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0 Introdução

BROWN, Peter. Treasure in heaven: the holy poor in early Christianity. Charlottesville: University of Virginia Press, 2016.

Dos pobres reais aos pobres santos

1. A investigação nasceu das James W. Richard Lectures proferidas na Universidade da Virgínia em novembro de 2012, dedicadas à natureza da doação religiosa no cristianismo primitivo, do tempo de São Paulo ao surgimento do monaquismo nos séculos IV e V.

2. Essas conferências brotaram de um sentimento de descoberta, pois após pelo menos dez anos de estudo sobre o uso da riqueza e as relações entre ricos e pobres no cristianismo da Antiguidade tardia, supunha-se, por volta de 2000, saber quem eram os pobres e quais as relações adequadas entre ricos e pobres nas comunidades cristãs, isto é, que todo cristão, e sobretudo todo cristão rico, devia gastar parte de sua riqueza no sustento dos pobres por meio da esmola, prática fundada nas palavras claras de Jesus Cristo sobre dar aos pobres para ter um tesouro no céu.

3. Os dois livros sobre o tema, Poverty and Leadership e Through the Eye of a Needle, escritos entre 2000 e 2012, concentraram-se na medida em que os ricos corresponderam ao desafio de Cristo, nas instituições desenvolvidas para o cuidado dos pobres, nas circunstâncias que levaram a iniciativas caritativas nas comunidades cristãs e nos problemas práticos e ideológicos que a nova ênfase cristã na esmola aos pobres suscitou na sociedade romana tardia como um todo.

4. A leitura de outras fontes cristãs e da história de regiões não cristãs, sobretudo a sociologia do budismo, revelou a importância de outra categoria de pobres, os pobres santos, que recebiam esmolas e outras formas de sustento não por serem pobres no sentido econômico, mas num sentido mais intangível e religioso, por terem abandonado seus meios habituais de subsistência para perseguir os fins mais elevados da vida cristã, deixando de trabalhar e dependendo, em muitos casos, tanto do trabalho e dos dons dos cristãos piedosos quanto qualquer mendigo.

5. Os pobres santos tinham longa história e já existiam no tempo de São Paulo, que não só fazia coletas para os pobres entre os santos de Jerusalém, como discutia ferozmente em que medida apóstolos e outros líderes, como ele próprio, podiam reivindicar o sustento das comunidades cristãs locais.

6. As cartas de Paulo eram inconclusivas nesse ponto e legaram a todas as gerações cristãs seguintes um dilema não resolvido, pois de um lado os cristãos posteriores julgavam que ele estabelecera para a comunidade de Tessalônica a regra estrita de que quem não quer trabalhar não coma, e de outro ele próprio insinuara em outras cartas que certos fiéis especiais, por seu alto grau de compromisso religioso, tinham direito a ser alimentados pelo trabalho alheio, como ao perguntar aos coríntios se seria demais colher bens materiais de quem semeara bens espirituais.

7. Os estudiosos modernos do Novo Testamento julgam ter resolvido o dilema atribuindo a Segunda Carta aos Tessalonicenses não a Paulo, mas a discípulos desejosos de esclarecer uma ambiguidade que o mestre não enfrentara, mas os primeiros cristãos não dispunham dessa saída fácil, pois para eles Paulo era inequivocamente São Paulo e todas as cartas a ele atribuídas exprimiam sua mente singular empenhada em comunicar uma única mensagem apostólica, de modo que, tendo ele falado com duas vozes sobre o trabalho e os pobres santos, cabia aos bons cristãos conciliá-las, e as permutações dessas duas vozes, a do Paulo que reivindicava sustento material para sua alta empresa e a da Segunda Carta aos Tessalonicenses, entrelaçaram-se como numa fuga nos escritos de todos os cristãos do período, permanecendo as tensões por elas criadas tão desafiadoras para a imaginação religiosa no século V quanto no I.

8. Os pobres santos ainda existiam, e em número cada vez maior, quatro séculos depois de Paulo, quando o movimento monástico das províncias orientais do Império Romano encheu a paisagem de figuras santas, muitas das quais, embora não todas, haviam abandonado o trabalho por uma vida de contemplação e oração em favor dos outros, e surgiram mosteiros e conventos cujos membros ora se orgulhavam de sustentar-se a si mesmos, ora de ser inteiramente sustentados pelos dons dos fiéis.

9. Entre Paulo e o surgimento do monaquismo, nos séculos II e III, a Igreja cristã enraizou-se firmemente na sociedade romana em grande parte porque seus bispos e clérigos também se apresentavam como membros dos pobres santos, esperando ser libertados total ou parcialmente do trabalho comum pelo sustento dos fiéis para seguir carreiras eclesiásticas de tempo integral como pregadores, mestres e administradores da riqueza da Igreja em favor dos pobres reais, de modo que a chamada profissionalização do clero repousou na decisão de tratá-lo como uma espécie particular de pobres, sustentados como os pobres pelas ofertas voluntárias dos fiéis.

10. Os pobres santos não eram os pobres merecedores, qualificados para o sustento por não serem preguiçosos, distinção que cristãos e judeus faziam frequentemente para separar os merecedores dos mendigos fraudulentos e avessos ao trabalho, mas uma categoria inteiramente diversa, que precisava estabelecer suas reivindicações, frequentemente contestadas desde São Paulo, mas que, uma vez aceitas, conferiam a seus membros, homens e mulheres, uma qualidade numinosa, tratados como pessoas que recebiam sustento material em troca de benefícios imateriais incomensuráveis, ensino, pregação e oração, formando uma elite cujo sustento, tanto quanto o dos pobres reais, depositava tesouro no céu.

11. A categoria dos pobres santos suscitava um problema agudo para a imaginação religiosa, pois eram inevitavelmente mais proeminentes que os pobres reais e destacavam-se como mediadores entre os fiéis médios e Deus, julgando-se que os dons a eles traziam salvação e bênção de modo mais direto e palpável que a recompensa igualmente misteriosa, mas mais sombria e difícil de focalizar, do tesouro no céu prometido aos que davam esmola aos pobres reais, que não tinham rosto como os pobres santos tinham.

12. Não surpreende que um movimento religioso produza uma classe proeminente de virtuosos e administradores com direito a sustento especial, mas o distintivo do cristianismo desse período foi o modo como as reivindicações dos pobres santos trouxeram ao primeiro plano uma questão explosiva para toda a sociedade romana, a questão do trabalho.

13. O sustento dos pobres santos lançava dúvida sobre um dos alicerces da sociedade romana, o próprio trabalho, levando a perguntar se ele era parte inescapável da condição humana ou apenas efeito triste da queda da humanidade, resultado de um declínio abrupto de uma era de abundância e ócio despreocupado para um mundo de labuta, e se, nesse caso, seria possível reverter o estado decaído de uma humanidade condenada ao trabalho para libertar uns poucos privilegiados capazes de elevar-se a coisas mais altas sustentados pelo trabalho alheio.

14. Não se tratava de questão abstrata, pois no mundo antigo o ócio, a liberdade do trabalho, era privilégio ciosamente guardado das elites, que desde o século I se viram confrontadas com um movimento cristão que, em nome da religião, libertava toda uma categoria de pessoas normalmente presas à labuta, pessoas inquietantemente ativas que construíam comunidades, pregavam, percorriam as estradas e levavam a milhares as bênçãos do ensino, da oração e da cura, o que podiam fazer como pobres santos por terem sido libertadas do trabalho pelas contribuições da maioria dos fiéis, para quem o trabalho continuava necessidade inevitável.

15. Os debates sobre o papel do trabalho na sociedade humana explodiram assim com veemência, tenacidade e sofisticação fascinantes, deixando ouvir o gemido abafado de toda uma sociedade presa às labutas do trabalho, tema que pode ser seguido dos inícios da civilização no antigo Oriente Próximo aos últimos séculos do Império Romano, dos mitos e da literatura sapiencial da antiga Mesopotâmia, nos terceiro e segundo milênios a.C., passando pelos Trabalhos e dias de Hesíodo, até a exegese da queda de Adão e Eva no Éden feita pelos ascetas sírios do século V.

16. Trata-se de um tema que atravessa de ponta a ponta a história da Igreja cristã e une as épocas numa tensão comum, a de quanto da riqueza dos cristãos devia ir aos pobres reais e quanto aos pobres santos, e o estudo histórico das finanças e do impacto social da Igreja concentrou-se em grande parte no cuidado dos pobres reais, tema ao qual uma viva tradição erudita recente já começou a fazer justiça, estudando muito bem a pobreza, a esmola e a noção de pobre nos meios cristãos, mas um estudo completo do uso cristão da riqueza na Antiguidade tardia deve incluir também as exigências de outro segmento vivo da comunidade cristã, os pobres santos, pois, como as correntes de um grande rio, as duas águas, os pobres reais e os pobres santos, misturaram-se ao longo dos séculos em todos os debates sobre a doação religiosa nos meios cristãos.

Rumo ao Oriente: um Império Romano grego

1. Esse tema conduz a uma região do mundo romano pouco frequentada nos estudos da última década sobre riqueza e pobreza, concentrados no Ocidente latino, como Through the Eye of a Needle e The Ransom of the Soul, sem sobreposição geográfica com a presente investigação, que se desloca para o chamado Oriente grego, expressão simplificadora, já que a Antiguidade tardia viu emergir línguas e tradições culturais não gregas em grandes regiões do Oriente romano, mas útil para distinguir as partes orientais do império, onde, com exceções significativas, o grego era a língua dominante do governo e da cultura, do mundo latino do Ocidente.

2. Na Antiguidade tardia Oriente e Ocidente tornaram-se efetivamente dois mundos diferentes, com ritmos de mudança muito distintos, pois na Europa Ocidental o império declinou e caiu, a terrível revolução de que tratou Edward Gibbon em sua História do declínio e queda do Império Romano, mas o estudo das províncias orientais mostra que essa revolução se restringiu à Europa Ocidental, que então não era o centro do mundo, e que, vista do Oriente, a queda de Roma no Ocidente ocorreu num canto distante do noroeste da Eurásia, sem afetar muito os antigos centros da civilização, ainda firmemente estabelecidos no Mediterrâneo oriental e no Oriente Médio, onde a terrível revolução tão melancolicamente considerada pelos europeus ocidentais não aconteceu.

3. O que importava no Oriente grego era a revolução romana tardia do governo, que criou nas províncias orientais um sistema imperial notavelmente estável, dos Bálcãs ao Cáucaso e até as cataratas do Egito, que duraria até as invasões árabes do século VII, de modo que, enquanto as províncias ocidentais entravam numa fase pós-imperial sob domínio bárbaro, as orientais gozavam de uma pax Byzantina, uma paz romana oriental tão segura, tão sustentada pela expansão econômica e aparentemente tão imutável quanto a pax Romana da época de Marco Aurélio.

4. Um Império Romano ainda inseguro em seu controle das províncias orientais no tempo de São Paulo continuava lá, ampliado e solidificado, quase quatrocentos anos depois, quando Simeão Estilita, o grande eremita cristão, subiu em sua coluna à vista da antiga estrada romana, parcialmente conservada, que ligava Antioquia à fronteira persa, de modo que, quanto ao quadro imperial dos acontecimentos estudados, o tempo parecia ter parado.

5. O mesmo não ocorreu com a sociedade romana oriental, que evoluiu rapidamente e com confiança crescente, criando um mundo muito diferente do clássico, pois após a grave crise de guerra civil e invasões bárbaras do século III o império recuperou-se definitivamente no Oriente, cujo sinal mais duradouro foi a fundação de Constantinopla em 324 por Constantino, cidade de Constantino destinada a marcar a abertura de uma nova era ligada ao primeiro imperador cristão, mas que foi mais que um capricho imperial, pois o estabelecimento de uma grande cidade no ponto em que as estradas da Europa passavam à Ásia e o mar Negro desaguava no Mediterrâneo validou uma revolução silenciosa e irreversível, o deslocamento do centro de gravidade do mundo romano para o Oriente, sendo Constantinopla chamada de Nova Roma, uma Roma próxima dos habitantes das províncias orientais, para os quais a velha Roma logo saiu de vista, restando a única Roma que conheciam ou precisavam conhecer.

6. Quem se volta para o Oriente encontra novidades estimulantes, pois o trabalho paciente dos arqueólogos em todo o Mediterrâneo oriental e no Oriente Médio mostrou que muitas regiões do império da Nova Roma conheceram marcado crescimento agrário e maior intercâmbio comercial, e em particular que as paisagens do Egito e da Síria onde explodiu o movimento monástico cristão eram prósperas, maré crescente de prosperidade que deu ao Império Romano uma segunda vida no Oriente, de modo que, quando o império da velha Roma começava a vacilar no Ocidente, os provinciais do Oriente haviam criado o que Fergus Millar chamou com pertinência de Império Romano grego.

Do Mediterrâneo a um terceiro mundo: Síria e Egito

1. O estudo dos pobres santos conduz primeiro às comunidades cristãs estabelecidas em torno do Mediterrâneo, no Egeu, em Roma, em torno de Antioquia e em Cartago, pois a constituição de um clero profissional e de uma tradição de mestres cristãos sustentados pelos leigos como membros dos pobres santos deu-se sobretudo nas cidades mediterrâneas dos séculos II e III, coincidindo com a crise imperial do século III e as perseguições conexas à Igreja.

2. Já no fim do século III, porém, o horizonte se amplia, pois o fim do século III e os séculos IV e V viram o surgimento do movimento ascético em regiões não mediterrâneas, a Síria e o Egito, entendendo-se por Síria não apenas o território do Estado moderno, mas uma grande região cultural do Oriente Médio que se estendia das colinas do leste da Turquia e do norte do Iraque até a Jordânia, Israel e a Palestina, regiões que ofereceram um novo cenário dramático para uma questão antiga, já que foi entre os santos homens da Síria em sentido amplo e os monges do Egito que as questões do trabalho e dos pobres santos levantadas nas cartas de São Paulo se desenrolaram em sua forma final e mais dramática, resumível na pergunta de se os monges deviam trabalhar.

3. Impressiona a continuidade com o passado cristão primitivo das questões tão debatidas nas primeiras fases do movimento ascético, pois a literatura monástica do Egito e da Síria e de outros grupos cristãos radicais devolve como numa dobra do tempo aos dias de São Paulo, citado por cada lado em apoio à sua posição, trabalhar ou não trabalhar, citações que não eram meros textos-prova tirados ao acaso das cartas do Apóstolo, mas condensavam pontos de tensão que remontavam diretamente aos primeiros dias da Igreja e ainda não estavam resolvidos no tempo dos primeiros monges, para os quais Paulo estava vivamente presente não como autoridade distante, mas porque as questões que enfrentara continuavam presentes em suas comunidades.

4. Nenhuma barreira, como a que as periodizações correntes da história da Igreja levam a imaginar, separara as igrejas orientais dos séculos IV e V dos problemas enfrentados nos dias de São Paulo e da Igreja primitiva, pois ao longo dos séculos I, II e III Paulo e seus muitos sucessores mantiveram em evidência a questão do trabalho e dos pobres santos, que nos séculos IV e V, de questão quente, tornou-se novamente incandescente por serem maiores os riscos, já que em todo o Egito e o Oriente Médio o movimento monástico ficou por um momento suspenso, indeciso sobre se monges e monjas, novos e destacados membros dos pobres santos, deviam trabalhar para viver ou se, como os monges budistas do norte da Índia, da Ásia Central e do oeste da China, deviam viver inteiramente das esmolas dos piedosos.

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