Utopia

LUGAR — BREVE INCURSÃO SOBRE A IDEIA DE UTOPIA

VIDE: O NÃO-LUGAR
Utopia e Novo Mundo
Akasha Grant e Murilo Cardoso de Castro

O Ocidente empreendeu, não apenas a descoberta de um Novo Mundo, mas um retorno às suas origens além das águas primordiais do oceano. Desde a Idade Média viajantes tinham recolhido e reproduzido os ecos de um reino fabuloso se estendendo do Oceano ao Nilo: o reino do Preste João onde viviam os primeiros cristãos salvos do pecado original, herdeiros da Promessa Divina.

Segundo outras tradições, os Reis magos tinham sido recompensados por sua fidelidade em Belém com reinos que se estendiam às fronteiras do Paraíso terrestre: Melquior com a Pérsia, Gaspar com a Etiópia, Baltazar com a Arábia.

Na década de 1480, o rei de Portugal enviou expedições à África, com emissários à busca do Reino do Preste João. Esta peregrinação às origens do Ocidente, às fontes do Tigre e do Eufrates, tinha também uma meta muito concreta: descobrir novos cristãos com os quais fosse possível estabelecer um bom comércio e se formalizar acordos contra os muçulmanos.

Foi neste contexto ideológico que chegando às margens do Novo Mundo, Cristóvão Colombo tinha a certeza de estar alcançando a Terra prometida do Antigo Testamento, não longe do Paraíso terrestre. Tão grande era sua convicção da empreitada que iria realizar, que ele havia até escolhido para acompanhá-lo, Rodrigo de Jerez, um judeu convertido que conhecia muito bem o hebreu e o aramaico, línguas que certamente deveriam se faladas pelos habitantes da Terra prometida, do Éden reencontrado.

O navegador “estava convencido que a profecia concernente à difusão do Evangelho sobre toda terra deveria ser realizada antes do fim do mundo.” Ora, para ele isto não estava longe de acontecer. Em seu Livro das Profecias, Colombo afirmava que este evento seria precedido pela conquista do Novo Continente, pela conversão dos pagãos e pela destruição do Anticristo. Assim sendo, a exploração geográfica se situa claramente no prolongamento de uma tradição apocalíptica, que fará do Novo Mundo a Terra Prometida pelas profecias .

A razão pela qual a fascinação obstinada por uma rota ocidental na direção das Índias, deve estar relacionada à uma geografia simbólica originada da mesma tradição. Mircea Eliade, mostrou muito bem como a era dos grandes descobrimentos foi caracterizada também pelo retorno de um simbolismo solar, por intermédio do hermetismo, transmitido ao humanismo por Marsílio Ficino, entre outros, e veiculado, ampliado pelo heliocentrismo de Copérnico e Galileu.

Este simbolismo solar relaciona portanto intimamente nos espíritos cultos da época a busca de Deus, o futuro de sua Igreja, à orientação ocidental. A viajem para o sol poente se torna então a via iniciática de realização da profecia.

Suas primeiras cartas descrevem em tom idílico a bondade natural, infantil dos habitantes deste paraíso. Eles são pacíficos, hospitaleiros, confiantes, uma vez acalmados seus medos pueris. Como eles ignoram a cobiça e a propriedade privada, sua sociedade não têm nenhum sistema econômico. A igualdade absoluta reina, os bens que eles possuem em comum são suficientes às necessidades de todos.

Mais tarde, este tema vai dar origem ao mito do “bom selvagem”, pois a beleza física dos índios deveria estar acompanhada de uma natureza nobre: uma espécie de pureza primitiva próxima da inocência infantil. Como no lembra Mircea Eliade (1957), citando um etnólogo italiano, G. Cocchiara, “antes de ser descoberto o selvagem foi inventado”.

Com efeito, o imaginário renascentista inventou um tipo de “bom selvagem” na medida de suas novas preocupações morais, políticas e sociais. No contato com civilizações tradicionais, ou melhor, no relato dos navegadores sobre estes contatos se basearam diferentes especulações filosóficas sobre a descoberta do Outro, do Novo, do Maravilhoso. Ideólogos e utopistas se encantaram com os “selvagens”, com seu comportamento familiar, social e econômico.

Entretanto, essa “invenção do selvagem”, na aurora da Modernidade, já sinalizava a revalorização, desta feita secularizada, de um mito muito mais antigo: o mito do Paraíso terrestre e de seus habitantes nos tempos fabulosos que precederam a História. Segundo Mircea Eliade deveríamos falar de uma “recordação mitificada” de uma imagem exemplar do homem, em lugar de uma “invenção do selvagem”.

O “bom selvagem” guardava uma semelhança com certos modelos da Antiguidade clássica, assim como com personagens da Bíblia. A imagem mítica do “bom selvagem”, do “homem natural”, mais além da história e da civilização, renovada nos relatos dos viajantes e na prosa dos pensadores renascentistas, relançou o mito da “Idade de Ouro”. Ou seja, em meio a ambiguidade de uma época que mirava o passado para se lançar para um futuro “melhor”, o mito do “bom selvagem” pregava a perfeição dos primórdios da humanidade. Perfeição que teria sido perdida, segundo os ideólogos renascentistas, por uma falha da civilização ocidental.

Por outro lado os selvagens também tinham consciência da perda de um Paraíso primordial. Poderia se dizer que os selvagens não se consideravam diferentes dos ocidentais cristãos na medida que também se sentiam distantes de uma situação anterior fabulosamente feliz. Os mitos do Paraíso diferem sem dúvida de uma cultura para outra, segundo Eliade mas alguns traços comuns reaparecem, em particular uma certa nostalgia das origens.

Para explicar a novidade, o inteiramente Outro do Novo Mundo, os descobridores, os cronistas começaram por assimilá-lo à noções pseudo-científicas ou míticas do próprio passado do Ocidente. O que se vislumbrava no Novo Mundo seria assim aquilo de mais antigo e remoto da consciência histórica da Humanidade: o paraíso terrestre da Gênesis, a Idade de Ouro dos mitos clássicos, as tribos perdidas de Israel, até mesmo a bucólica Arcádia Clássica reelaborada no Renascimento.

O Novo da América era, segundo Fernando Ainsa (1992), o original (relativo às origens) do Velho Mundo: um tempo de harmonia e felicidade, recordado com nostalgia. O Ocidente não descobria uma nova realidade, mas retornava, pelo próprio Ocidente, às suas “origens orientais”. Essa transposição da cosmogonia europeia ao território americano resultou não somente da necessidade de enquadrar a “alteridade” do Novo Mundo, mas também da carga simbólica dos mitos e profecias que haviam acompanhado o olhar do homem ocidental diante da Terra Incógnita.
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O Novo Mundo passa a se tornar o símbolo de toda descoberta, Francis_Bacon inscreve o signo desta nova aventura do ocidente, fazendo gravar sobre a página título de seu Novum Organum, publicado em 1620, uma caravela com as velas ao vento, atravessando as colunas de Hércules, limite tradicional do Velho Mundo. Numa época de antagonismo aberto ao pensamento escolástico, e em particular aristotélico, Bacon afirma a sua intenção de renovar.

No afã de materializar seus sonhos, seus mitos, suas profecias o Ocidente projeta sobre o Novo Mundo, sua visão do Paraíso. O nenhum lugar, a Utopia, tem agora suas coordenadas espaciais e temporais. Em meio a força deste imaginário surgem os primeiros grandes escritos utópicos do século XVI, mas com uma grande diferença, Tomas More e seus êmulos (Francis Bacon, Johannes_Valentinus_Andreae, Campanella, entre outros) insistem na irrealidade e na gratuidade de seus quadros sociais.

A imaginação utópica, no entanto, vem contaminada pela descoberta do Novo Mundo. A representação das cidades ideais tem lugar dentro de uma cartografia que entremeia ficção e ciência, tradição simbólica e viagens históricas. A nova atualidade geográfica pela conquista do Novo Mundo sustenta o décor dos espaços sociais imaginados pelos utopistas do séc. XVI e XVII.

Tomemos como exemplo a Utopia de Tomas More, jurista, magistrado, membro do conselho privado do rei, tesoureiro da Coroa, chanceler da Inglaterra, enfim amigo de Henrique VIII. Por sua desaprovação ao comportamento do rei, More foi demitido e obrigado a prestar juramento contra o sumo pontífice. Por sua recusa foi condenado ao enforcamento e ao esquartejamento, sentença substituída pela clemência de Henrique VIII, pela simples decapitação. Esses detalhes de sua vida, servem para demonstrar sua coragem e determinação, tão bem retratadas em sua obra.

A Utopia foi publicada pela primeira vez em Louvain, em novembro de 1516. Sendo acolhida entusiasticamente pelos humanistas entre os quais Erasmo, que viram nesta obra as influências de Platão e de Santo Agostinho. Com efeito, em 1496 More deu em Oxford uma série de conferências sobre a Cidade de Deus. Em 1499, encontrou Erasmo com quem traduziu os Diálogos de Luciano de Samozate cuja leitura lhe despertou o estilo crítico aplicado em sua Utopia.

Falta ainda um ingrediente, para completar a receita final de sua Utopia. Em 1515, More tem um encontro importante com um navegador quando de sua missão à anvers para negociar a reabertura das transações comerciais entre a Inglaterra e os Países Baixos.

A Utopia é uma ilha. Esta dividida em 54 cidades, como a Inglaterra da época, em 54 condados. Como a Inglaterra também sua capital está atravessada por um rio, e é povoada por marinheiros e comerciantes. O sistema político é uma espécie de monarquia patriarcal, a agricultura ocupa um lugar privilegiado por sua pureza e sua “naturalidade”.

A Utopia não é uma cidade terrestre em busca da cidade de Deus, nem a arca da salvação da humanidade. Ela quer apenas garantir sobre a terra uma vida decente para o homem, condenando o espírito de lucro, a competição e o comércio interior. Propondo a Utopia como tema de reflexão, Thomas More convida os homens responsáveis da sociedade à uma reforma em conformidade com a razão, infundindo um espírito novo. Em sintonia com a República de Platão, a Utopia foi concebida pela visão de um homem de ação do século XVI, preocupado em conciliar as tradições do ocidente com os ensinamentos da filosofia grega com o espírito do século.

Por último, um outro elemento merece ser assinalado na Utopia de Tomas More, o impacto da aventura marítima do ocidente e da descoberta do Novo Mundo. Se os primeiros navegadores pensavam ter encontrado ao final de seus périplos uma humanidade original, recém saída das mãos do Criador e estranha às preocupações da Europa, eles se desencantaram rapidamente. Suas descrições com o passar do tempo caíram no descrédito, embora permanecesse a ideia de estruturas sociais perfeitas.

Durante muito tempo, a descoberta do novo mundo continuará a exercer sua influência sobre o pensamento europeu. Campanella denominará Cidade do Sol, o seu sonho de uma sociedade melhor, Bacon o denominará Nova Atlântida, e Johann Valentin Andreae vai reconhecê-la em seu manifesto Rosa-Cruz.

Entretanto com o reconhecimento dos próprios navegadores de que não haviam alcançado o Paraíso terrestre, já fez dirigir no século XVII o pensamento utópico a imaginar viagens interplanetárias, como a do pároco Godwin em seu livro As aventuras de Domingo Gonzáles, e do pároco Wilkins, O descobrimento de um mundo na lua, ambos publicados em 1698

BIBLIOGRAFIA

AINSA, Fernando (1992), “Gênesis de uma descoberta. Profecias e pressentimentos.”, Correio da Unesco 20 (7).
ELIADE, Mircea (1957), Mythes, rêves et mystères. Paris, Gallimard.
SERVIER, Jean (1967), Histoire de l’utopie. Paris, Gallimard.
WUNENBERGER, Jean-Jacques (1979), L’utopie ou la crise de l’imaginaire. Paris, Jean Pierre Delarge.