Schürmann (Eckhart:Sermão II.2) – o instante

Reiner Schurmann: MESTRE ECKHART OU A ALEGRIA ERRANTE. Tradução de Antonio Carneiro.

Continuando seu comentário do segundo parágrafo do SERMÃO 1 de Mestre Eckhart, Schürmann se questiona sobre o que vem fazer aí uma elaboração sobre o instante. Numerosos são os autores, pagãos e cristãos, que nos legaram confidências sobre um «raptus» instantâneo no qual a alma reintegra, em um bem-aventurado êxtase, a plenitude originária de onde ela vem. Por alguma prática ou iluminação súbita, ela se afasta fora das limitações daqui de baixo e saboreia, tal um prisioneiro evadido do cárcere, às delícias da pátria.

Poderia se crer que em nosso texto trata-se de uma experiência similar: Mestre Eckhart tendo então falado do mundo das ideias de onde viemos, indicaria aqui o caminho do retorno, o tempo de um arrebatamento. Nada disto. Já o dissemos: Eckhart, falando «deste atual agora», entende significar não alguma saída do tempo, mas sua aceitação na igualdade de alma. Ele significa um comércio com as coisas. O que ele diz aqui do instante, oposto à duração, descreve uma maneira de se mover no mundo, não dele se evadir. O desprendimento carrega uma marca de «mundanidade», posto que designa o ser junto às coisas, sem apreensão.

Um texto de Plotino mostrará em contraste em que termos se exprime o místico do arrebatamento.

Em Eckhart, nenhum apelo a uma experiência privilegiada, nenhuma lamentação de uma recaída no interior do corpo, após um repouso no Divino, nenhuma oposição sobretudo entre um mundo superior e um mundo inferior no qual a alma se resigna a descer.

Se em sua compreensão do tempo Eckhart é tributário da mística neoplatônica, a modifica totalmente a significação: de uma compreensão «extática» a uma compreensão «mundana» do instante, a fuga da situação presente se move de maneira a estar junto a ela. A aprendizagem do desprendimento não tem outra finalidade que tornar «livre e solto para a vontade muito amada de Deus e sua realização sem estorvo». E a medida que um homem triunfa do apego, o Cristo é recebido em um espírito virgem.

Reiner Schürmann