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e:caputo:1982:2

2 Crítica

CAPUTO, John D. Heidegger and Aquinas: an essay on overcoming metaphysics. New York: Fordham University Press, 1982.

A CRÍTICA DE HEIDEGGER À ESCOLÁSTICA

1. Por volta de 1927 tudo havia mudado, o diálogo com a escolástica fora interrompido e o autor maduro de Ser e Tempo emergira, e com efeito, após o aparecimento dessa obra, cresceu a impressão popular de que Heidegger era ateu, parecendo então que seus primeiros estudos na escolástica pertenciam a um background católico simplesmente abandonado, de modo que, ao atingir a maturidade, Heidegger parecia ter rejeitado não só a escolástica mas o próprio cristianismo.

2. Mas de fato a impressão popular fora apressadamente tirada, pois o período de Marburgo, a estada de Heidegger em Marburgo de 1923 até seu chamado a Friburgo em 1928, foi um tempo de intenso diálogo com a teologia de Marburgo, com Tillich, Bultmann e Otto, para nomear os mais proeminentes, e o próprio Heidegger não considerava seu trabalho de modo algum ateu, pelo contrário, ao lançar um fundamento fenomenológico-ontológico para a teologia, entre outras ciências positivas, Ser e Tempo, como toda investigação fenomenológica, apenas pusera a questão de Deus e da imortalidade entre parênteses, o que se vê com perfeita clareza em Fenomenologia e Teologia, conferência que Heidegger deu no fim do período de Marburgo.

3. Heidegger não veio a rejeitar o cristianismo no período de 1916 a 1927, antes se afastara de suas preocupações lógicas para as existenciais, isto é, viera a ver os fundamentos de todos os problemas lógicos numa analítica existencial, e se afastara de um diálogo com a escolástica católica para um diálogo com Lutero e Kierkegaard, sendo o objetivismo desinteressado da escolástica rejeitado em favor de investigações existenciais-fenomenológicas concretas.

4. Isso quer dizer que o problema do Ser para Heidegger não era mais o problema do Ser do significado, claramente a preocupação de 1912-1916, mas o problema do significado do Ser, argumentando Heidegger agora, em conformidade com o método transcendental que lhe é singular, que o significado do Ser só pode ser investigado por meio de uma analítica existencial que elabore a compreensão implícita do Ser embutida na totalidade da vida concreta do Dasein.

5. A doutrina das categorias tornou-se agora o nome de uma teoria de apenas um tipo de Ser, a presença objetiva (Vorhandensein), mas deixou inteiramente intocada uma esfera totalmente diferente do Ser, e de fato mais radical, a dos existenciais, que só podia ser pesquisada por uma analítica existencial, compreendendo a ontologia tradicional e a lógica das categorias a ela associada o Ser em termos de presença objetiva, algo que a tradição toma como evidente por si, sendo a tarefa que Heidegger se propôs em Ser e Tempo levantar essa questão de novo, pondo tudo o que é evidente por si em questão, e encontrar a pista para a solução dessa questão na própria vida existencial concreta do Dasein.

6. E assim o Heidegger de 1927 tornou-se um crítico da escolástica não porque fosse ateu, mas porque rejeitara o ponto de vista intelectualista comum à escolástica e ao primeiro volume das Investigações Lógicas, parecendo-lhe que a preocupação com a plenitude da vida que encontrou em pensadores como Dilthey, Nietzsche, Agostinho, Lutero e Kierkegaard tocava fundamentos mais profundos do que seus estudos anteriores em teoria lógica, estando Heidegger em busca de um novo logos que tomasse o lugar de toda a lógica e logística.

7. Mas mesmo sua crítica da escolástica evoluiria de acordo com a dinâmica dos períodos inicial e tardio, pois em 1928 Heidegger deu uma série de conferências sob o título Die Grundprobleme der Phänomenologie, e então nas conferências sobre Nietzsche de 1943 retomou a metafísica da idade escolástica, avaliando-a de um ponto de vista mais distintamente pós-fenomenológico, ou o que se chamará aqui de aleciológico, havendo diferenças importantes nessas críticas, que serão tratadas separadamente, vendo-se agora o que esse pensador, que uma vez tentou uma maneira fundamentalmente nova de tratar a escolástica medieval, esse antigo parceiro no diálogo com a escolástica, toma agora como a falha básica da metafísica escolástica.

8. O pensamento de Heidegger está a essa altura explicitamente entregue a levantar a questão do Ser, e a discussão da metafísica escolástica ocorre no contexto de uma investigação sobre quatro teses sobre o Ser, as de Kant, da escolástica e da época moderna, e o is copulativo da lógica, sendo interessante ver como todas as quatro teses já estavam em questão para Heidegger em 1912-1916, quando debatia a importância de Kant, o diálogo com a escolástica, o problema moderno da realidade e a ideia de que o Ser (Sein) significa validade (Gelten), suspeitando-se haver consideravelmente mais continuidade entre os primeiros dias de 1912-1916 e o período de Marburgo do que ordinariamente se acredita.

9. O problema básico da fenomenologia, diz ele, é o problema do Ser, isto é, de formular um conceito explícito do Ser como o a priori básico que jaz atrás de todas as ciências fáctico-positivas, o que significa que a fenomenologia, que é ontologia, deve aprender a pensar a diferença ontológica, a diferenciação ou cisão (Scheidung) básica entre Ser e entes, sendo assim a ontologia uma ciência transcendental que deve transcender os entes para o próprio Ser.

10. Heidegger aqui tenta fundir o sentido aristotélico clássico de transcendental, como aquilo que transcende todos os gêneros, com o sentido moderno, pois o Ser deve ser encontrado na compreensão transcendental-horizontal do Ser do próprio Dasein, nomeando assim a fenomenologia o método da filosofia enquanto a ontologia nomeia seu conteúdo, e, como método, a fenomenologia faz uso de uma redução dos entes ao Ser, de uma construção que projeta positivamente os entes em termos do tipo de Ser que lhes é apropriado, e de uma destruição na qual deve desconstruir a compreensão média do Ser que ameaça a presente investigação em seu esforço de ser verdadeiramente radical.

11. Dados esses pressupostos, todos encontráveis em Ser e Tempo ainda que não com essas palavras, Heidegger passa então a formular as quatro teses sobre o Ser que o curso investigará, a tese de Kant de que o Ser não é um predicado real, a tese medieval de que o Ser se articula em essentia e existentia, a tese moderno-cartesiana de que há dois modos de Ser, res cogitans e res extensa, e a tese da lógica de que o Ser significa a cópula é, sendo cada tese desconstruída e aproveitada em termos das origens mais primordiais que nela se ocultam.

12. Cada uma será exposta como uma espécie de esquecimento do Ser no qual a verdadeira diferença entre Ser e entes é obscurecida e o fundamento de toda investigação sobre o Ser numa ontologia fundamental da compreensão do Ser do Dasein é esquecido, sendo essa acusação feita contra todas as quatro teses e aplicando-se não menos à escolástica do que a Kant.

13. Não serve aos propósitos investigar todas as quatro teses, mas vale deter-se por um momento para considerar brevemente a exposição de Heidegger da tese de Kant, pois ela está, como ele corretamente indica, estreitamente ligada à tese escolástica, ocorrendo a tese de Kant, de que o Ser não é um predicado real, no contexto de uma prova da existência de Deus.

14. A chave da posição de Kant, segundo Heidegger, está em ver o que Kant entende por real, significando real, vindo do latim res, uma coisa no sentido da palavra alemã Sachgehalt, palavra que poderia ser traduzida por conteúdo ou talvez conteúdo substantivo, significando portanto real algum tipo de determinação do conteúdo do ente, sendo um ente real na medida em que é possuído de alguma determinação ou conteúdo, o que em termos escolásticos quer dizer que real significa essencial, pertencente à essência.

15. Quando Kant chama Deus de ens realissimum, está dizendo que Deus é o ente com o conteúdo mais rico, aquele ente no qual nenhuma determinação positiva falta, e agora, sustenta Kant, a existência não é um predicado real, o que significa que a existência não significa nada que pertença à ordem do conteúdo ou determinação da coisa, sendo o conceito de Deus o conceito de um ente que nada lhe falta em termos de conteúdo, mas que não existe por isso só, não significando a existência nenhum acréscimo ao conteúdo ou determinação de uma coisa, mas que um ente de tal e tal conteúdo é ou existe, significando o fato de existir e o pôr (Setzen) de tal coisa, não se podendo deduzir a existência, portanto, da ideia de um ente que não carece de nenhuma perfeição positiva na ordem do conteúdo, à maneira do argumento ontológico.

16. Essa posição oferece um paralelo interessante com a escolástica, pois Tomás de Aquino, que igualmente rejeita o argumento ontológico, dirá muitas vezes que, embora o ens derive do esse, a res denota a essentia (In I Sent., d. 8, 1, 1), não pertencendo nem o ens nem o esse à ordem da essência, e não sendo o esse um predicado real.

17. Heidegger mesmo, porém, não está plenamente ciente, pensa-se, da extensão da rejeição tomista do argumento ontológico, pois ele corretamente aponta que a objeção de Tomás ao argumento anselmiano não é que o esse não pertença à ordem da essentia, mas antes que não conhecemos a essência de Deus, o que implica para Heidegger que o argumento falha apenas por algum tipo de falha contingente do intelecto humano, dizendo ele de Tomás que, se a mente humana pudesse conhecer a definição de Deus, então se poderia de fato deduzir Sua existência de Sua essência.

18. Mas não é isso que Tomás está dizendo, pois para Tomás conhecer Deus de algum modo outro que não por uma definição nominal e imperfeita implicaria estarmos em posição de ter um conhecimento intuitivo de Sua essência, que de fato é um ato subsistente de existência (ipsum esse subsistens), mas isso nada tem a ver com encontrar o esse como um dos predicados na essência divina, pois, se pudéssemos contemplar o ser divino, não encontraríamos que o esse é um predicado, antes contemplaríamos imediatamente, numa visão intuitiva, o próprio esse de Deus, caso em que não precisaríamos de prova alguma da existência de Deus, e certamente não da prova ontológica, não se pensando que Heidegger aprecie de todo a qualidade existencial da doutrina tomista do esse e o abismo que a separa do argumento ontológico.

19. A tese de Kant está ligada à tese medieval, pois, como se acabou de ver, sua realitas corresponde à essentia medieval, e assim sua tese, como grande parte da filosofia moderna, remonta à metafísica medieval e depende da distinção entre essentia e existentia elaborada na ontologia medieval, falando Heidegger da distinção medieval como a articulação do Ser em essência e existência.

20. Ele tem em mente aqui sua própria diferença ontológica entre Ser e entes e está apontando que a distinção escolástica cai inteiramente de um lado de sua diferença ontológica, o que, diagramaticamente, mostra Heidegger de um lado com Ser e entes e os escolásticos do outro com essentia e existentia (hoc ens).

21. Como Heidegger aponta, a distinção entre realitas, isto é, essentia, e existentia não coincide com a diferença ontológica, pertencendo antes ao lado de um membro da diferença ontológica, o que significa que nem realitas nem existentia são um ente, sendo antes as duas juntas que compõem a estrutura do Ser, articulando a distinção entre realitas e existentia o Ser mais precisamente em sua constituição essencial.

22. A falha da escolástica em formular explicitamente uma diferença ontológica é em última instância decisiva para Heidegger, como se verá, pois em vez da diferença ontológica os escolásticos ocuparam-se em mostrar a diferença teológica entre Deus e as criaturas, entre o ente no qual essência e existência são idênticas e os entes nos quais são distintas, sendo o mesmo verdadeiro de Kant, que igualmente elaborou sua tese sobre o Ser no contexto de Deus e tomou Deus como o ente no qual essência e existência são idênticas, tendo a filosofia primeira sido sempre ao mesmo tempo teologia.

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