Escrituras

TRADIÇÃO — ESCRITURAS

Quanto às Escrituras sagradas, é muito certo que não se pode ver contradição entre elas senão na medida que não se as compreende. René Guénon


O grande Mestre Zen Kuei-shan perguntou ao seu aluno Yang-shan (que viria a se tornar um mestre igualmente grande), — Nos quarenta volumes do Sutra do Nirvana, quantas palavras vêm do Buda e quantas palavras vêm dos demônios?

Respondeu Yang-shan, — Todas elas são palavras dos demônios.

Disse-lhe então Kuei-shan, — Daqui por diante, ninguém mais conseguirá te passar a perna.


A mensagem de Deus aos homens, registrada pela escrita, é uma marca das chamadas “Religiões do Livro” (judaísmo, cristianismo, islamismo). Outras tradições têm suas escrituras de natureza revelada, relatando sua “história sagrada”, seus hinos de louvor, seus rituais, e até mesmo a direção espiritual e moral a ser seguida. No entanto, nas Religiões do Livro o que se denomina “Escrituras Sagradas” tem uma presença inigualável, que dou ênfase no que se reúne a seguir.

No tocante às escrituras ocidentais, como esclarece magistralmente o crítico literário Northrop Frye: “Em regra geral, um livro sagrado é escrito com uma concentração que é, pelo menos, aquela da poesia, de tal sorte que, como a poesia, depende estreitamente de sua língua. Por exemplo, o Corão e os caracteres particulares da língua árabe são de tal modo entrelaçados que na prática o árabe deve penetrar por toda parte onde tenha penetrado a religião islâmica. Os comentários e a erudição judaicas, de tendência talmúdica ou cabalista, sempre se ocuparam, inevitavelmente, dos traços puramente linguísticos do texto hebreu do Antigo Testamento. Ao contrário, enquanto a erudição cristã é evidentemente também consciente da importância da língua, o cristianismo, enquanto religião, foi desde o início tributário de traduções”.


Heinrich Zimmer: Excertos de “Filosofias da Índia” (Ed. Palas Athena)

Os livros sagrados ortodoxos (sastra) da Índia são classificados em quatro categorias: 1. Sruti (“o que é ouvido”), os Veda e certas Upanixades, considerados como revelação direta: 2. Smrti (“o que é recordado”), os ensinamentos dos santos e sábios antigos, e também os livros jurídicos (dharmasûtra), e as obras que tratam das cerimônias domésticas e de sacrifícios menores (grhvasûtra); 3. Purâna (“antigo, saber antigo”), compendiosas antologias, de caráter comparável ao da Bíblia, contendo mitos cosmogônicos, antigas legendas, saber teológico, astronômico e natural; 4. Tantra (“tear, urdidura, sistema, ritual, doutrina”), um corpo de textos comparativamente recentes, tidos como revelados diretamente por Shiva para ser a escritura específica do Kali-yuga, a quarta idade do mundo ou a época presente. Os Tantra são chamados “o quinto Veda” e seus rituais e conceitos suplantaram, de fato, o já então arcaico sistema védico de sacrifícios tornando-se a nova urdidura sustentadora da vida indiana.


Aldous Huxley: Filosofia Perene

Nas Índias são reconhecidas duas classes de escrituras: a Shruti, ou obras inspiradas que possuem sua própria autoridade, uma vez que são o produto de uma percepção imediata da Realidade Última, e a Smriti, baseada sobre a Shruti, de onde deriva sua autoridade. “A Shruti”, nas palavras de Shankara, “depende da percepção direta”. A Smriti desempenha uma parte análoga à indução, uma vez que, como a indução, deriva sua autoridade de outra diferente de si mesma. Este livro é, portanto, uma antologia, com comentários explanatórios de passagens retiradas da Shruti e da Smriti de muitos locais e épocas. Infelizmente, a familiaridade com as escrituras tradicionalmente consideradas sagradas tende a gerar, não decerto um desdém, mas alguma coisa que, para objetivos práticos, é quase igualmente maléfica — ou seja, uma espécie de reverente insensibilidade, um estupor do espírito, uma surdez interna ao significado das palavras sagradas.


Daryush Shayegan: HENRY CORBIN

A expressão corânica de Ahl al-Kitab, literalmente «Gente do Livro», designa uma comunidade religiosa que a princípio possui um Livro santo e pratica constantemente a leitura em vários níveis; uma comunidade cuja existência e a motivação religiosa condicionando seu comportamento, procede deste Livro, porque sua religião é fundada sobre um Livro descido do Céu, um Livro que foi revelado a um profeta missionado por Deus. Assim se alinham ao lados dos muçulmanos, outras comunidades que também possuem um Livro: como os judeus, os cristãos. No Irã os zoroastrianos, em razão de seu Livro sagrado a Avesta, têm igualmente beneficiado deste raro privilégio.

A partir do momento que este Livro santo regra a priori sua maneira de ser no mundo e condiciona seu saber assim como sua visão do mundo, a tarefa primeira que incumbe à «Gente do Livro» é aquela da compreensão. Como compreender, sem se iludir, o fundo de um Livro revelado ao profeta em uma linguagem hermética e codificada?.

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