refeição da hora nona, que eu tomava com o ancião, diariamente pegava às escondidas um pão que ocultava no peito e, à noite, o comia em segredo, sem que ele soubesse.

Era um furto continuado que eu praticava. Mas, apesar de feito com a conivência da minha vontade e na desordem de um desejo já inveterado, acontecia que, uma vez satisfeita a minha fraudulenta concupiscência, voltando a mim mesmo, eu me atormentava mais pelo crime cometido, do que me deleitara antes ao comer aquele pão. Isto passou a ser para mim uma tarefa pesadíssima que era obrigado a executar cada dia, não sem sofrer no coração, como se fosse forçado pelos inspetores de Faraó a realizá-la em lugar dos tijolos. Nem podia libertar-me dessa cruel tirania, nem, por outro lado, tinha coragem de manifestar ao ancião, por vergonha, o meu furto clandestino. Aconteceu, um dia, por vontade de Deus que queria me livrar do jugo desse cativeiro, chegaram juntos alguns irmãos a cela do ancião, em busca de edificação (cf. Êxodo 5).

Terminada a refeição, começou a conferência espiritual.

Para responder às perguntas que lhe faziam, o ancião dissertou sobre o vício da gula e sobre a tirania exercida pelos pensamentos ocultos, expondo a sua natureza e a violência ferocíssima que eles têm enquanto são escondidos.

Compungido pela virtude dessa conferência e amedrontado pela consciência, cuja voz me acusava, eu tinha a impressão que o ancião falara dessas coisas porque o senhor lhe tinha revelado o segredo do meu coração. Comecei, então, com gemidos no início abafados, e depois, crescendo a compunção do meu coração, prorrompi em soluços abertos e lágrimas e tirei do peito, cúmplice e receptador do meu furto, o pãozinho que, prisioneiro do vicioso costume, eu tinha subtraído às ocultas.

Exibindo-o às claras, confessei, prostrado em terra e pedindo perdão, como comia a cada dia, escondido. E no meio de profusas lágrimas, roguei a todos que obtivessem do Senhor a minha libertação dum cativeiro tão duro.

Então disse o ancião: Confia, menino. Tua confissão te livrou desse cativeiro, mesmo sem que eu dissesse nada. Triunfaste hoje do teu adversário até agora vitorioso. Por tua confissão o derrubaste mais completamente do que por ele foras abatido a custa do teu silêncio.

Como jamais o reprimisse qualquer palavra tua ou de outro, tu lhe deras até agora o poder de dominar-te, segundo a sentença de Salomão: “Porque ninguém contradiz aqueles que fazem o mal, o coração dos filhos dos homens se enchem de projetos malignos” (Ecles 8,11).

Por isto, depois da tua denúncia, esse espírito perverso já não poderá mais te inquietar, nem, doravante, a infecta serpente encontrará em ti esconderijo, depois que pela tua salutar confissão foi arrastada das trevas à luz.

Mal acabara de falar o ancião, eis que uma Lâmpada acesa, saindo do meu peito, encheu a cela de um cheiro de enxofre, e era tão forte o fedor, que mal podíamos aí ficar.

Retomando a sua admoestação, o ancião disse: Vê como o Senhor confirmou visivelmente a verdade das minhas palavras. Ele quis que visses com teus olhos o instigador daquela paixão expulso do teu coração por tua salutar confissão e que soubesses por sua manifesta expulsão, que o inimigo, uma vez posto às claras, não teria mais um lugar em ti.

E assim é, conforme a sentença do ancião, pela virtude da minha confissão, o domínio tirânico do demônio foi extinto e para sempre adormeceu em mim. Nunca mais o demônio tentou sequer reavivar em mim a lembrança daquela concupiscência, nem eu senti mais qualquer toque desse desejo de roubo.

Este sentido nós o vemos muito bem figurado no Eclesiastes, quando diz: “Se a serpente morde sem nenhum silvo, não há lugar para o encantador” (Ecles 10,11). Ele assinala, com isto, como é fatal a mordida duma serpente silenciosa, isto e, se a sugestão ou o pensamento diabólico não for manifestado pela confissão a um encantador, vale dizer, a um homem espiritual, acostumado a aplicar, com palavras da Escritura, um pronto remédio a tais feridas e expulsar do coração o veneno mortal da serpente, ele nada pode fazer em nosso socorro nesse perigo ou nessa ameaça de morte.

É este, pois, o modo de chegar mais facilmente à ciência da verdadeira discrição: seguindo os passos dos antigos, não presumindo inovar nem discernir nada, segundo o nosso próprio juízo, mas, ao contrario, caminhando, em todas as circunstâncias, conforme a sua tradição e probidade de vida nos ensinam.

Quem se firma nesse ensinamento, não apenas chegará à razão perfeita da discrição, mas também ficará inteiramente resguardado das insídias do inimigo. Na verdade, por nenhum outro vício o demônio mais facilmente precipita o monge ao chão e o arrasta até a morte, do que quando o persuade a desprezar os conselhos dos antigos e confiar no seu próprio juízo e modo de ver.

Com efeito, todas as artes e disciplinas inventadas pelo gênio do homem, e que só servem à comodidade desta vida temporária, embora palpáveis e visíveis, não podem, no entanto, ser corretamente abraçadas por alguém sem o ensinamento de um mestre. Quão absurdo seria acreditar que só esta profissão dispensa um mestre, ela que é invisível e oculta e somente um coração puríssimo pode ver, e cujo erro gera não apenas um dano temporal e de fácil reparação, mas a perdição da alma e a morte eterna.

Ela tem um combate diurno e noturno contra inimigos que não são visíveis, mas invisíveis e cruéis. E uma luta espiritual que não e contra um ou dois, mas contra batalhões inumeráveis, e onde o risco é tanto mais funesto a todos, quanto mais hostil o inimigo e o ataque mais secreto.

Por isto é que devemos com maior cautela seguir os passos dos antigos, e, pondo abaixo o véu da vergonha, revelar a eles tudo que nasce em nossos corações.

XII. Confissão da vergonha que nos faria ruborizados ao revelar aos mais antigos os nossos pensamentos

A ocasião de uma funesta vergonha que nos faz esconder com empenho os nossos maus pensamentos tem por causa principal fatos como este que viemos a saber. É o caso de certo monge na Síria, tido como o primeiro entre os anciões. A um irmão que lhe revelava em humilde confissão os seus pensamentos, logo em seguida ele se tomou de indignação e os censurou gravemente. Daí acontece que os reprimimos em nós e ruborizamos de manifestar aos anciãos, ficando impotentes para obter seus remédios.

XIII. Resposta sobre o dever de calcar a vergonha e sobre o perigo da falta de compaixão.

Moisés: Assim como os jovens não são todos igualmente fervorosos ou bem formados nos melhores ensinamentos e costumes, também os anciãos não têm todos o mesmo grau de perfeição e de virtude. A Riqueza dos anciãos não está nos cabelos brancos, mas no empenho da juventude e nos frutos dos trabalhos passados. “O que não ajuntaste na tua juventude — diz a Escritura — como o encontrarás na velhice” (Sir 25,5). “A velhice venerável não está na longa duração; o que é branco são os sentimentos do homem; a idade da velhice é uma vida imaculada” (Sab 4,8-9).

Assim sendo, não é a todos os velhos, só porque tenham branca a cabeça e longeva a vida, que devemos seguir os passos e acolher as lições e os conselhos, mas sim, aqueles que soubermos que em sua juventude levaram uma vida digna de louvor e de máximo reconhecimento, e se formaram nas tradições dos maiores e não em suas próprias presunções.

São muitos ou, o que mais triste, é o maior número que envelheceram na tibieza e no relaxamento que conceberam desde a sua adolescência e conquistaram Autoridade não pela madureza da vida, mas pelo número de anos. A eles cabe muito bem a censura do Senhor pelo profeta: “Os estranhos devoraram a sua força, e ele não soube; está coberto de cabelos brancos, mas o ignora” (Oséias 7:9).

Esses, digo eu, o que os promoveu como exemplo para os mais novos não foi a probidade da vida nem o rigor louvável e digno de imitação com quem vivem o seu propósito, mas somente a idade avançada.

O astucioso inimigo, apresentando a sua cabeça branca como prova antecipada de autoridade para iludir os mais jovens, apressa-se, com sua capciosa habilidade, a fazer cair e enganar, mediante os exemplos daqueles, até mesmo os que são movidos a tomar o caminho da perfeição, por conselhos de outros ou sua própria inspiração. Numa palavra, ele os conduz, pela doutrina e modo de vida daqueles, a uma frieza daninha ou a mortal desespero.

Para vos dar um exemplo, vou contar um fato real , que vos pode servir de útil instrução. Não direi, porém, o nome do autor, para não agir como aquele que publicou as faltas que o irmão lhe revelara.

A um ancião muito bem conhecido por mim, encaminhou se, um dia, certo jovem monge, não dos menos fervorosos, em busca de progresso e de cura a seus males. Com simplicidade, ele confessou-lhe que era atormentado pelo aguilhão da carne e pelo espírito de fornicação. Acreditava que pela oração do ancião encontraria consolação aos seus trabalhos e remédio às suas feridas.

Mas não. O ancião passou a lançar-lhe em rosto palavras amargas, chamando-o em voz alta de miserável e indigno, e dizendo que não poderia ser chamado de monge quem se mostrava sensível a esse gênero de vício e de concupiscência.

E tanto o feriu com suas repreensões, que, mergulhado em profundo desespero e abatido por uma tristeza mortal, acabou deixando a cela.

Deprimido em tal aflição, já começava a cogitar não mais no remédio do seu mal, mas na satisfação da sua concupiscência.

Enquanto rolava isto em seu coração, eis que encontra o abade Apolo, o mais respeitável dos antigos. Ao ver o abatimento que transparecia em sua face, este percebeu o sofrimento e a violência do combate que se desenrolava em silêncio naquele coração. Pergunta-lhe a causa de tão grande pertubação, fala-lhe com doçura, mas ele não conseguia dar a menor resposta. O ancião, sentindo mais e mais que não era sem motivo que ele queria cobrir pelo silêncio a causa de tanta tristeza, começou a perguntar-lhe com maior insistência as razões dessa dor escondida.

Apertado por tal insistência, ele, afinal, confessa tudo. Já que, segundo a opinião daquele ancião, não pode ser monge nem é capaz de refrear os estímulos da carne e de conseguir um remédio à tentação, ele se dirige a aldeia com a intenção de casar-se e, abandonando o mosteiro, voltar ao mundo.

O ancião começa, então, a consolá-lo com brandura e carinho. Assegura-lhe que ele próprio é cada dia agitado pelo aguilhão e os ardores das mesmas tentações. Não deve ele, portanto, cair no desespero nem se admirar da violência dos ataques, que mais do que por nosso empenho são vencidos pela graça e misericórdia do Senhor. Pede-lhe, assim, tréguas de um só dia e roga-lhe que volte a sua cela, enquanto ele mesmo se encaminha a toda pressa para a cabana do referido ancião.

Ao aproximar-se dela, pôs-se a orar com lágrimas, levantando os braços: Senhor, só vos sois o juiz bondoso e o remédio secreto das capacidades ocultas de cada um e das fraquezas humanas; fazei passar a tentação daquele jovem para este ancião, a fim de que aprenda, ao menos na sua velhice, a condescender às fraquezas dos aflitos e a ser compassivo para com a fragilidade dos mais novos.

Mal terminou, gemendo, esta oração, viu um horrendo etíope de pé diante da cela do ancião e dirigindo contra ele os seus dardos. Atingido logo por eles, ele sai da cela e se põe a correr para todos os lados, como um ébrio ou como alguém fora de si. Ele entra e sai e, não podendo ficar nela, toma, apressado, o mesmo caminho por onde saíra aquele jovem.

O abade Apolo o vê como um demente agitado como que pelas Fúrias. Ele compreendeu que o dardo inflamado que vira na mão do demônio penetrara-lhe no coração e produzia nele, como chamas intoleráveis, aquela confusão da mente e a perturbação dos seus sentidos.

Aproximou-se, então, e lhe disse: para onde te apressas, e qual é a causa que te faz esquecer a gravidade de ancião e te compele a agitar-te e a correr para outro como um menino?

Confuso por causa das acusações da sua consciência e da vergonhosa agitação em que se encontra, ele acredita que o ardor da sua alma é percebido e que os segredos do seu coração são manifestados ao ancião. Por isto, não ousou responder à sua pergunta.

Então este lhe disse: Volta para a tua cela e compreende afinal que foste até agora ignorado ou desprezado pelo demônio e não contado por ele no número daqueles cujos progressos e esforços o instigam continuamente a entrar em choque e combater. Não pudeste, depois de tantos anos nesta profissão, já não digo rechaçar, mas nem mesmo retardar por um só dia o único dardo que ele te lançou.

O Senhor permitiu que fosse ferido, a fim de que, ao menos na velhice, por teu próprio exemplo e experiência, aprendesses a ter compaixão das fraquezas alheias e a condescender a fragilidade dos mais novos. Revendo um jovem em luta contra os ataques do demônio, não só deixaste aliviá-lo com tua consolação, mas ainda o entregaste em desespero nas mãos do inimigo, para ser por ele tristemente devorado, enquanto dependia de ti.

O inimigo, que até agora desdenhou te atacar, não o teria, sem dúvida, agredido com tanta veemência, se, prevendo com inveja o seu futuro progresso, não corresse a impedir por antecipação, com seus dardos de fogo, aquela virtude que percebia nele existir. Com toda certeza, ele o considerou mais forte, pois julgou útil atacá-lo com tanta violência.

Aprende, pois, do teu próprio exemplo, a compadecer-te dos que estão em trabalho, e a não aterrorizar de mortal desespero, nem exasperar com palavras duríssimas os que estão em perigo.

Ao contrario, aprende a confortá-los com consolações brandas e indulgentes. Assim, seguirás o preceito do sábio Salomão: “Não deixes de livrar os que são arrastados à morte, nem de salvar os que estão sendo exterminados” (Prov 24,11). A exemplo do nosso Salvador, não esmagues o caniço já quebrado, nem apagues a mecha que fumega (cf. Mateus 12:30). Aprende a rogar ao Senhor aquela graça, na qual poderás cantar com toda a confiança e na verdade:“O Senhor me deu uma língua instruída, para que eu saiba sustentar pela palavra aquele que está sucumbido” (Isaías 50:4).

Ninguém, com efeito, poderia resistir às ciladas do inimigo ou apagar ou reprimir os ardores carnais que nos queimam com um fogo de certo modo alimentado pela natureza, se a graça de Deus não viesse em ajuda a nossa fragilidade e não a protegesse e fortificasse.

Por isto, chegando ao fim esta obra divina de salvação, pela qual o Senhor quis livrar aquele jovem de ataques tão violentos e perniciosos e te ensinar os sentimentos de compaixão, vamos juntos implorar o mesmo Senhor que ponha fim ao flagelo que ele se dignou te infligir, para o teu bem. “Pois é ele que faz doer e logo medica; fere e sua mão faz sarar” (João 5:18). Ele humilha e eleva, faz morrer e dá a vida, lança nos infernos e de lá retira“ (I R 2,6-7). Que ele apague pelo orvalho abundante do seu Espírito, os dardos ardentes do demônio que a meu pedido permitiu que te ferissem.

Bastou somente esta oração do ancião, para que o Senhor retirasse a tentação tão prontamente como a tinha permitido. Mas ele ensinou por tão evidente experiência que devemos não só abster-nos de censurar alguém que nos revela suas faltas, mas nem mesmo desprezas seus sofrimentos, ainda que leves.

Que a incompetência ou leviandade de um ou de alguns anciãos, cujas cabeça branca o inimigo usa para enganar os mais novos, de modo nenhum vos faça sair ou desviar daquele caminho de salvação e dos ensinamentos dos maiores, de que antes vos falamos.

Mas devemos tudo manifestar aos antigos, sem qualquer encobrimento de vergonha, e receber deles, com a maior confiança, os remédios de nossas feridas e os exemplos de vida monástica. Com isto encontraremos ajuda e êxito, se nada tentarmos empreender por nosso próprio juízo e presunção.

XIV. A vocação de Samuel

Em suma, esta sentença, como se pode comprovar, é tão agradável a Deus, que a podemos, não sem motivo, descobrir nas santas Escrituras, como no caso do menino Samuel.

Segundo o seu juízo, Deus o escolheu. Mas não quis instruí-lo diretamente na ciência do colóquio Divino, tolerando que recorresse uma e duas vezes ao ancião (cf I R 3). Aquele a quem Deus chamava a conversar consigo, ele o quer ensinado por alguém que o ofendera, mas que era um ancião. Deus prefere submeter à formação de um antigo aquele que julgara digno de vocação, a fim provar a humildade necessária a quem se destina ao serviço divino, e propor aos mais novos um exemplo de submissão.

XV. A vocação do apóstolo Paulo

Também quanto a Paulo, Cristo o chama diretamente e fala-lhe sem intermediário. Podia abrir-lhe imediatamente o caminho da perfeição, mas prefere dirigi-lo a Ananias e lhes ordena que aprenda deste a via da verdade: “Levanta-te, entra na cidade, e lá te dirão o que é preciso fazer” (Atos 9:6).

Ele o envia, portanto, a um antigo, e julga melhor que este o instrua, em vez de instruí-lo ele mesmo, para que não acontecesse que aquilo que teria sido correto em Paulo, oferecesse aos pósteros um mau exemplo de presunção, quando cada um se convencesse de que igualmente deveria se formar pelo magistério e ensino de Deus só, e não à escola dos antigos.

O próprio Apóstolo é o primeiro a ensinar não só por seus escritos, mas ainda pelo exemplo e por suas obras, que tal presunção deve ser de todo modo detestada. É só por isto, como ele assevera, que vai a Jerusalém para conferir com os seus coapóstolos e predecessores, num exame de certa forma privado e familiar, o evangelho que anunciava aos gentios, com tal acompanhamento de graça do Espírito Santo e grande poder de sinais e prodígios: “E conferi com eles o evangelho que prego entre as nações, para não correr ou ter corrido em vão” (Gálatas 2:2).

Quem, portanto, é tão presunçoso e cego, a ponto de ousar se fiar em seu próprio julgamento e discrição,quando o Vaso de eleição atesta que precisou de uma conferência com os seus coapóstolos?

Eis uma prova evidentíssima de que o Senhor não mostra a ninguém o caminho da perfeição, quando tento este o poder de ser instruído, despreza a doutrina e a regra de vida dos antigos, pondo de lado esta palavra que importa guardar com a maior diligencia: “Interroga o teu Pai, e ele te ensinara; os teus antigos, e eles te dirão” (Deuteronômio 32:7).

XVI. O dever de ir em busca da discrição.

Por conseguinte, temos de pôr todo nosso esforço para adquirir, mediante a humildade, o bem da discrição, que é capaz de nos guardar ilesos de um e outro dos excessos.

Há um antigo provérbio que diz: akrotetes isotetes , isto é, os excessos são iguais.

Por exemplo, jejum exagerado e voracidade levam a um mesmo fim; vigílias imoderadas são tão danosas para o monge quanto o topor do Sono pesado. Pois quem se faz debilitar por excesso de privação, inevitavelmente retrocede a mesma situação em que na sua apatia o negligente se enreda. Muitas vezes vimos os que não foram iludidos pela gula cair pelo abuso dos jejuns. Em razão do seu enfraquecimento, tombam na mesma paixão que venceram.

Também vigílias e noites inteiras em branco irracionais derrubaram alguns que o sono não conseguira sobrepujar.

Por esse motivo, segundo o Apóstolo “com as armas da justiça à direita e à esquerda” (2 Cor 6,7), devemos a travessar com o leme em direto, e, assim, marchar entre os dois excessos sob a guia da discrição, de tal modo que jamais consintamos em sair, quanto à prática da abstinência, do caminho ensinado, nem, por outro lado, em cair, por um relaxamento nocivo, nos desejos da gula e do ventre.

XVII. Os jejuns e vigílias excessivas.

Eu me lembro, na verdade, de ter frequentemente desprezado tão completamente o apetite de alimento, que passava dois, três dias sem comer e nem mesmo a lembrança de qualquer comestível me vinha a mente. Em compensação, tive, por ação do demônio, uma tal falta de Sono, que, durante muitas noites e dias, pedi ao Senhor um pouquinho de sono para os meus olhos. Eu senti vivamente que esse fastio do sono e do alimento era mais perigoso para mim do que os ataques do topor e da gula.

De um lado, portanto, devemos ter empenho em não cair por um fatal relaxamento nos prazeres do corpo, nem presumir tomar alimento antes da hora fixada ou exceder-lhe a Medida.

Mas, por outro lado, importa que, na hora devida, se come a refeição de alimento e de sono, qualquer que seja repugnância que se possa ter.

Uma e outra guerra vem da ação do demônio, mas a abstinência exagerada é mais perniciosa do que a saciedade relaxada. Desta ultima, com efeito, pode-se voltar, por uma compunção salutar, à medida da austeridade; da outra, é impossível.

XVIII. Pergunta sobre a Medida da abstinência e da comida.

Germano: Qual é, então, a medida da abstinência que preciso observar com equilibrada direção, para atravessar ileso entre os exageros opostos?

IX. A melhor medida para a refeição cotidiana.

Moisés: Sobre esta questão, sabemos que os nossos maiores a tratarem repetidas vezes. Depois de ter discutido as práticas usadas por diversos, que levavam a vida permanentemente só com legumes ou apenas com hortaliças ou frutas, eles preferiram a tudo isso a refeição só de pão, e estabeleceram como a mais equilibrada medida dois “paxamatia”, que são pequenos pães que pesam os dois quase uma libra.

XX. Objeção sobre a facilidade duma abstinência que se sustenta com dois desses pãezinhos.

Agradecendo esta resposta, respondemos que não considerávamos esta medida como uma abstinência, já que jamais conseguiríamos tomá-la inteira.

XXI. Resposta sobre a virtude e o comedimento desta forma experimentada de abstinência.

Moisés: Se queres experimentar a força de tal regime, observai sem varias esta medida, sem acrescentar aos domingos ou sábados ou por ocasião da visita de irmãos um prato de cozido.

É verdade, sem dúvida, que, refeito por esse suprimento extraordinário, o corpo é capaz de contentar-se com menor quantidade nos outros dias, podendo até transferir para o dia seguinte, sem fadiga, a refeição assim completa.

Mas quem se limitar sempre à quantidade e a dieta de que acima falamos, não poderá, de modo algum, fazer o mesmo, nem adiar a refeição de pão para o dia seguinte. Lembro-me, com efeito, que alguns dos nossos antigos (e posso acrescentar a minha própria experiência muitas vezes) tiveram tanto trabalho e dificuldade em sustentar a parcimônia desse regime, e guardaram com tal esforço e fome essa medida, que a custo e como que contra a vontade, e não sem tristeza e gemidos, se levantavam da mesa.

XXII. Qual é, em geral, a medida da abstinência e da refeição.

A regra geral da abstinência e cada um só comer a quantidade conforme as forças do seu corpo e suavidade, e quanto for necessário ao sustento do corpo e não segundo o desejo de plena satisfação.

Sofrera o maior dano de um lado e de outro, todo aquele que ora aperta o estômago pela severidade dos jejuns, ora o dilata pelo excesso de comida.

Assim como a mente esgotada por falta de alimento perde o vigor da oração, sob a extrema lassidão do corpo que a compele a sonolência, também, de outra parte, será incapaz, sob a opressão do excesso contrário, de elevar a Deus preces puras e leves. E nem mesmo conseguirá conservar sem lesão a pureza da própria castidade, pois nos mesmos dias em que ele parece castigar a carne com uma abstinência mais acerba, a madeira da véspera, isto é, a intemperança de ontem, alimentará o fogo da concupiscência carnal.

XXIII. Como moderar a abundância dos humores.

Na verdade, o que é uma vez acumulado nas entranhas pela abundância de alimentos, é necessariamente digerido rejeitado pela própria lei da natureza que não permite ficar nela a exuberância de nenhum humor supérfluo.

Devemos, por isto, castigar nosso corpo com uma parcimônia sempre razoável e equânime, a fim de que, nos dendo impossível, enquanto moramos na carne, escapar dessa necessidade natural, ao menos não nos encontre o curso do ano molhados por essas escórias, senão mais raramente e não mais do que três vezes. Isto mesmo, porém , aconteça num Sono quieto, sem nenhum prurido, e não provocado por imagens enganadoras que seriam o sinal duma volúpia escondida.

Por este motivo, é esta a uniformidade e a Medida da abstinência, comprovada pelo juízo dos pais: uma refeição diária de pão, que não mate o desejo de comer por esse meio, a alma e o corpo estão sempre no mesmo estado, sem ser a alma abatida pela fadiga do jejum, nem agravada pela saciedade. Com tão grande frugalidade, acaba-se, às vezes, por não sentir depois da tarde, nem a lembrança do repasto feito.

XXIV. O labor causado por essa refeição igual e a gula do irmão Benjamim.

E a prova de que isto não se pratica sem labor é que os monges que ignoram a perfeição da discrição preferem protelar por dois dias seu jejum e reservar para amanhã o que deveriam comer hoje, contanto que, chegada à refeição, se saciem à vontade.

É o que, de modo obstinado, fez há pouco o vosso compatriota Benjamim, como sabeis. Para não manter uma parcimônia continua nem uma penitência sempre igual, com os dois pães cotidianos, ele preferiu jejuar dois dias seguidos, desde que, vindo a refeição, satisfizesse a sua gula com uma duplicada ração. Comendo, então, quatro “paxamatia”, ele dava largas à sua desejada saciedade, ao mesmo tempo que preparava com o jejum de dois dias a plena satisfação do seu ventre.

Preferindo, em sua obstinação e capricho, as decisões da sua própria mente aos ensinamentos dos maiores, qual foi o fim que teve a sua vocação, vós bem vos lembrais. Abandonou o deserto e voltou a fútil filosofia do mundo e à vaidade do século. Pelo exemplo da sua queda , confirma-se aquela sentença dos antigos. Sua ruína esta a ensinar a todos que ninguém, confiando em suas próprias concepções e julgamento, pode jamais chegar ao cume da perfeição, e, ainda, que deste modo é impossível não cair nas ilusões do demônio.

XXV. Pergunta sobre o modo de conservar sempre a mesma e única Medida.

Germano: Como, então, poderemos guardar ininterruptamente esta medida?

Muitas vezes, com efeito, depois de rompida a “estação” do jejum a hora nona, chegam irmãos. É preciso, então, em consideração a eles, acrescentar alguma coisa à medida estabelecida e costumeira, sob a pena de faltar à hospitalidade, que nos é ordenado oferecer a todos.

XXVI. Resposta afirmando que não se deve exceder a medida da refeição.

Moisés: Convêm observar os dois preceitos com uma única maneira e igual solicitude. Devemos, sem dúvida, guardar, de um lado, com todo escrúpulo, a medida do alimento, por amor da temperança e da pureza; e, de outro, oferecer aos irmãos sobrevindos, em nome da caridade, a hospitalidade e o consolo fraterno. Pois é bem absurdo que, oferecendo a um irmão, ou, melhor ao Cristo, a tua mesa, não tomes junto com ele o alimento, ou te faças alheio a sua refeição.

Assim, para que não nos vejamos censuráveis nem num sentido nem noutro, guardemos o seguinte costume: a hora nona, não tomemos senão um dos dois pães aos quais a media canônica nos dá direito, e reservemos o outro para a tarde, na expectativa de alguma visita. Se aparecer um irmão, vamos comer esse pão junto com ele, sem acrescentar nada mais à regra costumeira. Desta maneira, a chegada do irmão não nos dará nenhuma tristeza, pois ele nos deve dar o maior gosto. E assim lhe prestamos os serviços da hospitalidade, sem nada relaxar do rigor da nossa abstinência.

Se, no entanto, não vier ninguém, podemos livremente comer aquele pão, porque ele nos é devido pela regra canônica.

Neste caso, o nosso estômago não se ressentirá da parcimônia desse repasto da tarde, pois já recebeu à nona um dos dois pães. Com isto evitamos o que, muitas vezes acontece aqueles que retardam para a tarde a refeição completa, sob pretexto de observar uma abstinência mais rigorosa. É que, por causa da refeição que acabam de tomar, não conseguem encontrar em suas orações da tarde e a noite a finura e a leveza do sentimento.

Por isto, a refeição a hora nona é conveniente e vantajosa, visto que assim o monge se encontra ágil e livre nas vigílias noturnas e mesmo na solenidade das vésperas, já feita a digestão, bem disposto.

Com estas lições, o santo abade Moisés nos fartou com as iguarias de sua dupla instrução.

Na última conferencia, ele mostrou a graça e a virtude da discrição. Na anterior, o caráter da nossa renúncia e o escopo e o fim da profissão monástica.

Assim, o que antes buscávamos somente com fervor de espírito e zelo de Deus, mas, de certo modo, com os olhos fechados, ele nos abriu com uma clareza maior do que a luz, e fez sentir o quanto até então estávamos longe da pureza de coração e da reta direção, quando, na verdade, mesmo a aprendizagem das artes visíveis desta mundo não pode subsistir sem um fim preciso, nem ser alcançada sem a contemplação de um fim determinado.

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