User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
primal:antonius:start

ANTÃO

Segundo Jacques Lacarrière (Les hommes ivres de Dieu), por ter ensinado ou revelado aos homens os poderes da ascese e da solidão, Santo Antão sofreu portanto a regra comum dos pioneiros da aventura humana: certos historiadores do século XIX — alemães em grande parte — viram nele, em sua vida e suas tentações, um mito e nada de mais. Tese excessiva, certamente, mas que permite iluminar, a respeito da Vida de Antão, certas evidências que, sem ela, passariam desapercebidas.


Para Ysabel de Andia, Mystiques d'Orient et d'Occident, Antão é um idiotes (a idioteia é um dos caracteres da vida apostólica; ela é um sinal da origem divina do testemunho apostólico), mas um “espírito são” (o nous hygiainei = mens sana et in proprieta constituta) e seu grande juízo (synesis = sapientia ou intellectus) faz a admiração dos filósofos gregos que o procuram. Sua linguagem é “temperada de um sal Divino”, o sal da sabedoria.


A Estrela do Deserto

Santo Antão existiu?

  • Personagens míticos deixam tantos rastros e geram tanto material literário quanto aqueles que de fato existiram, e os gregos que seguiram Alexandre atribuíam suas próprias conquistas a Dioniso e Héracles, misturando o presente com o passado até dúvidas sobre a própria realidade cederem à verdade afirmada por um mito.
    • Citação — para os gregos, e provavelmente para todos os povos antigos, a influência mitológica era tão forte que duvidariam da própria existência ou da realidade do que os rodeava, antes de contradizer uma verdade afirmada por um mito.
  • Personagens históricos que desempenharam papel relevante na civilização — como conquistadores, inventores ou legisladores — só permaneciam na memória coletiva quando se tornavam míticos, processo que não cessou com a chegada do cristianismo, já que o ensino de Jesus, voltado a exemplos do passado e a um futuro escatológico, deslocava a ênfase do Mestre que ensinara a viver em fraternidade para o anúncio do Reino dos Céus por vir.
    • Minos, Príamo, Agamêmnon, Orfeu e Licurgo são citados como figuras situadas na fronteira entre mito e história.
    • Cita-se a expressão “o cumprimento das profecias” como formulação da missão universal atribuída ao Salvador.
  • Atribuir a deuses ou heróis, e não a homens, a origem de tudo o que se considerava essencial — fogo, fala, escrita, leis, trigo, vinho, domesticação dos animais — explica por que, no primeiro século da era cristã, seria sacrílego atribuir a um homem, e não a um deus, a revelação dos poderes da fé.
  • Paradoxalmente, foram os críticos do século dezenove da história cristã e do ensino de Jesus que evidenciaram a força do mito sobre a mente humana, ao revelar que os Evangelhos não podiam servir como testemunho histórico objetivo, mas como obras voltadas à difusão de uma verdade religiosa entre certas comunidades da diáspora.
    • O que esses métodos de exegese mataram não foi tanto o Deus quanto o homem em Jesus, pois sua vida, seus milagres e seu ensino tornaram-se, ao final, inteiramente míticos.
  • Certos grandes santos cristãos, na medida em que imitavam Jesus, compartilharam seu destino póstumo e converteram-se também em figuras míticas, sendo Santo Antão, por ter mostrado aos homens o valor do ascetismo e da solidão, submetido por historiadores do século dezenove — alemães em sua maioria — à regra geral aplicada aos pioneiros da aventura humana, reduzindo-o a mito puro.
    • Esse ponto de vista exagerado teve, porém, o efeito de trazer à luz evidências que de outro modo passariam inadvertidas.
  • O único texto contemporâneo sobre Antão, a Vida de Antão, foi escrito em grego por Atanásio, bispo de Alexandria, durante uma de suas duas longas estadias nos desertos do Egito, em 356 e 366, na época da crise ariana, sendo até o século dezenove sempre considerado uma biografia.
    • O título original era “A Vida de nosso pai Antão, por Atanásio, bispo de Alexandria”.
    • Em nota indica-se que 356 é a data mais provável, já que uma tradução latina da Vida de Antão feita por Evágrio de Antioquia já circulava pelo Oriente em 370.
  • Historiadores posteriores, entre eles Reitzenstein, demonstraram que a Vida de Antão não pertence ao gênero da biografia, mas ao da aretologia — do grego aretos, virtude, e logos, discurso, traduzível como dissertação edificante —, forma muito difundida na Antiguidade pagã e regida por regras precisas de composição literária.
    • O termo grego original é transliterado como aretos, significando virtude, e logos, significando discurso.
    • A aretologia visava oferecer ao leitor um quadro edificante da vida ideal, servindo tanto às Vidas dos sábios pagãos quanto às dos santos cristãos.
    • Citam-se como paralelos pagãos A Vida de Apolônio de Tiana, escrita por Filócrates em meados do século terceiro, A Vida de Pitágoras, escrita por Jâmblico no início do século quarto, e A Vida dos Sofistas, de Eunápio, de época semelhante.
    • Nessas Vidas, sábios e depois santos controlam os elementos, dissipam pragas, domam animais selvagens, realizam curas milagrosas e exorcizam espíritos, recursos presentes também na Vida de Antão.
    • O propósito edificante explica o método: rasgos retóricos sobre virtude e sabedoria, recurso ao maravilhoso e ao sobrenatural, ataques de demônios — nada disso é especificamente cristão, mas convenção do gênero, tão rígida quanto as convenções do romance policial nos dias atuais.
    • Em nota esclarece-se que o termo Santo Antão é reservado, neste livro, ao personagem histórico, enquanto Antão sozinho designa a figura cuja vida está sendo narrada — distinção que se justifica porque a canonização ocorreu muito depois.
    • Citação — Ferdinand Lot, em seu Fim do Mundo Antigo, afirma que a hagiografia foi, em seus primórdios, uma forma inferior de literatura, próxima do atual romance em folhetim.
  • Admitir o propósito edificante das Vidas de santos não implica negar-lhes parcela de história ou de verdade, da mesma forma que ninguém duvida da existência de Pitágoras ou dos sofistas gregos, ainda que suas vidas, narradas por Jâmblico e Eunápio, contenham desproporcional dose de maravilhoso e fantástico; tudo indica que Antão de fato existiu, tendo empreendido duas viagens a Alexandria e tomado posição contra a heresia ariana, fatos confirmados por outras fontes, embora o personagem histórico — um copta sem instrução, mas dotado de grande sabedoria e inteligência, cuja vida ascética no deserto impressionou os contemporâneos e levou Atanásio a escrever sobre ele — tenha pouco em comum com a figura da Vida, cuja proporção de verdade histórica só pode ser estimada a partir do próprio texto e dos detalhes obscuros e involuntários que permitem reconstituir a verdadeira trajetória daquele que os sinaxários chamariam de Estrela do Deserto.
  • O chamado do deserto no século quarto consistia, em sua forma mais simples, em ouvir alguém dizer “Parte para o deserto!”, apelo que podia vir da multidão, de um amigo ou da própria voz de Deus, sendo sempre uma voz ouvida e obedecida.
    • Esse sentido concreto do termo chamado explica por que certas expressões do Evangelho tiveram papel tão importante na vida dos primeiros cristãos, sentidas como apelo pessoal dirigido a cada um, sobretudo entre os milhares de camponeses coptas iletrados convertidos ao cristianismo, para quem as palavras de Jesus eram a própria voz de Jesus falando a eles.
    • Cita-se que os grandes eremitas — Antão, Pacômio e Paulo de Tebas — partiram para o deserto como resultado direto de uma frase dos Evangelhos na qual Jesus falava diretamente a eles.
  • Certo dia, na igreja, Antão ouviu a voz de Jesus dizer “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, depois vem e segue-me”, momento em que era ainda jovem, tendo nascido cerca de vinte anos antes, por volta de 251, numa aldeia do Médio Egito chamada Coma, perto de Heracleópolis, filho de família cristã rica.
    • Citação traduzida — “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, depois vem e segue-me.”
    • Observa-se que os dois fundadores do anacoretismo e do monaquismo egípcios, Antão e Pacômio, pertenciam a estratos sociais bem situados, e foi justamente por serem ricos que se mostraram sensíveis a essas palavras.
    • Após a morte recente dos pais, Antão vendeu seus bens, distribuiu a riqueza entre os pobres, reservou pequena soma para a irmã mais jovem e voltou as costas ao mundo, dando início à experiência de solidão e ascetismo.
  • No início tratou-se de experiência apenas parcial, pois Antão não partiu de imediato para o deserto, fixando-se primeiro num local próximo à sua aldeia natal, junto a um ancião que praticava o ascetismo havia muitos anos, conforme a tradição corrente segundo a qual, nos primeiros séculos, homens e mulheres exerciam o ascetismo em suas próprias casas ou nas proximidades de suas vilas, às vezes reunindo-se em pequenos grupos ascéticos.
    • Como o ascetismo era tanto disciplina mental quanto exercício físico, todo principiante colocava-se sob a orientação de um ascético mais experiente, costume que, sem ser regra, traduzia hábito significativo: era preciso obedecer a outros antes de reclamar obediência somente a Deus.
  • Durante o tempo em que seguiu as ordens do ancião, Antão sofreu suas primeiras tentações, bem mais comuns — para não dizer ligeiras — em comparação às que experimentaria depois no deserto, sendo que tudo o que se sabe hoje sobre essas tentações provém de relatos de segunda mão saídos da pena de Atanásio, já que, com excessão de uma carta, não resta texto autêntico de Antão, situação análoga à de Platão e Sócrates.
    • Atanásio, grego e bem mais culto que Antão — que jamais estudara literatura ou filosofia pagãs —, conheceu Antão durante sua primeira estadia nos desertos da Tebaida, quando viveu junto dele, sendo provável que Antão lhe tenha falado de seu ascetismo, suas lutas e sua experiência de solitário, ainda que seja praticamente impossível recuperar tais relatos a partir da Vida escrita por Atanásio.
    • Em nota questiona-se por que Atanásio não teria escrito em copta, caso de fato conhecesse essa língua, já que uma passagem da Vida de Pacômio mostra que suas cartas festivas foram traduzidas para o copta para serem lidas nos mosteiros.
    • A formação e a personalidade de Atanásio, somadas aos objetivos aretológicos da obra, constituem obstáculos ao conhecimento do Antão real.
  • Antão não havia rompido completamente com a sociedade, recebendo visitas e indo ele próprio visitar ascetas vizinhos, o que explica a natureza de suas tentações: o Diabo lhe recordava os bens deixados, o cuidado devido à irmã, o orgulho de linhagem, o amor às riquezas e os prazeres da vida, além de lhe apontar as dificuldades imensas do exercício da virtude, a fraqueza da carne e os muitos anos ainda por viver, criando assim uma nuvem de pensamentos em sua mente.
    • Citação traduzida da Vida de Antão por Atanásio, na tradução de Arnauld d'Andilly — o Diabo recordava-lhe os bens que deixara, o cuidado devido à irmã, o orgulho de raça e o amor às riquezas, os prazeres da vida, além das dificuldades e penas da virtude, da fraqueza da carne e dos longos anos a viver, formando uma nuvem de pensamentos em seu espírito.
    • Essa nuvem permanecia como remorso ou arrependimento contínuo, e o Diabo era apenas uma voz familiar e vibrante ouvida pelo asceta dentro de si mesmo, misturando-se a seus pensamentos e impelindo-o ao retorno à sociedade — razão pela qual decidiu deixar o ancião e enterrar-se mais profundamente na solidão do deserto.

A experiência das trevas

  • A pergunta sobre por que o deserto pode parecer absurda à primeira vista, já que, fora das proximidades imediatas do Nilo, o Egito era uma vasta solidão, e quem se afastava da vida das cidades via-se inevitavelmente reduzido a viver no deserto — como já ocorria, na época romana, com camponeses, escravos e criminosos que fugiam das áreas habitadas para escapar do trabalho forçado, dos impostos, dos senhores ou da justiça, ainda que sua permanência ali fosse apenas transitória — mas, no caso de Antão, a partida significava algo bem distinto, pois não era tanto a realidade concreta do deserto que o atraía, e sim sua realidade simbólica.
Search
primal/antonius/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1