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VIRGEM 2

SEGUNDO SERMÃO — Dos sete dons do Espírito Santo em Cristo (resumo)

  • Na solenidade da Anunciação do Senhor, a história simples da redenção apresenta-se diante dos olhos como vasta e agradável planície, sendo nova a embaixada confiada ao anjo Gabriel, nova a virtude que professa a Virgem e nova a saudação com que Maria é honrada, de modo que a antiga maldição que pesava sobre a mulher é posta de lado, recebendo Maria uma bênção tão nova quanto sua maternidade
    • Aquela que não conheceu os ardores da concupiscência é repleta de graça, e por haver desprezado todo trato com homem, vai conceber do Espírito Santo o próprio Filho do Altíssimo
    • O antídoto da salvação entra pela mesma porta por onde entrou o veneno da serpente que infestou todo o gênero humano
    • Colhem-se facilmente nos prados numerosas flores, mas percebe-se ao meio um abismo de espantosa profundidade
    • O mistério da incarnação do Senhor constitui abismo insondável e impenetrável: o Verbo se fez carne e habitou entre nós
    • Trata-se de poço de grande profundidade, sem ninguém para nele tirar água
    • O vapor que sobe dos poços costuma umedecer os linhos estendidos sobre sua abertura, e por isso, não ousando lançar-se ao poço deste mistério por consciência da própria fraqueza, levantam-se as mãos ao Senhor, ficando a alma como terra sem água
    • Se o leve tecido do pensamento se penetrou um pouco da umidade que sobe do fundo deste poço, deseja-se compartilhá-la, ainda que pouca, espremendo o tecido para extrair algumas gotas do celeste orvalho
  • Pergunta-se primeiramente por que é o Filho, e não o Pai ou o Espírito Santo, quem se incarna, sendo a gloria das três pessoas da Santíssima Trindade não apenas igual, mas uma só e mesma gloria
    • Ninguém conheceu os desígnios de Deus, nem entrou no segredo de seus conselhos, segundo Romanos 11,34
    • Caso o Pai ou o Espírito Santo se houvesse incarnado, resultaria inevitável confusão pela pluralidade de Filhos, sendo uma das pessoas Filho de Deus e outra Filho do homem
    • Convém perfeitamente que se tornasse Filho do homem aquele que já era Filho de Deus, evitando-se assim a ambiguidade dos nomes
    • Constitui gloria singular e privilégio único para a Virgem Maria ter tido por Filho, por efeito da graça, o mesmo e único Filho que é de Deus Pai
    • Caso as coisas se houvessem passado de outro modo, não nos seria dado igual motivo de esperar a salvação e a herança do Céu, ao passo que, fazendo-se o primogênito de todos os irmãos quando já era Filho único do Pai, não pode deixar de chamar-nos a partilhar sua herança, havendo-nos já chamado à adoção de filhos
    • Jesus Cristo, fiel mediador, uniu em inefável mistério a substância do homem e a de Deus em uma só pessoa, e por desígnio de grande profundeza guardou na reconciliação o justo meio que deu a Deus e ao homem o que lhes convinha — a Deus a gloria, ao homem a piedade
    • Por excelente acordo entre o Senhor ofendido e seu servo culpado, este não foi atingido por sentença demasiado severa pelo zelo da gloria de Deus, ao mesmo tempo que Deus não foi privado da honra devida por excessiva condescendência para com o homem
  • Atende-se às duas proposições que dividem o canto dos anjos no nascimento do Salvador — gloria a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade, segundo Lucas 2,14 — observando-se que ao fiel reconciliador Jesus Cristo não faltou o espírito de temor
    • Foi nesse espírito que não cessou de render ao Pai o respeito devido, buscar sua gloria e prestar-lhe homenagens
    • Também não lhe faltou o espírito de piedade, com o qual compadeceu-se misericordiosamente da desventurada sorte dos homens
    • Para manter equilibrada a balança entre o temor e a piedade, foi necessário o espírito de ciência
    • No pecado dos primeiros pais reconhecem-se três autores, faltando a cada um algo em particular: Eva, o diabo e Adão
    • A Eva faltou a ciência, pois, segundo o Apóstolo em 1Timóteo 2,14, foi seduzida e assim levada a prevaricar, ciência que não faltava à serpente, representada como a mais astuta de todos os animais, embora lhe faltasse a piedade, sendo homicida desde o princípio
    • Em Adão talvez se encontre certa piedade, pois não quis contristar sua esposa, mas sacrificou o temor de Deus ao obedecer a Eva em vez de ao Senhor
    • Conforme as Escrituras, Jesus foi repleto não do espírito de piedade, mas do espírito de temor, segundo Isaías 11,3, devendo em todas as coisas o temor de Deus prevalecer sobre a piedade pelo próximo
    • Pelas três virtudes — temor, piedade e ciência — o mediador reconciliou os homens com Deus, sendo em espírito de conselho e de força que os livrou da mão do inimigo
    • Ao dar conselho, e ao permitir que o inimigo pusesse mão violenta sobre o inocente, despojou-o de seus antigos direitos, prevalecendo também pela força ao impedir que retivesse os homens por ele redimidos, quando subiu vencedor dos infernos e nossa vida ressuscitou com ele
  • Desde então, alimenta-se com o pão da vida e da inteligência, dando-se em bebida a água da ciência da salvação, sendo a inteligência das coisas espirituais e invisíveis verdadeiro pão para a alma, pão que fortalece o coração e lhe dá energia para todas as boas obras na ordem espiritual
    • O homem carnal, que nada compreende das coisas do espírito de Deus, para quem elas são mesmo loucura, só pode gemer e chorar dizendo: meu coração secou-se porque me esqueci de comer meu pão, segundo o Salmo 101,5
    • Verdade tão simples quanto perfeita é esta: de nada serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a alma
    • O avaro jamais chega a compreender tal verdade, sendo perda de tempo tentar fazê-lo saboreá-la, pois para ele constitui loucura
    • Nada mais incontestável que a verdade de que o jugo de Jesus Cristo é suave, mas apresentada ao homem do mundo, este toma esse pedaço de pão por pedra
    • É certíssimo que a alma vive da inteligência desta verdade, sendo ela verdadeiro alimento espiritual, pois o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus, segundo Deuteronômio 8,3
    • Enquanto não se saboreia esta verdade, dificilmente penetra na alma, mas, uma vez provado o gosto, deixa de ser alimento e torna-se bebida que penetra sem dificuldade no coração, onde o alimento espiritual da inteligência se digere facilmente em contato com a bebida da sabedoria, impedindo que os membros do homem interior, isto é, seus sentimentos, se ressequem e tornem-se mais nocivos que úteis
  • Nada do que era necessário para a salvação dos homens faltou ao Salvador, conforme falava o profeta Isaías: sairá um renovo da raiz de Jessé, e uma flor nascerá de sua raiz, e sobre ele repousará o espírito do Senhor — o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de força, o espírito de ciência e de piedade, e será repleto do espírito do temor do Senhor, segundo Isaías 11,1-3
    • A flor não deve aparecer sobre o renovo, mas sair da raiz
    • Se a carne de Jesus Cristo houvesse sido criada do nada na Virgem Maria, como muitos creram, poder-se-ia dizer que a flor não brotou da raiz, mas do renovo
    • Segundo o Profeta, porém, ela saiu da raiz, sendo formada da raiz e partilhando de sua substância
    • Dizer que o Espírito Santo repousou sobre esta flor não constitui contradição alguma
    • Em nós o espírito não é absolutamente superior, não repousa, pois a carne lhe faz guerra contínua, e o espírito tem desejos opostos aos da carne
    • Daquela luta pode livrar Aquele que nada tem de semelhante — o homem novo, o verdadeiro homem que recebeu a verdadeira carne de nossa origem, mas sem o velho fermento da concupiscência
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