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Mestre Pai Guia

Logia Jesus (Mt 23,8-10)

VIDE: Genealogia de Jesus Cristo

Titus Burckhardt: Verbo de Seth

Na sua “Divina Comédia”, Dante faz Adão dizer, que lhe explique sua visão intemporal da natureza dos seres em Deus: “Porque a vejo no espelho verídico que faz dele mesmo o paredro das outras coisas, e que nenhuma coisa só faz de si o paredro”.

Michel Henry: EU SOU A VERDADE

É com uma extrema violência, como cada vez, dizemos, que fala dele mesmo, que o Cristo rejeita a ideia de uma genealogia humana, quer dizer mundana, o concernindo. Esta genealogia pode ser dita mundana posto que é no mundo que os homens interpretam sua própria genealogia. É no mundo que ela aparece como “humana”, cada homem se propondo ao mesmo tempo como o Filho daquele que o precede e como o pai daquele que o segue. Assim a compreensão de sua condição de filho se faz para cada homem a partir daquela de seu próprio pai, condição que será mais tarde a sua. Mostremos de imediato porque esta genealogia humana-mundana é absurda. Ser pai, com efeito, quer dizer — se pelo menos queremos atribuir a este termo seu sentido próprio — dar a vida. Somente cada um destes pais humanos, que se diz ou que se crê pai, é primeiramente um vivente: está na vida, longe de poder a dar ou se dar ela a si próprio. Vivente, que seja aparecendo como filho ou como pai, ele depende da vida. Dar a vida, só o pode a vida ela mesma, nenhum vivente está em Medida de o fazer, ele que, longe de dar a vida, a pressupõe constantemente nele. Se dizemos de Deus que é vivente, o designando por exemplo como o “Deus vivente”, é em um sentido totalmente diferente, no sentido onde, é capaz, ele, de da dar a Vida, ele não o é senão enquanto ele é de pronto capaz de se a dar a ele mesmo. No sentido onde, antes de ser vivente, ele é ele mesmo a Vida, o eterno realizar em si no qual esta se engendra eternamente ela mesma. É a este auto-engendramento da Vida, que ele chama a Vida Eterna, uma Vida que precede e que precederá eternamente todo vivente, que o Cristo dá o nome de Pai, e eis porque ele diz, na linguagem fulgurante da verdade absoluta: “Não dai a ninguém o nome de Pai, pois um só é vosso Pai, aquele do Céu” (Mt 23,9).

Henry Corbin: Homem de Luz

Deus est nomen relativum: é essa relação essencial e essencialmente individualizada que anuncia, de forma experiencial, a figura de manifestação que tentaremos reconhecer aqui sob diferentes nomes. Não se pode compreender essa relação senão à luz da sentença sufi fundamental: «Aquele que conhece a si mesmo, conhece seu Senhor». A identidade entre si mesmo e o Senhor não corresponde a 1 = 1, mas a 1 x 1. Identidade de uma essência que foi levada à sua totalidade ao ser multiplicada por si mesma, e assim colocada em situação de constituir uma biunidade, um todo dialógico cujos membros se repartem alternadamente os papéis da primeira e da segunda pessoa. Ou também, recorrendo ao estado descrito por nossos místicos: quando, no paroxismo, o amante se tornou a própria substância do amor, ele é ao mesmo tempo o amante e o amado. Mas ele próprio não poderia ser isso sem a segunda pessoa, sem o tu, isto é, sem a figura que o faz ver a si mesmo, porque é com seus próprios olhos, com os dele, que ela o olha.

Seria, portanto, tão grave reduzir a bidimensionalidade dessa unidade dialógica a um solipsismo quanto dividi-la em duas essências, cada uma das quais poderia ser ela mesma sem a outra. A gravidade do erro seria tão incômoda quanto a impotência de distinguir entre a escuridão ou a sombra demoníaca que mantém cativa a luz, e a Nuvem divina do não saber que dá origem à luz. Pela mesma razão, qualquer recurso a um esquema coletivo não pode valer senão como procedimento descritivo, para indicar as virtualidades que se repetem em cada pessoa e, por excelência, a virtualidade do eu que não é ele mesmo sem seu outro eu, sem seu alter ego. Mas tal esquema nunca explicaria, por si só, o acontecimento real: a intervenção “no presente” da Natureza Perfeita, a manifestação da “testemunha celestial”, a chegada ao polo, pois o acontecimento real implica justamente a ruptura com o coletivo, o reencontro com a “dimensão” transcendente que protege individualmente a pessoa contra as solicitações do coletivo, ou seja, contra toda socialização do espiritual.

É pela ausência dessa dimensão que a pessoa individual deca e sucumbe a tais falsificações. Pelo contrário, na companhia do shaykh al-ghayb, de seu “guia pessoal suprassensível”, ela recebe treinamento e é orientada em relação ao seu próprio centro, e as ambiguidades cessam. Ou melhor, para sugerir uma imagem mais fiel, seu “guia suprassensível” e ela mesma situam-se em uma relação análoga à que existe entre os dois focos de uma elipse.

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